Manuel e a Nova Banca, uma galeria de arte no passeio da avenida de Roma. A iniciativa já foi aplaudida por peões que passavam no local

A chuva de abril gentilmente cai sobre a avenida de Roma e a mulher protegida pela gabardina branca se aproxima do quiosque. Troca duas, três palavras com o vendedor e parte em seguida, levando consigo um desenho na moldura. Naquele quiosque, em frente ao número 9, já não há jornais e revistas. Papel, por lá, só estampas e pinturas.

A Nova Banca – que contem em si mais um trocadilho, desta vez financeiro – é uma galeria de arte na via pública, ideia que partiu de um casal de brasileiros, Manuel Mendonça e Marina Borba – ele artista, ela doutorada em Belas Artes – e que foi vista pela Câmara de Lisboa com bons olhos, acolhida como parte do movimento de renovação para que uma das principais artérias do Areeiro, a avenida de Roma, volte a pulsar forte como no passado. 

“O start quem deu foi uma amiga de doutoramento da Marina, que tem uma banca só com livros e revistas de arte em Alvalade”, conta Manuel, um publicitário do Recife, há cinco anos em Lisboa, que até abrir a galeria vivia da arte dos check-ins, ou seja, de receber os hóspedes em alojamento locais na Bica. “Daí, concorrermos na Câmara à concessão de uma das bancas que estavam desativadas e acabamos por ficar com esta”, explica.

Manuel conta que o espaço abriu as portas em março de 2020 e, seis dias depois, fechou-as, durante o primeiro confinamento. Reabriu no verão e, não sendo uma banca como as outras, voltou a encerrar em janeiro – os quiosques de jornais permaneceram abertos no segundo lockdown – e só voltou a funcionar no último dia 5 abril, quando foi dado o sinal verde para os museus e as galerias de arte.

Onde já se viu expor arte numa banca?

A banca do Manuel abriga obras de 47 artistas, residentes em oito países: Portugal, França, Irlanda, Itália, Peru, Gana, Estados Unidos e, claro, Brasil. Dentre os brasileiros, o próprio Manuel que, aos 38 anos, largou definitivamente a publicidade para rodear-se de pincéis, tintas e telas. Entre um check in e outro, frequentou uma escola de arte na Baixa. “Comecei a expor na LX Factory, na Malapata e em outras galerias”, conta.

O circuito de exposição permitiu-lhe construir um network com artistas jovens e iniciantes no cenário artístico em Lisboa. Deste círculo de amizade saíram os primeiros nomes da galeria, pessoas que confiaram no projeto. Manuel conta que chegou a convidar um nome – que prefere não revelar – já consolidado na cidade e ouviu como resposta um “onde já se viu expor arte numa banca de revistas?”

Manuel trocou a publicidade pelo pincel, tinta e a tela. Além das obras de outros artistas, vende os próprios trabalhos.

Visto ou nunca visto, o certo é que a ideia pegou. “Hoje, por falta de espaço no quiosque, sou obrigado a negar duas ou três propostas por semana de pessoas que gostariam de expor aqui”, diz, exibindo um calhamaço nas mãos, com os 46 portefólios – mais o dele – dos artistas residentes no quiosque-galeria.

Aos pouco, porém, o desejo do brasileiro é de ampliar a participação, principalmente dos lisboetas, até como uma forma de retribuição. “A banca é um equipamento urbano, no qual tenho uma concessão. Acho importante retribuir a confiança da Câmara no projeto e abrir o espaço para divulgar o trabalho dos artistas da cidade. Aos poucos, seguiremos com isto”, comenta.

“Por falta de espaço no quiosque, sou obrigado a negar duas ou três propostas por semana de pessoas que gostariam de expor.”

Do lado de fora, a Nova Banca parece um quiosque como outro qualquer, um imenso quadrilátero de metal encravado no passeio, bem em frente aos Correios. Manuel conta que a semelhança leva, frequentemente, pessoas mais distraídas a pararem diante dele à procura de jornais, lotarias ou tabaco. “Só depois, percebem que é uma diferente”, diverte-se. “O único serviço igual ao de uma banca é trocar dinheiro.”

Alguns peões mais desatentos ainda costumam parar na galeria à procura de jornais, revista ou tabaco.

É no interior que a galeria se mostra por inteiro, com suas cores, os desenhos estampados em cerâmica, madeira, tela, papel e fotografias. A beleza do cenário chama a atenção dos peões mais atentos ao fato de estarem diante de um espaço dedicado à arte. “Já vi gente a passar por aqui, parar no passeio em frente ao quiosque e aplaudir a iniciativa”, conta Manuel.

“Tivemos um bom primeiro verão de funcionamento e vendemos bem. Mas o nosso negócio, assim como os demais, obedece ao humor da pandemia.”

Os valores das artes à venda cumprem um arco bastante democrático para o bolso, a variar entre € 3, por um cartão postal, aos € 330, num trabalho assinado pelo conterrâneo de Manuel, Carlos Pragana. A peça é parte de um lote de 11 desenhos do cultuado artista do Nordeste brasileiro, que Manuel trouxe na sua última ida ao Brasil. Emoldurou as obras ao chegar em Portugal e já vendeu quatro delas.

Manuel teve de esperar para reabrir o quiosque junto com museus e galerias.

“Tivemos um bom primeiro verão de funcionamento e vendemos bem. Mas o nosso negócio, assim como os demais, obedece ao humor da pandemia”, diz o antigo publicitário, que sabe o valor da propaganda boca a boca. “Desde que reabrimos, algumas pessoas apareceram indicadas por outras, como foi o seu caso”, comenta, ao lembrar de que havia chegado lá através da sugestão de um de nossos leitores.

Durante o confinamento, os negócios restringiram-se ao online, pelo site, com a divulgação no Facebook e Instagram da Nova Banca. Entre os maiores compradores, clientes da Alemanha e dos Estados Unidos. A reabertura é a esperança de que o negócio agora estabilize na avenida de Roma e até se expanda. Daí, quem sabe, outras freguesias de Lisboa terão o privilégio dos moradores do Areeiro, de irem aos quiosques para receberem, todos os dias, notícias fresquinhas do mundo da arte.


Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 48 anos, há cinco em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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5 Comentários

  1. Que fixe!!!!!
    Parece que estamos nas margens do rio Sena!!!
    Logo que possa, passo por lá!!
    Obrigada

  2. Grato pela informação e gostei de saber desta nova galeria. Visitei o site e as obras mostradas não fazem o meu género; mas admiro a coragem de abrir um espaço destes. Sucesso é o que desejo.

  3. Que ideia tão bonita e divertida! Vender arte em vez de más notícias (desculpem, bons jornais, adoro-vos mas às vezes até se tem medo..), e revistas foleiras. Hei-de ir lá ver. Boa sorte!

  4. A Arte é e sempre será uma Lufada de elevação da Alma e do Coração ! Seja ela qual for! Parabéns pela Iniciativa

  5. Agora que fala nisso… realmente há cada vez mais semelhanças entre Lisboa e Paris! Se bem que eu atribua isso ao número crescente de vizinhos franceses que tenho. E também ao facto de certos bairros cada vez mais se assemelharem a Saint Denis, com tudo o que isso implica…
    E pensar que há alguns anos de cantava “Lisboa não sejas francesa (…) tu és portuguesa, tu és só p’ra nós!”. Hoje, com a nova pide instalada, a música seria censurada e a cantora acusada de xenofobia. 🙂
    Mas gosto do quiosque! Venham também os alfarrabistas de Paris (cada vez que lá ia, era neles que gastava o dinheiro das refeições). Se quiserem também desmontar a Torre de Saint Jacques… e trazê-la para a Praça de Espanha… digam lá que não ficava magnífica! Já que se quer descaracterizar Lisboa, ao menos que se faça uma coisa bem feita!

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