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A farmácia Amparo é o pé limpo de um corpo sujo. Como este, outros corpos da avenida de Ceuta: são os prédios agarrados às encostas, os casebres eivados de fios eléctricos antigos, nos telhados as antenas parabólicas quais chapéus usados, e em todos os corpos a necessidade de se agarrarem a alguma coisa.

Lembram afogados tentando salvar-se.

Mais à frente, o bairro da Quinta da Cabrinha tem os rés-do-chão quebrados – uma racha, inteira e única, desequilibra os prédios ao nível dos olhos. Quando se espreita para dentro, vêem-se luzes ténues que aí chegam sabe-se lá por que outras rachas. Não tarda, a antiga ribeira de Alcântara come os prédios.

Primeiro dei um passo, assim. Depois outro. Parti a pé, de noite, a partir da farmácia Amparo no sentido da Repsol. Ali perto, um grafiti anuncia: Diz NÉPIA às drogas! Mas a népia, de noite, é a népia que ninguém vê. Em frente, no local em que os morros têm vontade de esconder a avenida – de fazer da escuridão coisa de pacto com a morte –, eles começam a aparecer.

Eu vou caminhando, também de capuz como eles, também dentro de mim o que nos torna semelhantes: a esperança, o desejo de cumprir um código bom, e a violência e o desânimo e o amor. Mas isto neles, os encapuzados, parece dantes.

Pela avenida de Ceuta, a cada entrar de rua, a cada revelar de pátio, neste ou noutro estacionamento, em grupos de dois e de três, também em grupos de quatro, surgem os drogados, os traficantes e os mirones. São os patrões do metro quadrado. Uns submissos, outros a submeter. Enquanto caminhava, todos pareciam estar vestidos de gente. Por baixo da aparência de pessoa, lembravam os mortos-vivos do cinema.

Primeiro, achei que já tinha caminhado de mais; era meia-noite num sítio em que é sempre meia-noite. Depois continuei.

Atrás de mim vinha um dos encapuzados. Por vezes, eu espreitava por cima do ombro e via que era rapaz de vinte e poucos anos porque o brilho do telemóvel lhe iluminava a cara. E os olhos postos em mim.

Chegávamos ao bairro da Quinta do Loureiro, eu preparado para lhe dizer «amigo, paz, não quero nada», quando ele se apressou, passou por mim, virou-se e disse que fez merda. «Foi o que fiz, mano. Merda. Perdi a carreira, viste a passar agora mesmo? Tenho de ir a pé sempre pelo bairro. Fiz merda.» De seguida, caminhou muito rápido.

«Amanhã é outro dia», respondi-lhe. Outro dia é sempre melhor do que aqui à noite. A merda era ele ter de atravessar o bairro, a merda era para avisar que seguíamos os dois para o mesmo destino.

A COVA DA MOURA QUER! Estava assim espichado numa parede. Mas ali não era a Cova da Moura, ali eram os restos do Casal Ventoso. Limpou-se o morro, varreu-se com alguma sanidade e pôs-se debaixo daquele tapete, que é um bairro enfiado entre a chaga sempre aberta da avenida de Ceuta (os carros não a deixam sarar) e o monte agora ajardinado que leva a Campo de Ourique. Só ali vai quem quer.

No bairro mandam os homens. Os tais vestidos de gente. Uns posicionam-se como vigias nos patamares, outros percorrem a rua em busca não sei de quê. Os que vendem são os serenos: sentados em cadeiras no meio da rua, quase parecem velhos prestes a sacar do baralho de cartas.

Porém, o jogo é outro. Ver, ser visto, vender. Este jogo mais de noite, mas de manhã e durante o dia também – a oferta é de vinte e quatro horas.

Continuei a caminhar olhando-os mas não querendo ser olhado. Sabia da droga, das infestações de baratas, das facadas ocasionais na cabeça (rapaz de quinze anos leva três na cara, de acordo com o Correio da Manhã), das escaramuças das armas brancas – sabia do medir de forças dos gangues e conhecia as rusgas policiais.

Mas não sabia que ali, embora noite, havia não só quem vende e quem compra, mas também gente à janela. São os encurralados do bairro, os que se recolhem depois de certa hora. A maioria mulheres, elas abrigadas, elas que pedem em vão aos filhos, aos maridos e aos namorados que não saiam.

A meio do bairro, reparei que os carros são habitados. Penso que é habitação de sexo e de consumo: nos assentos, cabeças de homem contra cabeças de mulher e cabeças de homem contra cabeças de homem. Cabeças de mulher contra cabeças de mulher não vi. Resguardados, imagino que consumam e se consumam uns aos outros.

A certa altura, decidi atravessar a avenida de Ceuta para ficar mais longe disto. Mas afinal pus-me mais perto. Numa sarjeta que fora pátio de pessoas asseadas, vi cães esfomeados que abocanhavam uma carcaça invisível. Ao passar mais perto, o cheiro almiscarado quase chegando, os focinhos viraram-se na minha direcção e iluminaram-se com a luz afagada dos isqueiros. Afinal eram caras de pessoa: reparei por serem iguais a mim. Mas eles rapidamente regressaram aos papéis de prata, ao produto efervescente e aos braços desnudos. Também eram braços de pessoa.

Antes de voltar ao bairro, imaginei que talvez as histórias dos que se drogam pudessem encher de palavras as fachadas dos prédios. E que nessas histórias haveria vocábulos em comum com toda a humanidade.

No estacionamento que fecha o bairro no sentido do Eixo Norte-Sul, alguém cobriu um carro de mantas. Assim se cobrem os cavalos quentes depois do esforço. Mas o carro nunca se constiparia: quem tinha frio estava lá dentro dormindo.

E aqui eu pensava que o outro, o rapaz da merda, é que tivera razão: também eu devia ter apanhado a carreira dali para fora. Mas desse modo não via nem sabia. Não podia dizer que no bairro da Quinta do Loureiro, que oferece os serviços do costume nos 365 dias possíveis, também há as coisas belas que a nossa espécie cria.

As paredes pintadas com cores, os desenhos. Um bebé choroso acalmado pelo canto da mãe. A música clássica de um carro que passa em excesso de velocidade. Alguns quase-vivos que atravessam a avenida de mãos dadas. E até o abraço firme e rápido dos traficantes, que dizem mano, mano, mano.

Estava quase a sair do bairro quando me deparei com luzes de emergência. Duas ambulâncias estavam estacionadas perto de alguém deitado no chão. «Deitado» quase parece palavra de cama, mas aqui quer dizer em overdose, quer dizer morto – pode dizer quase moribundo. A uns metros das pernas estrebuchantes, um carro branco de alta cilindrada estacionara com os quatro piscas. Os piscas e as luzes de emergência eram um fogo de artifício contrafeito, celebração de coisa nenhuma. Os manos vigiavam.

Depois apressei-me a regressar à vida, que fica fora da avenida de Ceuta à noite.


Afonso Reis Cabral

Nasceu em Lisboa em 1990. Cresceu no Porto, mas voltou às origens para frequentar a esplanada da FCSH. Aos 21 anos, escreveu os primeiros capítulos de O Meu Irmão numa mezzanine com vista para a Tapada das Necessidades. Mudado para Campo de Ourique, escreveu os primeiros capítulos de Pão de Açúcar num terraço com vista para as Amoreiras. Há muito destas paisagens nos seus livros, embora Lisboa não esteja lá.

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2 Comentários

  1. Gostei muito desta crónica do escritor. Sina a minha, sou “amante” do tetravô, e começo a ficar derretida pelo tetraneto…

  2. Muito bom, este texto que Afonso Reis Cabral nos oferece. Mais um. É notável a capacidade de observação, a empatia, e a riqueza que encontra/cria a partir de qualquer situação. Até aqui, depois da tristeza e da morte que habitam esta noite, saímos para a vida, que também acontece nas redondezas da Av Ceuta.

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