Periquitos de Lisboa. A história dos nossos adoráveis, ruidosos e coloridos "invasores"
A inclusão das aves na lista de espécies invasoras pode proteger os periquitos do comércio e permitir o monitoramento constante. Foto: Camila Rodrigues/Arquivo Pessoal

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Ainda não tínhamos chocado punhos, como pede a nova etiqueta, e já o homem à minha frente levantava o indicador no gesto clássico de evocar o silêncio: “Estás a ouvir?”. Disse que sim com a cabeça mais para não o contrariar, enquanto tentava discernir na algaravia do Jardim da Estrela, por entre os alaridos dos pássaros, dos miúdos, dos elétricos e do buzinanço dos condutores de TVDE em protesto, de que som se tratava. “Estão lá, os periquitos”, insistiu Hany Alonso, apontando para a copa de uma das árvores.

Em seguida, empunhou a câmara presa ao pescoço e disparou, uma, duas, três vezes. “Um macho e uma fêmea”, identificou, após um zoom na fotografia no pequeno ecrã luminoso, onde as aves surgiam por entre as folhas. “Estão a comer.”

O ornitólogo Hany Alonso em ação no Jardim da Estrela: máquina fotográfica sempre à mão para registar a vida dos pássaros. Foto: Rita Ansone

Não percebi, confesso, mas deviam realmente estar, pois observar, ouvir e identificar resume a rotina de um ornitólogo, um profissional aparentemente mais difícil de se encontrar ao caminhar pela cidade do que os periquitos, a comunidade colorida e ruidosa que, em menos de 15 anos, viu saltar a sua presença no país de 270 para cerca de 2500 aves, 85 por cento dessa população concentrada em Lisboa.

Em menos de 15 anos, o número de aves saltou de 270 para cerca de 2500, 85 por cento dessa população concentrada em Lisboa.

Aves exóticas que, ao contrário de outros imigrantes que escolheram Lisboa para viver, não vieram por livre e espontânea vontade, mas capturadas e trazidas de regiões de África e da Ásia para suprir o lucrativo negócio de animais de cmpanhia. Um comércio legal, permitido pelo Estado português, mas que pode estar com os seus dias contados se as autoridades decidirem classificar os simpáticos periquitos como uma espécie invasora.

Crescimento desordenado pode ser uma ameaça

Os periquitos fazem os ninhos em buracos nas árvores, assim como as corujas, mochos e os morcegos. Foto: Hany Alonso/Arquivo Pessoal

Pode parecer um exagero, mas não é. “Os periquitos fazem os ninhos em buracos, como fazem os mochos, as corujas e os morcegos, e são capazes de expulsar esses animais dos sítios. Assim, o crescimento desordenado dos periquitos pode provocar o desequilíbrio em outras espécies nativas”, explica o ornitólogo, nascido em 1982 em Madrid, filho de um cubano e uma angolana, e desde os dois anos a viver em Portugal.

Hany sublinha que a inclusão de uma ave numa lista de espécie invasoras não é uma forma de discriminar a espécie, mas de protegê-la. “É preciso sublinhar que estes animais não migraram naturalmente para cá, como acontece com outras aves que percorrem longas distâncias para fugir do inverno. Vieram parar aqui por ação do homem, em importações legais e também em contrabando.”

“O estatuto de espécie invasora permite a monitorização constante da ave e ajudar-nos a perceber como está a adaptação ao novo habitat.”

Hany Alonso

“As aves que vemos aqui e em outros sítios de Lisboa fugiram de um cativeiro ou foram soltas pelos donos. De alguma forma, conseguiram adaptar-se bem ao ambiente urbano e vivem em populações selvagens, alimentando-se de pequenos frutos e reproduzindo-se”, explica. Sem os predadores naturais de origem – répteis que atacam os ninhos ou certas aves de rapina – podem multiplicar-se de forma desordenada.

O ornitólogo diz ainda que não há números oficiais recentes deste comércio, mas um dado fornecido pela Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies Silvestres Ameaçadas de Extinção (CITES), aponta que, entre 1986 e 2005, cerca de 60 mil periquitos entraram legal e ilegalmente em Portugal. Mais especificamente a espécie atualmente dominante no país, o periquito-de-colar (ou rabo de junco).

“O estatuto de espécie invasora permite a monitorização constante da ave e ajudar-nos a perceber como está a adaptação ao novo habitat“, explica Hany.

Trabalho colaborativo na contagem das aves

A conversa decorre numa das mesas de um quiosque no Jardim da Estrela, onde um pequeno pássaro pousa quase que fransciscanamente próximo do ombro do ornitólogo. “Sabes que ave é esta, não sabes?”, desafia Hany, que não esconde a desilusão diante da minha negação. “Um pardal”, revela. “Um macho. Tem a coroa cinzenta e o queixo preto”, completa.

Hany realizou o censo da SPEA na companhia de outros ornitólogos profissionais e amadores durante o inverno. Foto: Rita Ansone

Observar, ouvir e identificar. Foi isso que Hany e outros ornitólogos profissionais e voluntários fizeram entre novembro e janeiro, durante o censo que a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) realizou com os periquitos em todo o país. Foi justamente o resultado desse esforço que estimou o crescimento da espécie em Portugal em quase dez vezes nos últimos 15 anos.

O censo identificou três grandes dormitórios em Lisboa: em Benfica, no Areeiro e o maior deles, no Campo Grande.

Contar os pássaros é uma verdadeira arte, pois a contagem não é feita ave a ave, mas por estimativa de animais a viverem em cada um dos “dormitórios”. Isso explica porque o censo foi realizado no inverno. “No verão, eles estão mais dispersos”, diz. Para chegar até os dormitórios, a SPEA exortou os seguidores das suas redes sociais a informarem onde costumavam avistar os periquitos pela cidade.

O trabalho colaborativo identificou três grandes dormitórios em Lisboa: em Benfica, no Areeiro e o maior deles, no Campo Grande. Ou seja, o facto dos periquitos serem praticamente omnipresentes em Lisboa não quer dizer que durmam em qualquer parte, mas que, assim como os lisboetas, precisam de percorrer a cidade para garantir o alimento antes de voltar para o ninho.

“São espécies frugíferas e em determinadas épocas do ano, como no inverno, precisam voar mais longe para encontrar comida”, explica.

Mas… o que faz um ornitólogo?

Graduado em Biologia pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Hany especializou-se em “ecologia terrestre” antes de se dedicar exclusivamente aos pássaros. Passou os primeiros anos após a licenciatura a observar aves marinhas em ilhas isoladas, como a Selvagem Grande, entre as Canárias e a Madeira, que em 2017 contava com apenas cinco habitantes, duas pessoas por quilómetro quadrado.

O periquito fotografado pelo ornitólogo Hany ainda antes de a entrevista começar: observar, ouvir e identificar. Foto: Rita Ansone

Apesar da aparente predisposição para o isolamento e a predileção pela companhia dos pássaros, os ornitólogos também constituem famílias. No caso do entrevistado, uma família de ornitólogos, já que partilha a profissão com a mulher. Hany garante que o matrimónio com uma companheira da “mesma espécie” foi coincidência, mas confessa que as pessoas ainda não estão familiarizadas com a rotina da profissão.

Questiono se quando ele diz ser ornitólogo alguém pergunta se é contagioso. Hany sorri. “É quase isso. Há até quem saiba o que é um ornitólogo, mas a grande maioria não faz ideia do que fazemos no dia a dia”, diz.

E o que um faz um ornitólogo no dia a dia?

“Em resumo, colabora com o conhecimento e a conservação das aves, através de pesquisas, projetos e medidas em relação às espécies, principalmente àquelas em declínio ou em perigo de extinção”, explica.

Contar os pássaros é uma verdadeira arte, pois a contagem não é feita ave a ave, mas por estimativa de animais a viverem em cada um dos “dormitórios”.

Uma das saídas profissionais de um ornitólogo em Portugal é justamente onde Hany trabalha, a SPEA, uma organização não governamental conceituada no país e no exterior, com estatuto para sugerir ao Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) a inclusão de espécies nas listas de invasoras.

O último diploma com o nome dos animais e plantas classificados como tal foi promulgado em 2019, mas as atualizações podem acontecer sempre que sejam justificáveis. A sociedade ainda não bateu o martelo sobre a decisão, o que deve ocorrer só após a tabulação das pesquisas sobre os hábitos da espécie, mas há indícios para ponderar a indicação de inclusão na lista de espécies invasoras em relação aos periquitos.

“Em Espanha e em outros países da Europa, já são considerados invasores”, revela. De imediato, a alteração tornaria proibida a importação da espécie para Portugal, o que poderia travar o perigo de um aumento desenfreado das populações.

O que comem os periquitos

Outro pardal aproxima-se do entrevistado – um macho, pude identificar, após a lição expressa sobre coroas cinzentas e papos pretos – e saltita sobre a mesa do quiosque no Jardim da Estrela. “Estão habituados a virem atrás de comida”, explica Hany, sobre a descontração com que o pássaro se aproxima. Uma intimidade em risco. “Ainda não sabemos a causa, mas o número de pardais está a diminuir em Lisboa.”

Os periquitos vêm sendo observados em relação aos seus hábitos alimentares. Foto: Camila Rodrigues/Arquivo Pessoal

A resposta a este e outros mistérios pode estar justamente na busca por comida.

Para além de provocar uma crise habitacional nos ninhos de mochos, corujas e morcegos portugueses, os periquitos podem ser uma ameaça na disputa por alimento. A escassez é um dos fatores de dispersão ou fuga de algumas espécies nativas para sítios diferentes, em busca de sobrevivência. Ou ainda condicionar o crescimento de outras populações de pássaros e até levá-las ao risco de extinção.

“Sabemos apenas do que se alimentam os periquitos nos seus países de origem, mas não quando são introduzidas num novo habitat.”

Hany Alonso

Como os especialistas não sabem precisamente o que os periquitos comem, os ornitólogos da SPEA estão a fazer um estudo sobre os hábitos alimentares das aves. “Sabemos apenas do que se alimentam nos seus países de origem, mas não quando são introduzidas num novo habitat”, revela Hany.

As dúvidas podem ser sanadas após a pesquisa que os ornitólogos da SPEA estão a empreender em busca de definir os hábitos alimentares dos periquitos e se o que levam ao bico é o mesmo que outras espécies. A pesquisa começou em fevereiro e estender-se-á até o fim do ano.

Este novo censo conta novamente com a participação de voluntários, um exército de profissionais e amadores a fotografarem os pássaros nas árvores, por entre as folhas e ramos, enquanto comem.

Isto em todo o país.

O que quer dizer que, na próxima vez que alguém levantar os olhos para observar um periquito em Lisboa, é bem provável que ao lado esteja um ornitólogo com uma câmara fotográfica à mão.

Uma ótima oportunidade para se admirar também essa curiosa espécie.


Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 49 anos, há seis em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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