Já não me lembro se é de Tolstoi ou de Golding a frase “as piores guerras são entre vizinhos, quanto mais próximos mais violentos”. Talvez não seja de nenhum deles. Talvez a autoria pertença à vendedora de fruta ambulante que, aqui na rua, usa as rivalidades de uns para vender os últimos quilos de cerejas cobiçados pelos outros. 

Assisti à neutralidade cobarde na II Guerra Mundial, Hiroshima ecoou-me dentro da cabeça, Vietname saiu do transístor na voz de uma BBC ilegal e demasiado britânica para ferir com as palavras, a das Colónias esmagou-me um joelho que nunca voltou a ser articulação, mas não me lembro de guerra que se compare em violência àquela que opunha os miúdos do bairro do Caramão aos do Casalinho da Ajuda.

Ir para a escola era mais dez minutos de caminho, contornando o território do adversário. Se atrasados, preferíamos oferecer as mãos às reguadas do que o corpo aos socos. Atados ao tronco do velho limoeiro, regado pela urina daqueles que mijavam pernas abaixo, temíamos mais o Punhos de Ferro do que a disciplina imposta pela educação salazarista. Salazar dobrou a espinha de muitos, mas o Punhos de Ferro partiu costelas que nunca cicatrizaram e rangem ainda hoje com as oscilações meteorológicas.

As fronteiras do bairro eram demarcadas pelo medo – não conheço melhor sentinela – e as técnicas de guerrilha sofisticadas. Nos Santos Populares, os do topo da rua montavam vigia aos intrusos, ladrões de lenha para as fogueiras das festas. A câmara de ar enganchada no pau bífido, acabada de roubar à bicicleta parada em frente à igreja, fazia pontaria a cada movimento suspeito. Os crescidos empurravam o mais ágil e pequeno para o meio da estrada, a lebre armadilhada que apanharia o inimigo. Atraídos, viam-se na mira das fisgas, caçadores feitos caça, e as cabeças sucumbiam à perfeição dos arcos ogivais dos projéteis.

Poucos calculavam as fórmulas nas sebentas, mas eram exímios na matemática dos murros. Massa. Aceleração. Força. Leis de Newton, testadas sempre à razão da pontaria, prevaleciam na sucessão das linhagens dos chefes. Sem búzio – objeto mágico do poder -, mas com um guarda-chuva ferrugento, o Arqueiro foi quem se manteve por mais semanas no trono.

Saudoso Arqueiro. Chegou ao bairro quando as fundações da primeira travessia do Tejo o desalojaram de Alcântara. A família ergueu uma barraca perto da lixeira e, entre o lixo, escolhia as varetas que melhor se pareciam com flechas. Nunca o vi errar um alvo. O segredo não estaria na firmeza da mão que retesava o arco: “Tens de saber porque acertas”, dizia. Ganhou fama, menos pela pontaria, mais pelo código moral que o norteava, excêntrico aos olhos de garotos territoriais.

Como o outro de Sherwood, o Arqueiro tinha os valores dos ladrões de bom coração: só roubava sapatos a quem tinha pelo menos dois pares, para os oferecer aos descalços da rua. Ganhava, com a troca, moços de recados fiéis, um exército obediente disponível à voz de comando. Foi alistado com eu, mas ao contrário de mim – que fiquei na messe a arear as panelas – foi para a frente fazer pontaria aos turras. Dizem que falhou o tiro e foi morto no ressalto. Na certa, não saberia porque lutava.


Filipa Martins

É escritora. No seu primeiro romance, descreve a plumagem do Passeio Público e, no segundo, as saudades dos que partiram do Cais das Colunas. Os cafés de Lisboa são escritórios convenientes e o rio o repouso dos olhos.

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