Um baú fechado pelos anos no sótão, nunca aberto pela certeza de se já ser demasiado crescido; os perfumes e a maquilhagem que fazem a vez dos ursos de pelúcia nos toucadores; dos carrinhos sobram as marcas no soalho das passagens das rodas; nas prateleiras, as bonecas tombadas, emparelhadas e de cabelo crespo, que não terão nova mudança de penteado.

Os brinquedos são os companheiros de horas, batizados e protegidos, para – anos mais tarde – serem considerados a materialização de uma meninice que queremos abandonar.

Depois, já adultos, voltamos a eles, cada um gatilho para uma lembrança. Talvez por isso não seja de estranhar que a exaltação dos adultos que visitavam o saudoso Museu do Brinquedo, em Sintra, fosse superior à das crianças que levavam pela mão. Espetavam o nariz e o dedo na vitrina, para espanto dos mais pequenos, apontavam com entusiasmo e exclamavam: “eu tive um carrinho… uma boneca… um comboio como aquele”.

Vivendo a meio do IC19, tratava a via rápida mais como uma ponte do que como uma estrada. Uma ponte que unia Sintra a Lisboa, com algum engarrafamento pelo meio, que me exigia sempre decisões mutuamente exclusivas. Lisboa tinha o rio, as obrigações profissionais, Sintra a serra e a infância. Depois dos travesseiros quentes e estaladiços da Piriquita, um domingo perfeito terminava entre a coleção de mais de 20 mil peças do Museu do Brinquedo, construído num antigo quartel de bombeiros no centro da vila.

Os brinquedos contam as narrativas das civilizações. As bonecas da actualidade foram em tempos adoradas como deusas e as primeiras estatuetas de barro – antepassados primitivos da Barbie – moldadas pelo Homo Sapiens há 40 mil anos, em África e na Ásia. Foi também a história que baptizou o mais famoso urso de pelúcia. Nos Estados Unidos, o Teddy Bear adquiriu este nome depois de o presidente americano Theodore Roosevelt se ter recusado a participar numa caçada aos ursos em 1902. Teddy é o diminutivo de Theodore.

A revolução industrial trouxe os grandes comboios, com passagens de nível, estações e túneis e foi o avanço dos anos que os fez diminuir de tamanho, percorrer carris mais curtos. Os apartamentos começaram a ser pequenos, poucas famílias têm hoje em dia o que antigamente se chamava quarto de brincar, e as marcas adaptaram-se ao espaço disponível.

Uma réplica do famoso ‘Blue Bird’, o carro com que Donald Campbell bateu o recorde de velocidade a 4 de Fevereiro de 1927, na Rússia, ao atingir 281,45 km/h repousa na vitrina, mas é certo que foi empurrado vezes sem conta em corridas imaginárias. A ida à lua fez as crianças de todo o mundo levantarem a cabeça e olharem para o espaço, percorrendo os céus com foguetões; o mais famoso, amarelo e emblemático, levou a bordo Tintim. O foguetão do professor Girassol, criado por Hergé, é inspirado no V-2 alemão de Von Braun.

Os brinquedos também revelam a forma de pensar dos homens, em cada momento da história. O passado do colonizador reverberava no boneco de um negro, de membros finos, sentado no dorso de um jacaré: num primeiro momento, o negro monta o jacaré – como se só um negro se lembrasse de montar um jacaré – num segundo momento, o negro desaparece, tendo sido comido pelo jacaré, e o jacaré surge mais gordo e cheio.

Na secção dos brinquedos portugueses, testemunhava-se a história pobre de um país. Artesãos, ferreiros, funileiros, marceneiros ou barristas deram forma aos primeiros brinquedos nacionais, espelho do tecido económico da época. Com o sustento assente na agricultura e à margem da Revolução Industrial, limitavam-se a fazer cópias dos brinquedos alemães, ingleses e espanhóis, alterando-os de forma a torná-los mais baratos.

A folha litografada dos brinquedos importados dava lugar à pintura e as cores das tintas dependiam dos restos existentes. Só em 1940 foi introduzido o mecanismo nos brinquedos portugueses, assim como novos materiais como o alumínio e o celulóide.

Um trenó de Pai Natal em tamanho real, à entrada em posição de destaque, contava a histórias das crianças que, em frente à fascinante montra de brinquedos da Casa Bénard, no Chiado, endereçavam ao idoso de barbas os pedidos que os pais não podiam atender; o alentejano reconhecia o arco e a gancheta com que brincara, entre o casario branco, no intervalo de uma jorna que começava no campo pelo nascer do dia; a empregada fiel confessava, sessenta anos depois, na presença da senhora, o quanto gostava de brincar com o fogão da patroa quando a menina ia para a escola; o jornaleiro descalço do Bairro Alto que empeçava o pião nos socalcos da calçada também se comovia; o judeu alemão de passagem por Portugal libertava lágrimas junto à vitrine das paradas militares hitlerianas com fardas das tropas SS e AS – durante a II Guerra Mundial, tinha estado num campo de concentração a pintar aqueles pequenos soldados, vestidos com a farda nazi.

O poder do brinquedo é o poder da memória. Talvez um dia o Museu do Brinquedo possa retornar e todos voltaremos à nossa infância.


Filipa Martins

É escritora. No seu primeiro romance, descreve a plumagem do Passeio Público e, no segundo, as saudades dos que partiram do Cais das Colunas. Os cafés de Lisboa são escritórios convenientes e o rio o repouso dos olhos.

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2 Comentários

  1. Como (não) se brincava, lembrando a Casa Bénard, a Baixa, em tempo escrito, esta…

    VÉSPERA DE NATAL

    Estava muito frio.
    No vaivém das compras de Natal, nos fartos e quentes casacos de peles, nos sobretudos e aconchegados cachecóis, ninguém sentia esse frio cortante.
    E todos tinham tanto a comprar, sem tempo a perder, ninguém podia ser esquecido na lista infindável de presentes.
    Não havia quase tempo para ver montras. Havia mesmo quem afirmasse que estava um ar abafado na baixa.
    Num fim de tarde especial como este, há sempre rapariguinhas, pequenas vendedeiras de flores que perguntam: “Quer um Raminho?” Costumo sensibilizar-me com elas – eu, que vou para a baixa com poucos escudos nos bolsos, só o necessário para tomar uma bica e comprar o jornal.
    Mas neste dia, o que mais me emocionou, foi ver um rapazito, que de mãos nos bolsos, sem sobretudo nem cachecol, olhava àvidamente a montra da Bénard. E era um mundo de infância que ali se abria: comboios elétricos, foguetões, aviões, máquinas fotográficas, máquinas de filmar – tudo um sonho.
    Perguntei-lhe o que queria. Primeiro disse:”Tudo”. Depois reflectiu, e olhando para mim, com os seus grandes olhos negros, disse em voz que se perdeu na multidão: “Nada”.
    A felicidade teve-a. Quando a deixou transparecer naqueles olhos que ficaram marejados, a olhar as mãos onde coloquei os poucos escudos que levava.
    Quanto à realidade, nada teria. Só pelo sonho. Mas isso não importa, nem para aquele fim de tarde frio e quente de uma véspera de Natal, nem para aquele rapazinho de olhos negros, grandes de desejos, que queria tudo e não teria nada.
    A rapariguinha diz-me: Leva este raminho, leva meu senhor?
    E ficou muito mais frio.

    (JORGE GASPAR)

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