Os escoteiros estão ali desde 1956, a Voz do Operário desde o 25 de Abril e a Academia Recreativa da Ajuda ocupa o mesmo espaço na freguesia desde 1888. São três associações, e há muito que dão vida ao tecido social deste bairro popular, às vezes em condições periclitantes, mas sempre com uma ligação forte à comunidade. Agora, uma intervenção camarária, a Unidade de Execução da Ajuda, com um projeto imobiliário da autoria do arquiteto Gonçalo Byrne, destinado primariamente a habitação, mas que terá também um novo jardim, vai mudar aquela zona por completo.

“Aqui na Ajuda não há clube com melhor vista do que este”. Da esplanada da Academia Recreativa da Ajuda vê-se o rio, mas também se veem as miúdas e miúdos que vão brincar para o campo. Uns jogam à bola, outros levam a bicicleta. Se hoje são os mais novos, antes, há já várias décadas, jogava-se a sério. “Quando era a bola, enchia o campo [e] tudo em volta, tínhamos que ter polícia e tudo”. Hoje, o campo já não está nas melhores condições, mas Natália Pimenta e o seu filho, Jorge Pimenta, têm feito de tudo para manter a coletividade, que é uma das mais antigas da freguesia. Está ali desde 1888 e hoje está melhor do que há três anos.

Natália Pimenta (à esquerda) e Jorge Pimenta (à direita) asseguram o funcionamento da Academia Recreativa da Ajuda. Foto: Frederico Raposo

São 132 anos de história, visíveis nos expositores de vidro que adornam a sala do bar e os corredores. O clube “já teve mil e tal sócios”, tantos que a entrada no edifício, espaçoso e com várias salas, era só para as respetivas famílias, “não tinha capacidade para mais”, conta Jorge, o homem de 66 anos que assume a presidência da academia ajudense. Hoje, todos cabem e são bem vindos. Nos últimos anos, com o apoio da Junta de Freguesia da Ajuda, foram recuperadas as salas de cima e de baixo.

Anos de desleixo deixaram a coletividade “quase a fechar”. “Ninguém sabia que isto era um clube, as portas estavam fechadas”. Mas foi ali que nasceu Jorge e foi ali que Natália passou a sua vida. Com mais de 80 anos, conta como ali sempre se fizeram “grandes bailes, grandes coisas”. “Casei aqui, aqui nasceram e casaram os filhos. Se passasse aqui à hora do almoço e a porta estivesse fechada, eu passava aqui cinquenta vezes a ver quando é que abria”, lembra. Hoje, o clube abre todos os dias a seguir ao almoço e a porta só se tranca depois das nove da noite. Pelo meio há cafés, convívio, aulas de grupo e brincadeiras das crianças do bairro, que sobem as escadas da porta principal para acederem ao campo da bola.

Foi com a ajuda da junta que o espaço ganhou nova vida. Quando é preciso cortar as ervas, enviam uma equipa e quando são precisas tintas para as paredes, a junta oferece-as. Mas é Jorge quem aplica nova camada nas paredes. “Há três anos e tal parecia uma selva, estava mesmo abandonado”. A verdade, explica com a sua razão, é que Jorge “podia ser de outro clube qualquer”. Mas isso não o iria puxar. “Este aqui é o nosso clube e eu sempre estive aqui à frente”.

Se a junta de freguesia ajuda a academia, a academia ajuda a freguesia. Os espaços polivalentes do clube são palco diário para a prática de várias modalidades, num exercício que se faz ao serviço dos fregueses. A junta contrata os professores, a academia cede o espaço e as pessoas do bairro praticam desporto gratuitamente. Aqui, reina o ecletismo. Há aulas de karaté, ginástica e dança Zumba. Há também cante alentejano e uma escola de fados. Há ainda um ringue para a prática de wrestling, modalidade que ganhou popularidade na freguesia e que tem trazido ao pavilhão da academia atletas de vários países.

“Vão deitar isto tudo abaixo”

A Academia Recreativa da Ajuda ocupa a parcela A na Unidade de Execução da Ajuda e para ali está prevista a demolição. “Vão deitar isto tudo abaixo”, diz Jorge. À Mensagem, conta como dois empresários representantes do fundo imobiliário Rivercrown, proprietário do terreno privado em que está a coletividade centenária, visitaram a sede do clube e prometeram “zelar” pelo seu futuro.

Entende a permanência da academia no seu local de sempre como “impossível”, mas não esconde: “gostávamos de ficar aqui”. “Eles precisam de prédios para ganhar dinheiro”, diz, no entanto, parecendo aceitar o destino anunciado pela Câmara Municipal de Lisboa quando se começou a falar da Unidade de Execução da Ajuda, em outubro de 2020.

O zelo de que fala, prometido por empresários ligados ao projeto imobiliário, não contempla a permanência da coletividade histórica na esquina da Rua da Bica do Marquês com a Rua de Dom Vasco, neste enfiamento privilegiado, a partir de onde se observa o rio.

Para o futuro, lamenta Natália, “não temos o campo da bola”. Prometeram-lhes um lugar num prédio, já construído, mas sabe que “num prédio não vai haver essas coisas”, não há espaço para isso. A academia, como sempre foi, perde-se. “É a lei da vida. Temos pena, sim senhor, muita pena”, confessa o filho, Jorge.

O que pede o presidente da academia é “proximidade” na nova casa, “uma coletividade e espaço para os desportos”, gostaria que construíssem para a academia “um edifício de dois ou três andares, para fazer o bar, a sede e a sala de reuniões e fazer um pavilhão onde se pudesse praticar o que temos aqui”. “Para nós era suficiente”. Não é isso que vão ter. “Apresentaram-nos um espaço que já está construído, é só fazer umas obras à nossa maneira”, diz, sem saber, ainda, como vai ser “a questão da renda”.

“Eles para aqui vão ter mais rendimento fazendo outros prédios”. O novo espaço, já visitado por Jorge, “é mais pequeno que isto tudo, não tem nada a ver com isto”.

Apartamentos “de luxo” e um “jardim privativo”

A Unidade de Execução da Ajuda (UEA) compreende um terreno com mais de 43 mil metros quadrados e tem uma localização central na freguesia da Ajuda. Está ao lado dos renovados largos da Paz e da Memória, espaços em que hoje se misturam casas de luxo e a vizinhança de sempre, com os estendais em frente às portas. E está em plena Calçada da Ajuda, com vista privilegiada para o Tejo. É esta rua central que tem assistido ao nascimento de condomínios privados com espaços verdes exteriores murados, de acesso restrito – mais perto da zona do Palácio de Belém.

Apartamentos do condomínio Belém Gardens, na Calçada da Ajuda, listados na plataforma turística Booking. Fonte: Booking

É o caso do Belém Gardens com apartamentos turísticos listados na plataforma Booking. Por detrás dos gradeamentos do condomínio, e em parques infantis privados, as crianças brincam.

O vasto terreno da UEA, está do outro lado, mais acima. Em boa parte um grande vazio urbano, integra a Zona Especial de Proteção (ZEP) do Palácio Nacional de Ajuda, cujas obras de remate final se encontram em fase de acabamentos – e serão inauguradas no verão. Para assegurar a manutenção das vistas sobre o Tejo, protegidas ao abrigo do Sistema de Vistas do Plano Diretor Municipal do município, a altura prevista para os edifícios a construir deve acompanhar a elevação do terreno.

Segundo o PCP de Lisboa, o único partido a votar contra a proposta de delimitação desta Unidade de Execução (com abstenções de CDS e Bloco de Esquerda), o futuro anunciado para aquele espaço, projetado pelo arquiteto Gonçalo Byrne, prevê construção de “260 apartamentos de luxo” e de um “jardim privativo” – num dos blocos, como se pode ver no projeto em baixo.

A operação urbanística prevê a construção de mais de 28 mil metros quadrados destinados a habitação, constituindo cerca de 80% da área a construir. As áreas restantes serão ocupadas por comércio e serviços e será criado um jardim de usufruto público numa área superior do terreno, com cerca de 14 mil metros quadrados, na parte mais elevada e declivosa do terreno.

Ivo Serra, diretor pedagógico e de equipamentos educativos da Voz do Operário na Ajuda. Foto: Frederico Raposo

Um bairro renovado e “mais pobre do ponto de vista humano”

Ivo Serra é diretor pedagógico e de equipamentos educativos na Voz do Operário na Ajuda e em outras duas das sete escolas da histórica sociedade. Ao contrário da Academia, a escola não vai desaparecer, mas corre riscos. O projeto coloca em causa o recreio das 80 crianças alunas da escola, com idades compreendidas entre os três e os 10 anos.

A Voz do Operário está ali há 46 anos, desde o 25 de Abril, no Pátio do Bonfim, na Calçada da Ajuda e em terrenos públicos, da Direção Geral do Tesouro e Finanças (DGTF), senhorio com o qual “é quase impossível dialogar”. Sempre que tiveram de fazer obras no edifício, “com mais de 200 anos e muitos problemas de canalização, entupimentos, humidade”, “todos os encargos financeiros fomos nós que assumimos em função do bem estar dos miúdos, quando temos um senhorio que deveria suportar este papel”, diz.

A Voz do Operário está no Pátio do Bonfim, na Calçada da Ajuda, há 46 anos. Foto: Frederico Raposo

Desde que começou a trabalhar na escola da Ajuda, há seis anos, que Ivo reconhece na freguesia “a transformação de um espaço que tinha uma organização mais comunitária para uma mais individualizada, elitista e excludente”. Assistiu, nos últimos anos, à construção de condomínios fechados na Calçada da Ajuda – um atualmente em obra – e, agora, teme a nova “obra gigantesca” prevista para ali mesmo, paredes-meias.

Saúda a “parte boa” do recente processo de renovação do bairro, a “de podermos perceber que alguns edifícios estão a ser recuperados”, mas isso “choca com o facto de percebermos que essa recuperação não tem a intenção de tornar a freguesia da Ajuda mais acessível a todas as pessoas”. “Para quem passa, a zona tem melhor aspeto, mas é uma coisa fictícia, centrada na forma e não no conteúdo”. As ruas estão mais bonitas, pintadas de fresco, mas a freguesia parece-lhe “mais pobre do ponto de vista humano”.

Rendas duplicaram e tecido social mudou

A Ajuda é uma das freguesias da cidade com maior subida no valor do metro quadrado destinado à habitação. Praticamente duplicou, entre 2016, altura em que se fixava nos 1607 euros, e 2019, quando ascendeu aos 3205 euros, numa subida mais acelerada que a média registada em todo o município, revelam dados do Instituto Nacional de Estatística (INE).

Rua da Bica do Marquês, Ajuda. Foto: Frederico Raposo

A freguesia está em mudança. Nos últimos anos, as obras de requalificação do Largo da Paz, do Largo da Memória e da Calçada da Ajuda, uma das principais artérias comerciais da freguesia, acompanharam a subida galopante dos preços do imobiliário.

À saída da mercearia, na Calçada da Ajuda, Dina Casimiro, moradora na Ajuda há 20 anos, conta que encontra “melhorias, principalmente viárias”, mas também na limpeza das ruas. Revela até a “tendência”, notada também em Alvalade, de comprar mais no comércio local do bairro, “em vez de ir fora ou a um grande hipermercado”.

A renovação dos imóveis da freguesia é visível, nas ruas, e é relatada por quem vive o bairro. Carla Dias, hoje com 40 anos, passou a infância na freguesia e hoje é a proprietária do restaurante Ponto de Encontro, na Rua das Mercês, paralela à Calçada da Ajuda. Nota a chegada de “bastantes jovens”. Questionada sobre o impacto da nova população no comércio local, responde com mais relutância: “É difícil de avaliar estes últimos dois anos”. A pandemia limitou a restauração e a entrada de pessoas novas tem acontecido neste período, “muito nos últimos quatro, cinco anos”.

Muito menos relutância mostra Maria José, cabeleireira na freguesia há 38 anos. Tem o seu próprio negócio há duas décadas. É o seu nome no letreiro, no número 15 da Rua Coronel Pereira da Silva. “Os filhos da Ajuda não puderam cá ficar”, porque as casas “sempre foram caras e velhas”. “Foram para os arredores, saíram da Ajuda”, garante.

Maria José trabalha há 38 anos como cabeleireira na Ajuda. Foto: Frederico Raposo

Não hesita na hora de contar que o seu negócio “está cada vez pior”. Os novos não se fixaram e os mulheres mais velhas do bairro, as que sempre a visitaram, “muitas morreram e muitas estão envelhecidas e não precisam de vir tanto ao cabeleireiro”. Os que têm chegado à freguesia nos últimos anos, aos condomínios e às casas renovadas, não têm entrado ali. “Não fazem vida na Ajuda, não se veem. Devem ser gente de um nível alto e não faz vida aqui”, diz.

Também na escola da Voz do Operário se fazem sentir as mudanças no tecido social do bairro. Entre os alunos, “antes era mais frequente que as crianças pertencessem a estratos sociais mais variados”, diz Ivo Serra. Hoje, “a especulação faz com que quem compra uma casa aqui tenha de ser alguém com poder económico”. O receio, detalha, é o de ver a freguesia tornar-se num “sítio de exclusividade”. Se isso acontecer, “a Voz do Operário tem razões para se preocupar”. Nunca foi intenção da escola “ser exclusiva, muito menos excludente”.

A Unidade de Execução da Ajuda é o fim do recreio

A escola, com creche e primeiro ciclo, tem “muita procura” e não tem espaço para dar resposta. Agora, a Unidade de Execução da Ajuda prepara-se para diminuir o espaço exterior que é atualmente utilizado para recreio das crianças.

O Pátio do Bonfim faz fronteira com as instalações do 2º Grupo dos Escoteiros de Portugal e as boas relações de vizinhança com a outra instituição histórica da freguesia abriram caminho à partilha do espaço exterior. O muro que separava o espaço exterior dos escoteiros da Voz do Operário foi transposto nos últimos anos. Abriu-se um buraco e instalou-se uma porta. A partilha de espaço que os vizinhos possibilitaram constituiu um aumento de dois terços do total de espaço exterior disponível para a escola.

A abertura do muro que separa a Voz do Operário da sede dos Escoteiros possibilitou aumentar o espaço ao ar livre para as crianças que frequentam esta escola. Foto: Frederico Raposo

Este espaço, que a Voz do Operário utiliza com exclusividade durante toda a semana, tem agora fim anunciado. O edifício dos escoteiros, também propriedade da DGTF, deverá ser demolido para ser construído um dos edifícios previstos na Unidade de Execução. O espaço exterior desaparece, a Voz do Operário perde o recreio exterior e o 2º Grupo dos Escoteiros de Portugal, ali desde 1956, perde a sua casa.

A Unidade de Execução deverá trazer mudança também na propriedade dos terrenos do Pátio do Bonfim, onde está também a Junta de Freguesia da Ajuda. Deverão passar da DGTF para a alçada do município. Esta é uma mudança que Ivo vê com alguma “expectativa”, na procura de um diálogo “mais consequente” com o senhorio.

Há 65 anos na Calçada, os escoteiros não aceitam a demolição

Só souberam da intenção de demolir quando foi apresentada a Unidade de Execução, já este ano. O número 228 da Calçada da Ajuda é a casa do 2º Grupo de Escoteiros de Portugal há mais de seis décadas e Catarina Neves, chefe de grupo, não aceita a demolição, destino que lhes foi traçado e imposto. Apesar de se terem vindo a constituir como parte importante do tecido associativo e social da freguesia e apesar de se encontrarem num edifício do Estado, não foram tidos nem achados no processo.

Espaço exterior dos Escoteiros é partilhado com a escola da Voz do Operário. Foto: Tiago Rodrigues

“Assim que soubemos, começámos a reunir em várias frentes”. Contam com o apoio de pessoas mais velhas, que já pertenceram aos escoteiros, mas também com a Voz do Operário. “O nosso interesse é mantermo-nos cá”, frisa. Criaram uma petição pela manutenção da sede na Calçada da Ajuda e reuniram, à data de publicação desta reportagem, mais de 3600 assinaturas.

Ao abrigo do acordo entre CML e promotor imobiliário, estará prevista a renovação do Pátio do Bonfim. Mas, alega Catarina, “se o Pátio do Bonfim é requalificado, não faz sentido que o nosso não seja”. Não se mostra contra a Unidade de Execução: “o que não percebemos é a necessidade de demolição” do edifício dos escoteiros, com um contrato de arrendamento celebrado com a DGTF há mais de seis décadas.

Os Escoteiros de Portugal lutam pela classificação do edifício que lhes serve de sede, na Calçada da Ajuda. Fotos: Tiago Rodrigues

Para se manterem, uma das vias de luta por que enveredaram é a tentativa de classificação do edifício, que “é histórico” e tem, segundo a chefe de grupo dos escoteiros, elementos arquitetónicos já identificados pela Direção Geral do Património Cultural (DGPC). Ao longo das últimas décadas, pagaram renda à DGTF e, conta, “nunca pedimos obras ao senhorio”, tendo sido a instituição a suportar os custos de manutenção do edifício.

Esta não será “uma luta de um ano”. Catarina e os escoteiros que representa não cedem. Esta será, considera, uma luta para os próximos tempos. Em resposta à Mensagem, a Câmara Municipal de Lisboa não dá a demolição como certa, preferindo referir-se a uma “eventual demolição”, dependente ainda da “ponderação” das participações de entidades e cidadãos que intervieram na discussão pública que terminou no dia 4 deste mês.

Qualquer que seja o desfecho, avança a autarquia, CML, Junta de Freguesia da Ajuda e Estado, o proprietário do imóvel, “assumiram publicamente que os direitos das entidades e pessoas alojadas nestes imóveis serão acautelados, nomeadamente a sua manutenção no local da área de intervenção ou na proximidade”.

A amarelo, todos os edifícios com demolição prevista. No canto inferior esquerdo, a sede dos Escoteiros de Portugal. No canto inferior direito, a Academia Recreativa da Ajuda e o seu campo de jogos. Fonte: CML

Os Cidadãos Pela Ajuda e “a necessidade de haver condomínios”

A apresentação da Unidade de Execução mobilizou os cidadãos da freguesia. Juntaram-se “organicamente”, muitos deles pais de crianças que frequentam a Voz do Operário e o campo de futebol da Academia Recreativa da Ajuda, e deram início a um processo de luta, pelo prolongamento do período de discussão pública (entretanto alargado até ao passado dia 4 de Maio) e com reivindicações concretas.

Criaram o movimento Cidadãos pela Ajuda e levaram a luta para as ruas em torno dos terrenos, onde colaram cartazes em muros e postes a apelar à ação coletiva. Reclamam por um espaço verde acessível e pela abertura da Rua da Bica do Marquês à circulação pedonal da população envelhecida, através da melhoria das acessibilidades e passeios. Consideram que os condomínios privados “não estimulam a economia local” e que esta é “uma proposta violenta que rasga o tecido social da freguesia”.

A Unidade de Execução da Ajuda motivou a formação do movimento Cidadãos pela Ajuda. Foto: Frederico Raposo

Hoje são três dezenas de cidadãos e o número tem vindo a crescer. Criaram uma petição, submetida à Assembleia Municipal de Lisboa, e reivindicam mais participação popular na decisão do futuro daquele quarteirão central da freguesia. Querem espaços verdes na Rua da Bica do Marquês, que atravessa a parte inferior dos terrenos e é menos declivosa do que o terreno superior, para o qual está prevista a cedência de espaço por parte do promotor privado para a criação de um jardim de usufruto público.

Rita Rosa é membro do grupo de cidadãos e é também moradora na Rua da Bica do Marquês. Lamenta a “ausência total de relação” da edificação que caracteriza como condomínio privado “com a comunidade que já existe na Ajuda”.

“Por baldio que fosse”, aquele era um espaço verde, diz. Considera ainda que a “cedência” – e di-lo entre aspas – de espaço para um jardim na parte superior do terreno “não é cedência nenhuma”, porque já se trata de um espaço junto ao Palácio da Ajuda, onde a construção não seria possível. Para além disto, implantando-se ali o jardim previsto, considera que “não vai ser fácil usufruir daquele espaço, que não é de fácil acesso”.

Pedro Garcia, outro dos Cidadãos pela Ajuda, não entende “em que se sustenta a necessidade de haver condomínios”, ao considerar que “pensam pouco no encontro comunitário”. Sobre o processo de discussão pública, não sentiu que este “tenha contado com o diálogo da comunidade” e critica o modelo de apresentação e discussão da Unidade de Execução: “os mais velhos não participaram”, diz.

Novo condomínio privado já em construção na Calçada da Ajuda. Foto: Frederico Raposo

Também para este munícipe, “faria sentido que na parte sul houvesse [uma] parte reservada” a um jardim, ao invés de este ser erigido na parte norte.

A Câmara Municipal de Lisboa escolheu apresentar a delimitação desta Unidade de Execução através de uma emissão online, que contou com o vereador do Urbanismo, Ricardo Veludo, e o arquiteto responsável pelo projeto, Gonçalo Byrne, e deu resposta a algumas questões colocadas por munícipes, bem como pelos escoteiros e a escola da Voz do Operário. Nesta sessão, o vereador com o pelouro do urbanismo garantiu a manutenção da existência dos escoteiros e da Academia Recreativa da Ajuda, ainda que não assegure a sua permanência nos locais que há muito ocupam na freguesia.

Voto contra do PCP, abstenções de CDS e Bloco de Esquerda

João Ferreira, vereador do único partido em Lisboa que votou contra a delimitação desta Unidade de Execução, caracteriza o modelo de participação encontrado como “tosco” e considera que falta “ouvir as populações”. Exemplifica as questões que, no seu entender, deveriam ser colocadas aos fregueses: “O que querem para aquele espaço?”, “O que faz falta na freguesia?”.

O partido critica a implantação de um jardim na “parte mais declivosa” dos terrenos e reclama espaços verdes na parte sul, junto à Rua da Bica do Marquês. É aí que, a partir do projeto apresentado, denuncia a criação de um “jardim privativo”, encerrado dentro de um dos quarteirões a criar.

“É um jardim para fruição apenas do condomínio privado de luxo que ali querem implantar”, diz. “Retira a possibilidade de fruição daqueles terrenos à generalidade da população, para além de pôr em causa valências que neste momento têm importância na vivência daquela comunidade” – casos dos escoteiros, da escola da Voz do Operário e da Academia Recreativa da Ajuda. Na apresentação disponibilizada pelo município, este local é identificado como “área permeável no interior do quarteirão”.

O espaço no interior deste quarteirão, proposto na Unidade de Execução da Ajuda, é descrito “área permeável no interior do quarteirão”, sendo apontado pelo PCP como “jardim privativo”, “para fruição apenas do condomínio privado de luxo”. Fonte: CML

Para além da necessidade identificada pelo PCP para a criação de um espaço verde naquele local, João Ferreira destaca uma outra: a disponibilização de “habitação a preços acessíveis”. “Tendo ali nós uma reserva estratégica de terrenos públicos, era fundamentalmente ao serviço destes objetivos que devíamos colocar os usos do solo”, diz, referindo-se à parcela de terreno público hoje ocupada pelos escoteiros e que será, de acordo com a Unidade de Execução, cedida para construção do promotor imobiliário privado.


Frederico Raposo

Nasceu em Lisboa, há 28 anos, mas sempre fez a sua vida à porta da cidade. Raramente lá entrava. Foi quando iniciou a faculdade que começou a viver Lisboa. É uma cidade ainda por concretizar. Mais ou menos como as outras. Sustentável, progressista, com espaço e oportunidade para todas as pessoas – são ideias que moldam o seu passo pelas ruas. A forma como se desloca – quase sempre de bicicleta – , o uso que dá aos espaços, o jornalismo que produz.

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5 Comentários

  1. O que me faz mais confusão, é estarem dispostos a demolir edifícios históricos funcionais como a sede dos Escoteiros e recuperarem o Palácio das Damas que está completamente devoluto (ruina) e que mal se reconhece a estrutura original como disse o arquiteto do projeto. Infelizmente os contratos de arrendamento que foram feitos na altura do antigo regime não dão qualquer proteção aos arrendatários, mas hoje estamos num país de direito e continuam agir como no passado.
    Demolir espaços que apoiam a comunidade local para transformarem a condomínios fechado é dilacerar o tecido funcional da Ajuda.
    Contarem a história que vão fazer um jardim espetacular junto ao palácio, é como atirar areia para os olhos. Pelo direto dado no Youtube, o próprio arquiteto nem sabia bem como transformar aquela rampa num local de acesso a todos.

  2. Artigo bem feito e completo. Sou moradora e o encanto da Ajuda é precisamente a sua multiplicidade. Porque é que sempre cedemos aquilo que temos de maior valor em nome do interesse privado? Basta de condomínios fechados na Ajuda! Queremos uma Ajuda aberta e plural.

  3. A Ajuda, a graça da Ajuda é ser o que é. Claro, convém ir conservando, etc. Empurrar dali para fora quem faz da Ajuda o que a Ajuda é (o mesmo se aplica a outros bairros “populares”) é contribuir para uma Lisboa “higienizada” e árida.

  4. O Bairro da Ajuda ainda permanece quase intacto, deixando-nos saborear a pacatez do quotidiano duma população que se mantêm fiel às suas tradições bairristas. Este é um lugar sereno, despojado mas nobre. O largo, a praça, os jardins, o casario e as ruas que se cruzam com as vozes que ecoam, algumas já cansadas, a dos velhos moradores do bairro, outras irreverentes, as dos novos moradores. Vamos manter bem guardado este segredo, preservando este rico património.

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