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Vídeo: People of Lisbon

Peter O’Connor é um homem feliz. Percebe-se pelo sorriso aberto. Está sempre a sorrir e destila energia. É alto. E é também num alto que vive, no topo da Graça. E o bar de cocktails que abriu é na porta ao lado de sua casa. “Chegar aqui mantém-me em forma”, diz. “Ando e pedalo por todo o lado. Ajudou-me a perder peso. É uma coisa a que te habituas”, diz, apontando a subida íngreme que faria a maioria perder o fôlego, só de olhar.

“Vivo aqui com a minha namorada Joanna, o meu cão e o meu gato – Murphy e Guinness”. Os animais têm o nome de duas conhecidas cervejas irlandesas stout – uma homenagem às origens de Peter.

A vista do terraço de Peter faria inveja a qualquer lisboeta – o que diz muito numa cidade habituada a vistas extraordinárias. “Na véspera de Ano Novo, conseguimos ver o fogo de artifício todo. Foi incrível.” E lá está o sorriso outra vez.

Ao conhecer a casa de Peter e o que o rodeia, percebe-se porque se sente tão bem. Pode pensar-se: “acertou em cheio”. “Tiro os domingos com a Joanna. Muitas vezes convidamos amigos para churrascos e para descontrair. Bebemos umas cervejas ou uns cocktails”.

Por falar em bebidas, Peter tem uma prateleira impressionante cheia de garrafas de todo o mundo. As bebidas são a sua especialidade. Trabalhou no negócio a maior parte da sua vida. Antes de se mudar para Lisboa, viajou pelo mundo todo em trabalho para o gigante internacional de bebidas Diageo.

Peter aponta para uma garrafa de uísque na sua prateleira de origens exóticas que vale um par de milhares de euros. Orgulha-se de mostrar as suas garrafas, admirando-as com o mesmo gosto que um colecionador de carros tem ao exibir o seu último bólide. “É a minha pequena coleção pessoal.”

Peter vem de um lugar em Dublin chamado Tallaght. Tallaght tem uma certa reputação na Irlanda. Não terá sido o lugar mais fácil para crescer. Muito menos no início dos anos 1980, quando a Irlanda estava mergulhada numa recessão profunda e os gangs ligados ao tráfico de droga dominavam a cidade, naqueles tempos. “É conhecida como Tallifornia. E nós chamamos a nós próprios Tallibani”. De repente, envergonha-se. “Não, não escreva isso.”

Peter veio a Lisboa há dois anos para umas férias de cinco dias e apaixonou-se instantaneamente pela cidade. Tanto que decidiu comprar um pequeno bar. Dois dias depois de estar cá. Admite que não tem sido um mar de rosas. “Tem sido uma montanha-russa. Por causa da covid-19, abrimos e fechámos, abrimos e fechámos.”.

O bar de cocktails que Peter abriu na Graça é na porta ao lado de sua casa. A pandemia dificultou o arranque, mas nada que tenha desmotivado o irlandês. Foto: Rita Ansone

“O maior desafio que enfrentei, no entanto, foi tentar pôr as coisas a andar numa língua que não entendo. O ritmo mais lento de vida também torna difícil conseguir fazer as coisas à minha maneira. Mas isso tem um lado bom. Precisava de abrandar um pouco.” Peter fala tão depressa que talvez tenha de abrandar ainda mais um pouco.

“Adoro o modo de vida aqui. Adoro acordar de manhã e tomar um café. Não custa uma fortuna como noutros lugares. E é claro que há o sol, 300 dias por ano, e essa é a verdade. É um modo de vida descontraído, mas eu mantenho-me ocupado”.

Qual é a bebida preferida de Peter? “Uísque, claro. De todos os tipos. Irlandês, escocês, americano.”

A profissão de Peter pode ser perigosa para a saúde. “Muitas pessoas abusam do álcool nesta indústria. Demasiadas. Mas é preciso disciplina. Os meus pais nunca beberam. E quando comecei a trabalhar em bares, sempre respeitei isso. É a droga mais pesada que há no mundo. Tenho um bar. Podia beber todos os dias, se quisesse. Mas escolhi não o fazer. Não podemos deixar que se torne um hábito.”

A casa de Peter tem um conjunto de artefactos que mostram a sua orgulhosa herança irlandesa. Na parede do corredor, o brasão da família. Todas as famílias irlandesas têm um. Embora nem todas as famílias irlandesas o tenham na parede. No seu escritório está uma placa a dizer “Cead Mile Failte” – que é gaélico para mil milhões de boas-vindas. E numa mesa de café há um livro: Os Melhores Pubs Irlandeses na Irlanda.

“Sou um irlandês orgulhoso. Em tudo o que faço. A forma como vivo, a forma como trabalho. Tudo vem de um certo modo de ser irlandês. Somos pessoas muito hospitaleiras. Somos muito acolhedores. E gostamos de conversar. Gostamos de ‘dizer merda’.” É uma expressão irlandesa, para quem não saiba.

Mas talvez a principal razão para a felicidade de Peter seja a namorada Joanna, com quem vive.

“Conhecemo-nos no bar”, diz Joanna.

“Ela veio beber um dia e nunca mais saiu”, diz Peter.

Há claramente uma química entre eles.

“Disse-lhe para me fazer o que quisesse”

“Fiz-lhe um Basil Midori Sour, porque é doce e azedo, como eu”

“Oh, meu Deus”, diz Joanna, colocando a cabeça nas mãos.

O bar do Peter chama-se “Onda” e fica no rés-do-chão de um edifício pintado a amarelo a apenas um minuto a pé do seu apartamento. O bar é pequeno, mas muito acolhedor, com uma disposição perfeita de cadeiras confortáveis.

E ainda há o balcão, onde também pode podemos sentar-nos a apreciar Peter arregaçar as mangas para nos preparar um elaborado cocktail, explicando o processo e falando dos ingredientes usados. “Um bom fazedor de cocktails é como um chef. Sabe os ingredientes que usa. Conhece o seu equipamento. Usa-o com destreza. E é confiante na forma como joga com os sabores.”

Neste momento, uma pessoa podia confundir Peter com um cientista louco, já que deita fumo pelo ar, usando um dispositivo que se assemelha a um cachimbo futurista. Faz parte do espetáculo. “Nem tudo é showbusiness“, diz, enquanto o fumo se dissipa o suficiente para voltarmos a vê-lo. “É a criatividade das bebidas misturadas.” É justo. Para quem esteja curioso, a bebida em questão é Tommy’s Smokey Margarita. Recomenda-se.

O Onda tem uma clientela internacional. Há alguns ex-pats que se juntam aos portugueses locais. O bar nunca parece muito cheio, mas tem sempre uma atmosfera particular. Há até uma pequena área de esplanada que faz lembrar um tiki bar [bar de cocktails, com ambiente tropical retro] – perfeito para os dias mais quentes.

Peter não é tímido, vai conversando com os clientes do outro lado do balcão. O tema em que está mais à vontade são os cocktails e os ingredientes que usa para os fazer, mas, como todos os irlandeses, é bom a passar por especialista em qualquer assunto.

De volta à energia de Peter. De onde vem?

“Tenho feito artes marciais toda a minha vida. Estou no 4º dan do cinto preto. Estou sempre a treinar. É bom para a mente e o corpo”.

É reconfortante saber que, depois de uns cocktails, estarás em segurança perto de Peter – antes de ele te pôr a andar.

Parceria com o projeto People of Lisbon.


Peter moved to Lisbon and opened a cocktail bar

He came for five days and on the third he bought a bar. Peter O’Connor has been living in Graça for two years, with a privileged view over the city that snatched him. But it’s at his bar, “Onda”, that he gives free rein to his energy, “inventing” cocktails and talking with those on the other side.

Peter O’Connor is a happy man. You can tell by his beaming smile. And he is always smiling. His energy seems to be on the high level. He is indeed a tall man. But it’s also high up where he lives, at the very top of Graça. “Getting up here keeps me fit.” he insists. “I walk and cycle everywhere. It’s helped me lose some weight. You get used to it,” acknowledging the steep climb which would make most people gasp for breath.

“I live here with my girlfriend Joanna and my dog and cat – Murphy and Guinness,” The animals are named after two well known Irish stout beers – a quick nod to Peter’s origins.

Peter’s rooftop view would be the envy of most in Lisbon – saying a lot for a city that is already spoiled for great views. It’s while admiring the view that Peter decides it’s time to put on the shades as the sun shines bright in the blue sky. “On New Years eve you could see the fireworks really well. It was amazing.” And there is that smile again.

Witnessing Peter’s environment, you begin to understand just why he is feeling so good. Some might say ‘he’s got it made’. “I take Sundays off with Joanna. We often have friends up for barbeques and just relax. Maybe have a few beers or cocktails.”

Speaking of drinks, Peter has an impressive drinks shelf featuring a variety of bottles from all over the world. And it is in drinks that Peter specializes. He has worked in the drinks trade most of his life. And prior to moving to Lisbon, Peter worked around the world for the international drinks goliath known as Diageo.

Peter points out a bottle of whiskey on his shelf of exotic origins that is worth a couple of thousand euro. He’s proud to show off his bottles – admiring them with the same gusto a car collector might show off his latest set of wheels. “It’s my own little personal collection.”

Peter comes from a place in Dublin called Tallaght. Tallaght has a bit of a reputation in Ireland. It wouldn’t be the easiest place to be brought up. Certainly not in the early 80s, when Ireland was crumbling in recession times. Drugs gangs began to take a foothold in the city in those days. “It’s known as Tallifornia. And we call ourselves the Tallibani.” He’s suddenly embarrassed. “No, don’t include that.”

Peter came to Lisbon two years ago for a five day holiday and instantly fell in love with the place. So much so that he decided to buy a little bar. “It was after just two days visiting.” He admits it has not all been plain sailing since then. “It’s been a rollercoaster. There has been Covid of course. We have been open and closed, open and closed.”

“The biggest challenge I faced though was trying to get things going in a language I don’t understand. Also the slower pace of life makes it tricky to get things done. But that’s actually good for me too. I needed to slow down a bit.” Peter talks so fast, he could maybe do with slowing down a bit more. There is that high energy again.

Peter’s bar is next door to his house. Covid-19 pandemic made the start feel like a rollercoasterbar, but didn’t discourage the irishman. Photo: Rita Ansone.

“I love the way of life here. I love waking up in the morning and having a coffee. It doesn’t cost you a fortune like in some other places. And of course it’s sunny 300 days a year, and that’s the truth. It’s a relaxed way of life, but I keep myself busy.”

What’s Peter’s drink of preference? “Whiskey of course. All types. Irish, Scottish, American.”

Surely Peter’s occupation could be dangerous to one’s health. “A lot of people abuse alcohol in this industry. Too many. But you need discipline. My parents never drank. And when I started working in bars, I always respected it. It is after all the biggest drug we have in the world. I own a bar. I could have a drink every day if I wanted to. But I chose not to. You can’t let it become a habit.”

Peter’s home has a sprinkling of trinkets that showcase his proud Irish heritage. On his hallway wall there his family crest. Every Irish family has one. Although not every Irish family has it on their wall. In his office is a sign saying ‘Cead Mile Failte’ – which is Gaelic for a million thousand welcomes. And on one coffee table there is a book listing The Best Irish Pubs in Ireland.

“I am a proud Irishman. In everything I do. The way I live, the way I work. It all comes out of a certain Irishness. We are very hospitable people. We are very welcoming. And we like to talk. We like to talk shite.” That’s an Irish expression in case you didn’t know.

Probably the main reason Peter is so happy is because of his beautiful girlfriend Joanna who he now lives with.

“We met at the bar” says Joanna.

“She came in for a drink oneday, and never left,” says Peter. The couple clearly have a spark.

“I told him to make me whatever he wanted”

“I made her a Basil Midori Sour, because its sweet and sour, like me”

“Oh my god” says Joanna, putting her head in her hands.

Peter’s bar Onda sits at the bottom of a stand out yellow painted building just a one minute walk from his apartment. The bar is small, but perfectly cosy. There is a nice scattering of comfortable chairs, any of which you would feel comfortable in. But you might also like sitting at the bar as you watch Peter roll up his sleeves to make you an elaborate cocktail. He’ll tell you his process, he’ll tell you about the ingredients. You will nod as you watch on. “A good cocktail maker is like a chef. They have to know their ingredients. They know their equipment. They are confident using them. They are confident playing with flavors.”

At this point one would be tempted to see Peter as a mad scientist, as he has smoke billowing in the air, using a device that resembles a futuristic bong. It’s all part of the show. “It’s not all showbusiness,” he insists as the smoke clears enough for you to see him. “It’s the creativity of mixed drinks.” Fair enough. If you are curious – the drink in question is Tommy’s Smokey Margarita. Recommend.

Onda has an international clientele. There are some ex pats along with local Portuguese. The bar never seems too busy, but always has an atmosphere. There is even a little outdoor seating area which is reminiscent of a tiki bar – perfect for the hotter days.

Peter is not shy from chatting to guests at the other side of the bar. He is most comfortable talking about their cocktails, explaining what goes into them. And being Irish, he is good at sounding like an expert on most subjects.

Back to this energy Peter possesses: where does it come from?

“I’ve been doing martial arts all my life. I’m black belt 4th degree. I train all the time. It’s good for mind and body.”

It’s reassuring to know that after a few cocktails with Peter you will be in safe hands – before he kicks you out.

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