D. Florentina, como todos a conhecem por aqui, criou um jardim numa lixeira, em Alvalade. Foto: Rita Ansone

É no número 3, da Rua Eugénio Castro Rodrigues que se encontra a discreta entrada para um paraíso. Uma rua normal, de prédios dos anos 70/80, a norte do bairro, esconde o Jardim dos Moradores, um pequeno pulmão de Alvalade. Está ali há vinte e um anos, e com essa placa às vezes confunde quem se detém para a ler a placa toponímica, ficando na dúvida se são moradores o suficiente para entrar. Mas quem conhece a história sabe que este é o Jardim da D. Florentina. E que foi da força desta mulher, já na casa dos 70, que nasceu este paraíso aberto a todos.

Temos de recordar memórias alheias, como se fossem nossas, para perceber como tudo começou. A construção nesta zona do bairro foi do género enquanto houve terra para construir e alcatrão para lá chegar: cresceu em todas as direções. Aqui não há apenas prédios pitorescos com logradouros como Alvalade nos habituou. Mas, pelo acaso da orografia, no meio das ruas Eugénio de Castro Rodrigues, Reinaldo Ferreira e Marquês de Soveral, em frente à Escola Padre António Vieira, ficou um triângulo vazio, nas traseiras dos prédios e com uma abertura para a rua.

Nesses tempos de pouca consciência ambiental, o entulho e lixo atiravam-se pela janela para o espaço de terra e canas, o que depressa tornou o espaço num local onde só traficantes de droga e ratos se sentiam convidados a entrar. Até um dia.

O jardim, tal como ele está, visto dos prédios. Foto: Rita Ansone

Foi precisamente um rato que mudou o destino deste lugar. Um rato que entrou pela casa da D. Florentina – e não era a primeira vez que se fazia convidado. Esta senhora, que tinha uma papelaria no rés do chão do seu prédio mas era uma jardineira de coração, decidiu ser altura de mudar o curso das coisas e, literalmente, meter as mãos na terra.

Um trabalho comum

Começou pelos metros imediatamente à frente do seu quintal. Num espaço para onde todas as janelas – que é como quem diz olhos – estão voltadas, não há ações que passem despercebidas.

D. Florentina no jardim que muito lhe deve. Foto: Rita Ansone

O Sr. Francisco, que passava muito tempo à janela, e continua vivo nas boas memórias do diospireiro da entrada, perante o empenho solitário, perguntou se a D. Florentina queria ajuda. Haveria lá ela de recusar! Depressa a palavra correu o bairro e a ajuda foi chegando de todos os cantos, com muitos nomes. Cada um contribuía como podia. Uns emprestaram os braços, outros doaram plantas com mais ou menos saúde, e até a livraria dava as suas paletes. Os materiais, aparentemente inúteis, assumiram as formas necessárias, dando ânimo essencial para continuar. “Tudo o que era preciso aparecia e todas as mãos eram importantes”, recorda a D. Florentina com emoção.

Após cada limpeza, com a devida autorização, iam à Mata, como aqui se chama ao “Parque José Gomes Ferreira”, com o carrinho-de-mão buscar terra para compor os novos canteiros. Ainda é possível observar que diferentes pessoas assumiram o cuidado de cada canteiro: o do Sr. Manuel focou-se nos Aloés. Antes de ali ser instalada a rega automática, os moradores ligavam as mangueiras à torneira da cozinha, e das janelas molhavam o jardim, ao fim do dia, até onde a pressão da água alcançasse.

D. Florentina, no jardim que criou, e para o qual contribuíram muitos vizinhos. Foto: Rita Ansone

Foram assim seis anos passados a limpar, revestir e plantar, com hora para começar mas sem hora de terminar. Em bom jeito lisboeta, quando estava tudo limpo e plano, houve quem vislumbrasse ali um estacionamento. Até a polícia foi chamada para conter os avanços do jardim, e os moradores continuaram a atirar lixo em protesto – na luta que não foi bem sucedida.

Tudo o que ali foi feito aconteceu de forma intuitiva, com compreensão e respeito pela terra, e um desenho que ia sendo traçado no pensamento da D. Florentina, à medida que avançavam. Projetista sem papel e caneta, muito menos computador, relata com algum sarcasmo na voz o dia em que os técnicos da Câmara Municipal de Lisboa visitaram o espaço, para verificar se existiam condições para ali colocar um parque infantil.

A arquiteta insistia “Mas onde está o projeto?” D. Florentina, pacientemente, respondeu: “Não há, está na cabeça, fomos cuidando e avançando. Há algo de errado?”. Não havia, de facto.

Um relógio solar único e muitos vizinhos a ajudar

Na altura, D. Florentina, que também frequentava aulas de azulejo, pintou um relógio solar, uma peça única em jardins lisboetas. “Já deu horas, antes de arrancarem a haste”, diz, um pouco triste. Porque o jardim é de índole comunitária, a empreendedora verde também convidou os alunos da Escola São João de Brito a escolherem uma frase para os azulejos da fonte, donde também jorrou água em tempos idos (ver fotos abaixo).

O espaço contribuiu para que se dessem nomes às caras dos vizinhos, criar laços que duram até hoje e devolver a segurança ao local. Ao longo de muitos verões, realizaram-se festas de Santos Populares e aniversários de netos. No último Magusto, num discurso não programado, D. Florentina esqueceu-se de referir os co-fundadores.

Neste texto, porque são sete, falta referir o Sr. Fernando, outro reformado que gostava de estar à janela. A “tia Lena” e o Sr. Carlos, que a tudo se prestavam. O Sr. Manuel, que assegurou os percursos do jardim, os bancos e a primeira mangueira. O Sr. Ramos que, apesar de viver em Benfica se predispunha a transportar o que fosse necessário na sua carrinha. E, claro, a D. Mimi, a principal mecenas.

Feitos os agradecimentos, temos de voltar à atualidade. Nos últimos três anos, devido ao corte de água, e à ausência de manutenção consistente, é notória a degradação. Apesar disso, continua a ser o ponto de encontro dos vizinhos, à sombra da aroeira, ora a passear os cães É ainda morada de mais de 60 espécies muito resilientes do reino vegetal, nas quais os pássaros encontram refúgio: ficus, freixos, jacarandás, pinheiros, tílias, prunus, aroeira, limoeiro, anoneira, abacateiro, nespereiras, figueiras e damasqueiro.

Uma mobilização bem sucedida pela preservação do jardim

Mais recentemente, quando a Junta deixou uma tímida carta em algumas caixas de correio acerca do novo projeto para o Jardim, depressa percebemos que o projeto não respeitava o espaço nem a sua memória. É aqui que o autor deste texto entra na história do Jardim como mais do que um utilizador, servindo de ponte entre os que fundaram o espaço e a Junta. O primeiro contacto deu-se por email, e não foi agradável.

O projeto após a mobilização, incluindo o que já existe e foi feito pelos moradores.

A luta pelo jardim começou com mails apaixonados, e seguiu com um belo empurrão técnico de um paisagista, com o qual conseguimos criar um documento completo e detalhado de uma posição consensual que facultámos antes de colocar em circulação. Meses depois, temos a confirmação de que a mobilização não foi vã, pois a atual versão da requalificação compromete-se a manter o espaço focado em todos, reavivando o espírito comunitário, como desejamos.

A história deste Jardim irá, pelo acaso da vida, cruzar-se com o Jardim das Plantas Doadas, onde foi aberto caminho para que os cidadãos, com a proteção institucional, possam cuidar dos espaços, sem sentirem o medo de roçadoras e motosserras impiedosas. É uma mera questão de regulamentação que faz algo poderoso: permitir aos fregueses criar raízes aos sítios, dar nome e cuidar da terra que é de todos nós. Esta iniciativa irá preservar o trabalho de alguns que já cá não estão, mas vivem nas árvores, e de outros que felizmente cá continuam.

O sol está a voltar a brilhar para este jardim. Foto: Rita Ansone

Enquanto é feita uma passagem simbólica do Jardim à nova geração, continuamos a chamá-lo Jardim dos Moradores, este lugar onde os ruídos da cidade se acalmam para escutarmos o jardim, num convite a fugir da cidade. Se não o conseguem ouvir de onde leem este texto, convido-vos eu a entrar.

*Leonardo Rodrigues é aluno de Ciências de Comunicação, na Universidade Nova, e também autor do projeto Lisboa Quase Verde. Foi dele a iniciativa de mediar a relação com a Junta e contribuir para salvar o jardim. Autor do blog Leonismos.com

Conhece alguma outra história de jardins feitos por vizinhos? Conte-nos!

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14 Comentários

  1. Que BONITO!! Bem haja, D. Florentina e todos os que colaboraram tão amorosamente nesse jardim.

  2. Adorei o texto e o amor que nos transporta a um espaço único dentro da cidade. Como a velhice consegue fazer para com outras gerações num jardim de conto de fadas reais… Parabéns.

  3. Obrigada D. Florentina e ao Leo pela ajuda a salvar mais um logradouro verde no bairro.
    Alvalade é verde!

  4. Parabéns a tofos que colaboraram na existência desse pequeno paraíso, pela iniciativa!
    Devia ser dado conhecer e divulgado porque servirá de exemplo para muitos recantos do bairro que podem ser melhorados.
    Moro em Alvalade também, mais para os lados da av. de Roma e sim existem recantos mimosos neste bairro e ainda poderão haver mais… basta começar por um canteiro até chegar a um mini paraíso como o da D Florentina e vizinhos. Parabéns mais uma vez por tornararem o nosso bairro cada vez mais verde!

  5. Obrigado D. Florentina por continuar a partilhar a sua infinita bondade e energia e a todos os q igualmente contribuíram neste fantástico projecto!!!

  6. Experiência fantástica, nem parece real nesta urbe sempre tão acelerada. Não conheço nenhuma outra história semelhante, mas garanto que esta deixou uma sementinha que poderá reproduzir-se num outro local oxalá que com o mesmo amor e persistência. Obrigada!

  7. Sou testemunha da luta estóica que a Sra. D. Florentina travou com adversidades, contrariedades, incompreensões, burocracias, e imensas dificuldades. Mas nunca se deixou abater, nunca baixou os braços e as guardas e lutou, com algumas pessoas que sempre a admiraram e confiaram. Pessoa determinada , convicta , de trato como, soube contornar tudo e fazer obra exemplar, numa prova de que a sociedade civil pode e sabe fazer e ser útil sem custos para o erário público e sem ficar presa a burocracias e a “birras políticas. Eu é alguns Briosos, colaboramos em diversos momentos e situações. Logo à entrada está a nossa marca com uma figura de cortesia, em azulejo, dando as boas vindas. Também lá vivemos momentos felizes com a família de moradores. Parabéns e certamente que poderia ter ido mais longe, mas há razões que a razão desconhece. PARABENS D. FLORENTINA É todos que a ajudaram e muito obrigado pelo muito que.nos ensinou. Felicidades.

  8. Parabéns a todos, aos que idealizaram, aos que deitaram mais à obra, aos que doaram plantas, madeiras, carrinha, os que contribuíram com a mão de obra e a força de vontade, aos que resistiram à tentação de transformar o espaços noutra coisa qualquer que não esse fantástico espaço verde e a quem escreveu este belo texto a contar-nos da sua existência. Ler coisas boas, bonitas e positivas, dá-nos felicidade

  9. Bendita seja a Sra, aqui no concelho de Oeiras também há espaços vazios que precisam de mimo

  10. Adorei ler esta história de amor à natureza, de resiliência e de unidade entre vizinhos. Os meus parabéns a esta Senhora e a todos os que colaboram neste belíssimo projecto.
    Que ele tenha futuro e que se reproduza noutros semelhantes e com a mesma energia.

  11. Vi agora no Canal 2 a referencia a este Jardim dos Moradores e, claro, tive de vir pesquisar.
    Depois de me deliciar a ver projetos internacionais de jardins urbanos, também no 2-º canal, posso garantir que este não lhes fica atrás na determinação. Bem haja a Dona Florentina e todos os que com ela colaboram. O testemunho está passado. Tentarei fazer a minha parte, divulgando.

  12. Fantástico relato de memória e paixão… Em Inglaterra são famosos os “secret gardens” espaços escondidos entre edifícios que são aproveitados para jardins “privados” alguns maravilhosos. Esse não se fica nada atrás. Bem hajam todos os cuidadores.

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