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No Teatro Municipal de São Luiz, o palco espera oito atores. Oito humanos que, em minutos, se transformam em deuses, espíritos, semi-deuses e semi-espíritos. Cada um confrontado com o que foi e aquilo em que se tornou, porque não há tempo sem o tempo anterior e o presente sem se pensar o futuro.

Uma história a que Wole Soyinka, autor nigeriano Nobel da Literatura, chamou “Uma dança das florestas”, numa obra dedicada ao momento de descolonização da Nigéria, em 1963.

Tudo o que estes atores fizeram em palco neste dia poderia ser, afinal, a analogia para o que é hoje o Teatro GRIOT, que cinco destes artistas fizeram nascer em 2009, em Lisboa. Numa cidade onde coabitam tantas etnias, nacionalidades e culturas de todo o mundo, mas onde uma companhia apenas de atores negros não tinha palco.

Até eles chegarem.

Desde o primeiro dia de existência que questionam quem querem ser. Se apenas uma companhia que se apresentasse assim mesmo, negra, de acordo com a cor da pele dos seus atores. Ou se uma companhia de portugueses e lisboetas que questionam temas como a identidade cultural e desterritorialização como meio para a liberdade – no sentido físico e não só.

Porque não ser ambas as coisas? – concluíram.

“Parecendo estes temas tão urgentes, como foi possível que, só depois de quatro décadas passadas sobre o fim do regime colonial português, o Griot aparecesse?”. Quem lança a questão é António Pinto Ribeiro, investigador e programador cultural, que escreveu sobre a emergência desta companhia. “É um facto que no teatro houve aparições que já tinham abordado a questão colonial, o racismo, as identidades, mas foram apenas isso: aparições”, escreve.

Estes ‘griots’ nasceram para ficar e ser “uma voz diferente daquela que é habitual no panorama artístico nacional”. À partida, porque todos são negros, diz Miguel Sermão, um dos atores residentes.

Zia Soares já correu o mundo com o teatro. É hoje a diretora artística do Teatro GRIOT. Foto: Inês Leote

É também “a primeira no país com uma diretora artística mulher e negra”: Zia Soares. Uma atriz e encenadora com mundo no currículo: arrancou na Companhia Nacional de Ballet da Guiné Bissau, passou pelas artes circenses na Amsterdam Balloon Company e chegou ao teatro brasileiro com a Companhia de Teatro “Os Sátyros”, em São Paulo, Brasil. É filha de mãe angolana e de pai timorense.

Mas nem tudo é sobre a cor da pele, completa o colega Matamba Joaquim. “A estética do nosso espetáculo é também muito diferente.”

Um teatro livre das velhas regras

A história do Teatro Griot tem rastilho na vontade de um grupo de cinco amigos, Zia Soares, Miguel Sermão, Matamba Joaquim, Gio Lourenço e Daniel Martinho, todos atores, de formar um espaço de criação onde pudessem expressar as suas escolhas artísticas e filosóficas.

Parte da equipa fundadora do Teatro Griot, nascido em 2012. Foto: Facebook Teatro GRIOT

Foi pela “curiosidade de estar livre de regras”, diz Matamba. As regras das muitas companhias nacionais em que todos eles já trabalharam e onde os negros – ou os seus matizes – raramente marca presença.

Lembra António Pinto Ribeiro que o teatro é pautado pela “exclusão de temas e de autores não europeus, o recurso a interpretações mais ou menos ortodoxas, mas sempre replicando o modelo inicial do texto teatral canónico europeu. O que o Griot tem feito no seu processo desobediente é em primeiro lugar apoderar-se dos textos canónicos e deles extrair a diversidade possível de interpretações e resoluções”, remata na obra académica “Negro por fora, vermelho por dentro”.

Para palco, têm levado encenadores, atores e outros artistas convidados. “Porque ninguém faz nada sozinho”, acredita Matamba Joaquim.

Assumem-se como ‘griots’ porque são contadores de histórias e assim eram chamados estes narradores em África. Reza a história que eram os responsáveis por firmar transações comerciais entre os impérios e comunidades e passar aos jovens ensinamentos culturais através dos contos dos seus antepassados. A palavra deles tinha o peso da escrita Cada palavra podia fazer avançar ou destruir, sabiam-no.

E estes novos ‘griots’ de Lisboa também o sabem.

Diz Daniel Martinho que hoje, griot, “já é quase um nome atribuído ao ator africano, como um contador de histórias”. Ele, soube “desde sempre” que lhe cabia esta missão, embora nem sempre o teatro tenha chegado para sobreviver e, por isso, tenha partilhado a vida no palco com trabalhos na construção civil.

Daniel Martinho é o membro mais velho da equipa e diretor da associação que deu origem ao Teatro GRIOT. Foto: Inês Leote

Uma palco que nasce na comunidade local

Antes do palco, das palmas e das ovações, o Griot já procurava ser um teatro da comunidade. Os atores fundadores começaram por dar à comunidade local negra, aspirantes atores e atrizes, as bases para, depois sim, poderem apreciar o seu teatro. E até fazerem do teatro também uma profissão.

A ideia ganhou asas em 2014 com o Projeto de Intervenção com a Komunidade (PIcK Griot), que os atores da companhia realizavam em paralelo com a sua atividade em cima dos palcos.

“Fizemos workshops, tivemos essa preocupação de formar novos públicos, novas consciências no teatro”. O ator Miguel Sermão lembra como grande parte do trabalho se fez junto da comunidade negra em Lisboa. Desenvolve-se sobretudo em bairros onde habitam estas comunidades, reforça Zia. “Esses que saem de manhã cedo para ir trabalhar e não tem vontade de, às seis ou sete da tarde, ir ao teatro, porque já estão cansados”. Abriram-lhes as portas e ofereceram formação de expressão dramática e dança.

Muitas destas pessoas, garante, são hoje o público do grupo. A proximidade com a comunidade envolvente continuou, embora tenha entretanto estagnado com a chegada da pandemia de covid-19.

“Esta proximidade com a comunidade é muito importante para a criação. Volta tudo para o palco.”

ZIA SOARES, diretora artística do Teatro GRIOT

Mas não só.

Estes Griots já levaram a missão à prisão de Caxias, onde cruzaram os mais jovens reclusos com Shakespeare.

“Fizemos ‘A Tempestade’ com jovens que estavam em regime fechado. Houve aqui uma transferência de valências entre aquilo que nós estávamos a desenvolver no nosso projeto com o Bruno Bravo [encenador] e aquilo que estávamos a desenvolver com aqueles miúdos num espaço de reclusão, que era, se quisermos simbolicamente, um espaço de ilha. Esta peça de Shakespeare passa-se numa ilha e eles eram reclusos numa.”

Ali entregam, mas dali também tiram, também aprendem: “Volta tudo para o palco”, confessa Zia. “Esta capitalização dos assuntos tornou-se vital para a própria investigação da companhia e a proximidade com a comunidade é muito importante para a criação”. Quer seja a vida dos jovens de Caxias, a das famílias afrodescendentes dos bairros da Grande Lisboa ou a dos idosos da freguesia da Misericórdia.

Numa parceria recente com esta Junta de Freguesia e a Universidade Sénior, o Teatro GRIOT foi ensinar artes performativas a quem sempre teve curiosidade de o experimentar e a quem a idade não trava vontades ou sonhos. “Acabámos por sair com muito mais do que aquilo que lhes levámos”, diz Miguel Sermão. “Tem a ver com as vivências, com muito que estava condensado e que se dilui ali para nós.”

Se dúvidas restassem, Zia diz que provaram que “a questão dos afetos é muito importante” para a vida em comunidade e para a criação. “A criação artística não pode ser uma prática alienada. E isto tudo permite que este seja um projeto laboratorial, de experimentação, de possibilidades artísticas sociais, políticas e filosóficas.”

E o que volta ao palco também pode voltar a sair dele. É o que acontece quando o GRIOT e a Faculdade de Letras de Lisboa se unem, para concretizar uma ou mais conferências depois de um espetáculo, sobre o tema nele refletido.

De braços esticados para o mundo, como os velhos ‘griots’

Matamba lembra aqueles “tempos ásperos” em que o sonho do GRIOT começou. “Não tínhamos nada, não tínhamos dinheiro.” Nem lugar para estar.

Ainda hoje a companhia salta de espaço em espaço, para ensaiar. As personagens do GRIOT já tiveram várias casas: Casa de Angola, a célebre escola Chapitô, o Clube Ferroviário. Até chegar “esta estabilidade”, que lhes permite serem residentes no pólo cultural das Gaivotas, em Lisboa, onde têm os escritórios e salas de criação.

A pouco e pouco, vão construindo um lar nesta cidade.

Embora admitam a vontade de viajar para fora dele. “Não estamos só a esticar os braços no palco, ao abri-lo a mais atores fora do GRIOT, estamos também a esticar os braços e já a tocar outros países”, conta Matamba Joaquim. Em 2013, logo um ano após a estreia, estiveram em Angola, onde todos nasceram, com o espetáculo “Faz escuro nos olhos”, agora foram a França e Bruxelas, e preparam-se para uma visita ao Brasil.

O contacto com o mundo cultural de outros permitiu-lhes a surpresa de saberem que são “um dos únicos casos da Europa” de uma companhia de atores negros. “Pensávamos que França, por ter muita representatividade negra, teria algo assim”, diz Matamba.

As ambições ganham asas, mas estes novos contadores de histórias mostram que é a partir de Lisboa, esta cidade multicultural, que querem traçar o destino das suas personagens.


Catarina Reis

Nascida no Porto há 26 anos, foi adotada por Lisboa para estagiar no jornal Público. Um ano depois, entrou na redação do Diário de Notícias, onde aprendeu quase tudo o que sabe hoje sobre este trabalho de trincheira e o país que a levou à batalha. Lá, escreveu sobretudo na área da Educação, na qual encheu o papel e o site de notícias todos os dias. No DN, investigou sobre o antigo Casal Ventoso e valeu-lhe o Prémio Direitos Humanos & Integração da UNESCO, em 2020.

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