Em menos de um mês, uma onda de calor com temperaturas nunca antes registadas assolou o Canadá e enormes cheias invadiram o centro da Europa em pleno verão. Ambos os fenómenos deixaram centenas de mortos, relevaram a falta de preparação para os fenómenos que decorrem da crise climática. Na verdade estes acontecimentos fizeram soar mais alto o «tic-tac» de um relógio cujo compasso temos de acompanhar se não queremos piorar drasticamente a nossa qualidade de vida.

Não por coincidência, a C40 Cities – a rede de cidades de que Lisboa faz parte, e à qual apresentou o seu plano para mudanças até 2030 – acabam de lançar um relatório com 15 ações de alto potencial para a adaptação das cidades às alterações climáticas elaborado pela consultora McKinsey. O relatório chama-se “Adaptação Focada: uma abordagem estratégica à adaptação climática nas cidades”. O objetivo: que sirva de orientação aos líderes das cidades por todo o mundo.

“Em 2050, 685 milhões de pessoas em mais de 570 cidades podem sentir mais de 10% de dificuldade em encontrar água potável”

Relatório C40/McKinsey

O que podemos fazer? E que caminho devia tomar, já, Lisboa?

O relatório defende que as cidades devem assumir que estamos em guerra. Como em estado de guerra, sendo que o inimigo é o rápido crescimento da crise climática e que se devem preparar para o pior. Que aliás, como vimos, já chegou.

“As cidades estão no momento de fazer escolhas sobre investimentos para adaptar-se. E deparam-se com uma gama estonteante de opções sobre onde investir dinheiro, tempo e intenção”, disse Brodie Boland, um dos co-autores do relatório e um especialista da McKinsey em risco climático ao jornal online sobre cidades City Lab, da Bloomberg. “Queríamos fornecer um guia para que os líderes das cidade pudessem ter uma noção do problema e começar. Em vez do modo de planeamento, estamos no modo de ação imediata.”

Lisboa integra o Grupo C40 de Grandes Cidades para a Liderança Climática – é umas das 97 cidades articuladas numa rede por esta ONG que pretende desenhar estratégias de adaptação e mitigação das alterações climáticas.  

Cidades: a vulnerabilidade explicada em três números

Criar uma rede de cidades para enfrentar a crise climática não é despiciendo. Se os centros urbanos têm uma maior pegada ecológica, também são eles os mais vulneráveis às consequências das alterações do clima.

Desde logo devido à elevada densidade populacional. É que mais de metade da população mundial habita em zonas urbanas e essa estimativa ainda vai subir até aos 68% nos próximos 30 anos, aponta o mesmo Relatório.

“Em áreas de rápida urbanização, e pobreza, famílias e bairros degradados estarão em zonas de alto risco e áreas mais expostas”

Relatório C40/McKinsey

Além disto, os imensos edifícios e estradas nas cidades absorvem e reemitem o calor do sol, criando «ilhas de calor» nas áreas mais urbanizadas. A excessiva urbanização tem ainda o problema de motivar a construção desmesurada em zonas informais, sem qualquer planeamento, e de casas de baixa renda, com piores materiais. Por isso, uma parte da população, economicamente mais frágil, estará ainda mais exposta aos fenómenos climáticos extremos, indica um relatório da ONU de 2018.

Uma última estatística: 90% das zonas urbanas situam-se junto à costa. O que é o mesmo que dizer que a maioria das cidades estão perigosamente expostas a inundações costeiras.

2.9 triliões de dólares é o dinheiro perdido mundialmente entre 1998 e 2017 por causa de desastres climáticos. “Sabemos que os custos de remediar mais tarde são muitos mais elevados do que os custos de prevenir deste já os riscos climáticos”, assinala Francisco Ferreira, Presidente da ZERO- Associação Sistema Terrestre Sustentável.

O sol não aquece para todos da mesma maneira

Quando falamos de alterações climáticas, falamos de algo mais abrangente do que aquecimento global, porque inclui indicadores como a temperatura, a intensidade das chuvas e os fenómenos climáticos extremos, como ondas de calor e furacões.

Os cinco riscos decorrentes das alterações climáticas destacados pelo Relatório são precisamente:

  • calor extremo,
  • seca,
  • incêndios florestais,
  • inundações interiores e
  • inundações costeiras.

Portugal não está imune a nenhum deles. Lisboa sofrerá mais com calor extremo e inundações costeiras.

Mas, tal como frisado pelo estudo, estes riscos não afetarão toda a população da mesma forma. Pessoas em condição de pobreza e com salários mais baixos, pessoas com dificuldades de mobilidade, crianças, mulheres, idosos e outros grupos minoritários são os mais vulneráveis.

Isto é dizer que todos estamos desprotegidos. Seja porque fazemos parte de algum destes grupos, seja porque provavelmente todos temos pessoas num círculo próximo que pertencem a estes grupos, seja porque os fenómenos extremos afetam a sociedade como um todo.

Adaptação e mitigação são, portanto, as palavras-chave não só para o futuro das nossas cidades e das novas gerações, como também para o nosso presente.

Para grandes problemas, soluções corajosas

O principal objetivo do Relatório divulgado esta semana é apresentar estratégias de adaptação e mitigação, ou seja, diminuição dos perigos que as alterações climáticas já estão a ter para as nossas vidas. São por isso apresentadas 15 ações de impacto elevado a serem adotadas, em função de cada contexto, pelos líderes das cidades.

O plano de adaptação das cidades deve ter em conta dois tipos de ações:

Globais: que pensam o problema como um todo.

  • Incorporar o risco climático no Planeamento Urbano
  • Criação de sistemas de alerta precoce (algo que falhou, por exemplo, na preparação para as cheias na Alemanha),
  • Ter uma reserva de seguros climáticos e avaliação dos riscos (através da análise e mapeamento do território).

Específicas: para cada um dos cinco tipos de perigos, que devem ser combinadas com as globais.

  • Plantação de mais árvores nas ruas
  • Mais superfícies frias como telhados e paredes brancas,
  • Criar barreiras na costa (artificiais e baseadas na natureza),
  • Boa gestão das bacias hidrográficas,
  • Gestão da floresta de forma a prevenir incêndios, entre outras.

Tudo isto significa, segundo este relatório, que nada, mas mesmo nada pode ser feito sem ter o clima e as suas mudanças em mente.

Como é que Lisboa se pode adaptar?

Cada cidade tem de ter a sua adaptação específica em função de fatores como as condições do solo, a topografia ou a idade dos edifícios. Lisboa não está muito bem colocada em termos de emissões de carbono per capita: acima de Londres, Madrid, Roma ou Paris, por exemplo.

Fonte: Proposta CML PAC2030

Lisboa tem em discussão neste momento o Plano de Ação Climática Lisboa 2030 – que foi elaborado no âmbito da rede C40 e apresentado este mês. O plano prevê 70% redução de emissões em 2030, e a neutralidade climática em 2050. E, claro, “adaptar a cidade a eventos climáticos extremos, aumentar a sua resiliência aos riscos climáticos e a capacidade de resposta a crises e choques. Combater as desigualdades, garantindo uma transição justa e inclusiva: um combate centrado na erradicação da pobreza energética.”

Até 2030 prevê-se investimento de 4 mil milhões de euros, e algumas metas específicas:


34% deslocações em automóvel próprio
66% em modos alternativos
30% de redução consumo de água (universo CML), face a 2018
25% da cidade com espaços verdes
30 parques hortícolas urbanos

O plano está em discussão e pode ser consultado e comentado aqui. Haverá também uma reunião pública de apresentação no dia 29, às 14:30.

No caso de Lisboa, um trabalho do projeto ClimAdaPT.Local (que viria a dar origem à Rede de Municípios para a Adaptação Local às Alterações Climáticas em 2016 e da qual Lisboa faz parte), identificou em cada um dos 26 concelhos que o integravam quais eram os riscos climáticos mais prementes.

Surgiram alguns em comum para várias cidades portuguesas, nomeadamente para Lisboa:

  • Cheias repentinas,
  • Ondas de calor (devido à sua elevada mortalidade)
  • Subida do nível do mar

O último é o mais preocupante a longo prazo, isto porque é um risco permanente e para o qual não existem soluções simples. “É um risco que nos deixa adormecidos durante algum tempo, porque a subida do nível do mar é muito lenta, mas toda a zona litoral de Lisboa está fortemente ameaçada”, afirma Francisco Ferreira. Dos edifícios às estações de metro ou aos túneis.

“Campanhas de consciencialização pública podem promover uma cultura de apoio à adaptação ao clima e construir a confiança do público. Sem confiança, comunidades podem não apoiar a ação climática.”

Relatório C40/McKinsey

Para mitigar estes riscos, algumas medidas têm sido implementadas, nomeadamente soluções baseadas na natureza: a criação de corredores verdes e a plantação de mais jardins e árvores em zonas periféricas.

A mobilidade suave e elétrica tem também merecido atenção. E a drenagem é também uma das linhas de ação que mais tem sido discutida para a cidade – está a ser construído um túnel de drenagem entre Monsanto e Santa Apolónia e entre Chelas e o Beato que é a obra mais cara neste setor e custará ao município 133 milhões de euros.

Mais que medidas pontuais, uma nova cultura

“Temos de incorporar mais o risco associado às alterações climáticas. Continuamos a não ter uma cultura de adaptação no dia a dia”, afirma o ativista da ZERO.

Foi precisamente isso que marcou a diferença entre as respostas às cheias da Holanda, que não registou nenhum morto, por exemplo, e da Alemanha. Assim o explica Francisco Ferreira: a Holanda já se tinha vindo a preparar para a subida do nível do mar, com grandes investimentos que resultaram na construção de diques (antes e durante o fenómeno) e com planos de emergência.

Em Lisboa, “talvez tenhamos mesmo de construir barreiras físicas para impedir o efeito da subida do nível do mar se perspetivarmos as piores situações a nível de aquecimento global”, assinala Francisco Ferreira.

Relatórios como este mostram boas práticas e bons caminhos, mas podem não ser suficientes. É preciso transformarmos a nossa cultura no que diz respeito à mitigação e à adaptação aos riscos climáticos.

E, em última instância, “precisamos de uma mudança muito mais estrutural do funcionamento da sociedade e da economia”, defende Francisco Ferreira. Se os factos por si só são inquietantes não é por alarmismo, é porque a situação é de facto grave.

Veja aqui o relatório.

*Rita Velez Madeira nasceu em Évora, aprendeu a fazer casa nas viagens de comboio entre as duas cidades, com vontade de escutar e contar histórias, de viver nesse lugar de fronteira que há entre nós e o Outro. Este texto foi editado por Catarina Carvalho.

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3 Comentários

  1. Esqueçam a CM de Lisboa, e todas as outras. Esqueçam o governo. Este, e todos os outros. Quem criou a “alteração climatérica”, fomos nós. Basta ir às compras. Quem leva cesto, sacos de plástico, caixas de plástico para acondicionar as suas compras? Quem vai ao takeaway e leva caixas de plástico? Quem vai à padaria e leva um saco do pão?
    Quem já largou o seu automóvel a diesel?
    Quem vai à praia e substitui os cremes protectores por uma camisa?
    Quem põe o seu “lixo” para reciclar?
    Quem exige que a electricidade de sua casa seja de uma fonte renovável? (quem sequer sabe a origem da electricidade da sua cidade…?)
    Quem sabe que o ar condicionado alimenta o aquecimento global (arrefece o ar na sala e expulsa o ar quente para a rua. Para além dos gases nefastos para o aumento do efeito estufa).
    Quem sabe qual o aterro onde o seu lixo vai parar? E o que lá acontece?
    Agora já é tarde…
    Esperemos que a Câmara Municipal de Lisboa, o governo da República Portuguesa, resolvam este problema, que nada tem a ver com os nossos hábitos diários…
    Agora já é tarde. Nem a Câmara de Lisboa nos pode salvar. Por incrível que pareça.

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