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“Parecia o Real Madrid.” Rúben tem bem presente na imaginação o que é ser recebido como um herói no desporto. Quer seja com os saltos de Pichardo, a força da Telma Monteiro ou os tempos gloriosos com Lopetegui ou Zidane aos comandos do clube espanhol.

Aos 17 anos, a maioria deles apaixonado pelo futebol e com prática nas ruas do bairro onde nasceu, já testemunhou como os corredores do aeroporto de Lisboa se enchem de gente para receber os que, lá fora, foram conquistar taças e medalhas.

Só nunca pensou que, um dia, o aeroporto se encheria por ele também.

Rúben lembra a receção calorosa, na chegada ao aeroporto de Lisboa, da equipa que venceu a Community Champions League. Foto: Inês Leote

Foi em abril. Oito jovens do bairro da Quinta do Loureiro, no Vale de Alcântara, aterravam em Lisboa vindos de Amesterdão. Ao peito, traziam medalhas. Daquelas que Rúben Neto se habituou a ver nos jogadores do Real Madrid. E “mais de 30 pessoas do bairro” esperavam no aeroporto para as ver.

Semanas depois, no final de julho, o motivo destas medalhas ficaria gravado num muro do bairro onde todos eles nasceram e cresceram.

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O mural foi inaugurado no final de julho, depois da proposta do projeto Bairro Meu, em operação no bairro. Vídeo: DR

É que estes jovens foram campeões europeus sub-15 na Community Champions League. Nada mais, nada menos que uma competição de futebol de rua, organizada a nível europeu, em dez cidades de oito países: além de Portugal, Holanda, Inglaterra, Escócia, Noruega, Hungria, Bélgica e Alemanha.

Em Portugal, com o apoio da Fundação Benfica e da Gebalis, concorrem entre si bairros sociais lisboetas. Esta época (de 2020 a 2022), a equipa finalista a nível nacional iria disputar um jogo em Amesterdão.

Mas nem só com vitórias nos jogos se ganha a batalha, porque cada ação de fair play, de promoção da igualdade (como ter um elemento feminino na equipa) e de solidariedade no seu bairro soma pontos.

E foi precisamente aí que a equipa do Lisboa Futebol Clube, com sede no bairro da Quinta do Loureiro, se fez campeã do torneio coordenado pela European Football for Development Network (EFDN). À escola e aos treinos, estes jovens juntaram aos seus dias o trabalho voluntário no bairro.

A equipa na final da Community Champions League, em Amesterdão. Foto: DR

Jogar bem, fazer o bem

“Aquilo foi um grande ‘show de bola’, lá isso foi”. À mesa, na sede do Lisboa Futebol Clube, Vítor Santos, diretor desportivo do clube, recorda os golos mais bonitos, ao lado de alguns jogadores.

Para Vítor, com 50 dos 54 anos de vida dedicados a este clube – como adepto, morador no velho e desmantelado Casal Ventoso, depois jogador e, agora, na direção – esta vitória foi um marco no clube, como nenhuma outra. “Estou rodeado destas taças todas aqui” – pequenas e graúdas, expostas em várias vitrines – “mas a que nós ganhámos agora é a vitória mais especial de todas”.

Vítor Santos tem 54 anos e 50 deles dedicados ao Lisboa Futebol Clube. Foto: Inês Leote

“Foi sobretudo pelas ações comunitárias que ganhámos pontos”. Os jovens entregaram cabazes de comida a famílias mais carenciadas, ergueram estendais solidários com roupa em segunda mão – era só pegar e levar – e até montaram uma banca de brinquedos para distribuir pelas crianças no Natal. “Estes miúdos foram incansáveis no bairro.”

Ainda mais quando descobriram que, nas casas ao lado das deles, as necessidades das famílias eram tantas. “Isto tornou-me mais humilde”, diz Flávio Rato, 16 anos, o guardador das redes da equipa. Ele que diz não que não tinha consciência do tanto que era preciso fazer pelos vizinhos, até começar a fazê-lo.

Flávio guardou as balizas da equipa campeã. Foto: Inês Leote

O torneio que pode mudar a vida de Miriam

Diz Vítor que há lá fora, pelo bairro, uma parede com mazelas da paixão de Miriam Graça. Tem 14 anos, mas foi ainda mais nova, com apenas um dígito na idade, que sentiu vontade de jogar à bola.

O talento foi reconhecido. “Recusei uma proposta do Sporting há uns anos porque ainda estava fresco o que aconteceu na academia [o ataque a Alcochete].” Como recusou a do Benfica. “Não queria jogar com raparigas e a proposta era sempre essa”, diz. É que Miriam habituou-se às vozes masculinas do bairro, aos amigos com quem cruzava passes, ainda antes de aquele campo ali ir parar.

Chegou a jogar pelo Atlético Clube de Portugal e, em 2021, tornou-se o único elemento feminino da equipa de jovens que se tornaria campeã europeia na Community Champions League pelo Lisboa Futebol Clube, o clube do seu bairro, longe de imaginar que seria este torneio que a levaria a vestir, finalmente, a camisola de um dos maiores clubes a nível nacional.

“Andavam de olho nos passos dela.” Jorge, da direção do clube, conta como Miriam encheu o olho a todos em Amesterdão. “Uma treinadora que jogou muitos anos pela Europa fez questão de lhe ir dizer que ela era muito boa jogadora e que, dentro de dez anos, gostava de a ver num grande clube.” Não demoraria muito até ao início deste trajeto que a treinadora estrangeira sonhou para Miriam: dias depois, estava a receber uma chamada do Benfica para integrar a equipa deles.

Desta vez, Miriam vai sem preconceitos. Começa dia 1 de setembro ao serviço dos encarnados.

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Vídeo: Inês Leote

A medalha já cá canta. E um campo de futebol?

Durante dois anos, estes jovens treinaram para o primeiro lugar da Community Champions League num campo de futebol de bairro, ao ar livre. “Quando fazia mau tempo, não havia hipótese”, não treinavam, lembra Vítor.

O espaço é de todos os que, no bairro, dele queiram usufruir. No dia em que lá estivemos, rolavam bolas, mas também andavam por lá bicicletas e trotinetes.

Há anos que o Lisboa Futebol Clube aguarda por um campo para os seus jogadores. Foto: Inês Leote

Ter um campo é um desejo antigo do Lisboa Futebol Clube, que aluga um pavilhão privado em Campo de Ourique para as equipas séniores. “Também por isso, por não haver um campo, é que muitas equipas vindas connosco do Casal Ventoso morreram em termos desportivos.” Eram seis, ao todo: além do Lisboa Futebol Clube, o Águias Recreativo Clube, o União, o Casalense Futebol Clube, o Unidos e o Clube Desportivo de Santo António.

Para os antigos moradores do Casal Ventoso – com a fama da droga carregada às costas e a viver numa ilha de barracas dentro de Lisboa, desmantelada em 1999 – aquele bairro chegou a ser a cidade do futebol. O domingo era sagrado e todos o sabiam: na terra batida do “campo da lixívia”, equipas rivais defrontavam-se. Do lado de fora das linhas, o bairro inteiro a olhá-los.

E os clubes nasciam quase clandestinos. O Lisboa, por exemplo, tem origem numa barbearia, em 1934. Não nasceu pela vontade de correr com uma bola nos pés, mas pela necessidade de debate. É que, em Portugal, sob o regime do Estado Novo, falar só debaixo de um teto de confiança, muitas vezes os das barbearias. Da rebeldia viria, depois, a vontade de levar o debate para as quatro linhas, para fazer render talentos.

O desporto que explodiu nestes anos foi obrigado a implodir com o desmantelamento do Casal Ventoso e o realojamento dos moradores por diversos bairros. O bairro da Quinta do Loureiro é um deles e aqui ficou com o Lisboa Futebol Clube. Mas sem campo.

“Construíram uma piscina para os moradores. Não era disso que nós precisávamos. Com tantos clubes…”, lamenta Vítor Santos. Até ao final do mandato de Fernando Medina, viveram com a promessa e a esperança de ver nascer, num descampado ao lado do bairro, um pavilhão polidesportivo. “Até chegou a haver um cartaz na Avenida de Ceuta que anunciava a obra. Mas com as mudanças na política de Lisboa, depois das eleições, ficou tudo parado.”

E nem com a mais recente conquista renasceu neles a esperança de ter o que tanto desejavam.

Por enquanto, Flávio vai testando o corpo nas balizas de rede branca caída, Luís vai-se pondo à defesa, Rúben assumindo os penáltis e Martim treinando o ataque. Miriam prepara-se para chutar noutros campos.


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Catarina Reis

Nascida no Porto há 26 anos, foi adotada por Lisboa para estagiar no jornal Público. Um ano depois, entrou na redação do Diário de Notícias, onde aprendeu quase tudo o que sabe hoje sobre este trabalho de trincheira e o país que a levou à batalha. Lá, escreveu sobretudo na área da Educação, na qual encheu o papel e o site de notícias todos os dias. No DN, investigou sobre o antigo Casal Ventoso e valeu-lhe o Prémio Direitos Humanos & Integração da UNESCO, em 2020.

Inês Leote

Nasceu em Lisboa, mas regressou ao Algarve aos seis dias de idade e só se deu à cidade que a apaixona 18 anos depois para estudar. Agora tem 21, gosta de fotografar pessoas e emoções e as ruas são o seu conforto, principalmente as da Lisboa que sempre quis sua. Não vê a fotografia sem a palavra e não se vê sem as duas. Agora, está a fazer um estágio de fotografia na Mensagem de Lisboa.

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