Acho graça às coisas que dizes. “Portugal já resolveu todos os seus problemas para haver um partido que anda a lamentar-se por causa de um certo tipo de carne?” Como vimos na última carta que te mandei – cartas que têm leitores que são olheiros –, Portugal lamenta-se até com isto de eu não gostar de comer cozido à portuguesa à uma da tarde. Nunca pensei, eu, que sou ingénua, que dizer que gosto de sair para comer comida asiática pudesse criar celeuma, muito menos que aos meus pobres ombros ficasse a sobrevivência de tudo o que é tasca portuguesa, mas a Internet virou um passeio de virtudes: quem se indigna mais é o mais virtuoso, é o coração mais sentimental. Diz-se tascas em Moçambique? Até em Maputo, vê lá tu, eu fui a um chinês ao almoço. Depois do que me fizeste passar, não confio em matapa de caranguejo sem caranguejo, e certamente ninguém mais me apanha nos pratos tradicionais da FEIMA. Que tens achado sobre a participação online de Portugal? Noto-a sempre muito diferente dos leitores que trazes daí. Muitos de cá trazem tiros nas pontas dos dedos. Que país aguenta tanta indignação? Uma parte de mim até se fascina com quem se indigna com o almoço alheio; mas a maior parte de mim tem pena.
Concordo com o que dizes sobre o homem do cão. Deve ser bizarro para um moçambicano, que vive num lugar onde tanta gente arranca a vida aos dias, ver que uma parte do Ocidente é isto. Bem me lembro de chegar e de ver aglomerados à volta dos contentores do lixo, ou até de um homem que se vestia com plástico, sob aquele calor tórrido que um europeu não aguenta. Há dias, vi uma entrevista da Carmen Garcia ao Público. Não te sei explicar bem quem é, sei que é enfermeira e escreve online sobre maternidade. E ela questionava isto, este equilíbrio entre animais e humanos, confundidos numa mesma escala de valoração. Escandalizava-se com uma amiga que, no meio de um incêndio, perante um cão e um desconhecido a arder, optaria pelo bicho. E deu um exemplo do que se passou na terra dela: duas campanhas à porta de um supermercado, em que uma angariava dinheiro para animais e outra para idosos. A diferença foi esmagadora: “a velhice não é sexy”, concluiu ela. Acho que nesta defesa acérrima dos animais, do o-meu-cão-vale-mais-do-que-o-desconhecido, há uma espécie de mentalidade de genocida, tal é o desprezo pela vida humana. E não deixo de achar que é tudo hipócrita: é que se, na prática, achassem mesmo que pessoas e bichos são o mesmo, não teriam como não se escandalizar com um supermercado, uma cuvete cheia de retalhos de frangos, um atum metido numa lata com azeite, um espeto a girar com um porco a arder devagarinho à volta. Acaso seria possível alguém ver isto com pessoas e seguir incólume para a fila das batatas fritas? Ou sequer continuar para os douradinhos congelados? Ainda por cima, na ideia de que o cão de alguém vale mais do que o avô de outrém vê-se uma forma de egoísmo que me é difícil explicar: é o MEU cão, que se lixe o TEU marido, o TEU pai, o TEU irmão. Entre o MEU luto do MEU cão, que uma família – A TUA – seja destruída à-vontade. E tudo isto passa pela ideia de se ser arauto de bons sentimentos, de fortes que protegem fracos. Portanto, se alguma vez tiveres dúvidas entre um cão do Chiado e um homem da Julius Nyerere, lembra-te de que só o segundo é igual a ti e às tuas filhas.
Já agora, nunca te contei esta: há uns anos, conheci uma miúda vegetariana que dizia que, para ela, matar um animal ou uma pessoa era o mesmo. “Mas”, acrescentou”, “se vieres lá a casa um dia, não tenho problema nenhum em fazer-te um bife ou o que seja.” Espantei-me. E perguntei: “Então mas se para ti é igual matar um animal ou uma pessoa, eu levar um bife cru para a tua casa seria o mesmo que levar a perna da minha mãe para assar.” Ela sorriu, quase condescendente: “Exacto, seria o mesmo.” Ou seja… Quive… ela cozinharia a perna da minha mãe sem problemas. Se tu algum dia me chegasses a casa com uma coxa de prima para levar ao forno, eu até podia ligá-lo, mas era para te empatar um bocado, e a seguir ia logo ligar para o 112, a polícia, os bombeiros, a junta, uma associação recreativa, alguém, ALGUÉM, QUALQUER PESSOA, POR FAVOR, QUALQUER PESSOA que não me deixasse sozinha contigo, seu psicopata. As pessoas enlouqueceram e o rei vai nu, ninguém diz nada?
Enfim, adiante. Dizes que Lisboa parece viver entre a memória e a pressa. Estive no fim-de-semana passado em Vizela e na Maia, e realmente a pressa de Lisboa fica a retinir quando se está fora. Aproveitei que lá estava para dar ao Pedro a cena da internet, e já não me lembro de qual dos dois ficou com o teu livro da Shahd Wadi que deixaste no meu carro. Ali, tudo parece lento e calmo, tudo é perto, os dias são mais longos. Acho que só me apercebo disto quando saio: as coisas estão mais limpas, até os lugares pequenos têm mais espaço, não é preciso planear uma ida aqui e ali como quem vai de viagem.
Já agora, lixaste-me à grande com os Estúdios Victor Cordón. Fui lá ter com o Rui e a Mariana e atrasei-me um bocado. Quive, eu detesto atrasar-me, acho que é coisa de diva. E detesto mais ainda a minha ingenuidade crua: tu, há uns meses, a dizer-me “Ah, é por aqui”; eu a acreditar no que dizias. E depois Quive e GPS não batiam certo, e eu de mota andava meio às turras, e meti-me às voltas porque tu me disseste que os estúdios ficavam na zona da baixa. Confiar num moçambicano que não conhece a cidade? Acabei eu aos ziguezagues. Quem sai a ganhar com esta interacção és sempre tu, que eu, pelo menos, levo-te a sítios maningue giros em Maputo, desde a Vila Algarve à Colômbia. Era Colômbia o lugar onde as pessoas se riam de nós e tu dizias que deviam achar que eu estava lá para turismo sexual? Foi inaugural na minha vida, nunca tal coisa me passaria pela cabeça.
Tens avós na presbiteriana, pais católicos, sobrinha muçulmana, cunhada testemunha de Jeová? Meu Deus. Eu cresci entre católicos, meteram-me nove anos na catequese. Aprendi muito sobre a vida, mas só porque a religião faz parte da vida. Ou seja, aprendi coisas que os outros sabem, que são importantes para eles, coisas em que acreditam porque lhes disseram que tinham de acreditar. Na prática, não levei dali nada de útil, e ainda hoje penso em como seria se me tivessem antes metido no piano ou no karaté, uma hora por semana, e depois missa. O meu Palavra do Senhor só existe por causa dessa tradição católica. Sem ela, o tema não me seria nada. Mas aquilo incomodava-me em quase tudo. Há uma ideia de bonomia associada ao Cristianismo, mas seria coisa para enfiar em dez minutos. Depois, há uma ideia de submissão que me causa logo comichão: o lavar os pés aos inimigos, a cabeça baixinha. E depois há tudo o que é dogma e que não admite perguntas. E tu bem sabes que eu gosto de perguntar porquê. A catequese era para mim esse embate entre ter de se ouvir e não se ter acesso à honestidade intelectual. Nenhum dos meus porquês alguma vez teve resposta. Quase nunca havia, e os mistérios da fé resolviam qualquer puzzle. Ainda hoje não entendo como é que alguém gosta da ideia de fazer parte de um rebanho, quando todos sabemos o que é que significa ser carneiro. Quantos anos é que andaste nessa vida, quantos te torturou o padre João? Aqui, ainda nos confessávamos na Páscoa, e acho que no Natal. Mas que pecados tinha eu com 7 ou 8 anos? Eu achava que pecar era não comer o arroz todo e chamar nomes ao Pedro. Depois, via a minha avó a ir confessar-se também. Aquilo deixava-me doida. Que pecados tinha ela, se comia sempre o arroz todo e se nunca chamava nada ao Pedro? Além disso, como é que eu podia ser culpada – e levar com penitência – por chamar marreta a um marreta? Tu conheceste-o, bem sabes como ele é. Claro que aproveitava o momento e também lhe apontava o dedo: “Chamei marreta ao meu primo, mas isso foi porque ele fez assim-assim.” Metade do queixume era sobre ele. Depois, rezava pelos dois, que remédio.
Um horror, essa história da Malika. Ainda me lembro de aí estar, estávamos nós os dois a sair da Fundação, e de a minha mãe me ligar a pedir-me o número de utente do David. Eu já preocupadíssima: uma cabeça partida, vómito atrás de vómito, uma orelha estourada, um braço arrancado do corpo? “Foi picado por uma abelha”, disse ela, e levou-o às urgências. Tu partiste-te a rir. E depois descreves a vida aí: ratos a correr nos corredores no hospital e uma criança com um rato morto na garganta. Como não haverias de achar que os europeus são uns exagerados, ou até que perdem tempo em insultos que não interessam para nada?
E agora o lobolo: muito confuso. É a aliança entre os antepassados da suas famílias, muito bem. Mas nada assinado, ou seja, não há provas? O governo moçambicano sabe que és lobolado? Não me venhas dizer que a Francine é que é, que eu sou europeia, esquerdalha e progressista; se um é, o outro também tem de ser. Na prática, qual é a diferença entre fazer o lobolo (diz-se assim?) e não fazer? À parte a mudança de residência legal dos tais cabritos, das vacas, das galinhas. De resto, acho um desperdício fazer oferendas aos antepassados. Já estão mortos, Quive, tratem antes dos vivos. Depois não andes por aí a perguntar em livros onde é que eles se meteram… Se bem que eu depois da história das mulheres loboladas dentro de um caixão, já acredito em tudo. Aqui temos o até que a morte nos separa; aí é um unamo-nos apesar de estares morta, meu amor? Macabro. Continuo céptica, europeia, burocrática: se não há papéis, se ninguém assina, só devia contar para literatura. O que, aqui entre nós, já não será coisa pouca.
Quanto ao atrofiamento dos órgãos genitais, só posso dizer que espero que te safes. Não deve ser mais agradável do que mutilação genital feminina. E lembro-me de me dizeres, quando aí estive da primeira vez, que aí era comum fazer-se circuncisão. Não me lembro se te perguntei se também fizeste. Agora que penso nisso, não sei sequer se é socialmente aceitável fazer uma pergunta dessas. Aqui não costuma ser bem visto perguntar sobre se se é assim ou assado, mas aqui também não se põe facas dentro da roupa interior. Mas dás-me razão, certo? Aí, cada notícia dá um conto, até um romance. Deixa-me abrir o Expresso: recordes de calor, papa a actualizar a doutrina social da igreja, pacote laboral. Vou escrever um romance sobre bancos de horas, inconstitucionalidade de normas? Não tem muita mais vida pensar num tipo aleatório a atrofiar genitais alheios? Bem me lembro do café em que isso foi assunto: eu a perguntar como é que o tal tipo o fazia, ou porque é que alguém achava que ele andava a reduzir tamanhos de boxers aos outros. E o Mia: “Tinha poderes.” Eu, que li o Harry Potter todo, não sabia que essa hipótese estava em cima da mesa. Há muita coisa que eu não sei. Mas ali ficou bem claro que havia dois africanos e uma europeia que só saiu daqui de vez em quando. Bem, mas tu também achas que há espíritos na água, por isso se calhar até acreditas que há vários Harry Potters maléficos lá para Cabo Delgado. Vais comprar um cinto de castidade? Se houver nalgum lado aí, talvez na Guerra Popular?

Ana Bárbara Pedrosa
Veio para Lisboa estudar Literatura em 2012. Daqui só saiu para o Brasil, onde, à portuguesa, teve saudades dia e noite. Regressada, escreveu Lisboa, chão sagrado e a cidade foi a diva onde se perderam personagens. Anos depois, numa casa em Benfica, foi ao Médio Oriente e escreveu Palavra do Senhor. No mesmo sítio, meteu a cabeça em Vizela e escreveu Amor estragado. Para os de cá, tem sotaque minhoto; para os de lá, engravatado.

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