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Imagine-se uma Lisboa ainda com alguns fiacres puxados a cavalo. Já sem rei – a República fora implantada em 1910 – mas ainda a demorar-se, como no tempo de Eça de Queirós, na cavaqueira junto à Casa Havaneza. A Guerra na Europa, a guerra em que talvez entrássemos, reduz a atenção dedicada à banal coscuvilhice sobre a amante do ministro ou as liberdades de certa cantora do São Carlos.

Ao lado, na Brasileira (ou melhor na Brazileira, com z, como então se escrevia), as tertúlias literárias e artísticas levavam, pelo menos, duas décadas de avanço mental sobre esta vizinhança tagarela, cultora dos charutos havanos, inventando caminhos para a chegada da modernidade estética. 

Um muito jovem Mário de Sá-Carneiro via na própria vida de café a essência do cosmopolitismo a que todos aspiravam, como escreve no poema “Manucure”: “Mais longe um criado deixa cair uma bandeja…/Não tem fim a maravilha!/Um novo turbilhão de ondas prateadas/Se alarga em ecos circulares, rútilos, farfalhantes/Como água fria a salpicar e a refrescar o ambiente…”

Adriano Teles, o fundador de A Brasileira.

Nada poderia agradar mais a Adriano Telles, proprietário e fundador da Brasileira do Chiado, “homem conservador nos costumes, mas arrojado tanto do ponto de vista cultural, como na visão que tinha do negócio”, como o define um dos seus numerosos bisnetos, João Bernardo Galvão Telles. Adriano foi o homem que, em 1925, abriu as portas do seu café ao que de mais vanguardista se fazia nas artes plásticas em Portugal.

A importância histórica deste gesto largo é recordada agora na exposição que, a partir deste sábado, pode ser vista no Museu Nacional de Arte Contemporânea, “A Brasileira do Chiado, Café Museu 1925-1971”. Comissariada por Raquel Henriques da Silva e Maria de Aires Silveira, a mostra faz justiça a um ato de mecenato privado invulgar no nosso país, mas também traz muitas novidades quer sobre os quadros de 1925, quer sobre os que, em 1971, os substituíram e que ainda podem ser vistos na própria Brasileira. 

Em foco está o contributo que este espaço de tertúlia artística e literária deu à afirmação das vanguardas estéticas em Portugal, em dois momentos chave do século XX. “A Brasileira do Chiado e a sua história são prova de que a economia e a cultura podem e devem fundir-se para benefício mútuo, pois ambas melhoram quando conjugadas de forma inteligente, chegando a arte a mais pessoas e chegando a economia à dimensão transcendental, muito acima da mera razão monetária”, explica Tiago Quaresma, da Valor do Tempo, que agora gere o café.

A diretora do Museu, Emília Ferreira, acentua esta questão, explicando que o mote da exposição foi a celebração dos 50 anos da segunda decoração. E assim, “vizinhos no prestigiado bairro do Chiado, Museu e Café partilham memórias, confrontos e colaborações e desejam que esta celebração se traduza no reforço desses elos, criando um circuito apetecível entre ambos: no Museu será possível ver alguns dos quadros da decoração de 1925 e um conjunto de documentação em grande parte inédita da decoração de 1971, nomeadamente fotografias da colocação das pinturas nas paredes.”

Para visitar a Brasileira, basta entrar. Para a exposição propriamente dita, ela pode ser visitada até 26 de setembro no MNAC.

E há novidades. “Ao longo da investigação feita no âmbito da investigação, esclarecemos alguns aspetos que estavam ainda pouco claros”, diz a historiadora Raquel Henriques da Silva. Antes de mais, fica-se a saber que os quadros dos modernistas não foram os primeiros expostos nas paredes do café: “A Maria de Aires descobriu nos jornais da época que, na verdade, o Telles já tinha pinturas nas paredes, não sabemos quais, mas parece que eram vistas do Brasil, onde ele tinha vivido durante muitos anos – e enriquecido.” 

Por outro lado, “diz-se sempre que os quadros foram colocados na Brasileira em 1925, mas, na verdade, essa é a data do Salão de Outono na Sociedade Nacional de Belas Artes, onde vários deles foram expostos previamente. Só viriam a ser efetivamente colocados no Café no ano seguinte.” 

Acontece, no entanto, que na substituição dos quadros em 1971 se perdera o rasto a vários deles, adquiridos por particulares. Como nos conta ainda Raquel Henriques da Silva, esta exposição do MNAC permitiu deslindar parte do mistério: “Vamos mostrar um quadro do António Soares, que não é visto desde 1971. Foi emprestado por um dos netos do Telles, o José Manuel Galvão Telles, que só o comprou em leilão há uns 15 anos, depois dele ter passado por outras mãos, não sabemos quais. Nem a família do António Soares, que tem um bom arquivo, sabia onde ele estava”.  

A investigação está longe, porém, de estar concluída: “Sabemos que há um outro quadro do Soares, que faz par com este, mas não sabemos com precisão onde está. Temos uma pista, vamos ver onde ela nos leva…” Novidade será também a inclusão no catálogo de um quadro de Jorge Barradas, que o proprietário não emprestou para a exposição mas que foi fotografado: “Até aqui não conhecíamos o seu paradeiro. Graças ao José Manuel Galvão Telles, localizámo-lo. Como diz a minha aluna, Inês Silvestre, que nos deu uma ajuda preciosa, é bem possível que, com o catálogo e com a exposição, venham a aparecer todos.”



Tertúlia artística na Brasileira no início do século XX: da esquerda para a direita, Teixeira de Pascoaes, Cristóvão Aires Filho, Matos Sequeira, António Soares, Jorge Barradas, Joshua Benoliel, Augusto Ferreira Gomes, o célebre empregado João Franco e Adolfo Castañe (em pé).

Esta investigação a três permitiu ainda esclarecer melhor a dinâmica do movimento: “Não sabemos muito bem como feita a selecção dos nomes, mas percebemos, pelas cartas que que encontrámos no espólio do António Soares, que os grandes fazedores do projeto foram o Eduardo Viana, o próprio António Soares, o Bernardo Marques. O José Pacheko não teve realmente todo o protagonismo que lhe era atribuído até aqui”.

Uma revolução em curso no café

Tudo terá começado com a remodelação do espaço do café assinada por Norte Júnior, segundo sugestão do olisipógrafo e jornalista Norberto de Araújo. Referem-se estes dois nomes e percebe-se logo que não se tratava de uma remodelação qualquer. Norte Júnior é um dos grandes nomes da Arquitectura portuguesa na primeira metade do século XX (1878-1962), autor de obras como a sede da Voz do Operário, do bairro Estrela de Ouro, da Pastelaria Versailles, em Lisboa, ou do Palace Hotel da Curia e vencedor de dois Prémios Valmor. 

Norberto de Araújo (1889-1952), jornalista do Diário de Notícias e, mais tarde, do Diário de Lisboa, ficou para a posterioridade de duas obras de grande fôlego sobre o património e a História da cidade: Peregrinações em Lisboa e Inventário de Lisboa.

No cerne de tudo isto, a figura menos conhecida, mas não menos importante, do proprietário do café, Adriano Telles – torna viagem, negociante de café e que instalou este no Chiado, primeiro para o vender a granel e depois transformá-lo num local de convívio. “Um visionário, pai de 20 filhos, sócio da Sociedade de Geografia de Lisboa, cultor da Música e com uma perceção única do poder da Comunicação Social no Marketing”, como sublinha João Bernardo Galvão Telles.

Inaugurada em Novembro de 1905, A Brasileira é fruto do negócio puro de venda de café do Brasil – dois Teles tinha aberto a congénere na Rua Sá da Bandeira no Porto. “De espírito
dinâmico e arrojado, o “brasileiro” Adriano Telles (torna viagem) converteu uma antiga camisaria de localização privilegiada – Largo do Chiado, o coração pulsante de Lisboa – num dos mais afamados cafés da baixa lisboeta e num símbolo incontornável da modernidade portuguesa”, conta o catálogo da exposição.

“O estabelecimento foi inaugurado como casa de café ao quilo, atraindo os mais curiosos com chávenas da exótica bebida, as quais eram oferecidas juntamente com a receita do seu modo de preparação. Contudo, eram as tertúlias dos cafés que adoçavam esta nova bebida e em 1908 A Brasileira do Chiado sofreu a sua primeira remodelação, passando a “café de mesas e cadeiras com decoração Renascença.”

Foi ponto de encontro de encontro de notáveis figuras, como Mário de Sá Carneiro (até 1915), Fernando Pessoa, Aquilino Ribeiro, Teixeira de Pascoaes, Ramada Curto, Brito Camacho, Stuart Carvalhais, António Ferro, Alfredo Guizado, Augusto Ferreira Gomesii, entre outros. “Responsáveis pela atribuição de uma identidade a este espaço, imortalizada no imaginário da vida artística e cultural lisboeta do século XX.”

As banhistas de Almada Negreiros esteve na Brasileira do Chiado.

A cada artista convidado foi concedida total liberdade na escolha do tema e da composição. Assim, os quadros desta série de 1925 foram: Paisagem Algarvia e Paisagem de Sintra, ambos de Eduardo Viana; As Banhistas, de Almada Negreiros, Cena de Aldeia, Cena de Lisboa, ambosde Jorge Barradas; uma pintura decorativa de Bernardo Marques; Paisagem com Moinho, de Jose´Pacheko; Cena de Café e Interior, de António Soares, Paisagem com Moinho, de Stuart de Carvalhaes.

A Lisboa de 1925 até podia dançar o charleston, nesses loucos anos 20, cortar o cabelo à garçonne, mas não estava preparada para tal arrojo artístico. Pode ler-se no catálogo do MNAC que “as críticas lançadas às pinturas da Brasileira do Chiado, umas de grande agressividade, outras com um marcado sentido de humor, denotam um profundo descontentamento perante os resultados obtidos, manifestado até pelo próprio autor da ideia da decoração, que, após os elogios lançados às pinturas do I Salão de Outono, afirmou: ‘Os painéis da Brasileira o que não pedem, mas inspiram, é uma grande lamentação’”. 

Norberto de Araújo acrescentou ainda que as pinturas realizadas para o café ficaram aquém das capacidades técnicas dos artistas, acusando Almada Negreiros e José Pacheko de falta de “escrúpulo artístico”. Para Norberto de Araújo, só o trabalho de António Soares era digno de elogio porque, dizia,“soube ainda ser equilibrado e definitivo”. 

As primeiras críticas às pinturas do café A Brasileira, do Chiado, vieram da revista republicana A Choldra que, de forma veemente, se insurgiu contra o “mau gosto burguês do proprietário”, afirmando que “os trabalhos que se vêem na Brasileira do Chiado são simplesmente uma vergonha”.  

Mais criativa foi a ironia revelada pelo semanário humorístico Sempre Fixe (editado pela Renascença Gráfica, proprietária do Diário de Lisboa) e pela revista Ilustração. A série de caricaturas publicada em vários números, designada por “Museu da Brazileira – Teles & Telas”, apresenta uma crítica jocosa aos alegados excessos modernistas dos jovens artistas, a quem o caricaturista Francisco Valença chamava “os que borraram a pintura”. E, durante uns meses, ao bom espírito lisboeta, não terão sido poucos os que entraram no café só para apontar o dedo a tão espantosa novidade.

A operação noturna de 1971

Quase meio século depois, os modernistas, que tanto escândalo causaram nos anos 20, tinham-se tornado canónicos, o dono, o Telles, tinha morrido em 1932, os seus descendentes tinham vendido a Brasileira do Chiado, embora, como afirma João Bernardo Galvão Telles, mantivessem quota na do Porto. Após 45 anos de exposição ao pó do café e ao fumo dos circunstantes, as telas estavam escurecidas. Por sugestão do antiquário Joachim Mitninsky a administração vendeu-as e fez nova encomenda a artistas de uma nova geração, selecionados pelo crítico e historiador de arte José-Augusto França. 

Várias cenas da instalação da segunda coleção, em 1971, na noite de 26 de outubro. Fotografias de José Luís Madeira, também na exposição. O artista João Hogan junto ao quadro de sua autoria, na noite de 26 de outubro de 1971.

A 26 de outubro, numa operação noturna cujas fotografias, da autoria de José Luís Machado, são agora mostradas pela primeira vez no catálogo e na exposição, foram montados na Brasileira os novos quadros: Homenagem a Eduardo Viana, de Fernando Azevedo; Retrato dos Críticos, de Nikias Skanipakis;  Cena inspirada numa obra de Marcel Duchamp, de António Palolo; Pintura Decorativa, de Noronha da Costa;  Cena com Arquitectura, de Eduardo Nery; Alegoria à Brasileira, de Carlos Calvet, Café, de João Vieira; Marbella, de Joaquim Rorigo; Paisagem d Porto Covo, de João Hogan, Forma Abstracta, de Vespeira e Natureza Morta Abstractizante, de Manuel Baptista, este último o único artista ainda vivo do grupo.

São os que ainda estão expostos e, numa recente limpeza do espaço, mais visíveis.  

Como nota Raquel Henriques da Silva no catálogo da exposição, “a seleção feita, como afirmou Rui Mário Gonçalves, correspondia às tendências típicas dos anos sessenta: ‘dois abstratos, um figurativo, um comprometido entre o figurativo e o não-figurativo, um letrista e seis integrados ou próximos do Neo-Figurativismo, com ou sem incidências do espírito pop”. Que os onze pintores finais fossem todos homens, como haviam sido os sete de 1925, eis o que não terá merecido nenhum comentário.

Haviam, de facto, sido convidadas duas mulheres (Paula Rego e Menez) que declinaram e outros nomes foram referidos (Lurdes de Castro, Maria Velez, Helena Almeida) mas afastados à partida pela heterodoxia das suas oficinas. Não houve de facto nenhuma intencionalidade, mas, como continuaria a acontecer, um natural estado de coisas…”

Quadro Os Críticos de Nikias Skapinakis, em exposição na Brasileira.

Na verdade, Lisboa mudara. Estávamos em plena Primavera marcelista, as mini-saias subiam e desciam o Chiado, instituições como a Fundação Gulbenkian tinham habituado o público lisboeta a uma certa vanguarda artística. Como notava João Hogan na época, este grupo de 71, e a própria Brasileira, arriscaram muito menos do que em 1926. Ninguém falou de “telas tolas” ou de artistas a borrar a pintura.

Um roteiro novo e antigo, no Chiado

Para Raquel Henriques da Silva, esta exposição marca uma espécie de roteiro que, no Chiado, entre a Brasileira e o MNAC, vale muito mais do que os cerca 100 metros que distanciam estes dois pontos vitais. “Foi uma parceria que correu muito bem e que vem valorizar a importância deste bairro de Lisboa para a História da Arte em Portugal.” 

Tal como está especificado no catálogo, esta exposição ”traduz bem a qualidade das memórias deste pequeno/grande café lisboeta, fundado em 1908 por Adriano Teles e mantido, quase miraculosamente ao longo de mais de um século, em relação aos valores decorativos que o modernizaram em 1925”. A mais prestigiada «Loja com História» da cidade, prova, ainda hoje “quanto a salvaguarda exigente dos patrimónios não conflitua, antes pelo contrário, com um desempenho económico bem sucedido”. 

O mesmo considera quem lida agora com os destinos deste café muito especial, Tiago Quaresma, da Valor do Tempo. “Há 100 anos a Brasileira tomou o lugar do MNAC como primeiro museu modernista de Lisboa, recebendo nas suas paredes a tremenda geração de Almada, Stuart, Eduardo Viana e seus amigos. Ao longo dos seus 116 anos de história o papel da Brasileira tem sido o de dar palco à cultura e aos seus intérpretes, promovendo o progresso que só a arte é capaz de impulsionar”, diz o gestor, fazendo questão de acentuar que “hoje, como ontem” o café cumpre esse “desígnio de propulsor de mudança e de palco da efervescência artística: a cada encontro que acontece numa das mesas sextavadas.” 

E fá-lo, também, na Mensagem de Lisboa, dizemos nós com orgulho de sermos herdeiros desse espírito. Ou, como explica Tiago, “a cada história contada na Mensagem de Lisboa, nascida no mesmo lugar onde um dia Almada escreveu parte do famoso Manifesto. Hoje, como na altura, acreditamos poder ser parte da mudança.”

O debate, recente, com o músico, produtor e escritor Kalaf Epalanga e Emília Ferreira, diretora do MNAC, sobre o centro e a periferia, na Brasileira. Novas tertúlias.

*A Valor do Tempo e Tiago Quaresma são fundadores e investidores na Mensagem de Lisboa cuja sede se encontra na Brasileira do Chiado.

Em breve vamos organizar um evento sobre esta exposição. Deixe aqui o seu contacto se estiver interessado:


Maria João Martins

Nasceu em Vila Franca de Xira há 53 anos mas cresceu na Baixa de Lisboa, entre lojas históricas e pregões tradicionais. A meio da licenciatura em História, foi trabalhar para um vespertino chamado Diário de Lisboa e tomou o gosto à escrita sobre a cidade, que nunca mais largou seja em jornais, livros ou programas de rádio.

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