Beatriz Gomes Dias está na sua primeira campanha como cabeça de lista pelo Bloco de Esquerda, à Câmara de Lisboa. O que isso significa é que é a primeira vez que aparece a dar a cara, sempre a sua cara, em cartazes, nos debates e nas televisões. Isto dá-lhe um visível orgulho, que lhe faz lembrar as mulheres que a inspiram na sua vida de professora, ativista e política: a mãe, Angela Davis ou Grada Kilomba, explicou à empreendedora Laura Lozenzo, que também participou na entrevista.

“Cresci a saber que podia reclamar o meu espaço porque esse espaço era meu. Como elas que ocupam esse espaço sem se deixarem intimidar por regras predefinias que dizem que aquele lugar não é para nós”, garante. Mas, por outro lado, assume que ainda não conseguiu “trazer a sua visão completa” para a campanha.

“Sinto que ainda não consegui nos debates trazer a minha visão em todas as dimensões da cidade porque temos centrado o debate nas questões estruturais da cidade – habitação, transportes e urbanismo. E não temos falado de direitos fundamentais – da cidade com as pessoas no centro. E isso é uma frustração – nesta primeira vez que faço campanha.”

Para Beatriz, só o facto de ser candidata já é significativo. “Há um grande entusiasmo na minha candidatura justamente porque eu trago toda esta participação do movimento social. Estamos num caminho de diversidade – de Lisboa que se expressa nos candidatos e candidatas. A minha candidatura é o sinal da capacidade de influência do movimento social, do programa anti-racista na agenda mediática e política.”

Beatriz diz que o momento da história de Lisboa – “supercomplexo porque há imensos momentos giros” – que gostava de ter vivido é esse, “na década de 50 60 quando os combatentes da libertação em África andavam por aqui, viviam na Casa dos Estudantes do Império. Muitas vezes imagino me a andar por Lisboa e a encontrar o Amílcar Cabral, por exemplo.”

Isto recorda-lhe que Lisboa tem uma história de luta contra a desigualdade e racismo que vem de longe, desde o início do século XX, algo que a cidade não assume como devia. “Ou esconde. Lisboa continua a negar uma parte dessa história – histórias silenciadas. Quantas pessoas sabem que podiam encontrar o Amílcar Cabral no Jardim da Estrela – os panafricanistas no início do século?” É por isso que é importante a sua candidatura. Uma escolha do Bloco, sim. Mas segundo Beatriz, “essa escolha já foi aceite” disse, respondendo a Ana da Cunha, a mais jovem jornalista da Mensagem que participou na entrevista.

Beatriz Gomes Dias: “Os bairros municipais foram construídos com materiais frágeis e o nível de degradação que eu não conhecia.” Foto: Rita Ansone

Isso não quer dizer que “o resultado não possa ser mau, mas por causa do candidato não da causa. Mas se o resultado não for tão bom eu assumo essa responsabilidade. Mas não acho que vá acontecer – vou ser eleita.”

Essa é a escolha fundamental, nestas eleições. E é aliás o que distingue mesmo o Bloco do PCP – para quem estiver na dúvida. “O que nos distingue é a forma como olhamos para a promoção de justiça – do combate a todas as discriminações. Discurso afirmativo. Sabemos que a desigualdade que resulta da classe se junta a outras – que determinadas pessoas experienciam, para uma resposta de igualdade não basta remover as desigualdades de classe, também temos de remover as outras.”

As batalhas do partido são as que têm sido faladas e que pode consultar aqui:

A saber, habitação 100% pública, para todos, mobilidade gratuita, primeiro para desempregados, depois para todos. Espaços verdes. Mobilidade suave.

Em relação à mobilidade, Beatriz promete “tirar os carros dos passeios e diminuir os lugares de estacionamento. É uma coisa que me lembro de fazer, e andar de bicicleta a volta do quarteirão e precisamos de criar zonas sem carros onde a prioridade seja dada aos peões e bicicletas e aos transportes públicos. A prioridade do espaço público tem de ser as pessoas. Em zonas onde isso acontece – na Filipa de Lencastre por exemplo, vemos muitas crianças a andar de bicicleta.”

Orgulhosa do trabalho feito pelo Bloco na área da vereação social e da educação – nomeadamente o projeto Housing First, Beatriz não renega a possibilidade de vir a ter a mesma vereação se houver acordo com Fernando Medina, o que também não põe de parte.

A sua maior surpresa? Os Bairros da Câmara que também surpreenderam Carlos Moedas. “É a cidade a duas velocidades, uma onde tem havido investimento, do turismo e outra esquecida que está parada no tempo. Os bairros municipais foram construídos com materiais frágeis e o nível de degradação que eu não conhecia – e isso tem me mostrado a falta de investimento. A limpeza, os equipamentos que faltam, os jardins não existem, o apoio às organizações também não – por exemplo para garantir a cultura. No meu caso não é demagogia falar disto – eu não conhecia e prometo não abandonar este tema ao longo do mandato”.

Pode optar por ouvir esta conversa aqui:

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Catarina Carvalho

Jornalista desde as teclas da máquina de escrever do avô, agora com 48 anos está a fazer o projeto que melhor representa o que defende no jornalismo: histórias e pessoas. Lidera redações há 20 anos – Sábado, DN, Diário Económico, Notícias Magazine, Evasões, Volta ao Mundo… – e segue os media internacionais, fazendo parte do board do World Editors Forum. Nada lhe dá mais gozo que contar as histórias da sua rua, em Lisboa.

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