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Á…á…ú…ú…água fresquinha! Assim apregoava o aguadeiro por ruas e vielas, de barril ao ombro e boné de pala, Lisboa acima. Graça, Alfama, Bairro Alto, Mouraria… numa cidade de chafarizes que despertou tarde para o conforto da água canalizada.

Nas primeiras décadas do século XX eram quase sempre galegos estes homens que, de Pontevedra ou Vigo, vinham para Lisboa em busca de melhor vida. Deitavam mão ao que podiam, de corda ao ombro para melhor carregar mercadorias, dispostos a esforços que a burguesia lisboeta não queria fazer, mas, no verão, a canícula tornava a venda da água o mais rentável dos negócios.

Para evitar disputas e até cenas de pugilato, cujos relatos remontam à Idade Média, a Câmara de Lisboa e autarquias limítrofes dividiam as bicas dos chafarizes por categorias de utentes, prática devidamente assinalada com letreiros: Aguadeiros, utilizadores domésticos (com várias sub-secções, sujeitos a ordem hierárquica) e alimárias, como ainda se pode encontrar em alguns dos mais antigos exemplares existentes em várias zonas da cidade.

Mas também havia os criados de casa, alguns deles crianças, que passavam o verão a caminho da bica mais próxima – eles de barrica ao ombro, elas de cântaro à cabeça, como, no tempo de Camões, “descalça vai para a fonte Leonor pela verdura…”

Os problemas do abastecimento de água aos lisboetas, sendo a cidade pródiga em longas secas e verões tórridos, são questão antiga, mas tão antiga, que há quem diga ter sido decisiva para a derrota dos mouros cercados pelas tropas de D. Afonso Henriques, no ano de 1147. E assim continuou séculos afora, mesmo no auge das Descobertas, quando Lisboa era porto de chegada e partida de “muitas e desvairadas gentes”, no dizer quase sempre mal interpretado do cronista-mor do reino, Fernão Lopes. 

Os aguadeiros, a maioria galegos, tinham no verão a época alta do seu negócio de venda de água. Chafariz de Dentro, em Alfama. Fotos: Arquivo Municipal de Lisboa

Mas se as gentes eram desvairadas no sentido medieval do termo, por virem dos mais diversos lugares da Terra que portugueses e espanhóis iam revelando à Cristandade, rapidamente perdiam também o tino à custa da secura que lhes ia na garganta.

Um desses sedentos, o arquitecto e pintor Francisco de Holanda, apelará à boa vontade do Rei na obra Da Fábrica que Falece à Cidade de Lisboa, onde escreve: “Em Lisboa onde todos bebem água não tem mais que um estreito chafariz para tanta gente e outro para os cavalos.” Só que o Rei era Dom Sebastião, que, como se sabe, tinha uma atração fatal pelo deserto…

O Chafariz D’El Rei, em Alfama, data do século XIII e será o mais antigo chafariz público de Lisboa. Foto: Arquivo Municipal de Lisboa

O chafariz em questão, ainda hoje existente, era o Chafariz D’El Rei, em Alfama, e a míngua era tal que justificava zaragatas, brigas de sangue e até assassinatos. A desordem era tal que o Senado de Lisboa interveio, regularizando o acesso a cada uma das seis bicas, distribuindo-o pelos vários grupos que dali acarretavam água: a primeira para os negros forros (livres) ou escravos; a segunda para os homens das embarcações que em Lisboa faziam aguada; a terceira e a quarta para os brancos, criados de servir ou para o serviço das suas casas, a quinta para mulheres negras, escravas ou forras e na última, mulheres brancas, criadas ou donas de casas suas.

Uma situação que só melhorará no reinado de Dom João V, com a construção do Aqueduto das Águas Livres e de uma rede de chafarizes abastecidos pela sua mãe de água, de que ainda restam vários como o do Intendente (hoje na Rua da Palma), o de Sete Rios, na Estrada de Benfica bem perto do Jardim Zoológico, ou o do Arco do Carvalhão.

Mas água canalizada em casas particulares será comodidade só acessível no final do século XIX e, como de costume nestas coisas, só aos mais ricos. A primeira proposta para a constituição de uma companhia das águas só surge no final dos anos 1840. Resultado de tanto salamaleque burocrático: só por volta de 1880 é que serão ordenados os primeiros estudos no Alviela. Mas a expansão da rede será de tal maneira lenta que, na década de 1940, ainda vemos alguns habitantes de O Pátio das Cantigas, o popular filme de Ribeirinho, irem à fonte, de cântaro à ilharga. Só o endinheirado Evaristo parecia dispor de tal “luxo” ao domicílio.

Chafariz de Arroios. Com a democratização da rede pública de água, a profissão de aguadeiro caiu em desuso. Foto: Arquivo Municipal de Lisboa

A vagarosa, mas irreversível, democratização da rede pública de água levou os tradicionais aguadeiros a diversificarem o negócio. Imagine-se que o cidadão, na sua lufa-lufa diária, é acometido de brusca sede longe de uma torneira, muito antes das garrafas de plástico surgirem no mercado? Valia-lhe o vendedor que apregoava “Capilé… copo com água! Copo de água um tostão!… O capilé uma coroa…”

Este profissional reconvertido continuava a palmilhar o centro da cidade, mas transportava agora uma mesinha portátil, garrafas e bilha de barro cozido e dois ou três copos de vidro, até porque a ASAE ainda não tinha sido inventada. Um pouco mais tarde, já em pleno império dos plásticos, surgiriam no mercado uns copinhos portáteis e dobráveis que o cidadão mais prudente trazia consigo para se abastecer com maior higiene junto do aguadeiro ou dum chafariz perto de si.

Chafariz da Esperança, na Estrela. Foto: Arquivo Municipal de Lisboa

A venda ambulante do capilé representava, no entanto, uma diversificação da oferta, associada a um refinamento do gosto. Muito popular até aos anos de 1970, tratava-se dum refresco doce, da família dos xaropes que misturava folhas de avenca com água de flor de laranjeira e que já aparece descrito no livro O Cozinheiro Moderno, em 1780. Hoje pode ser encontrado em vários supermercados, em garrafas de litro, tal como outros xaropes populares nesta época do ano como a groselha.

No imaginário das bebidas estivais de Lisboa, muito antes da entrada em cena da Coca-Cola já depois do 25 de Abril, ficaria ainda o chamado “Pirolito”. Era uma bebida gasosa, que continha água, ácido cítrico e gás carbónico, mais recordada pela particular configuração da garrafa do que pelo sabor. Sem rolha ou cápsula, tinha no interior uma esfera de vidro que servia de tampa (empurrava-se a esfera de vidro para baixo, de modo ao gás sair e permitir a saída do líquido) e que, para alegria da miudagem, se transformava num berlinde depois de partidas as garrafas.

Na década de 1950, as políticas de Saúde Pública modernas seriam, no entanto, fatais à sobrevivência do Pirolito uma vez que estas garrafas eram, pela sua configuração, de difícil lavagem. Obrigadas à reconversão, muitas fábricas do popular refrigerante (existiam dezenas por todo o continente e ilhas) foram obrigadas a fechar e o simpático e refrescante Pirolito ficou a viver apenas nas memórias de uma geração.


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Maria João Martins

Nasceu em Vila Franca de Xira há 53 anos mas cresceu na Baixa de Lisboa, entre lojas históricas e pregões tradicionais. A meio da licenciatura em História, foi trabalhar para um vespertino chamado Diário de Lisboa e tomou o gosto à escrita sobre a cidade, que nunca mais largou seja em jornais, livros ou programas de rádio.

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