Acordei. Por momentos não sabia onde estava. Mas rapidamente me veio à mente o dia e noite anteriores. E as dores que tinha no corpo por ter dormido no banco do jardim confirmavam a minha realidade. A manhã já estava avançada e o sol já me aquecia o rosto. Como num sonho, olhei para o relógio do telemóvel. Passava das oito. Senti um aperto no peito. O desespero voltava a tomar conta de mim.

Tapei a cabeça com o cobertor para tentar pensar. Estive assim alguns minutos, pensando que seria melhor não ter acordado, pois o verdadeiro pesadelo iria começar agora.

O parque já não estava silencioso como na noite anterior. Ouvia as vozes das pessoas e das crianças, cães a ladrar e o barulho do trânsito ao longe. Nisto sinto dois toques no ombro ao de leve acompanhado por uma voz masculina e autoritária: “Bom dia. está acordado?” Destapei a cabeça e olhei para cima semicerrando os olhos por causa do sol e deparei-me com o colete amarelo e a farda de um agente da Polícia Municipal. Sim estou, respondi. “Ouça, não pode dormir aqui” disse ele com um ar autoritário, mas muito afetado e apreensivo.

Vi nos olhos dele que a sua tarefa era ingrata. Eu respondi que não tive onde passar a noite. E ele retorquiu: “Este parque é privado. Mantenha-se sentado e com a roupa de cama dentro da mala.” Roupa de cama, pensei eu. Era apenas um cobertor! Disse ao agente para não se preocupar, porque ia de imediato sair dali. Parque privado… pelos vistos, de futuro teria de dormir num sítio público.

Dominado pela raiva e pela humilhação, dirigi-me de novo com a “casa” às costas em direção à Gare. E sentei-me de novo junto ao terminal dos autocarros, sem saber o que fazer. Senti então necessidade de fazer a minha higiene pessoal. Olhei para o espelho do telemóvel e estava horrível. Despenteado, com ramela nos olhos e com os normais vincos no rosto da noite dormida.

Dirigi-me então para a casa de banho pública da Gare. A meio do caminho, fui interpelado pelo sujeito que me havia pedido um cigarro no dia anterior e que sabia que eu não tinha dinheiro. Perguntou em jeito de retórica: “Então? Ainda por aqui?” Eu nem sequer respondi. A situação era óbvia. Perguntou-me se eu já tinha comido alguma coisa. Eu disse que não. Eu não comia nada há mais de 30 horas. Ele rapidamente tirou a mochila velha das costas e tirou lá de dentro um pão com queijo e um sumo pequeno de pacote dizendo: “O pão não é de hoje e o sumo já tá fora do prazo, mas tá-se bem. São do carro de apoio de ontem à noite. Daqui a pouco vem o pequeno almoço.”

Só vos digo que comi aquela carcaça dura com queijo já ressequido em três ou quatro dentadas, enquanto ele me olhava sorrindo. Que bem que me soube. O sumo então, bebi como se não bebesse um sumo há anos… Fiquei bem e agradeci sorrindo. Ele olhou então para mim durante uns segundos e perguntou-me: “Que vais fazer agora?” Eu respondi que não fazia a mais pálida ideia. Ele olhou para mim de alto a baixo por mais uns segundos e perguntou-me: “Queres andar comigo?” Desconfiado, perguntei: fazer o quê. E ele respondeu rindo: “Um com o outro. Queres?” Eu olhei-o e ele gritou: “Fazer-nos à vida, caralho!”

Confesso que gostei da forma como ele respondeu. Inspirou-me confiança e foi a primeira oferta de ajuda que tive desde que tinha chegado no dia anterior. Concordei, mas disse-lhe que primeiro teria de me ir arranjar à casa de banho. Ao ouvir isto, ele disse-me muito depressa: “Fazer o quê à casa de banho? Não achas que estás já com demasiado bom aspeto para ir pedir? Aliás ainda ’tás limpinho demais… Para já temos de refundir essa mala e essa mochila. Ninguém te dá guito assim. Anda comigo ali ao viaduto guardar isso.”

Eu hesitei, desconfiado outra vez… Eu no fundo não sabia com quem estava a falar, certo? Ele olhou para trás como se lesse os meus pensamentos e disse-me com clareza e assertividade: “Ouve, ó bacano, não confias em mim? Tens escolha? Se não quiseres vir comigo tás à vontade. Olha, boa sorte!”

Pedi-lhe desculpa, mas ele teria de entender as minhas dúvidas. Eu nem sequer sabia o nome dele, nem sabia o que iria fazer… Ele suspirou, um pouco enervado revirando os olhos para cima como quem já deveria ter ouvido aquilo centenas de vezes e depois disse mais calmo: “Que te interessa o meu nome? Que me interessa o teu? Mas tá, sou o Zé. Ou então chama-me padrinho. Vamos embora ou ficas aí a pastar?”

Ri-me e disse que o meu nome era Jorge. E depressa lá nos dirigimos para o tal viaduto, fora do perímetro do parque. Perguntei porquê o termo padrinho, porque é que ele me queria ajudar e o que iríamos fazer. E sem parar de caminhar ele lá ia respondendo às minhas perguntas. “Olha, Jorge, se quero ser teu padrinho é porque em tempos também tive alguns. E tu se te aguentares nesta merda, um dia também vais ser padrinho doutro cromo qualquer. O que vamos fazer? Já se vê…”

Chegamos ao viaduto. Caminhamos para a parte que vai descendo em direção ao chão. E vi o “cantinho” do Zé. Um colchão velho encostado à dobra entre o princípio do viaduto e o chão de pedra. Era o sítio mais acolhedor para se dormir. Um cobertor velho a servir de coberta e outro enrolado servindo de almofada. Ao lado, um fogão Petromax de um só bico e 3 ou 4 garrafas de água. E por debaixo de uma enorme caixa de cartão improvisando um armário, ele guardava uma mala grande com alguma roupa, um saco de plástico com algumas latas de conservas e um pacote de vinho já aberto.

À volta parecia uma lixeira. Senti-me enojado. Ele reparou na minha expressão mas não disse nada. Pediu-me apenas a minha mala e a minha mochila para guardar perguntado: “Tens alguma coisa de valor dentro dos sacos?” Eu disse que não. Só a roupa que preciso, duas toalhas e algumas fotos do meu passado recente, de família e pouco mais. O telemóvel estava comigo.

Enquanto ele dispunha as minhas coisas debaixo do “armário” de cartão eu perguntei se era seguro deixar as coisas ali. Ele perguntou ironicamente: “Tens algum sítio melhor?” É claro que não soube responder. Mas ele acrescentou: “Recua dez metros e olha para aqui. Vês o quê? Uma lixeira… Achas que alguma pessoa vem aqui procurar alguma coisa? Só quem pode saber que pode haver aqui qualquer coisa, são os outros… mas esses sabem que este canto aqui tem dono. Mas é sempre um risco que temos de correr.”

Os outros? Quem são os outros?, perguntei eu. Ele respondeu sem me olhar que os outros eram os restantes sem abrigo que dormiam também nas imediações. E continuou: “Bom… temos de arranjar um colchão para ti.” Quando ele disse isso eu perguntei outra vez porque é que ele me estava a ajudar. Ele sorriu e respondeu: “Olha não sei… Sabes, isto aqui é só animais. Tens de ter cuidado ouve… há aqui de tudo” Dizendo isto levantou a bainha das calças e vislumbrei entre o tornozelo e a meia suja a ponta de uma faca.

Baixou de novo a bainha e continuou sorrindo: “Porque te ajudo? talvez porque chegaste ontem aqui à selva. És novo ainda.” E acrescentou sorrindo: “Depois há bichos que inspiram mais confiança do que outros… E tu tens cara de Panda!” E eu retorqui de imediato: “Não querendo insultar o meu padrinho, eu acho que tens cara de cão com pulgas!” Rimos ambos à gargalhada. Ele pegou no pacote de vinho perguntando: “Vai um Porca de Murça marca loja indiana a 70 cêntimos? É uma grande merda mas é o que se pode arranjar!” Claro que aceitei.

Quando ele ia a beber o seu gole, passou um indivíduo com muito mau aspeto, sem abrigo também e perguntou: “Dá para dar uma bicada?” O Zé mudou para uma expressão rude respondendo-lhe: “Não! Não há nada para ti aqui. Arranja o teu. Andamento!”

Enquanto o outro se afastava e depois de eu acabar de beber o meu gole daquela zurrapa de pacote, perguntei ao Zé porque não quis dar um gole de vinho ao outro. Pensei que existisse solidariedade entre os sem abrigo. O Zé olhou-me nos olhos com uma expressão como eu ainda não lhe tinha visto e disse-me: “Olha, tu fazes o que quiseres. Mas de uma coisa te aviso: aqui neste mato, um homem não chega, dois são o suficiente e três são demais! acredita no que te digo. depressa vais entender o que te digo.”

Fiquei a olhar para ele com aquelas palavras a bailar na minha mente sem perceber nada. Mas nunca mais as esqueci. Esta crónica que escrevi hoje para vocês, caros leitores, foi inspiradora e encorajadora. Recordo-me que foi uma boa manhã na companhia do Zé, o meu padrinho. Mas foi apenas o começo de toda a minha experiência.

Nessa manhã eu ainda estava longe de saber pelo inferno e pelo sofrimento que ainda iria passar. Ainda estava longe de saber os perigos e as lesões irreparáveis que ainda me esperavam. Deixo isso para as próximas crónicas, se me quiserem acompanhar aqui.

E acabo esta crónica com o que o Zé me disse logo a seguir: “Eh pá vais ter de deixar aqui essa t-shirt e essas calças. Parece que saíste agora do escritório. Como é que podes ir pedir assim? Toma esta roupa e vamos à vida!“ E lá fui eu ao lado do Zé, com uma t-shirt gasta e incolor com o logotipo de uma marca de pneus e uns jeans de ganga coçados que só conseguia apertar até ao segundo botão. E fomos fazer-nos à vida.

Leia a crónica anterior de Jorge Costa, o primeiro dia sem abrigo.


Jorge Costa

Tem 54 anos de idade e nasceu em Lisboa, cidade onde sempre viveu. Na Mensagem, partilha a sua experiência da vivência nas ruas, sem teto para viver e para dormir. Foi sem abrigo durante 8 meses, até maio do ano passado. Escreve sobre esta “difícil experiência, indigna e quase desumana”.

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14 Comentários

  1. Sim o Zé foi. Mas se quiser continuar a acompanhar as cronicas, conhecerá o inferno por onde e eu muitos tivemos de privar. Isto foi apenas um dia bom. Não imagina o que é o dia a dia e as noites… Grato pelo comentário.

  2. Jorge o que você escreve e como escreve… Nem sei definir o que sinto ao ler. Acompanho-o desde que escreve aqui e vou continuar a seguir. Um grande abraço

  3. Jorge, muito obrigada por estas crónicas. A desumanização das pessoas sem-abrigo tem que ser erradicada, estas suas crónicas têm que ser divulgadas, deveriam ser de leitura obrigatória.
    Um abraço!

  4. Espero que a vida possa ser menos madrasta agora e que tudo porque passou, que nem nos meus piores pesadelos consigo imaginar, tenha sido apenas uma forma de enriquecimento de caracter e de fazer de si quem é. Adorei a sua escrita, vivi o momento consigo e foi um soco no meu estômago e com certeza o irei seguir …

  5. Grato pelo comentário, Maria Jesus. Bem, eu penso que as minhas crónicas estão a ser divulgadas. Estão aqui na Mensagem, certo? (sorriso) Quanto a serem de leitura obrigatória, não vou comentar. Não me compete. Vou contar apenas a minha experiência quando vivi nas ruas, uma vez que aqui me deram essa oportunidade. Espero que seja útil.

  6. Eu não sei se a minha vivência nas ruas enriqueceu o meu caráter. Não sei se sou mais ou menos daquilo que já era como homem. Eu sou apenas uma pessoa, decerto como a Naide e como todas as outras. Uma pessoa quê não deveria ter passado pelo que passei. Aliás ninguém deveria passar por isto tendo a sociedade como testemunha. Mas fico grato pelas suas palavras.

  7. Muito tocante a maneira como conta a realidade dos desafortunados sem abrigo.
    Vou continuar a acompanhar.
    Um abraço solidário

  8. Obrigada pela partilha da sua tão difícil experiência.Ainda por cima muito bem escrito.São partilhas como estas que podem ajudar os que não passam por elas a entender melhor a realidade dos sem abrigo.E a terem mais oportunidades de dar um apoio mais eficiente.

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