Os resultados do mais recente recenseamento geral da população em Portugal ainda são preliminares, mas já dão certezas sobre a evolução da demografia de Lisboa nos últimos anos. A cidade voltou a perder habitantes sem ser capaz de inverter uma tendência com mais de três décadas.

Entre os Censos de 2011 e o recenseamento realizado este ano, gerou-se “uma grande discussão”. A instabilidade da última década, entre crise social e crescimento económico, levantava a dúvida. A crise, que conduziu centenas de milhares à emigração, antecedeu um período de recuperação económica, “que fez que não só alguns dos que tinham saído tivessem condições para regressar”, mas levou, também, à entrada de migrantes que procuram melhores condições de vida.

Hoje, habitam Lisboa 544 851 pessoas, longe das 800 mil registadas em 1981.

Entre os demógrafos, explica Alda Botelho Azevedo, investigadora, “havia esta discussão: se íamos efetivamente encontrar uma perda, ou não”. A resposta chegou, com a publicação recente dos resultados preliminares do Censos 2021: ao longo da última década, a cidade perdeu 1,4% da sua população, e tem menos 7849 habitantes.

Hoje, habitam em Lisboa 544851 pessoas, longe das 800 mil registadas no recenseamento de 1981.

Se a cidade tem vindo a perder residentes, o mesmo não pode dizer-se dos concelhos limítrofes. Ao longo dos últimos dez anos, a população da Área Metropolitana de Lisboa (AML) cresceu 1,7%. Tem, hoje, mais 49 mil habitantes face a 2011. São mais de 2,87 milhões de habitantes, distribuídos por 18 municípios.

Santa Maria Maior e Misericórdia perdem mais de 20% da população

Metade das 24 freguesias de Lisboa perderam população na última década. Apesar das variações positivas registadas em algumas das freguesias da cidade – Arroios, Areeiro, Avenidas Novas, Alvalade, Santa Clara e Parque das Nações, que, no seu conjunto, registaram um aumento de 7983 habitantes. Só entre quatro freguesias do centro histórico – Misericórdia, Santa Maria Maior, São Vicente e Santo António – a cidade perdeu mais de oito mil residentes nos últimos dez anos.

Embora preliminares, os resultados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), já permitem algumas conclusões e a formulação de hipóteses.

Entre 2011 e 2021, a freguesia da Misericórdia perdeu 26% da sua população residente.

No centro histórico, as perdas são superiores a 20%. “É um impacto absolutamente brutal”, diz Alda Botelho Azevedo, demógrafa e investigadora no Instituto de Ciências Sociais (ICS-UL) e professora no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa.

Rua Augusta durante um confinamento, em novembro de 2020. Foto: Catarina Reis

Entre as 12 freguesias que perdem população, é a Misericórdia, a freguesia cujo território abrange zonas do Bairro Alto, Cais do Sodré e Príncipe Real, a registar a maior perda, absoluta – e percentual – em todo o município: de 2011 para 2021, perdeu 3399 pessoas, mais de 26% da sua população. Se, há dez anos, a freguesia tinha 13044 habitantes, hoje são apenas 9645. Ou seja, ao longo de uma década, a freguesia perdeu um em cada quatro residentes.

Em Santa Maria Maior, freguesia que compreende as zonas da Baixa, Alfama, Castelo, Mouraria e Chiado, registou-se a segunda maior queda percentual e absoluta de população. Em dez anos, perdeu 22% dos habitantes.

São menos 2825 residentes, contando, agora, com apenas 9997 habitantes, face aos 12822 de 2011. Entre as freguesias com recuos mais significativos estão, ainda, São Vicente, também no centro histórico da cidade, com uma diminuição populacional de 9,4%, e Ajuda, cuja população decresceu 8,4%.

Em todos os casos, há principalmente dois problemas a ter em conta: o envelhecimento da população tradicional desses bairros e processos de gentrificação feitos através do turismo e não de novos residentes fixos.

Alojamento Local: o motor do despovoamento do centro histórico?

“Há duas formas de um território perder população: uma delas é a emigração, a outra é a mortalidade”, diz a demógrafa Alda Botelho Azevedo. E há, de igual forma, fenómenos urbanos com influência na fixação das populações. Um deles é o turismo.

Entre 2014 e 2018, o Alojamento Local (AL) cresceu 100% ao ano em Lisboa e a concentração deste tipo de alojamento, ligado à explosão do turismo na cidade, verifica-se, com especial incidência, nas freguesias do centro histórico – casos da Misericórdia e de Santa Maria Maior.

Apesar das perdas durante a pandemia, estão registadas mais de 19 mil unidades de Alojamento Local na Área Metropolitana de Lisboa, a grande maioria dentro dos limites da cidade.

O mapa do portal de dados da plataforma Airbnb mostra a localização de mais de 11 mil unidades de Alojamento Local disponíveis na cidade de Lisboa no dia 7 de agosto, concentradas, sobretudo, no centro histórico. Fonte: Airdna

A relação entre o despovoamento do centro histórico e os fenómenos de turistificação, que impactaram com especial incidência esta zona da cidade é evidente. “Não é uma especulação assim tão livre”, diz a demógrafa. “Estas quebras de população são também acompanhadas pela quebra do número de alojamentos familiares clássicos. Isto, eventualmente, é uma pista. Não podemos dizer que as pessoas saíram porque deixaram de ter casa, mas as maiores perdas populacionais na cidade foram no centro histórico, que tem um conjunto de características que o faz apelativo ao movimento de turistas que observámos nos últimos anos”.

Em dez anos, Santa Maria Maior perdeu 28% dos alojamentos familiares da freguesia.

Em Santa Maria Maior, a perda de população residente foi acompanhada pela diminuição acentuada do número de alojamentos familiares e coletivos. Ao longo de uma década, este tipo de alojamentos na freguesia passou de 10776 para 7698, uma descida superior a 28%, a mais expressiva em toda a cidade.

Logo a seguir, surge a freguesia da Misericórdia, com o número de alojamentos familiares a registar uma variação negativa de, aproximadamente, 18%, tendo passado dos 10555, em 2011, para os 8660, este ano.

“No mínimo”, diz, deu-se uma “coincidência muito grande entre as freguesias em que houve uma maior quebra de população e uma maior quebra de alojamentos familiares e a atividade do Alojamento Local”. A investigadora aponta para três fatores: “A população decresceu, o número de alojamentos familiares decresceu e a atividade de Airbnb concentra-se, sobretudo, nestas freguesias”.

Para onde foi a população? Metade das freguesias crescem

Contas feitas, a cidade perdeu habitantes, mas ainda assim houve uma mudança da população da cidade, já que metade das freguesias regista uma variação positiva.

As Avenidas Novas registam uma variação positiva da população de 7,5%, a mais elevada entre as 24 freguesias da cidade.

É nas Avenidas Novas que encontramos o maior crescimento percentual. Em dez anos, a população aumentou mais de 7,5% – são mais 1627 habitantes. Destaca-se ainda o crescimento registado nas freguesias de Parque das Nações (+6,3%), Santa Clara (+5,31%), Areeiro (+5,03%), Alvalade (+4,47%) e Arroios (+4,43%).

A população de Alvalade cresceu 4,5% desde 2011, alcançando este ano 33236 residentes. Na fotografia, a Avenida da Igreja, Alvalade. Foto: Frederico Raposo

Estas freguesias tiveram a capacidade de atrair população. Ao contrário do verificado no centro histórico, não existe, aqui, uma correlação entre a variação populacional e a variação no número de alojamentos familiares. Ou seja, nestas freguesias, os crescimentos populacionais não foram o resultado de alterações significativas no parque habitacional – não houve mais casas disponíveis. “O stock, em termos de número, mantém-se semelhante. O que não invalida que não tenham sido feitas reabilitações, demolições ou construções novas”, explica a investigadora do ICS-UL.

O perfil dos novos habitantes destas freguesias não é conhecido ainda, pelo menos até à publicação dos resultados definitivos dos Censos, “mas podemos imaginar”. Alda Botelho Azevedo sugere uma análise: “Se olharmos para os preços da habitação, sabemos que em Alvalade, no primeiro trimestre de 2020, o valor mediano dos apartamentos existentes era de 3634 euros por metro quadrado”. Quer isto dizer que metade dos apartamentos foram comprados por um valor inferior a 3634 euros por metro quadrado e a outra metade, por um valor superior. “Se pensarmos que um T2 tem ali na linha dos 80 metros quadrados, estamos a falar de apartamentos com um valor mediano de 290720 euros”. Ou seja, uma classe média alta que escolheu viver nestes bairros da cidade.

População estrangeira a empurrar o saldo de Arroios?

O caso de Arroios é interessante. Em 2001, a população estrangeira residente em Arroios era constituída por 1956 pessoas. Dez anos depois, passou a 9513 – um crescimento superior a 79%. Este valor correspondia, em 2011, a mais de 45% do total de habitantes estrangeiros da cidade e tinha um peso de 30% entre os 31653 habitantes da freguesia.

Os 9513 residentes estrangeiros de Arroios representavam, em 2011, 45% do total de estrangeiros a viver na cidade.

Desde então, a população de Arroios cresceu mais de 4%, para 33055 habitantes, naquela que é a sexta freguesia mais populosa de Lisboa. No decorrer da última década, a população estrangeira residente na AML também evidencia uma tendência crescente. Em 2011, segundo o Relatório de Imigração, Fronteiras e Asilo do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), residiam na área metropolitana cerca de 182 mil cidadãos estrangeiros. Em 2020, o número superava, já, os 285 mil.

Até que sejam tornados públicos os dados definitivos do recenseamento, não é possível saber, ao certo, o que mudou na composição do tecido social da freguesia mais multicultural da cidade, mas Alda Botelho Azevedo não tem dúvidas: “Aquilo que vemos em Arroios é claramente o efeito da imigração”.

Fim de tarde na Alameda Dom Afonso Henriques, entre as freguesias de Arroios e Areeiro, duas das que mais cresceram em termos populacionais desde 2011. Penha de França cresceu 1,38%. Foto: Luís Filipe Catarino (CML)

A freguesia encontra-se numa situação muito excecional: “existe um ganho populacional, um acréscimo do número de residentes, mas existe uma diminuição, ainda que ligeira, no número de alojamentos”, que recuou pouco mais de 1%. Por outro lado, no número de agregados familiares de Arroios o recuo é mais sentido: menos 4% relativamente a 2011, apesar de a freguesia contar agora com mais 1402 habitantes. Este facto, para Alda Botelho Azevedo, “dá uma pista” para acreditar que o crescimento populacional possa dever-se a novo crescimento da população estrangeira – imigrantes sem família e que podem escolher viver numa casa com outros.

“Sabemos que os imigrantes laborais vêm, primeiro, sozinhos e só uma vez estabelecidas as condições mínimas fazem a reunião familiar”. A hipótese pode ser explicada pelo facto de parte desta população estar sujeita a “condições de habitação muito vulneráveis”, muitas vezes “sem contrato de arrendamento” e em situação de sobrelotação, levando-a a escapar aos registos administrativos.


Frederico Raposo

Nasceu em Lisboa, há 28 anos, mas sempre fez a sua vida à porta da cidade. Raramente lá entrava. Foi quando iniciou a faculdade que começou a viver Lisboa. É uma cidade ainda por concretizar. Mais ou menos como as outras. Sustentável, progressista, com espaço e oportunidade para todas as pessoas – são ideias que moldam o seu passo pelas ruas. A forma como se desloca – quase sempre de bicicleta – , o uso que dá aos espaços, o jornalismo que produz.

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3 Comentários

  1. O alojamento local e o turismo têm as costas largas. Há outras razões que levam ao abandono dos bairros históricos que nunca são elencados:
    A idade e o estado das construções que tornam a recuperação muito mais cara por metro quadrado do que noutras zonas da cidade,
    o tamanho das habitações que as tornam muito pouco apetecíveis hoje em dia – ninguém vive num casa com 20 ou 30 m2 se tiver outra hipótese,
    o facto de que para um particular ser impossível obter licença camarária para alterar a traça dos edifícios para os tornar mais habitáveis,
    a dificudade de acesso com muitas ruas inacessíveis a veículos
    A zona histórica da cidade, excluindo a Baixa, foi durante muitos anos uma zona degradada de habitação de gente miserável, sem uma reformulação profunda a maioria das casas só serve para apartamentos turísticos, mas com a reformulação lá se ia o típico. Tem de se escolher se querem os ovos ou a omolete.

  2. Talvez por esquecimento, não se encontra referência à conversão de edifícios habitacionais para a atividade hoteleira, numa mudança permanente da utilização desses edifícios.
    Com toda a certeza qualquer negócio deve ser regulado, o AL não é excepção, parece também estranho a CM de Lisboa não fazer o seu papel de vestoria, legalmente obrigatório, no que se refere a novas licenças de AL.
    Mas como refere o interveniente anterior, as condições habitacionais da baixa Lisboeta sempre deixaram a desejar, por falta de investimento no espaço público e pelas próprias características das mesmas.

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