Quem sabe se, numa viagem pelas terras de Portugal, já nos teremos cruzado com Maria Hibisco. Se até guardamos no telemóvel uma fotografia onde António Magnólia e Afonso Castanheiro da Índia integram a paisagem. Não são pessoas, são árvores. Mas com nome de gente. A ponta de uma missão maior para combater as alterações climáticas nas cidades.

Diz Laura Lorenzo, engenheira agrónoma a viver em Lisboa, que o cuidado que devemos ter com a natureza parte da construção de uma relação mais íntima com ela. “As pessoas nem se lembram que as árvores lá estão.” Nas nossas avenidas, à porta de casa. Por isso, dar-lhes o nome de alguém da cidade pode ser o laço que os cidadãos precisavam. E o mote para transformar o seu bairro em mais verde e mais saudável.

Esta é uma das muitas missões do movimento cívico Green City Makers, fundado por Laura há pouco mais de oito meses, tendo em vista a criação de pequenos gestos comunitários para fazer frente ao problema que mais assombra a existência de vida na Terra: as alterações climáticas.

Uma batalha que nasce em Lisboa, para todo o país e toda a Europa.

A espanhola que quer mudar as cidades

O sotaque denuncia-a. Laura é espanhola, natural de Barcelona, do bairro de Eixample, onde jaz a Sagrada Família. “Um bairro com ilhas octogonais, como Campo de Ourique”, onde mora há sete anos. Este é o seu “pedacinho de Barcelona em Lisboa”.

São sete anos que soam a eternidade, para quem, desde cedo, se habituou a saltar de país em país, cidade em cidade, atraída pela diferença que de cada uma emana. Nenhuma como Lisboa, confessa. “Sempre fiquei atraída por Lisboa e em 2012 até comecei a estudar português em Barcelona. Tem um quê de romântico decadente, é mágica, e dona de uma personalidade que não encontro noutra cidade.” Por isso, chegar para cá morar em 2014 foi “o realizar de um sonho” já antigo.

Laura acredita que “a cidade que faz bem é aquela em que todos participam na mudança – e não só a Câmara”. Foto: Orlando Almeida

A Lisboa, viu-a verde, apesar do betão que se ergue cada vez mais em toda a cidade. “Tem o espaço verde muito bem conseguido”, embora possa “fazer muito mais”.

Di-lo com a experiência profissional às costas, alguém que se dedicou a estudar a cor e o ar das cidades. Licenciada em Engenharia Agrónoma, estudou também Políticas Territoriais de Urbanismo na Catalunha e Antropologia na Universidade Stanford (EUA).

Depois decidiu que o caminho deveria ser mais tecnológico e ainda se aventurou num MBA em Serviços, Inovação e Design na Finlândia. Foi a esta última área que dedicou grande parte da sua vida profissional, chegando a trabalhar “num dos maiores unicórnios portugueses”. Até se ter despedido, no ano passado, estava ela no auge da sua carreira, como oradora em palestras internacionais.

“De repente, mudei o chip. Parecia-me ridículo estar a trabalhar para fazer os ricos mais ricos. O foco era a escala, como é em todas as grandes empresas.” E Laura estava consciente de que esta mentalidade em nada ajudava aquilo em que aprendeu a acreditar ao longo dos anos: defender o Planeta, a natureza.

O despedimento foi a epígrafe do que, meses depois, viria a tornar-se o Green City Makers. “Decidi que queria dedicar a minha energia ao combate contra as alterações climáticas.” E assim foi.

As cidades estão a morrer

Sem nome. Foi assim que o movimento foi nascendo. A primeira batalha saiu à rua em dezembro, mas já com muitos soldados. Soldados dispostos a recolher os pinheiros de Natal usados para serem compostos e evitar que o seu destino fosse o aterro. “Uma coisa que se faz em Barcelona há décadas”, conta Laura.

Em Lisboa, onde decorreu a iniciativa, abriram-se sete pontos de recolha e foi possível juntar 31 mil árvores numa só semana.

Laura já lhes decidiu o destino: dentro em breve, o que resultar desta compostagem será utilizado na plantação do que chama uma “tiny forest”. “Uma metodologia criada pelo botanista japonês Akira Miyawaki, nos anos 1970, que consiste em reproduzir a estrutura de uma floresta a uma escala pequena”, como indica o nome. Tudo com árvores autóctones e no meio da cidade, mais propriamente em Alvalade, onde esta pequena floresta terá lugar brevemente, no Bairro das Caixas.

Será feita por lisboetas e para lisboetas, o culminar daquela que é a missão primordial deste movimento: tornar os cidadãos agentes ativos da mudança.

As vantagens para o ar que se respirará por estas bandas depois desta floresta são já do velho conhecimento da ciência. Bastaria plantar seis árvores num mês para compensar as emissões de dióxido de carbono produzidas, levando em consideração a média anual global de cerca de seis toneladas de dióxido de carbono por pessoa.

Além disso, o Plano de Ação Climática (PAC), apresentado no início de agosto e colocado em debate público, já nos deixava este aviso: ter árvores nas cidades permite o arrefecimento da temperatura urbana, ao criar maiores zonas de sombra. Por isso se prevê, neste plano, um redefinido esboço da cidade, em que entram novas árvores.

Antes da chegada desta floresta, Laura Lorenzo quis largar-se à deriva numa, durante quatro dias. Aconteceu em março deste ano, ainda o movimento não tinha nome e as suas diretrizes estavam por definir. Laura foi para o terreno, para o meio da natureza, para observar, repensar e aprender. “Parecia-me estranho ser uma empreendedora na área das alterações climáticas e estar fechada na cidade a decidir.”

Nesta altura, teve oportunidade de assistir a uma conferência online da European Forest Institute – uma organização internacional com 29 países e 120 organizações membros -, focado no papel das árvores nas cidades. “Foi aí que percebi tudo.” Ao ouvir uma cientista, Dagmar Haase [agora parte da equipa deste movimento], que apresentava as conclusões de um longo trabalho realizado no sul da Alemanha: “se as coisas continuam assim, as árvores da cidade não vão sobreviver, independentemente da idade que tenham”.

A seca não é mito e os períodos de precipitação desregulados estão a levar as árvores ao limite. O estudo divulgado nesta “Urban Forestry Days Conference” mostrou que as árvores do meio urbano deverão morrer nos próximos cinco a 10 anos, se nada for feito. Sobretudo aquelas que se situam em passeios, porque são também aquelas que têm menor irrigação.

“Aí soube o que tinha que fazer. Esta era a minha missão e fui ouvir as pessoas da cidade.” De repente também, o nome: Green City Makers, aludindo aos fazedores da cidade, à ideia de que todos podemos ajudar a mudar.

E se os lisboetas regassem árvores a caminho de casa ou do trabalho?

A pergunta pode soar estranha. “Mas porque é que tenho de ser eu. Devia ser a Câmara a fazer isso”, Laura adivinha a resposta de muitos. “Porque nem sempre devemos esperar pelas autoridades locais”, responde prontamente. Até porque, sabemos, o relógio põe-nos a cada dia menos próximos da meta no que toca a salvar o Planeta. “Quando falo com equipas técnicas, percebo que há limitações, apesar de haver boas intenções. Faltam recursos, faltam políticas de ação”, frisa.

Por isso, lança o desafio através do movimento que criou: que os cidadãos arregacem as mangas, porque qualquer gesto, por muito pequeno que pareça, “fará a diferença”.

A cientista alemã lançou o alarme e Laura não lhe ficou indiferente. A irrigação de árvores nas cidades seria a sua próxima missão. Assim, numa campanha de verão que dura até 30 de setembro, o Green City Makers convida os moradores das cidades a regar as árvores por onde passam. “Quase todos levamos uma garrafa de água connosco quando andamos. E se, no final do dia, sobrar e pudermos dá-la a uma árvore?”, lança o desafio.

“As pessoas esquecem-se de uma coisa básica: porque é que temos oxigénio? Porque há plantas, porque há árvores. Somos todos uma comunidade, um sistema em que cada um tem o seu papel”

Laura Lorenzo, Green City Makers
A irrigação das árvores da cidade foi o desafio que Laura lançou à Europa, a partir de Lisboa. Foto: Orlando Almeida

O registo pode ser feito no site, seguido pela seleção de uma árvore de passeio perto da zona de residência que não tenha irrigação. Depois disso: o compromisso de a regar regularmente e garantir que sobreviva.

Quem participar não estará sujeito a mínimos de quantidade de rega, sendo que “cada gota conta”. Entre meio litro e um litro por dia será o suficiente. Cada pessoa pode adotar uma ou mais “tree buddy” (árvore amiga), como lhe chamam. E cada uma destas árvores pode ter mais do que um padrinho também. As árvores jovens estão mais suscetíveis ao stress hídrico, por força de um sistema radicular (auxilia na eficiência da absorção de água e nutrientes) muito superficial, mas “todas precisam”, reforça a fundadora.

A maioria dos participantes nesta iniciativa que o movimento tornou europeia está em Portugal e Espanha. Mas também não é em Lisboa que se concentram estes ativistas regadores. É “mais a Norte” de Portugal que os encontramos. Laura explica que é tudo uma questão de coordenação com as autarquias, a quem pedem a divulgação deste plano para salvar as árvores da cidade, e que “as [autarquias] mais pequenas são mais ágeis”.

É por esta razão que Lisboa também ainda não é cidade aderente deste movimento (envolvidas na divulgação), mas apenas “circunstancial de lugar”, a cidade onde tudo se começou a pensar.

Rua Cidade de Liverpool e um jardim de várias mãos. Foto: Rita Ansone

No final de contas, o objetivo é “chegar às pessoas” e aproximá-las das árvores que as rodeiam, para que deixem de ser invisíveis. “As pessoas esquecem-se de uma coisa básica: porque é que temos oxigénio? Porque há plantas, porque há árvores. Somos todos uma comunidade, um sistema em que cada um tem o seu papel”, lembra Laura.

A próxima ideia é aliar os seus conhecimentos tecnológicos à luta que escolheu para os seus dias: “Uma app que vai conectar a árvore com estas pessoas, para saberem de quanta água está a precisar, através de um cálculo exato. A app lembraria a pessoa: ‘Olá, João. Hoje está muito calor. Tem cuidado e, se puderes, passa aqui com a tua garrafinha’. Para estabelecermos esta empatia com as nossas árvores.”

Fazer de uma árvore cidadã

Empatia é mesmo palavra de ordem para este movimento que Laura lidera. Diz-se que quem vê caras não vê corações e quem vê árvores “não sabe o que ela vale até para si”. Laura pensou resolver isto dando-lhes um nome, com a ajuda dos cidadãos e das autarquias.

Por isso é que temos uma Maria Hibisco e um António Magnólio em Braga. Ou um Remédios Carvalho em Vila do Conde. O primeiro nome é o de uma pessoa, o segundo o tipo de planta que é. As autarquias definem as árvores que necessitam de rega e colocam-na em cartaz com o seu nome.

Em Vila do Conde, conta Laura, escolheram dar nomes inspirados pelo tecido comercial envolvente. Depois, há lugares que optaram por homenagens a pessoas idosas que morreram devido à covid-19 (em Teruel, Espanha) ou até mesmo a bebés que nasceram durante a pandemia, como aconteceu em Cárceres (Espanha).

“A cidade que faz bem é aquela em que todos participam na mudança – não só a Câmara”

Laura Lorenzo, Green City Makers

O importante é fazer destas árvores também elas cidadãs. “Sempre envolvendo as pessoas”, porque é na fórmula comunitária que esta empreendedora acredita. Embora aqui considere que há uma cultura de espírito mais comodista. “Cada vez vejo mais as pessoas viradas para o tema. Mas, em Portugal, falta que as pessoas sejam mais vocais. Aqui, custa muito começar qualquer coisa. Em Barcelona, por exemplo, basta dizer e todo o mundo está logo a trabalhar, por isso é que há tantos movimentos cívicos por lá.”

Ainda assim, na hora de comparar quem faz mais por esta missão que acarreta, Laura diz não haver exemplos perfeitos. Para ela, “a cidade que faz bem é aquela em que todos participam na mudança – não só a Câmara”. E, nisso, garante, “ainda não há exemplo nenhum”.


Catarina Reis 

Nascida no Porto há 25 anos, foi adotada por Lisboa para estagiar no jornal Público. Um ano depois, entrou na redação do Diário de Notícias, onde aprendeu quase tudo o que sabe hoje sobre este trabalho de trincheira e o país que a levou à batalha. Lá, escreveu sobretudo na área da Educação, na qual encheu o papel e o site de notícias todos os dias. No DN, investigou sobre o antigo Casal Ventoso e valeu-lhe o Prémio Direitos Humanos & Integração da UNESCO, em 2020.

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2 Comentários

  1. Vou começar a regar uma árvore no bairro onde vivo. Perto da que acabo de eleger há dois comerciantes e vou tentar convencê-los a fazer o mesmo.

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