Foto: Líbia Florentino

Nascido e criado em Campolide, o Sr. Januário é mais antigo que o próprio bairro. Quando nasceu, Campolide nem existia: era da Junta de Freguesia de São Sebastião da Pedreira. O atual nome surgiu apenas em 7 de fevereiro de 1959, como lembra o porta-chaves dourado com o emblema do bairro e a imagem do Aqueduto das Águas Livres, que ele mesmo mandou fazer. Isto porque, depois do 25 de abril, Januário tornou-se não um mero morador, mas também vogal do executivo da Junta de Freguesia.

E assim foi por 12 anos. “No primeiro recenseamento que houve na Junta, era vogal. Fiz, inclusive, o levantamento dos presos para irem votarem”, lembra-se. Hoje é uma das figuras mais conhecidas do bairro que conhece pelas suas mãos. Daquelas memórias vivas da cidade e que a cidade não perde porque estão sempre a passar a sabedoria para os outros. Neste caso, com a autoridade de quem literalmente viu Campolide nascer, usa uma uma caneta de tinta preta e uma folha branca para ir desenhando as ruas de Campolide, ilustrando para a jovem jornalista as alterações promovidas pelo tempo no seu bairro.

Foi no pátio de Villa Motta, no número 8 da Rua Soares dos Reis, em Campolide, que Januário Gomes da Costa nasceu, há 88 anos. A mesma Villa da Motta onde vive ainda hoje, não mais no pátio com a arcada em cor de vinho tinto e tijolos brancos, mas um bocadinho mais abaixo. É lá, sentado em sua sala de estar, que o senhor Januário apaga a televisão para acender as muitas memórias de um homem que viu guerras, revoluções e, garantidas as duas doses da vacina contra a covid-19, espera atravessar uma pandemia.

Entre elas, o Campus de Campolide, onde funcionam algumas das faculdades da Universidade Nova de Lisboa.  “Foi uma grande obra para a freguesia”, reconhece. “O Palácio da Justiça também é do meu tempo”, complementa, a caneta preta traçando o passado na folha alva. Lembra-se ainda das antigas portas de Campolide dos seus tempos de miúdo e do Estádio das Amoreiras, onde jogava o Sport Lisboa e Benfica. “Agora, é o colégio francês Charles Lepierre.”

Luta pelos reformados e pensionistas do bairro

Os tempos de vogal ficaram para trás, mas Januário Costa ainda não se cansou de contribuir para o bairro onde nasceu e que viu nascer. Hoje, é membro da Assembleia da Junta de Freguesia, na Rua de Campolide, tendo sido o autor do emblema desenhado no pavimento à entrada da Junta.  “Depois de ter sido convidado para um almoço na Junta de Freguesia de Alcântara e de me ter apercebido que existia uma associação de apoio aos reformados, fiquei com o bichinho de que Campolide também podia ter uma”, explica.

Januário diante da Associação de Reformados e Pensionistas de Campolide, do qual foi o fundador. Foto: Líbia Florentino

Falou com o presidente da Junta na altura. Saiu um: “avança” e a cedência de uma sala na sede para abrigar a associação. “Marquei uma reunião, chamei uma série de reformados que conhecia e disse que queria avançar com esse projeto”, conta. E assim, em 14 de dezembro de 1999 teve lugar a primeira Assembleia Geral, na qual foram eleitos Corpos Sociais da Associação.

O primeiro passo para que, um mês depois, fosse fundada a Associação de Reformados e Pensionistas de Campolide, que procura dinamizar a vida de reformados e pensionistas do bairro – cada vez mais, dado o envelhecimento da cidade – através de atividades para preencher o tempo livre e, é claro, criar laços de amizade, como manda Lisboa num bairro tradicional.

Foi também obra de Januário a criação do coral da associação, composto por 15 elementos e que soma um histórico de apresentação nos últimos anos, como as festividades de encerramento dos Santos Populares no arraial da junta, mas também em atuações em escolas primárias e no Centro Social Paroquial de São Vicente de Paulo.

Januário, na sede da Associação, à espera da retoma dos eventos pós-confinamento. Foto: Líbia Florentino

O confinamento emudeceu temporariamente o coral, mas o senhor Januário não esconde a ansiedade pela retoma. Num canto da casa guarda um recorte de jornal com todas as datas e medidas do plano de desconfinamento. Os ensaios começam no mês de maio, “isto se a pandemia deixar”, ressalva.

Passeios e almoços são outras das atividades planeadas pela Associação. “Temos um acordo com o restaurante Valenciana, que nos recebia, de três em três meses, para um almoço que costumava reunir entre 50 a 60 pessoas”, recorda. A pandemia também encerrou os encontros, assim como as portas da associação. No mesmo recorte de jornal estuda as datas para o reinício das atividades e o retorno aos almoços trimestrais na Valenciana.

Algumas passadeiras que encontramos nas ruas de Campolide espelham o bairrismo de Januário. Como? Conta que Campolide não tinha passadeiras e era uma eterna preocupação. Chegou a desenhar, como faz com a caneta no papel, passadeiras clandestinas. A da Calçada dos Mestres é uma delas. “Depois, outras fizeram-se por intermédio da Câmara”, explica.  

O bairrismo de Januário orientou-o também para que fossem estabelecidos os sentidos de circulação de automóveis na Calçada dos Mestres onde, durante muito tempo, não existiam quaisquer limites. “Passei uma tarde inteira, eu e um fiscal, a estabelecer os sentidos de circulação de cada rua. Agora está como deve ser”, diz, sempre orgulhoso.

Januário e as vitórias contra o relógio

Pode haver um segredo na energia desde octogenário: talvez se explique pelos anos dedicados ao atletismo, uma de suas grandes paixões. Em 1954, foi campeão nacional dos 400 metros, no Porto, defendendo os juniores dos Belenenses. O feito levou-o a diretor da secção de atletismo no clube do bairro vizinho. Uma experiência que lhe serviu para posteriormente treinar, por uma década, os atletas do Centro de Atletismo do bairro querido, em Campolide.

Tem uma vitrine coberta de medalhas e taças das conquistas na disputa com o relógio, e na sua casa uma pasta com papéis e fotografias. Entre os registos, um que enaltece a conquista no Porto. “Nos Campeonatos Nacionais de Juniores, Januário Costa concretiza a superioridade dos Belenenses, terminando a sua corrida numa explosão de energia”, lê, orgulhoso, o filho de Campolide acostumado às vitórias contra o tempo.


*Joana Mendes é estudante da Universidade Nova de Lisboa/FCSH e está a fazer o seu estágio no projeto Correspondente de Bairro. Ribatejana, veio para Lisboa para estudar e matar algumas curiosidades sobe o mundo: era a menina dos porquês. E continua curiosa, para descobrir realidades, conhecer e contar histórias. Este texto foi editado por Álvaro Filho.

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