Há 100 anos, A Brasileira do Chiado acolhia obras de uma primeira geração de artistas modernistas, da qual faziam parte nomes hoje sonantes como Almada Negreiros, António Soares, Jorge Barradas, Bernardo Marques, Stuart Carvalhais, José Pacheco e Eduardo Viana. Os primeiros quadros seriam retirados em 1971, vendidos e substituídos por obras de artistas de uma nova geração, selecionados pelo crítico e historiador de arte José-Augusto França.
Em 2021 celebrou-se o 50.º aniversário desta segunda vaga, com uma exposição dos primeiros quadros no Museu Nacional de Arte Contemporânea, no Chiado (MNAC). Em 2025 celebram-se os 100 anos da primeira geração de quadros. E ambas as datas foram o mote para o lançamento do novo Prémio de Pintura A Brasileira do Chiado, numa iniciativa que comemora o Café enquanto espaço cultural artístico, de Lisboa honrando a sua história e o seu fundador.
“A Brasileira sempre foi um espaço cultural, e fazia sentido celebrar a primeira geração de artistas, trazendo uma nova geração de quadros”, diz Sónia Felgueiras, diretora de marketing do grupo O Valor do Tempo, que gere A Brasileira.
O objetivo é encontrar 10 obras de artistas nacionais que ficarão em exposição temporária n’A Brasileira do Chiado, por um período de tempo a determinar e que permita à comunidade artística e aos diversos públicos a sua fruição, enquanto se aproveitará a oportunidade para restaurar os atuais quadros expostos. O anúncio dos vencedores será a 19 de novembro de 2024, data de aniversário d’A Brasileira.
Este concurso também é uma forma de apoiar a comunidade artística, retomando a relação de proximidade que se estabeleceu entre A Brasileira e os modernistas do século XX em Lisboa. “Essa relação com os artistas perdeu-se um bocadinho com o tempo. Mas, quer com o lançamento da Mensagem, quer com a organização de tertúlias e a edição de livros, temos tentado voltar a trazer essa vertente cultural”, diz Sónia Felgueiras.
Consulte aqui o regulamento

Visionários da arte
O homem por detrás da transformação da Brasileira num pólo cultural foi o seu fundador, Adriano Telles, que, num ato de mecenato invulgar, faria do mítico café do Chiado o primeiro Museu de Arte Moderna de Lisboa. Há uma curiosa história sobre isto. O pintor Columbano Bordallo Pinheiro, desde 1914 diretor do recém-criado Museu de Arte Contemporânea, menorizava o trabalho dos artistas mais jovens, impedindo a entrada das obras no Museu. E assim A Brasileira acabou por funcionar como o verdadeiro museu de arte contemporânea desse tempo, quando Adriano Telles aceitou expor quadros de Almada Negreiros, António Soares, Jorge Barradas, Bernardo Marques, Stuart Carvalhais, José Pacheko e Eduardo Viana, em 1925.
A Brasileira funcionou como uma extensão do Museu, nesse bairro em que estavam também a Faculdade de Belas Artes, o Teatro São Carlos, o Teatro São Luiz, várias galerias de arte. Na altura, os quadros não foram vistos com bons olhos, chegando mesmo a ser apelidados como “as telas tolas do Telles”. Hoje, esses mesmos artistas são figuras incontestadas do movimento modernista.

“Nada poderia agradar mais a Adriano Telles, proprietário e fundador da Brasileira do Chiado, ‘homem conservador nos costumes, mas arrojado tanto do ponto de vista cultural, como na visão que tinha do negócio’, como o define um dos seus bisnetos, João Bernardo Galvão Telles, especialista em património cultural. Adriano foi o homem que, em 1925, abriu as portas do seu café ao que de mais vanguardista se fazia nas artes plásticas em Portugal.”
Um prémio para artistas em ascenção
O prémio agora instituído dirige-se a artistas de nacionalidade portuguesa com mais de 18 anos que tenham um grau académico na área das artes visuais e vai premiar as 10 melhoras telas originais com um valor pecuniário total de 10 mil euros (1000 euros por cada vencedor) e a sua exposição n’A Brasileira.
O júri do prémio conta com Emília Ferreira, Diretora do Museu Nacional de Arte Contemporânea (MNAC), Cláudio Garrudo, Diretor da Unidade de Edição e Cultura INCM; Maria Aires Silveira, Curadora no Museu Nacional de Arte Contemporânea (MNAC), José Quaresma, Professor Associado com Agregação da FBAUL, Paulo Fernandes, Historiador de Arte e coordenador da área de investigação do Museu de Lisboa, Tiago Quaresma, Administrador do Grupo O Valor do Tempo, de que faz parte A Brasileira e João Bernardo Galvão Teles, bisneto do fundador d’A Brasileira, jurista e consultor em História e Património.

Os trabalhos terão de ser entregues em mão na Calçada do Carmo, número 3, 1200-090 Lisboa, até ao dia 30 de setembro de 2024.
A entrega dos prémios fica marcada para 19 de novembro, dia em que se celebra o aniversário d’A Brasileira.

Tratando-se de um prémio para artistas portugueses, a sua visibilidade e exposição será um fator importante.
Até outubro, serão dinamizadas tertúlias e entrevistas organizadas e publicadas pela Mensagem, numa homenagem a este lugar de Lisboa que marca e marcou a vida cultural da cidade.

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Caros senhores
Li que o vosso concurso, sobre Arte Moderna, do digno Café A Brasileira do Chiado, é aberto a artistas que tenham um grau académico na área das artes visuais. 1) No entanto a Arte Moderna, nascida em 1848 com a Escola de Barbizon e que até hoje se desenvolveu por mais de 170 movimentos artísticos (um deles, de 2023, a Arte Quase Bruta, do Manifesto de minha autoria: que não tenho grau académico nas artes visuais) foi a negação da Arte Académica. Cerca de 80 movimentos em 170 (47%) negaram a Arte Académica. E todos os movimentos teóricos, como as secessões de Munique e de Berlim, opuseram-se à arte académica e instituída. Daí que essa exigência do concurso nega o espírito da Arte Moderna, da Vanguarda da Arte e do seu fundador Adriano Telles. 2) Com a restrição a quem tem um grau académico a vossa organização torna seletivo o acesso ao concurso à semelhança da seleção restritiva existente no mundo da Arte e da Cultura. 3) E essa restrição, negando a criação livre, nega a liberdade democrática em que vivemos (?).
Com os meus cumprimentos
Arsénio Rosa
Olá boa tarde. O regulamento foi alterado precisamente po causa disso. Obrigada!
O regulamento expressa formato portrait, contudo os atuais estão em formato landscape. Parece contraditório, pelo qual se agradecia esclarecimento.
Não entendo, pessoalmente, porque a pintura tem de ser limitada a tela e não abrangente a pintura em madeira ou tela armada em contraplacado.
Condições restritas … quando ao dispôr se encontram tantos mediums…