Pedro Miguel tem uma loja em Campolide, mas passa a maior parte do tempo às voltas em Lisboa, na sua carrinha.

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É na Calçada da Quintinha em Campolide que o sapateiro Pedro Miguel começa a trabalhar, às oito da manhã, todos os dias. Mas antes de ir às meias solas e às capas, vai à internet. Pedro dedica algum tempo a atualizar as páginas do seu negócio, Sapateiro Expresso. No Facebook, as publicações são constantes e chega mesmo a fazer diretos, espécie de tutoriais, quando tem trabalhos menos comuns, como pintar sapatos. São dezenas de vídeos que dão a conhecer o seu trabalho.

Já era bastante, mas não é essa a sua principal diferença em relação aos sapateiros tradicionais: ao contrário deles, a maior parte do tempo não o passa na sua mesa de trabalho, na loja. A seguir aos trabalhos matinais, entra na sua carrinha – a mancha em tons de azulão e vermelho, que dá nas vistas à porta da loja. É esta a principal ferramenta do Sapateiro Expresso, que lhe permite fazer entregas ao domicílio. Porque não é só uma carrinha. É também a oficina móvel que faz reparações na hora e à porta do cliente: seja em casa ou no local de trabalho. 

No interior há tudo o que o sapateiro precisa: máquina de acabamentos e de costura, cavalete, compressor com pistola de pregos, gavetas com ferramentas, peles e sprays. E aí vai ele, Pedro, tem calçado, malas e entregas para fazer. “A seguir vou até à Portela entregar cinco malas arranjadas a uma cliente. E as capas antiderrapantes num par de Louboutin, os Ferrari dos Sapatos!”  

É caso para dizer: se os sapatos não vão até ao Sapateiro, vai o Sapateiro até aos sapatos. Há uns anos, ainda antes da pandemia, Pedro Miguel criou este modelo de sapateiro ao domicílio. Por isso, também em pleno confinamento, os sapatos não lhe dão descanso.  No primeiro confinamento teve novos clientes. Gente fechada em casa, que achou “muita piada ter o sapateiro à porta de casa.” Pessoas que, de repente, em casa, se aperceberam da quantidade de sapatos que tinham para mandar arranjar e da oportunidade de requisitar os serviços do Sapateiro Expresso. Pedro conta, entre sorrisos: “Tive administradores de bancos a ligarem-me porque tinham sacos com 20 sapatos para arranjar”.    

Um sapateiro digital e empreendedor

Pedro Miguel escolheu ser sapateiro em 2003. Estava desempregado há algum tempo, e decidiu-se a frequentar um estágio de formação profissional de reparação de calçado e duplicação de chaves num programa do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP).  Vivia em Queluz de Baixo, mas acabou por regressar ao seu bairro natal, à porta 3A da Calçada da Quintinha, em Campolide. Foi regressar a “casa”. Nascido e criado nesta rua, montou a loja no espaço de um antigo café. “Na altura em que vim para aqui, existiam 5 sapateiros e em tom de brincadeira costumam dizer que eu matei a concorrência toda!”

Logo nesse ano apostou num serviço diferente: as recolhas e entregas no local de trabalho. Começou com um escritório de advogados nas Amoreiras, mais tarde surgiram outros escritórios interessados nos serviços do Sapateiro Expresso e rapidamente percebeu que “haveria potencial.” Mais tarde, as pessoas começaram a pedir os “serviços na hora” e ele, bom comerciante, a ter de dizer que “não era possível”. Tudo o não se gosta de dizer a um cliente. Pedro Miguel tinha de recolher o calçado, repará-lo na oficina e regressar depois para entregá-lo. 

Pedro na sua carrinha toda equipada para qualquer arranjo.

Um dia, teve uma ideia. Chegou a casa, e falou com Ana, sua mulher, sobre a ideia de criarem uma oficina móvel. Pedro não descansou, à procura de apoios e incentivos para implementar este projeto inovador. Mas não foi fácil e em maio de 2014 arrumou a ideia “na gaveta”. Levou algum tempo até receber uma autorização para candidatar-se a um microcrédito.

E assim foi: em janeiro de 2015 nasceu a oficina móvel do Sapateiro Expresso. “O primeiro cliente da oficina móvel foi a RTP.” Em tempos de normalidade, Pedro Miguel às quartas vai aos escritórios de advogados de Proença de Carvalho, à quinta, ao Ministério da Educação e à sexta à RTP . Em parceria com estas instituições, Pedro estaciona a carrinha num local estratégico onde os trabalhadores passem com frequência e se apercebam da sua presença. As empresas disponibilizam o espaço e os trabalhadores aproveitam a conveniência. Também os hotéis de Lisboa, como o grupo Pestana, Hotel Ritz e InterContinental solicitam-no quando os clientes precisam.

Redes sociais contra a pandemia

De há um ano para cá, muito mudou, claro. Mas o negócio de Pedro resistiu. “Vale-me de muito a forte presença na economia digital”, conta. O Sapateiro Expresso Móvel circula por Lisboa e grande Lisboa, mas nas ruas vazias, para dar a conhecer o projeto, as redes sociais são importantes ferramentas de trabalho. A oficina móvel está à distância de um clique, sendo que, para além de ser possível contactar via telefone, também é possível fazê-lo via site, e-mail, Facebook, Twitter ou Linkedin. 

Num post do Facebook do Sapateiro Expresso lê-se: “Pequenos passos, grandes jornadas (…) Passo a passo pé ente pé”. Para Pedro a forte aposta no digital é fundamental. “Em tempos de crise temos de nos adaptar, ser flexíveis e resilientes. Se há coisa que aprendi neste último ano é que em tempos negros e de crise tenho de me reinventar mesmo quando já não há nada para inventar.”

Ou seja: o digital do Sapateiro Expresso é a montra principal do serviço. Entre um pouco da história, um vídeo de apresentação, serviços e parceiros, há espaço para novas sugestões. O negócio já conta com mais de 40 parceiros entre eles a Câmara Municipal de Lisboa, Grupo Renascença Multimédia e Secretaria-Geral da Educação e Ciência. 

A ideia da carrinha surgiu quando os clientes queriam ter arranjos rápidos.

Mas Pedro Miguel não fica por aqui. Apologista de que o comércio local não pode nem deve ser esquecido, é administrador da página de Facebook Comércio de Campolide que procura estimular e dar a conhecer o que se faz na freguesia. 

Um sapateiro premiado

Em 2016, Pedro Miguel foi finalista no concurso de empreendedorismo Acredita Portugal. Foi também finalista dos prémios EBA – European Business Awards na categoria Ones to Watch for Portugal em 2018 e 2019, ano em que foi convidado para um pitch de empreendedor do ano da cidade de Lisboa no âmbito do Prémio João Vasconcelos.  Este prémio procura promover um espírito empreendedor e de iniciativa, a inovação e valorizar os empreendedores de acordo com o seu potencial do negócio e perfil.

Nestes tempos de pandemia, Pedro Miguel reforçou as medidas de segurança: os clientes não entram na carrinha e é tudo pré-pagamento, podendo-se optar por pagar com dinheiro ou mbway.  Mesmo no bairro que é o seu de coração, o sapateiro tornou-se apoio à população mais idosa: além de ir ao domicílio, repara muito calçado adaptado e adequado às necessidades de cada pessoa, evitando assim a compra de novos sapatos. E é visível o orgulho na modernidade do seu trabalho.

  • Joana Mendes é estudante da Universidade Nova de Lisboa/FCSH e está a fazer o seu estágio no projeto Correspondente de Bairro. Ribatejana, veio para Lisboa para estudar e matar algumas curiosidades sobe o mundo: era a menina dos porquês. E continua curiosa, para descobrir realidades, conhecer e contar histórias. Este texto foi editado por Catarina Reis.

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3 Comentários

  1. Muitos parabens conheço esse senhor de sossesso têm que se Dar o valor a estes lutadores muito obrigado

  2. O artigo está muito bem escrito, está interessante e é original. Na minha opinião, é de profissinal e merece reconhecimento. Parabéns à autora!

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