Há quase um século, Louis Aragon publicou o esquisito e belo livro Le Paysan de Paris (1924), O Camponês de Paris. O passeio de um homem atento à sua aldeia, que calhava ser uma das capitais do mundo.

As melhores páginas, e algumas são soberbas, são sobre as arcadas comerciais e cobertas, perto da Ópera, Le Passage de l’Opéra, em vésperas de serem demolidas. Aragon vagueou à cata do quotidiano maravilhoso, as montras e os lojistas, os anúncios e os mirones, e fez um livro fundamental.

Impressionado por Le Paysan de Paris, Walter Benjamin, filósofo alemão e judeu, passou anos a fazer um tratado de economia, Arcades Project, sobre o significado dessas passagens ou arcadas parisienses, mecas do capitalismo triunfante do séc. XIX. Parecia um tratado, mas era essencialmente uma acumulação de objetos, figuras, reais e de cera, espelhos e tecidos… Para o filósofo, a factualidade era teoria que bastava. Enumerar os substantivos, coisas e pessoas, levava ao fio que as explicava.

Depois, sabemos que Walter Benjamin, fugido aos nazis e a caminho de Lisboa, porto de abrigo, se suicidaria nos Pirenéus, em 1940. E que Louis Aragon combateu os ocupantes alemães na Resistência francesa. As viagens e as passagens de então, Segunda Guerra Mundial, não eram para flanar, coisa que até lá já ambos tinham feito, muito e bem, por razões artísticas e científicas.

Aragon e Benjamin, por isso trago-os hoje aqui, gostariam da forma como Campolide, este sábado, se propõe contar-se, a si próprio. Mostrando as suas pessoas, os seus vizinhos, os seus fregueses.

Pessoas de Campolide, em Campolide

Se calhar, os dois célebres europeus dariam outros voos se escolhessem este bairro lisboeta para fazer uma obra. Certo é que ambos também iriam gostar da metodologia com que os locais decidiram retratar Campolide: deram prioridade aos factos, isto é, às pessoas.   

Este 16 de outubro, 18:00, na Praça de Campolide, abre-se a exposição fotográfica “Pessoas de Campolide”, olhadas pelo fotógrafo Manuel Falcão. Eis os tais factos: caras do bairro.

A praça do acontecimento é um jardim – e mais um outro, jardim vertical, no que foram traseiras sujas de churrascaria –, um quiosque, um parque infantil, bancos de convívio e o fim da linha do elétrico 24. Escrevo “o fim da linha” por liberdade poética, outra homenagem ao poeta surrealista que foi Aragon. De facto, o 24 é um recém ressuscitado elétrico que chega ali, respira fundo, dá a volta e regressa, depois de fazer o mesmo no Largo Camões.

Ao dar a volta, o 24 dá de caras com o centro comercial das Amoreiras, afinal, uma arcada comercial, de corredores e lojas, séc. XXI e lisboeta. Não vos disse que isto anda tudo ligado?

Mas vamos aos factos. Factos, factos, não lendas. Por exemplo, ao lado da churrascaria há um velho prédio. Foi construído pelo comerciante francês Jean-Pierre Genioux, em 1826. Velho, mas não tão velho assim: o edifício é posterior às invasões francesas. Albergou o estado-maior do marechal Saldanha, nas guerras entre absolutistas e liberais. 

O som da memória foi-se toldando, o nome do francês passou de Genioux para Ginot e, o leitor já está a adivinhar, dali a Junot (com o “u” lido como um “i” fininho e francês) foi uma tentação. Aquele nº 163 da rua Marquês de Fronteira passou a ser a residência do comandante da primeira invasão francesa.

O que não é verdade. O general Junot preferiu ir viver para o palacete do barão de Quintela, na rua do Alecrim, frente à que viria a ser, quase100 anos depois, a estátua de Eça agarrado à nudez forte da verdade com o manto diáfano da fantasia.

Azar, pois, o de Jean Andoche Junot! Não foi fotografado pelo Manuel Falcão, nem aparece na exposição agora inaugurada. Jornalista antigo, fundador do jornal Blitz e de O Independente e diretor da RDP2, Falcão, em vez do manto diáfano da fantasia de um general de Napoleão, preferiu a verdade nua, salvo seja, de 21 lisboetas de Campolide.

Assim, estes 21 foram oferecidos, em boa foto, aos vizinhos com quem tantas vezes se cruzam e raramente, porque a vida é assim, se cumprimentam. Fotografado foi o casal Albano e Celeste, de quem conheço a gentileza n’ O Apuradinho, o seu restaurante ao fundo da rua de Campolide. Ali, a pequena garrafa de Água das Pedras só se verte a três quartos e volta ao bar, para não estorvar a mesa do cliente. E os pratos sobem da cave com uma elegância nas mãos de dançarinos de tango.

Albano e Celeste Paciência são o casal que faz funcionar há 39 anos o restaurante O Apuradinho, na Rua de Campolide, uma casa de boa comida portuguesa, de clientela fiel onde não é difícil encontrar gente da política, do futebol ou da vizinha Universidade Nova. Foto: Manuel Falcão

A Adriana, marchante da Bela Flor, tantos anos de marcha de arco e balão, por puro bairrismo, e tantos anos à espera de um autocarro (que agora já há) que a libertasse do isolamento. Já cansava ter à porta o mais espetacular monumento de Lisboa, o Aqueduto das Águas Livres, e não ter a liberdade de um minimercado à mão.

Adriana Gonçalves, nascida e criada na Bela Flor, integrou a Marcha da Bela Flor durante 15 anos. Hoje já não marcha mas tem orgulho no seu Bairro e boas memórias das suas participações como marchante – e quando há marcha, sempre que pode, ainda dá uma ajuda à produção. Foto: Manuel Falcão

E os Luc & Duc, loja de esquina e marca sonora de dois nomes de imigrantes sábios. Chegaram da pátria dos gelados, perdão, gelati, com a consciência de que, quem chega, deve aprender com o que encontra– para fazer gelado de banana, esta tem de ser da Madeira, a melhor do mundo. E se chega, tem de ensinar o que trouxe: para gelado de avelã, esta tem de vir, e que não haja discussão, do Piemonte. 

Luc & Duc Vieram de Itália e escolheram viver e trabalhar em Campolide, onde abriram a sua loja de gelados há quatro anos. Queriam um sítio central onde pudessem ter clientes regulares e não apenas de passagem. Conseguiram essa clientela e conquistaram quem no bairro gosta de gelados artesanais. Foto: Manuel Falcão

E foto do maestro António Victorino de Almeida, 30 anos de Campolide e vida inteira a convencer-nos, como eu reconheço nele, que é genuíno o seu maravilhamento por viver. E foto da Felicidade, cabo-verdiana da ilha de Santiago, dona de uma tabuleta sincera: Peixaria da Felicidade.

E foto do Francisco, polícia da 21ª esquadra, na Marquês de Fronteira (ver foto abaixo), que me fez lembrar daquela vez em que, garoto, fugi de casa. Felizmente parei num café e dei com um polícia do bairro atento, generoso e que me aconselhou. Se calhar não foi bem assim, talvez eu esteja a confundir com um desenho do Norman Rockewell, na capa do jornal Saturday Evening Post, mas vocês sabem do que estou a falar…

Vizinhos atentos aos vizinhos.

A foto do ganda maluco do Alvim. O Telmo, a Kátia e a Catarina que, na pandemia, saíam à rua para fazer o bem. Camille, a basca vegetariana. A Tia Fátima, dito assim porque mãe de tantos. O cooperativista Luís, o galerista Mário, a Sandra das causas e a Lyudmila dos alfinetes.

Foto de Juliano, o presidente do Santana Futebol Clube, da calçada dos Sete Moinhos a olhar Monsanto. No ano passado, o clube fez um século e um dos fundadores foi o avô. E foto do Eládio que grava audiolivros, distribuídos pela Junta de Freguesia, com o mesmo profissionalismo com que transmitia festivais europeus. E… e… e fotos de 21 lisboetas de Campolide, amantes do seu bairro, cidadãos. Foto de cada um agora exposta aos seus vizinhos.

Numa das páginas de Le Paysan de Paris, Aragon conta que numa arcada parisiense, ao lado do marchand de selos, havia dois salons de cabeleireiro. Um para senhoras, com tabuleta a dizer  “Norma”, adequada a loja próxima da Ópera. No dos homens, sóbrio e de madeira sombria, a loja fazia-se anunciar pelos nomes dos sete barbeiros.

“Vincent, Pierre, Hamel, Ernest, Adrien, Amédée, Charles”. Barbeiros corretos, eles escanhoavam com apuro. Cortavam o cabelo e era tudo.

O fotógrafo Manuel Falcão propôs-se contar Campolide e fotografou 21 vizinhos. Parece uma lista, como o livro de Aragon e o de Walter Benjamin, mas, como esses livros, é mais: é uma teoria sobre um bairro. E é ainda mais: é uma prática cidadã.

“Um novo jornal”

O Manuel Falcão e eu já fomos do mesmo ofício em dois obscuros jornais, à volta da mesma rua, a Almirante Reis. Ele, fotógrafo no Voz do Povo, maoísta, e eu, escriba no Combate, trotskista. Depois profissionalizámo-nos, amainámos a ideologia e andámos por muitos jornais portugueses.

 Nunca fomos famosos como um qualquer pivô, mas tivemos um momento de glória que só uma daquelas notas levezinhas de jornais pode propiciar. Nos fins da década de 1980 (ou princípio de 90?), um semanário, não me lembro qual, noticiou, mais ou menos: “Os jornalistas Manuel Falcão e Ferreira Fernandes desciam a rua Garrett e falavam para quem quisesse ouvir sobre a necessidade de um novo jornal…”

Há dias, no cimo da rua Garrett, na esplanada de A Brasileira, eu e o Manuel falámos, em tom recatado, sobre um mal nacional. A da não generalização, à espanhola, do convívio quotidiano. A falta do encontro passageiro e frequente, à volta de uma antiga barrica já vazia a fazer de mesa, e os clientes de pé, à saída do trabalho, ou na esquina vizinha à nossa casa, para falar. Ou só ouvir.

Ou calados. Era assim que estávamos, calados, quando ele, que é de Campolide há 15 anos, me disse que ia apresentar tipos de Campolide ao seu, deles, bairro. Anunciava a tal exposição de que tenho estado a contar. E foi então que eu lhe disse que ando justamente a fazer o mesmo: a escrever sobre cidadãos que são o sal de Lisboa.

Quando nos despedimos, lembrei-me daquela vez em que descíamos a rua Garrett e fomos apanhados por um colega fofoqueiro. Agora, se calhar por sermos ainda menos importantes do que na década de 80 (ou 90?), não saiu em sítio nenhum uma breve sobre o nosso encontro. Mas, tenho a sensação, estamos a ser mais úteis e eficazes.         

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13 Comentários

  1. Absolutamente irresistível este artigo de Ferreira Fernandes, sobre Campolide e as suas gentes, contado pela máquina fotográfica de Manuel Falcão.
    Infelizmente, não se cuidou em criar uma escola de jornalistas que permitisse continuarmos a desfrutar de textos com alma e gente dentro, escritos com elegância, cidadania e cultura, como sempre faz Ferreira Fernandes.
    Por este e tantos outros textos, vale a pena continuar a apoiar a Mensagem de Lisboa. Muito Obrigado.

  2. De Campolide, um abraço para o escritor jornalista que não me conhece mas que eu conheço tão bem! Obrigada por ler a vida nesta cidade da maneira que o faz, dando ao nosso coração (ou alma?), vontade de respirar fundo. Um convite ao jornal: venham ver o que é o Bairro da Calçada dos Mestres, sob os arcos do Aqueduto, essa porta maravilhosa desta maravilhosa Lisboa.

  3. Boa Tarde, finalmente aparece Campolide, com as lojas e seus logistas que infelizmente já não são muitos. Vê se o comércio todo a fechar, até as caixas multibanco. Etc.

  4. Óptima descrição do velho bairro de Campolide, trabalhei durante 11 anos ligada às artes, algumas boas recordações

  5. Há algum tempo que não o lia. O prazer de ler textos que saem ass como se saíssem de um estalar de dedos. Eles sabem lá o que é ser jornalista.

  6. Ferreira Fernandes e Manuel Falcão, descobridores de almas, sem as quais não valia a pena haver cidade.

  7. A minha mãe com 78 anos já a última moradora do pateo do Gaspar, pateo centenário e camarário de Campolide,também ela lá nascida.Era uma grande família de vizinhos,do número 1 ao 15.Casinhas modestas,com história de bons valores.Perto da Igreja de St. António de Campolide, e do antigo quartel hoje faculdade. Bem haja por as lembranças q são muitas

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