Aprendemos a escrever ao mesmo tempo, quase ao mesmo tempo. Ela pediu-me para lhe ensinar as letras e desenhava-as numa linha sinuosa. Queria assinar no bilhete de identidade e conseguiu. Maria do Carmo, letra redonda a sorrir como uma gaiata. Mas não se ficou por aqui. Ainda haveria de aprender a escrever a morada.

A minha avó é beirã, mas nos cupões dos concursos é lisboeta: 1300 Lisboa. Aquele redondel cimeiro do L manuscrito era uma dor de cabeça, um nó cego como as ruelas d’ Alfama. A mão tremia-lhe no torce-destorce-destorce-torce dos becos acanhados e descarrilava colina abaixo. Rumou à Baixa e passou a grafar em letra de imprensa. Um L pombalino: uma grande artéria que crescia para sul até ao rio e um passeio ribeirinho plano a caminhar para poente.

A minha avó é beirã, mas nos olhos é lisboeta. Do quintal, via do Alfeite à Guerra Colonial. Ela é da Lisboa dos quintais lavados à mangueirada, antes da Lisboa dos terraços e dos roof tops. Do quintal, acenou ao filho no Vera Cruz, um ponto escuro na proa do navio, muito chegado a outros dois mil pontos escuros. Uma corda preta de filhos que iria enlaçar os pretos de África. Às vezes, a corda partia. Do quintal, entre os fogachos do entardecer no Tejo via o Ultramar e não gostava do que via. O rio perdia o dorso prateado de carpa para se ver tingido pelo vermelho do sangue africano.      

A minha avó é beirã, mas no amor aos animais é de Lisboa. Ela sabia que os lisboetas sensíveis comem coelhos, mas não matam coelhos. Trazia os animais vivos para casa, pulantes entre os talos das couves, que cresciam na horta para fazer sopa e não para fazer moda. Eram o deleite das netas, que lhes amaciavam as longas orelhas. As mesmas por onde eram pendurados antes da pancada seca da morte. Em menos de nada, estavam no tacho e deixavam de ser coelhos para serem almoço. Não os chorávamos, lambíamos os beiços a cada garfada.    

A minha avó é beirã, mas é na calçada portuguesa que abre caminho como no sobrado do monte se abrem sendas. Os da câmara podiam mudar a toponímia das ruas as vezes que quisessem, inventar sentidos proibidos, não precisava de ler títulos honoríficos lapidados nas pedras para saber que o leito só é rio quando corre e o caminho é de quem o pisa.

Perguntem ao General João de Almeida, que tem nome de travessa como quem vai para a Boa Hora, quanto engana a balança da drogaria a pesar a cânfora, qual a peixeira que refresca o olhar do besugo com sangue velho, onde se escondem as margaridas murchas no ramo da florista em frente ao cemitério do Alto da Ajuda. O General talvez vos fale de estratégia, mas a minha avó tinha a esperteza dos lisboetas que não se deixam enganar, apanhava o 18 para o Cais do Sodré e saía antes da paragem dos carteiristas.

A minha avó é beirã, mas para mim é a minha avó de Lisboa. Da dobra do seu olhar via o fogo de artifício a cada passagem do ano. A minha avó é tão lisboeta que, sabendo que não haveria arraiais, foi a tempo de assar as sardinhas. Se perguntarem por ela, está a fazer brasas com o Santo António. Adeus, Avó. 


Filipa Martins

É escritora. No seu primeiro romance, descreve a plumagem do Passeio Público e, no segundo, as saudades dos que partiram do Cais das Colunas. Os cafés de Lisboa são escritórios convenientes e o rio o repouso dos olhos.

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3 Comentários

  1. Engraçado. Ainda ha dias escrevia eu que pessoas há capazes de jurar serem incapazes de matar uma galinha mas que a comem deliciados depois de morta. Gostei muito da avó

  2. Gostei muito ! Sou avô, e tornou-se tão raro falar-se de avós…! Das ruas de Lisboa, lavadas à noite sob pressão de uma mangueirada, e das canjas que eu sempre detestei em miúdo, sabendo que aquela galinha estúpida me era servida à mesa, depois de a ter tratado a milho, couves e farelos, como se fazia na minha terra, Coimbra…! Coisa de avós…!

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