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Vivem sempre na berma. Na berma de um condomínio privado, na berma de uma cidade que se ergue de infraestruturas, comércio, turismo e na berma de uma vida com melhores condições. Pelo menos, é assim que muitos moradores dos bairros sociais de Lisboa se sentem há anos, esquecidos e tantas vezes encarados como periféricos – na geografia e em tudo o resto. Mas, nos últimos anos, quando decidiram levantar a voz perante a cidade, começaram a ganhar o que outros bairros já tinham, como o direito a espaços verdes.

A história repete-se, ao longo das últimas décadas, nos bairros sociais lisboetas. Há semanas, contámos a do bairro da Horta Nova, onde os moradores esperaram nove anos para, à socapa, se apropriarem do terreno baldio que ali havia e construirem hortas. Só no ano passado é que a autarquia reconheceu oficialmente os talhões que mataram a fome ao bairro social de Carnide.

Agora, contamos a história de dois bairros onde a vontade de ter uma horta ou jardim levou a uma luta contra os interesses imobiliários na cidade. Os moradores contra a força de betão. Uma revolução que começa neles, os cidadãos, e que já deu frutos.

Bairro de agricultores

“Quem nasce na aldeia, nasce debaixo da terra.” José Frias, 70 anos, faz-se valer do lema para contar a vida que levou até chegar ao bairro Padre Cruz, em Carnide. Chegado da Beira Alta com dez anos e sem saber sequer a dimensão do país, atracou nesta cidade que lhe parecia o mundo. Já cá moravam os avós, os pais vieram para trabalhar.

Junto ao bairro Padre Cruz, em Carnide, nasceu um parque hortícola. Foto: Rita Ansone

Antes de vir aqui parar, morou em Telheiras. Só depois de casado se mudou para o bairro de Carnide, onde voltou a pôr as mãos na terra, como na vida que levava antes de se ter tornado lisboeta.

“Tinha o bichinho” da agricultura e “o bichinho continua a vir com a gente”, diz quem não cresceu de outra forma. “Quando os meus pais iam para o campo, levavam-me sempre. Não havia lá creches, jardins de infância, nada. Tinha de acompanhar.” Por isso é que, há 31 anos, já homem casado, mudar-se para o bairro Padre Cruz foi como chegar a casa outra vez.

Junto a uma azinhaga, num grande terreno baldio, viu terra cavada pelos vizinhos, animais de quinta a passear, cebola a nascer. Ali, entre os altos prédios que se erguiam. Um pedaço de Beira Alta, aqui, na capital. Apoderou-se de uma parte deste pedaço também – sete mil metros quadrados. Arregaçou as mangas e só parou quando, em 2006, uma carta no correio assim o exigiu.

José Frias veio da Beira Alta para Lisboa e trouxe a agricultura para a cidade. Foto: Rita Ansone

“Foi na altura em que se decidiu que o espaço da Feira Popular ia para ali”, conta o presidente da Junta de Freguesia de Carnide. Fábio Sousa recorda-se de ver entrar moradores porta dentro. Traziam revolta e dúvidas. A 28 de setembro de 2016, todos os moradores do bairro Padre Cruz e bairros vizinhos que ali ocupavam terreno com uma horta foram notificados pelo Departamento de Património da Câmara Municipal de Lisboa. Foi-lhes exigida a desocupação do espaço e a retirada de todos os bens. As máquinas já se preparavam para entrar.

“Num terreno que já tinha hortas, que já era um espaço conquistado pelas pessoas”, recorda. Uns utilizavam-no por lazer, pelo prazer de cultivar. Outros por uma questão cultural. “Viviam aqui pessoas que vieram de várias terras do país. Era para aqui que estes operários normalmente vinham, para a periferia, como era considerada, e traziam o hábito do cultivo”.

E outros por necessidade, sobrevivência. O hortelão José Frias lembra uma família de 14, a viver “com uma reforma de 350 euros” e para quem a horta era o ganha-pão. “A horta dava jeito. Ficar sem ela fez mossa.”

Cópia da notificação recebida pelos hortelões

Alguns moradores não entenderam imediatamente o que lhes era pedido na notificação e recorreram à Junta de Freguesia de Carnide. “Garantimos às pessoas que faríamos tudo para as ajudar. Sentimos que aquilo era tudo o que elas tinham na sua vida. Era como se estivessem a tirar-lhes a casa. Passavam ali muitas horas, era um espaço de encontro”, conta o presidente Fábio Sousa.

Garantiu e cumpriu. No dia em que as máquinas se puseram em posição para avançar com a destruição das hortas, cerca de dois meses após a notificação, ele, o presidente, e os hortelões uniram-se num cordão para as travar.

Diz Fábio Sousa que o contacto com a CML aconteceu sempre durante todo o processo, “mas o vereador Sá Fernandes dizia que só depois de eliminar os terrenos ia desenvolver um projeto de hortas”. “As pessoas queriam garantias, não queriam esperar para ver o que acontecia. Alertámos que a criação de um espaço hortícola não exigia grandes trabalhos ou investimento.”

As máquinas pararam durante dias e, numa reunião de Câmara outros dias depois, chegou até eles a garantia de que o espaço para as hortas ia ser feito.

Ali, do outro lado da estrada, onde já outros tinham começado a fazer hortas também.

Cerca de 90 talhões fazem este parque hortícola. Foto: Rita Ansone

José Frias passou de sete mil metros quadrados de terreno para 100. Mas não se queixa, “assim dá para todos” e “está mais organizado”. Alguns abandonaram mesmo, porque a criação deste parque hortícola prevê o pagamento anual de cerca de 85 euros por cada arrendatário.

Uma história que Jorge Silva viveu do lado político, como membro da Assembleia de Freguesia, e não como hortelão – mesmo sendo morador do bairro Padre Cruz. Também ele veio de outras bandas para aqui. É da zona do Baixo Mondego e, com a família, saltou de quartos em quartos em Lisboa, até chegarem ao bairro onde hoje mora. O pai trazia a vontade de cavar terra e, num terreno onde é agora um cemitério, tentava também ensinar tudo o que sabia ao filho. “Era mais por necessidade”, para ele e mais uns tantos, conta.

Jorge Silva, membro da Assembleia de Freguesia, viu nascer o projeto da vida destes hortelões. Foto: Rita Ansone

Mas Jorge sempre participou contrariado neste ofício. Até a necessidade lhe ter batido à porta também. Não a da fome, mas a de ver desaparecer o lixo e os dejetos de animais de um terreno abandonado ao lado de sua casa. Decidiu vedar o espaço e fazer ali um pequeno quintal. “Fui à Gebalis entregar uma chave e disse-lhes para levarem o que quisessem do quintal. Eles disseram que eu fiz bem”, ri da situação.

Quando o novo parque hortícola começou a ser construído, a prioridade na reserva dos talhões foi para aqueles que já lá estavam, os que vinham com hortas do outro lado da rua e os moradores do bairro Padre Cruz. Cerca de 90 talhões. Mas sobraram. A mulher e um vizinho acabariam por convencer Jorge a ocupar um deles e dar uma nova oportunidade a esta arte. Afinal, já trazia a experiência do terreno abandonado e sujo que transformou num quintal.

Aceitou, mas com a condição de não se tornar agricultor. Gosta de dizer que é “um hortelão especial”. Quer isto dizer: “Eu compro as plantas, mas trabalho o mínimo. Ajudo, mas ele e a minha mulher é que tratam”. Ou não teria verdura tão frondosa como esta que nasce no seu talhão, confessa.

José aperta uma pequena flor amarela que teima em fugir-lhe com o vento e chega perto para mostrar e ensinar. “Sabe o que é isto? Betadine”. Sorri, de orelha à orelha. Vê-se que está em casa.

Também esta é um pouco a casa do atual presidente da Junta de Freguesia de Carnide, Fábio Sousa. Foi no bairro de José que cresceu, depois de a família ter sido realojada ali, vinda do bairro de Campolide. Chegou ao bairro Padre Cruz com sete anos e só sairia com 28.

Sabe-lhe a história toda. Tem na ponta da língua como este sempre foi um bairro de conquistas e de conquistadores. “O bairro nasceu há 50/60 anos, para pessoas que vinham trabalhar para a cidade, vindas de diferentes regiões de Portugal e do mundo. Houve umas primeiras habitações que eram barracas, alguma precariedade habitacional”, conta. Mas se há coisa que este bairro sempre foi é “verde”.

Será assim enquanto José Frias aqui pousar a enxada. “Só quando não puder aguentar os sapatos é que deixo isto.”

No bairro que era dos “anjos da noite”, espera-se um jardim

Cristina Santos tem 55 anos e vem da antiga Curraleira, “o bairro do pé descalço”, como gosta de lhe chamar. Uma pequena aldeia dentro da cidade, onde se andava na rua como dentro de casa. Depois de desmantelado, Cristina não quis ficar pelos bairros de realojamento ali perto. “Não pelas pessoas, eu adoro aquelas pessoas.” Era pelas más memórias.

Junto ao bairro dos Alfinetes, um terreno baldio espera ver nascer um parque para a cidade. Foto: Rita Ansone

A vida tem sido madrasta: aos 16 anos, foi posta fora de casa, viveu uma relação abusiva e, quando voltou a procurar abrigo na casa da mãe, que ali guardava droga, teve ela de responder na justiça.

“A minha reinserção social fui eu”, diz. Ela e um bairro como o dos Alfinetes, em Marvila, onde acabou por vir morar em 2001. Num bairro todo de betão, a meia hora a pé do único pulmão verde próximo, o parque da Bela Vista. Foi ao torná-lo mais verde que Cristina encontrou o lugar num bairro onde, durante anos, não passeava além da praceta do prédio.

Cristina Santos foi uma das grandes impulsionadoras deste sonho dos moradores. Foto: Rita Ansone

Quando chegou, a paisagem estava longe de ser a que é hoje. “Ainda não tinha sido feita a limpeza das obras nos prédios”, construídos para realojar pessoas vindas de bairros de barracas extintos na cidade. “Então, eu e mais umas vizinhas da frente começámos a fazer essas limpezas: as escadas, as garagens. E, depois, a praceta. Começámos a limpar os canteiros, que já só tinham azevinho selvagem plantado. E trouxe plantas. Passava por uma florista, comprava para aqui. Sempre que estava menos bem disposta, vingava-me na enxada”, ri.

Um pequeno e melhorado jardim que durava apenas enquanto havia sol ao alto. De vez em quando, lembra, “lá vinha um grupo de miúdos”, à noite, para cima dos canteiros. “Destruíam tudo o que se fazia durante o dia.” Uma vizinha de Cristina chama-lhes “anjos da noite”. “’Lá vem os anjos da noite’, dizia ela.”

Foi assim até que Cristina decidiu mudar o fado das plantas destes canteiros. Sem saber que seria apenas o início de uma carreira de ativista e que, pouco depois, estaria na linha da frente da conquista de um novo parque para a cidade.

Cristina chamava-os, aos “anjos da noite”, sempre que os via por ali. “Costumavam perguntar-me o que eu estava a fazer, curiosos. Então, comecei a incentivá-los a ajudar: a acartar baldes de areia, pedras, que púnhamos à volta das flores para enfeitar; a fazer vasos de pneus com desenhos. E deixaram de estragar. Já não eram ‘os anjos da noite’. Porque aquilo passou a ser deles também.”

Estas crianças são hoje pessoas adultas, pais de outras crianças que agora brincam junto aos canteiros que eles ajudaram a reconstruir. Na frente destes prédios da zona de Chelas, não falta espaço para brincadeira. Um terreno com mais de sete hectares, que combina estrada com zonas de relva, onde jazem detritos, lixo e até hortas clandestinas. “É normal ver-se crianças por aqui, a andar de bicicleta, a correr”, mas isso não descansa os pais, que reclamam a falta de segurança numa zona de passagem de carros.

O terreno é grande, mas está ao abandono e é pouco seguro.

Foi assim que nasceu o sonho que começou por se chamar “Transformar Marvila com Jardim e Ciclovias” e que, depois, ganhou oficialmente um projeto: o Parque Urbano do Marquês de Abrantes.

Luís Reis recorda-se bem do começo da história. “Entrámos nela porque já estamos neste território desde 1983 e estamos no grupo comunitário 4Crescente, que foi o ponto de encontro, onde os moradores são o parceiro número um”, conta o técnico de intervenção comunitária da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

“A existência de um jardim diferente, em que eles participam de forma ativa, além de elevar os níveis de autoestima e coesão, vai permitir um maior espírito de pertença.”

LUÍS REIS, TÉCNICO DA CML

Exatamente no seio deste grupo comunitário, moradores e entidades envolvidas no bairro começaram a discutir a transformação que desejavam ver naquele terreno de mais de sete hectares que ladeia o bairro. Ali, entre a Rua António Gedeão, Rua Alberto José Pessoa, Rua Dinah Silveira de Queiróz e a linha ferroviária, junto à Biblioteca de Marvila e do apeadeiro.

Seguiram-se inquéritos à população e chegaram a acordo: sonharam com um parque, um espaço verde bem tratado, com espaço de convívio, zona para as crianças brincarem livremente e em segurança, além de uma ciclovia.

“A existência de um jardim diferente, em que eles participam de forma ativa, além de elevar os níveis de autoestima e coesão, vai permitir um maior espírito de pertença. Vai criar um motivo de orgulho”, diz o técnico Luís Reis. Atualmente, “há um bocadinho de tudo: os que se encontram na sua praceta, no parque de fitness ou na biblioteca”. O jardim poderá servir de “facilitador”.

E não só deste bairro. “As pessoas vão a Belém para ir a um jardim. Por que não virem as pessoas de Belém aqui? É um jardim para a cidade. É o que torna este projeto interessante.”

Em 2018, acontece a primeira candidatura ao Orçamento Participativo com este sonho. E chega o primeiro veredito também: candidatura recusada, “porque o terreno já estava destinado ao empreendimento de casas de Renda Acessível”, conta Cristina Santos.

Perceberam todos, desde aí, que a luta seria maior do que o esperado, perante as ambições de betão que a autarquia tinha planeado para Marvila.

Nem por isso deixaram de lutar, com Cristina sempre na linha da frente. Em 2019, deu a cara numa assembleia descentralizada da Câmara Municipal de Lisboa. Depois, uma visita de Fernando Medina, o autarca ainda em funções na altura, que logo ali ficou convencido: o parque era para avançar.

Com o esforço do grupo comunitário 4Crescente, a associação Rés-do-Chão, a Gebalis e a Câmara Municipal, foi lançado concurso público e já há projeto. Na planta, está previsto, numa primeira fase, um jardim, com três desníveis: uma parte encostada à linha, onde se prevê que aconteça a duplicação da linha, uma parte destinada à possibilidade de TGV e outra parte permanente com uma série de equipamentos de convívio, para adultos e crianças. E ainda uma ciclovia.

Vai chamar-se Parque Urbano do Marquês de Abrantes, mas o projeto ainda não ganhou forma além do papel, desde a promessa da autarquia em avançar. “Não temos nenhuma outra informação de valor. O gabinete da SRU diz que está em análise”, diz Luís Reis, da SCML.

Segundo o gabinete de Carlos Moedas, presidente da CML, questionado pela Mensagem, o processo “acabou por sofrer algum atraso por causa da necessidade de incluir já as opções finais também das infraestruturas como a plataforma ferroviária”, mas “o objetivo é que toda esta fase esteja concluída no mês de agosto”.

A CML diz esperar ver o projeto do Parque Urbano do Marquês de Abrantes concluído durante o mês de agosto deste ano. Foto: Rita Ansone

A paisagem pode ficar ainda mais verde, mas também mais movimentada – um outro sonho antigo dos moradores do bairro dos Alfinetes, que sentem viver isolados do resto da cidade. Como lembra Luís Reis, “estes ainda são territórios considerados muito periféricos e que estão marginalizados”.


Catarina Reis

Nascida no Porto há 26 anos, foi adotada por Lisboa para estagiar no jornal Público. Um ano depois, entrou na redação do Diário de Notícias, onde aprendeu quase tudo o que sabe hoje sobre este trabalho de trincheira e o país que a levou à batalha. Lá, escreveu sobretudo na área da Educação, na qual encheu o papel e o site de notícias todos os dias. No DN, investigou sobre o antigo Casal Ventoso e valeu-lhe o Prémio Direitos Humanos & Integração da UNESCO, em 2020.

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2 Comentários

  1. Estive a ler o vosso artigo “Hortas ou jardins. Como os bairros sociais de Lisboa estão a lutar pelo direito a um espaço verde”, que é muito interessante. Nele refere-se o concurso para a empreitada de construção do parque urbano da Quinta Marquês de Abrantes, no bairro dos Alfinetes. Estive a analisá-lo e verifiquei que não aproveitam esta excelente oportunidade para requalificar a Quinta das Flores (espaço urbano de lazer contíguo, lindíssimo e ao abandono), nem o parque urbano do Vale Fundão (espaço de lazer contíguo a estes, maravilhoso, que necessita há anos de reflorestação em alguns espaços e de intervenção de requalificação geral). Se tal fosse feito de forma integrada, teríamos o interior da freguesia ligada através destes espaços, diretamente ao rio (o tal corredor verde de ligação ao rio que não avança).
    Seria importante pensar não na construção do parque urbano da Quinta do Marquês de forma isolada, mas de uma forma integrada, numa estratégia de (re)ligação do interior da freguesia ao rio em jeito de corredor verde.

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