Ser filho único vale uma tarefa complicada, porque intensa e sem intervalos. Ser filho, único, do jornalista e olisipógrafo Appio Sotto-Mayor aumenta, de forma exponencial, o grau de exigência. O que acontece muito menos em função das avaliações externas do que por causa da entrada em campo da necessidade de me sentir à altura do desafio.

Quando os anos de formação vão alinhando valores e características como o rigor cuidadoso, a curiosidade perene, o laborioso prazer da escrita, o estudo contínuo, a assertividade polida, o empenhamento em saber ouvir os outros para depois transmitir fielmente aquilo que se escutou, a renúncia obstinada à pompa e à circunstância, torna-se necessário ir alimentando tudo isto. E eu, em tempos mais dado a excessos do que a mínguas, peco sempre, nesta matéria, pelo esforço que raramente vai além da frugalidade anémica.

Appio Sotto-Mayor num passeio em Lisboa do Centro Cultural da Ponte. Foto: centroculturaldaponte.wordpress.com

Pouco importa, para o caso – ninguém me mandou escolher a profissão fraterna, fascinante e irresistível, muito antes desta se revelar um exame diário. O grande modelo, sem menosprezar os vários e intensos mestres com que aprendi e lidei, morava mesmo lá em casa, e o regime de ensino, multidisiciplinar, não permitia horizontes de fuga: presencial, informal as mais das vezes, nem sempre explícito, mas omnipresente e tentacular.

Cresci entre livros, muitos deles de Miguel Torga, transmontano, e Georges Simemon, um belga muito parisiense, algo que se revelaria decisivo – por oposição e, depois, por aceitação plena. Ganhei os rudimentos para identificar os pintores impressionistas, favoritos da paternidade. Fui levado ao Pensador de Rodin. Vi o Porgy and Bess no São Carlos. Ouvi Amália e José Afonso, Carlos do Carmo e a Bossa Nova, mas também os eruditos, com Beethoven no topo da lista. Ganhei acesso à televisão por causa de uma hepatite, mas também do Mundial de Futebol de 66, com as imagens das lágrimas de Eusébio e do Portugal-Coreia do Norte como tatuagens para a vida.

As vigorosas limonadas paredes meias com o Tribunal da Boa Hora, o frango assado no Bonjardim ou na Feira Popular, as sardinhas assadas de rua ou de bairro, muito mais tarde os pregos do Sinal Vermelho, os peixinhos da horta onde calhasse…

Área protegida pela figura paterna, sem dúvida, mas também um mundo de aventuras, marcado pelos passeios diletantes e pelas investidas com destino certo. Conheci o (antigo) Museu dos Coches, o Planetário, o Museu de Arte Antiga e o Gulbenkian, o Aquário Vasco da Gama (antecessor do Oceanário) e o Jardim Zoológico, a Torre de Belém e os Jerónimos, o circo do Coliseu dos Recreios, os cinemas de estreia e os de reprise – o Olympia antes da pornografia, o Lys, o Cine Oriente, a Promotora e o Cinearte em Alcântara, o Imperial, depois Pathé, o Restelo, e os meus preferidos, até pela localização, o Paris e o Jardim Cinema, com os bilhares na cave –, numa cruzada que me apresentou desde o Tarzan Weissmuller até ao par disfuncional Sansão e Dalila.

Sem esquecer os estádios onde começou a minha inoculação com o futebol: Restelo, Tapadinha, o Engenheiro Carlos Salema (o do Oriental, em Marvila), o Pina Manique, o do “Fófó” ou Futebol Benfica, que não sei se já se chamava Francisco Lázaro, até o campo do Palmense (em que, acredite quem quiser, vi jogar um defesa-direito, sem pretensões de ala, com mais “atitude” do que jeitinho, chamado… Appio Sotto-Mayor, calção branco e camisola azul, chuteiras creio que emprestadas por alguém mais insistente na matéria).

Sem desvalorizar as incursões de comes e bebes, que me levaram a registar as bifanas e as iscas na Praça do Chile, as vigorosas limonadas paredes meias com o Tribunal da Boa Hora, o frango assado no Bonjardim ou na Feira Popular, as sardinhas assadas de rua ou de bairro, muito mais tarde os pregos do Sinal Vermelho, subsidiados porque o ordenado de candidato a estagiário não chegava para as encomendas, os peixinhos da horta onde calhasse; mas também a estreia num chinês, nada longe do Marquês de Pombal, os primeiros hamburgers no saudoso Ivo’s, o mergulho nos italianos devido ao Frascatti, os bifes com molho, mais na Trindade do que na Portugália.

Com um episódio que ficou guardado, pelo insólito, pelo inédito e pelo preço: eu era aluno do Externato Formigueiro, com a directora Natália e com a professora Maria Fernanda, e almoçava por lá (não sei ao certo porquê, mas a memória conduz-me em sentido único a ervilhas com chouriço e ovo escalfado), na cantina. Mas, um dia, o meu pai raptou-me e fomos a uma tasca vizinha da Rua Garcia de Orta: sopa, pescada cozida com todos, um ovo estrelado para cada um, sobremesas (arroz doce, pudim flan ou leite-creme, vá-se lá saber), um copo de vinho para o mais velho e outro de água para o menino. Custou, tudo, vinte escudos. Arqueologia, pois.

As cidades

Foi relativamente fácil perceber que – apesar de magníficas viagens a Madrid e a Roma, mas também ao Porto (para visitar avós e tias), a Évora ou a Viseu – o mundo do meu pai rodava em torno de três urbes que, hoje, também me tocam particularmente. Primeiro, Tomar. Foi aí que passou a adolescência e uma parte da juventude, aluno do Colégio Nun’Álvares, apoiante do União, capaz de explorar e aproveitar as dimensões plurais da Cerca e da Corredoura, do Café Paraíso (que ainda resiste).

Terá sido nessa raiz ribatejana que conquistou amizades para a vida, daquele género a que distância e tempo nada minam, e que assegurou os primeiros namoros. Terá ganho ali gosto pela vida, da poderosa gastronomia, de preferência em abundância, à liberdade, à leitura, à disciplina, à leitura, à sistematização da descoberta. Estreou-se no “jornalismo”, editando com alguns parceiros, o Folha de Couve. Mais tarde, chegaria às páginas do Templário – onde ainda escreve, de quando em vez – e passando pelo Cidade de Tomar. Cumpre-se agora um ano – e que ano este! – sobre uma cerimónia que sei que o tocou muitíssimo: o município local atribuiu-lhe a medalha de Mérito Cultural.

Como de costume, cheguei atrasado aos motivos paternos. Eu era mais Londres, mais Nova Iorque, mais Rio de Janeiro (e ainda me falta Buenos Aires…). Até que a luz da Cidade-Luz finalmente me iluminou.

A ele, nascido em Lisboa, mas com partes seleccionadas do corpo e da alma entregues a Tomar. Foi o pretexto para (mais) um fim-de-semana vivido ali, nas margens do Nabão, com familia e com amigos, alguns dos poucos que diz restarem-lhe. Foi, também, para mal dos nossos pecados, mais os meus do que os dele, a última vez que estivemos juntos até agora, a 1 de Março de 2020. O dia que, não o sabíamos, mudou por completo os nossos hábitos, com máscaras e confinamentos, com mortes em série e com medos novos. Adiante…

Depois, há Paris. Para quem andou um pouco por todo o planeta (com excepção de África, que me lembre), a escolha equilibra a razão e o coração. Foram anos a fio em que o período de descanso lhe impunha uma escala parisiense, prática continuada na fase da reforma. De tal forma que eu, jocoso boçal, gozava com a insistência, “explicando” que ainda lhe faltaria conhecer duas ou três ruas e quatro ou cinco esquinas.

Com Eça, nos Passeios Quiroseanos. Foto: D.R.

Como de costume, cheguei atrasado aos motivos paternos. Eu era mais Londres, mais Nova Iorque, mais Rio de Janeiro (e ainda me falta Buenos Aires…). Até que a luz da Cidade-Luz finalmente me iluminou, com as suas dimensões múltiplas, com os imensos contrastes, com o peso da História e com a dinâmica da Cultura. Com as pequenas compras no Fauchon e nas livrarias ou com as grandes visitas, por exemplo ao Centro Pompidou, ao Museu d’Orsay, o universo paralelo que é o cemitério Père Lahaise, ao Louvre, claro, passando pelos jardins, pelos passeios no Sena, pelas deambulações errantes em Saint-Germain-des-Près ou em Montmartre, por Notre Dâme (antes do incêndio), pela Madeleine, pelos Campos Elíseos. Ou pela descoberta, pessoal, do Procope, o café que serviu de poiso a Molière e Vítor Hugo, Rousseau, Voltaire, até Benjamin Franklin, e, diz-se, Napoleão Bonaparte. Lá fui a um coq au vin e a um reconhecimento.

Em Paris, desforrámo-nos, pai e filho, muito bem acompanhados, há meia dúzia de anos, com a particularidade de o mais velho ter preparado todo um programa de “imperdíveis” para o mais novo. Mesmo que ele não fosse, passava itinerários e indicações, precisos uns, preciosas outras. Foi, confesso, uma desforra e peras. Ou, mais apropriadamente, maçãs, em nome do incontornável Calvados.

O poço da cidade

Chegamos a Lisboa, sem que eu saiba com exactidão por onde começar. Escolho o momento em que tomei consciência que, além da dimensão recreativa, a dos passeios atrás abordados, a dos percursos salpicados de paragens para explicações, a dos episódios ligados a nomes, actividades ou costumes, a das associações de ideias que deveriam – se não fosse um flácido desatento – ter-me motivado mais e melhor reacção, a tudo isto se juntava uma abordagem mais “científica”, mais aprofundada, mais organizada. Ou seja, eu deveria ter intuído que a chegada lá a casa de livros de Norberto de Araújo (figura de referência, que motivou a espinhosa mas compensadora missão de prefaciar o primeiro volume na reedição das suas Peregrinações em Lisboa), de Júlio Castilho, de Matos Sequeira, de Júlio César Machado e de vários outros olisipógrafos, num momento ainda distante da onda de estudos e abordagens que depois cresceu exponencialmente, estava longe de ser inocente.

Se eu pudesse dispor de cinco euros por cada telefonema, cada pedido de depoimento, cada solicitação para entrevistas (…) estaria despreocupado até ao fim da minha existência com os pagamentos à Segurança Social.

A grande tradução desse mergulho na cidade-mãe é, evidentemente, O Poço da Cidade. O meu pai aproveitou, como genérico da sua crónica lisboeta, o nome da Travessa (do Bairro Alto) onde então vivia outra das suas grandes paixões: o jornal A Capital, por onde andou, em múltiplas funções – excepto a de director, cargo que nunca aceitou –, entre 1969 e 2005 (com um ano de intervalo, em “comissão de serviço” para criar uma agência noticiosa, a Notícias de Portugal), quando o vespertino se despediu de vez dos leitores.

Leia aqui as duas crónicas de Appio Sotto-Mayor escolhidas por João Gobern:

Publicou essa coluna diariamente entre 1984 e 1989, até chegar ao número mil. Mas não pôs fim ao seu olhar peculiar sobre a capital – limitou-se a alterar a periodicidade para semanal, até 2005. Que é como quem diz até ao fim. Pelo meio, na também desaparecida Editorial Notícias, publicou, em 1993, dois volumes de crónicas seleccionadas, sem mudar o título: O Poço da Cidade. A edição esgotou no mesmo ano e, por razões que me escapam, nunca foi reeditado.

Esse “esquecimento” parece-me – e tento munir-me da objectividade viável para um filho diante da obra do pai – bizarro e lesivo. Não estarei a cometer nenhum erro de paralaxe, nenhum desvio sentimental, se defender que o Appio Sotto-Mayor é mesmo uma das grandes autoridades quando entra em cena a matéria lisboeta. Se eu pudesse dispor de cinco euros por cada telefonema, cada pedido de depoimento, cada solicitação para entrevistas e conversas, cada desafio para prefácios e opiniões, estaria seguramente despreocupado até ao fim da minha existência com os pagamentos das prestações à Segurança Social.

Se a mesma quantia por unidade servisse de contrapartida às citações que dos seus escritos têm sido praticadas ao longo de décadas, umas devidamente autorizadas, outras à revelia do autor, a folga orçamental também seria significativa. Em boa verdade, não é o dinheiro que está em causa, nunca foi. O que custa perceber é que quase trinta anos depois, no caso dos livros, a erosão não se faz sentir nestas páginas, mesmo que os pontos de partida possam ter sido efemérides ou aflorem circunstâncias desaparecidas ou esbatidas. Evito referir-me à qualidade da escrita, mais do que suficiente, ainda assim, para estarem traçadas uma personalidade e um estilo.

Ciência e paixão, com tempero de talento

As crónicas d’O Poço da Cidade são um inteligente e intuitivo cruzamento de ciências e vivências (como se diz agora), que envolvem História, Sociologia, Urbanismo, Cultura, Psicologia, Geografia, Gastronomia e por aí fora. Ainda bem que, para este texto, não há supervisão paterna, porque tenho a certeza que o protagonista me mandaria ganhar juízo e retirar tudo isto de um qualquer esboço de “biografia autorizada”. Mas podem acreditar que estão lá todos esses elementos, misturados em doses sábias para não minimizar a dinâmica e a acessibilidade de uma crónica de jornal, mesmo transposta para livro.

Fala-se de ruas, travessas e becos, de lojas e de monumentos, de costumes e de tradições, de mudanças e de características, de tudo um pouco. Porque o grande propósito, pontualmente cumprido, talvez se reconduza ao gosto de falar das pessoas que não podem apenas valer como molduras ou adereços, antes determinam o seu perfil. Aí estará uma das bases para a convicção que mantenho sobre as preferências “bairristas” do meu pai: a Madragoa (onde viveu em criança), o Bairro Alto, a Mouraria e Alfama, Alcântara mas também Marvila, a Bica e Santos-O-Velho, Campo de Ourique (onde vivemos e onde, mais tarde, eu regressei militantemente).

Foi, de resto, forçado a despir essas tendências nas várias ocasiões em que desempenhou uma tarefa que não se recomenda a ninguém – a de jurado no sector competitivo das Marchas de Lisboa. Com vantagem sobre vários dos seus pares: sabe de cor – e disso dava conta, às vezes perante algum “desconforto” do agregado familiar – muitas canções que ali foram apresentadas ao público.

Voltando às crónicas e aos livros, outra vez pedindo a generosidade de quem lê para uma sentença que não pode ver-se como “cega”, nunca li nem folheei melhores incursões descodificadoras, e ainda por cima escritas com paixão mas sem olhares turvos, sobre a cidade e sobre quem a faz respirar. E, como saberão os mais interessados sobre este terreno, não se publicou pouco, a respeito de Lisboa. Pode acontecer que, nos trinta anos da edição original, alguém acorde para este silêncio, para mim ensurdecedor.

Appio Sotto-Mayor em mais um passeio em Lisboa.

Há mais dois livros, também engolidos pelos anos, ambos publicados pelo jornal A Capital: Lisboa d’Outros Tempos, título pouco do agrado do autor até por repetir o de uma obra antiga, e Lisboa de Santo António, sempre com a cidade em primeiro lugar, sem coincidências. Já agora: nos domínios alfacinhas, poucas asneiras encanitam mais o meu pai do que tratar o religioso “derivado” de Fernando de Bulhões como o padroeiro da cidade. Pois não é, que esse estatuto foi atribuído a São Vicente, desde 1173. E aqui se esgotam, ou quase, as oportunidades de que disponho para brilhar, neste território tão complexo e tão sedutor.

Nas múltiplas perguntas que, vida fora, fui fazendo ao especialista caseiro – nem que fosse a localização de uma rua ou a justificação para uma designação que soe mais bizarra –, tive direito a uma tipologia variada, e alternada, de reacções: a irritação pela minha abrangente ignorância, a manifesta desilusão pela mesma, de quando em vez a resignação que assalta quem está diante de um caso perdido, como eu.

O gosto por Lisboa levou o Appio Sotto-Mayor ao Grupo de Amigos de Lisboa, fundado em 1932, de que foi vice-presidente e secretário geral, antes de passar “à reserva territorial”. Assinou, ali e noutros cenários, uma quantidade considerável de palestras, todas elas com um eixo central: Lisboa. Tanto podia falar dos santos “da casa” como das casas com histórias dentro, dos caminhos queirosianos da cidade ou dos muitos cinemas que, na capital, abriram e fecharam portas antes de se chegar ao actual panorama multiplex. Assumiu a coordenação de visitas guiadas, com percursos e objectos bem definidos, sabendo quem o seguia que uma viagem entre o Chiado e o Rossio poderia exigir uma paragem a cada porta. Passou dias e dias no GEO (Gabinete de Estudos Olisiponenses, no Palácio Beau-Séjour), onde, acredito, chegou a ser olhado como parte integrante da casa, não como visitante.

Poucas asneiras encanitam mais o meu pai do que tratar o religioso “derivado” de Fernando de Bulhões como o padroeiro da cidade. Pois não é, que esse estatuto foi atribuído a São Vicente, desde 1173.

Cheguei a participar num par de almoços – quando ainda se almoçava fora sem receios – em que se reuniam amantes e conhecedores de Lisboa. Mas, refeição à parte, “pescava” pouco e, por motivos que nem quero adivinhar, poupavam-me à exclusão falando de… futebol. Estranho destino, quando eu queria mesmo, sem me atrever a participar, era ouvi-los discorrer sobre uma cidade que conhecia mal e que, mais a mais agora, não me vai permitir subir de nível. A não ser pelo que vou lendo, sobretudo do património paterno.

Reconhecimento e intervenção

A cidade, ou quem nela mandou, reconheceu ao Appio Sotto-Mayor a dedicação, o conhecimento e o esforço. Primeiro, foi distinguido na gestão de Nuno Krus Abecasis, numa cerimónia nos Paços do Concelho que permitiu a presença das três gerações: o agraciado, sempre sem graça nas solenidades, o seu pai e meu avô, rejubilante e emocionado, e eu, a tentar perceber o alcance da coisa. Lembro-me de A Capital plantar uma grande fotografia do meu pai na primeira página, salvo erro a três colunas – o que levou o meu avô a comprar uma razoável montanha de exemplares, para distribuir.

Depois, anos mais tarde, coube a João Soares atirar para cima dos meus ombros a escolha do elenco de amigos a convocar para uma homenagem num jantar-surpresa oferecido pela Câmara Municipal de Lisboa, no Palácio da Mitra, a Marvila. Dessa vez, não tive reclamações pelo meu desempenho. Com Jorge Sampaio, manteve também boas relações, ao que ajudava o facto de terem sido contemporâneos na Faculdade de Direito. De Lisboa, escusado será dizer. Foi no consulado do futuro Presidente da República que o chamaram a uma das tarefas que, sei-o bem, mais prazer lhe deu (e não estou a falar da dupla que formou nas reuniões com a amiga, jornalista e escritora Alice Vieira): integrar a Comissão de Toponímia, incumbência que manteve entre 1994 e 2008. Aí, para não variar, ultrapassou-me em toda a linha, já que acabou por trabalhar e lidar de perto com a vereadora Catarina Vaz Pinto, minha colega de turma no liceu e minha amiga, mas que me “trocou” sem grandes remorsos.

A Comissão de Toponímia permitiu a Appio reparar o que sentia como injustiças da cidade face a alguns filhos (hoje dir-se-ia “activos”) que se destacaram em diversos campos.

Percebam que é a história de uma vida – muito jeitinho, muita perspicácia, muita aplicação, tudo lindinho, até chegarem as comparações. “Ah, mas o seu pai…” foi das frases com que mais fui brindado, a receber como resposta uma raivita, inicialmente, a resignação, depois, o orgulho, agora, que o que não tem remédio, remediado está.

A Comissão de Toponímia permitiu-lhe, creio, reparar aquilo que sentia como injustiças da cidade face a alguns dos seus filhos (hoje dir-se-ia “activos”) que se destacaram em diversos campos e, dessa forma, intervir sobre o necessário acerto de contas de Lisboa com os seus ilustres. Refiro alguns exemplos, só para se entender o seu ideário e o seu modus operandi. Foam propostas de Appio Sotto-Mayor que iniciaram os processos que valeram ruas a Armandinho, Maria Alice, Maria do Carmo Torres (todos ligados ao Fado), Frederico de Brito, Jaime Mendes (também homens da Música), António Vilar (um dos mais internacionalizados actores portugueses), Jorge Alves (figura televisiva de destaque), Fernando Bento (ilustrador e um dos grão-mestres da nossa Banda Desenhada), Maria de Lourdes Mello e Castro (pintora naturalista e, por acaso ou não, nascida em… Tomar), Rocha Martins (jornalista que seria hoje considerado “analista político”, o responsável pelo aviso dos ardinas que gritavam, nos dias de publicação das suas colunas, “fala o Rocha! O Governo está à brocha”), Gomes de Brito (olisipógrafo e visto como um dos pioneiros da toponínia) ou Armando Ferreira (jornalista, crítico teatral e autor, com destaque para os seus livros humorísticos, considerado um herdeiro de Gervásio Lobato).

O Palhaço Luciano, a quem Appio Sotto-Mayor deu uma rua. Foto: Toponímia de Lisboa

Também se alargou às praças, como a baptizada com o nome de Mário Neves (jornalista, escritor, diplomata e, sem coincidências, um dos refundadores de A Capital, em 1968), e aos jardins, como o que perpetua Fernanda de Castro (poetisa que, por sinal, tinha tratado em verso os jardins de Lisboa…). Com a devida vénia, talvez a proposta paterna que mais me enternece, e que fez vingar, seja aquela que rendeu nome de rua, no Parque das Nações, ao Palhaço Luciano (1896-1986), que ainda cheguei a ver e a aplaudir no Coliseu dos Recreios. Abençoada cidade que se abre a distinguir, com rua e tudo, um palhaço, de que alguém se lembre de um homem que fez rir gerações atrás de gerações.

Outro reparo, trazido pelo Coliseu – não se diga nunca, diante do meu pai que o Cinema se estreou em Lisboa na sala das Portas de Santo Antão. Foi num coliseu, sim, mas no Real Coliseu de Lisboa, à Rua da Palma, Intendente, em 1896.

E com esta, que não me redime, que não camufla as lacunas, que não esconde os meus espantos perante aquilo que para o Appio Sotto-Mayor é o óbvio ululante, me vou. Até porque tenho uma incumbência a tempo inteiro, com contrato vitalício e, espero eu, de longevidade prolongada: ser filho, e único do meu pai.

*Leia os dois textos de Appio Sotto-Mayor numa das suas crónicas sobre a cidade de Lisboa, O Poço da Cidade publicadas na A Capital:

https://amensagem.pt/2021/02/21/memorias-do-poco-da-cidade/

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12 Comentários

  1. Admirei a história que não conhecia, do alto dos meus setenta anos, e fico reconhecida por tanto saber que me proporcionou.
    Nasci e fui criada em Lisboa, em Campo D’Ourique, que adoro. Vivi em diversos lugares, diferentes continentes, e o regressar à minha cidade e ao meu País foram tão gratificantes que me fazem esquecer as divergências que me assolam, quotidianamente.
    Talvez uma das mais belas cidades, da Europa, a minha Lisboa, é e continua a ser, por mim, admirada e vivida.
    Aqui vivo e viverei enquanto fôr possível, depois o mar da Ericeira me guardará.
    Lisboa e a sua luz iluminam-nos, sempre.

  2. Fiquei extasiada ao ler a história de uma vida contada pelo filho ,onde mostra bem o amor e respeito pelo pai A história de um dos meus amigos no Face que eu não conheço ,ou talvez conheça estudante como eu do colégio Nun»Alvares O CNA de Tomar Ignorava completamente a importãncia ,cultura e interesses deste meu amigo e amigo de amigos Mais um Tomarense importante e que como eu Tomar não conhece Pelo menos como importante que é Fiquei orgulhosa de conhecer agora melhor o meu amigo Appio Sotto-Mayor

  3. Adorei ler esta crônica de João Governo, que tanto gosto de ouvir naTV.
    Creio que com os meus oitenta anos talvez tenha conhecido Áppio Soutto -Mayor nos tempos do colégio C N A em Tomar onde nasci e tenho as minhas raízes
    Grande figuras, intelectuais,passaram por Tomar ,de que muito me orgulho.
    Com o meu respeito votos de longa e feliz vida

  4. Gostei muito que a “Mensagem” desse a conhecer, em traços largos, a vida de Appio Sotto-Mayor, grande olisipógrafo, através da escrita saborosa de João Gobern, seu filho, também jornalista. Pôr um grupo de pessoas a contemplar Lisboa no Jardim de S. Pedro de Alcântara, como se vê na fotografia, é a certeza que o desafio deste encanto ficará para sempre.

  5. “Passou dias e dias no GEO (Gabinete de Estudos Olisiponenses, no Palácio Beau-Séjour), onde, acredito, chegou a ser olhado como parte integrante da casa, não como visitante.” Era um dos nossos!! Um grande Senhor e um grande Amigo

  6. Amei a homenagem que faz ao seu Pai, João.
    Não conhecendo profundamente o Senhor Áppio, conheço o suficiente para perceber que é uma Pessoa muito, muito especial.
    O João, de mão dada com a minha memória, levou-me por caminhos que conheci, outros que me acrescentou (o que lhe agradeço) e que me enterneceram .
    Está de parabéns João. Aliás estamos todos por tê-los por cá .Um grande abraço para seu Pai ; outro para Si.

  7. Eu não perdia uma crónica do teu pai no jornal “A Capital”. São essenciais para conhecer Lisboa e a sua história. Abraço.

  8. Fujo ao lugar mais que comum de dizer que é “justa” homenagem, Vai muito além disso. E sou quase tão suspeito como o João – razões familiares que a vida levou a que possa dizer que somos da mesma cepa, ainda que só metade, misturada de Torga, Maigret, Pessoa, Fernão Lopes, La Madeleine, Pigalle, Bécaud, Lisboa muito para cá e lá de si mesma, muita coisa em comum, que o tempo só reaviva. Fica ainda a arqueologia dp DNA de Portugal e acima de tudo, algo que não te perdoo. Appio – Publica-me esse raio de livro sobre Santo António, Só tu o saberás fazer. João, parabéns. Para lá do que me és, malgrado os grados dos desagrados, és um raro Filho. José Alexandre

  9. Para resumir tudo o que o João Gobern já explanou aqui tão
    bem nesta “biografia”, quero aqui deixar apenas o meu sentir em relação ao enorme Appio Soutomaior: o orgulho imenso de ter sido sua discípula no jornal A Capital, sua companheira diária de trabalho jornalístico e sua amiga! Que magnífico mestre no saber, no partilhar sem qualquer assomo de superioridade, no ouvir e saber ser ouvido, quer na transmissão oral quer na escrita escorreita e sempre com uma ponta de bom humor (até lhe vejo o sorriso atrás do conhecido bigode)! Sinto-me pequenina para poder escrutinar todas as suas capacidades, enfim… mas duas são inseparáveis dele: a sua gigantesca memória e a sua pluralidade de saberes, que eu já classifiquei como uuma”enciclopedia viva”! Obrigada por tudo o que aprendi contigo, sempre “embrulhado” numa grande humildade!
    Nota: Sei que o editor da Âncora e nosso antigo companheiro no jornal A Capital tem tentado por diversas vezes que o nosso querido Appio escreva mais livros, entre eles, as sua memórias, mas ao que me dizem sempre em vão. Vá lá, Appio, todos ficaríamos a ganhar tanto!!!!!

  10. Para além do que aqui já deixei no meu comentário sobre o nosso Appio, quero dar os parabéns também ao João seu filho único pelo reconhecimento público do seu tão único pai! Tal pai tal filho, sem dúvida! O João também é cá dos nossos: um antigo “capitalino”!

  11. Tenho a honra de ter trabalhado com o enorme Appio Sotto-Mayor e, como todos os que lidaram com ele, sou testemunha das suas qualidades, humanas e profissionais, mas também da forma como integra o pelotão dos últimos resistentes que reconhecem no Jornalismo uma profissão assente no gosto pelo Conhecimento, pela sua partilha, e pela curiosidade constante de conhecer, histórias, lugares e, claro, pessoas. O que, geralmente, acaba em sólidas e saudáveis amizades. Um forte abraço aos dois, pai e filho, extensível a todos os – usemos a expressão da Edite Esteves – “capitalinos”, de várias gerações, unidos no mesmo cabeçalho.

  12. Não sendo de Lisboa, aprendi a conhecê-la melhor lendo as crónicas do Ápio Sotto-Mayor no jornal A Capital. Saber agora mais pelo seu filho, encheu-me de alegria ao ser “invadido” por esta onda de conhecimento.

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