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Com o termómetro a aproximar-se dos 40 graus, quem espera pelo autocarro no terminal da Pontinha não se atreve a ficar ao sol. Enquanto houver espaço na paragem, é para lá que os passageiros vão. É a sombra que se consegue. A fuga ao sol é o primeiro ímpeto na tórrida terça-feira de julho.

No terminal da Pontinha, junto à estação da metro, há várias carreiras como o 231, da Rodoviária de Lisboa, que só parte de meia em meia hora. Para muitas das pessoas que esperam pelo regresso a casa, ficar 30 minutos à espera pode ser bastante desagradável sem a ajuda de boa infraestrutura. No inverno, a chuva e o frio rivalizam com as temperaturas abrasadoras da atual onda de calor e o conforto dos abrigos é mesmo uma das principais queixas de quem aguarda a chegada do autocarro.

À saída do edifício do metropolitano, numa pequena banca montada pela EMEL, oferece-se um café e um pastel de nata a quem deixa uma ideia para melhorar o terminal rodoviário da Pontinha.

A iniciativa acontece no âmbito do projeto RESTART, que tem como objetivo ouvir utilizadores de transporte público, operadores e outras entidades para apresentar, até ao final do ano, três cenários de investimento para cinco terminais rodoviários da cidade: Pontinha, Colégio Militar, Campo Grande, Sete Rios e Oriente. No final do projeto, caberá à CML decidir se quer avançar com as obras e com qual dos planos de investimento avançará.

Uma sombra, uma casa de banho e um bebedouro – falta o mais básico

Isabel Carvalho mora em Casal de Cambra, freguesia do concelho de Sintra, e o terminal rodoviário da Pontinha faz parte da sua rotina diária. À espera do 231, coloca no topo das prioridades a melhoria das paragens e das suas coberturas. “Quando é inverno, ficamos todos molhados aqui. Temos de nos encostar aqui de pé e há pessoas que nem arranjam lugar, ficam com o chapéu de fora”, conta-nos.

À direita, Isabel Carvalho espera pelo 231 da Rodoviária de Lisboa, rumo a Casal de Cambra. Foto: Inês Leote

São as necessidades mais básicas aquelas que os passageiros elencam assim que a Mensagem os aborda. “O que é que melhorava aqui, no terminal?”. Catarina Carvalho, que diariamente sai de Casal de Cambra para trabalhar na limpeza de um supermercado, em Arroios, pede um bebedouro e uma casa de banho – desejo que é repetido por muitos outros passageiros.

A questão que levantamos provoca agitação na paragem. A uma mulher, que pede mais árvores, responde de imediato um homem que reitera o pedido: “Sim, as árvores fazem falta, aqui não há nada”. Entre a saída do edifício do metropolitano e as paragens de autocarro não há árvores no espaço pedonal.

O terminal rodoviário da Pontinha sofreu obras de requalificação, em 2017, no âmbito das obras que para ali devem trazer a Feira Popular e foram criados dois pequenos espaços verdes, inacessíveis ao peão. Se não há árvores pelo caminho, não há também sombra artificial – as paragens, de tamanho reduzido para a procura que por vezes se regista, são a única alternativa.

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Vídeo: Inês Leote

A saída do metropolitano debita passageiros para a árida praça da estação. As multidões, que se apressam a sair do edifício sempre que chega uma composição do metro, percorrem, por ali, as dezenas de metros que as separam da paragem do autocarro que vão ter de apanhar.

Estação Oriente. “Isto aqui é só beleza”

Numa das maiores ilhas de calor urbano da cidade, a estação do Oriente não recebe os passageiros rodoviários muito melhor do que a Pontinha. Com 25 cais de embarque destinados a autocarros de longo curso e 25 outros dedicados aos percursos suburbanos, todos os dias chegam aqui centenas de pessoas que não conhecem a estação. Há casas de banho debaixo de terra, acessíveis pelas escadas que se encontram nas plataformas, mas há poucas indicações e quem não conhece o terminal, como a namorada de Paul, que ali encontrámos, vindo do Reino Unido para um festival de música, passa por dificuldades na hora de encontrar as instalações sanitárias.

Perante os termómetros, que na tarde desta quarta-feira marcavam 40 graus, Helena Garcia, que todos os dias utiliza o terminal do Oriente para apanhar o autocarro que a leva à Bobadela, lembra a chuva do inverno e a falta de conforto da estação desenhada por Santiago Calatrava para a Expo 98. Tal como se ouviu na Pontinha: “Isto aqui é só beleza. Quando vem a chuva, não tapa nada, ficamos aqui todos molhados”. E espera de pé, “sempre de pé”, conta. Os poucos bancos das plataformas não chegam para a grande maioria das pessoas que aguardam a chegada dos autocarros. Juntam-se por ordem, em filas que se estendem, e ali permanecem durante o tempo que o autocarro demorar a chegar.

Ao contrário daquilo que acontece no terminal da Pontinha, na Gare do Oriente há casas de banho junto ao terminal rodoviário, ainda que o acesso às mesmas esteja mal identificado ao nível das plataformas. Foto: Inês Leote

Por entre autocarros em manobras, é perigoso circular entre as plataformas. A alternativa são as escadas e os elevadores, que dão acesso às passagens superior, onde estão bilheteiras encerradas, e inferior. Com cinco plataformas rodoviárias e 50 cais de embarque, o terminal rodoviário de Oriente, que é um dos maiores de Lisboa, verá a sua capacidade reduzida.

As obras para a chegada da alta velocidade, que permitirão maiores frequências na Linha de Cascais, vão obrigar ao encolher do terminal rodoviário da estação e à redução do número de plataformas, facto que poderá vir a complicar ainda mais a operação dos vários operadores que aqui operam – como a Carris, a Rodoviária de Lisboa e os operadores de longo curso, como a Rede Expressos ou a Flixbus.

“Ir além das necessidades básicas”

Na hora de planear melhorias aos terminais rodoviários da cidade, há que “consultar todos – pessoas com mobilidade reduzida, mulheres, adolescentes”, sublinha Mário Alves, engenheiro civil e especialista em transportes e mobilidade. A EMEL, no âmbito do RESTART, reuniu operadores de transportes e entidades como a Transportes Metropolitanos de Lisboa (TML), encontrando-se agora a terminar a fase de auscultação pública do projeto, procurando ouvir quem utiliza os terminais, à procura de ideias para dar forma ao futuro destes espaços da cidade.

Mário Alves afirma a importância de “trabalhar com os utilizadores”, de modo a “saber exatamente o que é que eles gostariam de ter”. No caso dos adolescentes, imagina que uma ideia podia até ser “ter um DJ às sextas-feiras”. Mas, lembra, o processo de reimaginação dos terminais não pode acontecer sem esquecer que os passageiros, “podem não ter imaginação e não sabem o que se faz de bom noutros sítios”. Isso pode dever-se ao facto de em estações como a Pontinha não estarem, sequer, garantidas as necessidades básicas de quem espera pelo próximo autocarro – a sombra, um bebedouro, uma casa de banho. “Acho que estamos ainda numa dessas fases. Não podemos esquecer que temos de almejar um bocadinho mais”, diz o especialista em mobilidade. “Ter casas de banho limpas, abertas, bebedouros – isso já nem deveria ser a nossa ambição”.

Para além de cafés, “seria importante ter uma creche ou uma loja do cidadão”, diz Mário Alves, que volta ainda à importância de assegurar outras necessidades básicas nos terminais, como são a acessibilidade universal, ou a iluminação das estações e plataformas, “por causa da segurança das pessoas que se sentem mais vulneráveis”.

Ao contrário daquilo que acontece no recém requalificado terminal rodoviário da Pontinha, a transferência do metropolitano para o autocarro “deve ser bastante confortável e abrigada da chuva”, sublinha, dando o “bom exemplo” da estação do Cais do Sodré, em que a transferência entre o metropolitano e os comboios da Linha de Cascais para os barcos que fazem a travessia do Tejo se faz sob a proteção de um telhado.

Mário Alves entende que devem começar a considerar-se “os espaços à volta do terminal não apenas como os 20 ou 30 metros à volta da porta e [devem] começar a estudar-se os 300 ou 500 metros” em redor. Nesta forma de pensar a envolvente, o foco deve estar em “fazer com que o acesso aos terminais seja caminhável – uma boa rede pedonal e ciclável para chegar ao terminal”.

O especialista critica alguns parques dissuasores instalados junto de estações e terminais, vistos muitas vezes como “panaceia” por “leigos e políticos”, já que “podem ser um mar de automóveis à volta” e “estão muitas vezes a incentivar o uso do automóvel para viagens curtas, de cinco minutos” entre casa e a estação, quando se devia, no seu entender, “densificar” em redor das estações. “O que é importante nos terminais é densificar com equipamentos [e] habitação”. Quando existem, os parques dissuasores “devem estar incluídos na arquitetura densificada em torno do terminal”, dando como exemplo o estacionamento subterrâneo. “Atravessar o parque de estacionamento para chegar à estação não convida. É, talvez, o erro principal”, diz, apontando para o que acontece na estação do metropolitano do Senhor Roubado (em baixo).

Privilegiando, no planeamento urbano, os acessos pedonais e cicláveis aos terminais – recorde-se que tanto a estação de Oriente como a Pontinha são servidas por ciclovias – Mário Alves refere ainda a importância da existência de estacionamento seguro para bicicletas. “É extremamente importante que haja cacifos para que se possam fechar e estejam seguras, que estejam em sítios visíveis e não estejam escondidas, fora do olhar. Acaba por ser um encorajamento para as pessoas pensarem que é uma boa ideia trazer a bicicleta”.

Anunciado em 2020, com um orçamento de mais de 860 mil euros, provenientes do fundo Connecting Europe Facility (CEF) da União Europeia, o projeto RESTART é coordenado pela Câmara Municipal de Lisboa (CML) e a sua implementação é responsabilidade da EMEL.

* Este trabalho faz parte de um série de reportagens a serem desenvolvidas no âmbito do Projeto Restart em conjunto – e com o apoio – da EMEL. Os artigos que saem na Mensagem não têm qualquer controlo editorial da EMEL – e o objetivo é esclarecer os leitores num tema que diz muito à cidade.

Se tem ideias sobre como poderiam ser utilizados estes terminais, pode enviar as suas sugestões através dos sites umaideia.pt ou emel.pt/pt/.

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3 Comentários

  1. São questões muito importantes a ser abordadas, mas não à nada como perguntar directamente aos utilizadores destes transportes o que falta nestes locais e o que é essencial para sua proteção.
    O que se poderá melhorar nestes locais, por forma a dar alguma comodidade a estas pessoas.

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