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Conduzir é quase como uma dança teatral: para, arranca, mete o pisca, engata a mudança. Foi essa mesma dança que o ator, dramaturgo e encenador Joaquim Paulo Nogueira descobriu aos 55 anos, quando finalmente se atreveu a tirar a carta. “Descobri que adorava conduzir”, conta. É essa descoberta que está na base do Lx Drive Story, um espetáculo que é também uma viagem de carro pelas ruas de Lisboa.

Estreia hoje, dia 15 de julho, e fica em cena até domingo, dia 17. São quatro histórias de amor que atravessam a cidade, começando no Oceanic Lounge da Mercedes-Benz nas docas de Santo Amaro.

A viagem segue por Alcântara, passando pela Basílica da Estrela, Parque Eduardo VII, Graça, Cais do Sodré, regressando finalmente ao ponto de partida.

Dar vida a quatro histórias

A lotação é limitada: há seis lugares no carro cedido pela C. Santos para cada espetáculo. Apertam-se os cintos e o carro arranca. O primeiro dos condutores é Roberto, interpretado pelo próprio Joaquim Paulo Nogueira.

Roberto é um homem desconsolado pela partida da sua mulher Alice, e que procura continuar recorrendo a um antídoto: a música de Maria Bethânia que toca na rádio.

Roberto, e todas as outras personagens, nasceram ainda num mundo pré-pandemia, quando Joaquim Paulo, que adora fazer lives no carro para as redes sociais, se apercebeu que o carro podia ser um dispositivo teatral.

Cada sessão terá até seis espectadores que sobem aos seus lugares num palco não convencional. Foto: Inês Leote

Essa ideia foi logo partilhada com os seus amigos e companheiros de teatro Carla Madeira e F. Pedro Oliveira. Os três começaram por pensar em desenhar um espetáculo que contava os dois lados de uma mesma história de amor: o lado A e o lado B. Nessa altura, a ideia conseguiu até um apoio à criação.

Mas o processo de improvisações trocou-lhes as voltas. De repente, começaram a surgir quatro curiosas personagens, com histórias que valiam a pena ser contadas. Dessa primeira abordagem, nasceu Roberto, esse homem um pouco perdido, fruto dos imaginários “da morte, da perda, do ficar sozinho”.

E surgiu também a taxista Alice, interpretada por Carla Madeira, a única personagem homossexual no espetáculo. Com o tempo, Alice foi ganhando uma particularidade: é uma mulher com várias personalidades.

“Fascinou-me a ideia daquela mulher não ter uma identidade muito clara, e neste momento a personagem está tripartida e poderá estar muito mais, fica aberta a história”, diz a atriz.

Entretanto, Violeta viu também a luz do dia ao ser concebida pela atriz Cláudia Negrão, que teve de abandonar o projeto. Inês Lucas agarrou-a mais tarde e tornou-a nesta estranha mulher que se revê na voz de Adília Lopes, uma poetisa que Joaquim Paulo Nogueira admira e que quis trazer para o espetáculo por representar um “feminino diferente”.

Um feminino diferente que Inês abraçou sem medos: “Foi interessante esse processo de descobrir uma personagem que se inspira constantemente noutra, mas que não deixa de ser ela própria”.

Por fim, F. Pedro Oliveira surpreendeu os colegas com uma improvisação que hoje todos recordam: “Há alguns anos que habita dentro de mim esta personagem pela qual tenho muito carinho”, diz o ator. Era esse cómico pastor, com sotaque da Beira Interior, que recorda a sua falecida amada, a Abília.

Abílio veio para Lisboa por causa da tropa e por isso conhece bem a cidade, mas as suas habilidades para a condução deixam bastante a desejar: ao longo do percurso, este simpático pastor será responsável por uns quantos solavancos.

Ser conduzido por Lisboa

Desde 2020 até agora que estas personagens têm vindo a ser afinadas: foram escritos textos e definida uma dramaturgia e a equipa contou também com a ajuda de um realizador de cinema, Hugo Magro, que filmou as improvisações e permitiu assim que se guardasse todo o material.

Hoje, estas personagens são condutoras pela cidade de Lisboa. É que, embora este espetáculo possa ser adaptado para qualquer cidade (e a equipa planeia fazê-lo), Lisboa ganha também caráter de personagem ao longo dos percursos que foram escolhidos com base nas improvisações.

É por isso que surgem ligações inevitáveis entre a cidade e cada uma delas: a taxista Alice passa pelo Hot Club, que faz parte da sua história, o pastor Abílio lembra-se bem de quando levou pela primeira vez a sua Abília à Torre de Belém. Todas as personagens acabam por olhar lá para fora, para uma Lisboa iluminada, e por recordar o amor que têm à cidade.

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Vídeo: Inês Leote e Ana da Cunha

“Sinto que a minha personagem tem uma ligação muito pessoal com essa Lisboa, partilha essa sensação de ser de cá, é uma ligação muito natural e constante com o romantismo da cidade”, conta Inês Lucas.

É essa sensação que vai acompanhando os espectadores ao longo da viagem: a de que estão a ver Lisboa e a senti-la na perspetiva de cada um dos condutores. Mas é também diferente a ligação que cada uma das personagens estabelece com o público.

“A Alice é taxista e por isso fala diretamente com o público, o Abílio também, a minha personagem e a da Inês estão mais num espaço imaginário”, explica Joaquim Paulo.

É por isso natural que surja no espectador a vontade de interagir com as personagens, e estão todos convidados a fazê-lo. “Acho que este tipo de projeto é sempre vulnerável ao que se encontra no público”, diz Inês Lucas. “Tanto se pode ter espectadores mais participativos, como se pode ter pessoas muito caladinhas”.

O carro é um dispositivo teatral que permite o erro, a interação e o improviso ao longo do espetáculo. Foto: Inês Leote

O teatro, afinal, vive disso mesmo: da interação, do erro, do improviso. E é isso mesmo que acontece nos percursos por uma Lisboa noturna, carregada de folia mas também de trânsito. Os atores aproveitam não só a beleza da cidade, mas também os pequenos acasos.

Peões que atravessam nos vermelhos, carros que cometem infrações e até mesmo desvios inesperados: tudo pode ser usado neste espetáculo não convencional.

“Sempre que faço espetáculos, tento arranjar maneira de quebrar o palco”, conta Joaquim Paulo Nogueira. O carro rompe com a tradição e torna a experiência teatral numa verdadeira viagem, por Lisboa e pelas histórias de amor que vivem nas suas ruas.


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Ana da Cunha

Nasceu no Porto, há 25 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.

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