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Em 1979, a caminho de um curso de Verão na Universidade de Perugia, passei uns dias em Roma – a babar-me diante de uma das cidades mais esplendorosas do mundo – que, nesse tempo, já tinha muitos turistas, mas era, felizmente, bastante mais transitável do que hoje.

A primeira coisa que me disseram na recepção do hotel, quando quis saber como chegar ao Vaticano, foi que apanhasse o 64… mas que tivesse cuidado, pois era o autocarro dos turistas.

Aqui na pátria talvez não haja razões para avisos tão claros; mas, se as há, acredito que os perigos recaiam no eléctrico 28, que – numa capital a fervilhar de estrangeiros – liga o Martim Moniz ao Cemitério dos Prazeres, exibindo ao longo do trajecto um apreciável número de ex-libris que torna a viagem praticamente obrigatória.

Eu própria fi-la vezes sem conta, numa Lisboa ainda relativamente sossegada, entre Campo d’Ourique e o Largo de Camões, para ir a um consultório na Rua do Alecrim, nos anos que se seguiram ao incêndio do Chiado, quando havia obras e andaimes por todo o lado e alguns prédios permaneciam esventrados, restando-lhes apenas as fachadas pombalinas equilibradas por traves de ferro; mas os «amarelos da Carris» – como lhes chamou Ary dos Santos num fado que se tornou popular na voz de Carlos do Carmo – sempre me evocam recordações.

A primeira, sem dúvida, tem que ver com a história que a minha avó contava de, na sua juventude, usando as raparigas saias compridas, os rapazes estenderem um espelhinho para as bainhas quando elas subiam para o eléctrico, na esperança de vislumbrarem um tornozelo alvo ou a rósea barriga de uma perna…

Mas coro de vergonha quando me lembro de ter sido apanhada com dinheiro a menos para o bilhete de eléctrico (ao tempo, quinze tostões), e o preço da viagem ter aumentado na véspera para dois escudos… Vá lá, o revisor teve pena dos meus dez anos inocentes e acabou por me deixar seguir até ao Arco do Cego, mas eu é que nunca mais me esqueci do raspanete…

Também cheguei a publicar um álbum ilustrado sobre os eléctricos de Lisboa, de Cristina Ferreira Gomes e Neni Glock, hoje esgotadíssimo; mas a mais incrível lembrança que guardo ligada aos eléctricos está associada à minha experiência como professora no início dos anos oitenta quando, pouco depois de ter acabado o curso, fui colocada numa Escola Preparatória dos arredores de Lisboa a dar aulas de Português.

Como costumava suceder aos docentes mais novos, tocou-me vigiar os exames e fazer as orais aos alunos do ensino particular; e, como estes geralmente estudavam por manuais diferentes daqueles por onde eu ensinava, tomei a decisão de os deixar escolher o texto sobre o qual incidiriam as minhas perguntas.

Ora, o meu primeiro examinando optou por um texto intitulado “O Obséquio”, que era uma daquelas pastilhas moralistas sobre um menino que ia visitar a mãe ao hospital, mas não tinha dinheiro que chegasse para viagem de eléctrico; e – ao contrário do que me acontecera na vida real – naquela ficção o revisor obrigava o pobrezinho a abandonar o carro a meio do percurso, sendo imediatamente repreendido pelos passageiros indignados, que se juntavam para pagar o bilhete à criança.

O título prendia-se com a pergunta que o menino fazia ao cobrador, que era qualquer coisa deste género: “Faz-me o obséquio de me dizer quanto custa um bilhete para o Hospital de Santa Maria?”

E foi, aliás, por esse título, depois de o rapaz ter lido o texto em voz alta, que comecei o exame, interrogando-o sobre o significado daquela palavra esquisita, “obséquio”; mas ele, sem pensar um segundo que fosse, respondeu-me categoricamente que obséquio queria dizer eléctrico.

Estranhei o dislate, sobretudo porque fora ele a escolher o texto; porém, pensando que podia ser tudo do nervosismo da situação, insisti:

– Pensa lá bem. Se eu deixar cair este lápis ao chão e te pedir “Fazes-me o obséquio de apanhar o meu lápis?”, o que é que tu achas que significa “obséquio”?

Olhou-me com uma expressão totalmente opaca, que poucas vezes tinha visto até então, e respondeu apenas:

– Se não é o eléctrico, é o cobrador.

Mudei de assunto, embora isso não tivesse livrado o fedelho do chumbo (na altura ainda se chumbava quando não se sabia); mas a cena fez tristemente rir algumas pessoas na sala, bem como outras a quem depois a contei a história e que quase não acreditavam que pudesse ser verdade; foi um episódio tão marcante que, durante muitos anos, quando entre amigos nos referíamos a algum trajecto da capital que não sabíamos por que transporte era servido, havia sempre alguém que, com humor, indagava:

– E sabes se há algum obséquio que vá para lá?


Maria do Rosário Pedreira

Nasceu em Lisboa e nunca pensou viver noutra cidade. É editora, tendo-se especializado na descoberta de novos autores portugueses. Escreve poesia, ficção, crónica e literatura infanto-juvenil, estando traduzida em várias línguas. Tem um blogue sobre livros e edição e é letrista de fado.

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