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O vento forte agita a cesta no topo da grua estacionada na esquina entre a rua António Patrício e a avenida de Roma e André Mano vê-se obrigado a parar a pintura do imenso mural na empena do prédio. A diva da canção portuguesa, Simone de Oliveira, recém retirada dos palcos, ficará aqui eternizada, com o seu rosto à altura de um prédio em Alvalade.

Um rosto que para André Mano é bastante familiar. Simone é a sua avó e foi ele que desenhou o cartaz do concerto da despedida da cantora dos palcos, em 29 de março. O mesmo desenho que adornava o apartamento onde arquiteto e grafitter português André Mano vivia, no Luxemburgo. Um retrato em várias paredes com a força de atenuar a distância entre os dois.

“Tinha saudades da minha melhor amiga.”

André Mano

“Tinha saudades da minha melhor amiga”, diz André Mano, na pausa para o café. O Chesterfield Blue entre os dedos, um gesto aparentemente banal, mas que reforça os laços entre os dois, a cantora de 84 anos e o arquiteto de 32, entre a avó e o neto.

O desenho pintado no apartamento do artista André Mano no Luxemburgo serviu de base para o cartaz do concerto de despedida da cantora Simone de Oliveira.

Foi esse rosto que levou a Junta de Freguesia de Alvalade a convidar André Mano para o registar no paredão de 15 metros de altura por 10 metros de largura – parte do projeto Galeria dos Inesquecíveis.

A união entre o grafitti, a arquitetura e o hip hop

O vento dá uma trégua e André Mano regressa à grua para os útlimos contornos das inúmeras janelas do skyline de prédios que emolduram o rosto de Simone de Oliveira, com o indefetível cigarro entre os dedos.

O desenho marca um dos traços da obra do grafitter, uma arte urbana onde a fluidez da música faz dueto com a rigidez do betão.

O mural de Simone de Oliveira foi pintado através de duas técnicas: com tinta de rolo para cobrir a superfície e, em seguida, o trabalho mais detalhado, equilibrando-se na cesta no alto da grua, que consumiu cerca de 300 latas de tinta em spray. Foto: Líbia Florentino

“No fundo, é a conjugação da minha paixão pelo hip hop, o grafitti e a arquitetura”, explica André Mano, que costuma inserir entre os edifícios, como numa mensagem cifrada, as letras dos versos dos seus cantores preferidos.

Uma poesia concreta estampada em paredes de Lisboa e de outras cidades por onde passou e que podem ser vistas no perfil do artista no Instagram, em @mano.jmk.

O novo mural de Alvalade também guarda as suas mensagens. Do lado esquerdo do rosto da cantora, pode ser lido de cima para baixo o nome dela, “Simone” e, do lado direito, a frase “Sim, sou eu”.  

A leitura, porém, não é fácil, mas, encarada como um enigma por decifrar, torna ainda mais interessante a contemplação da pintura.

Mais fáceis são as mensagens escritas de forma direta, impressas nos cartazes e outdoors nos prédios pintados na parede. Nelas podem ser lidas “Mulher”, “Filha”, “Mãe”, uma lembrança ao companheiro da cantora, o ator Varela Silva, e também aos grandes sucessos da cantora, Desfolhada e Sol de Inverno.

O mural foi pintado através de duas técnicas. A primeira camada com tinta de rolo para cobrir a superfície. Em seguida, o trabalho mais detalhado, equilibrando-se na cesta no alto da grua, que consumiu cerca de 300 latas de tinta em spray. Ao todo, a pintura levou uma semana a ser feita, sem pausas para o feriado da Páscoa.

Foi o primeiro a solo de André Mano. “Antes tinha trabalhado como assistente num mural ainda maior, no bairro de Padre Cruz, em Carnide”, lembra. O desafio não o atemorizou, nem pelo tamanho da homenagem nem pelo tamanho do muro a ser pintado.

“No fundo, é a conjugação da minha paixão pelo hip hop, o grafitti e a arquitetura.”

André Mano
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André Mano a trabalhar no mural de Simone de Oliveira, em Alvalade.

“Cheguei a ter medo de alturas, mas a cura definitiva veio após umas férias entre Botswana, Zimbabué e Zâmbia, onde tive a oportunidade de fazer bungee jumping de uma ponte com mais de 150 metros de altura”, diverte-se o grafitter. O tratamento radical preparou-o para horas acima e abaixo numa grua.

Obra acompanhada de perto pelos vizinhos

Segundo André Mano, Simone de Oliveira sabe da existência do mural, embora ainda não o tenha visto pessoalmente. “Ela viu apenas o desenho original que serviu de inspiração para o trabalho e gostou bastante. Mas pretendo trazê-la para lho apresentar pessoalmente, antes da inauguração oficial”, diz o neto que, assim como a avó, também viveu no bairro.

Quem já viu o mural e o foi comentando e avaliando foram os moradores dos prédios na esquina entre as duas vias de Alvalade – a articulação foi feita pela Junta de Freguesia de Alvalade, que só deu sinal verde à pintura após a aprovação dos condóminos.

O passo a passo foi acompanhado de perto, principalmente através da página no Facebook dos Vizinhos de Alvalade e, obviamente, sujeito ao natural escrutínio das caixas de comentários.

Apesar das inevitáveis críticas – se não, não seria a internet – a sensação geral é de que o trabalho acabou por se aprovado, inclusive pela dedicação do artista, que não parou nem durante o tríduo pascal.

“Simone viu apenas o desenho original que serviu de inspiração para o trabalho e gostou bastante.”

André Mano

Uma das integrantes do grupo virtual, porém, interrompeu a pausa para o café do artista – e a entrevista – para dar sugestões em viva voce sobre o trabalho, em plena esplanada na avenida de Roma.

Serenamente, André Mano viu-a sentar-se à mesa sem ser convidada e discorrer sobre os tons de cinza da pintura, num só fôlego.

Ainda com Chesterfield a pender entre os dedos, o artista agradeceu a intervenção extemporânea, mas deixando claro que o desenho será exatamente o mesmo que lá estava, certo de que as opiniões fazem parte do trabalho, porém seguro de que poucos têm a autoridade de retratar os contornos do rosto de Simone de Oliveira como ele.


Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 49 anos, há seis em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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5 Comentários

  1. Vi hoje o mural, e está bem bonito, estando curiosa com o desenrolar dos outros projetos.
    É mais um trabalho, que vai fazer companhia a outros trabalhos dispersos pela freguesia de Alvalade – aliás, a junta de freguesia de Alvalade, tem um roteiro de arte urbana na freguesia.
    Está certo que este tipo de arte não agrada a todos, mas entre ter paredes com uma garatuja ou com com mensagens politicas/manifestações, prefiro ver um mural com uma mensagem/homenagem feito de uma forma legal (autorizada).

  2. Pode ser que agora a Simone de Oliveira pare de se queixar que não a valorizam. Durante muitos anos refilou como uma injustiçada.

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