Há discussão pública sobre o Martim Moniz, e ainda bem. Que fazer com um lugar que é vítima de sucessivos faz e desfaz? A notícia alertou-me para uma palavra rara: palimpsesto. Vocês sabem, aquele pergaminho que os copistas medievais, por escassez de matéria prima, raspavam com pedra pomes para apagar uma iluminura e pôr lá outra.

A entrada do Martim Moniz, nos anos de 1940: as destruições começaram nesta altura. Foto: AML

Há poucos lugares como este fascinante largo, o sopé da Mouraria, milenar e entre colinas. Ele é a memória do ribeiro de Arroios, das hortas e noras, das bandeiras do castelo e do olhar da Graça, é o Martim Moniz de população antiga e também de gentes recém-chegadas. Dois traços persistem nele: primeiro, o largo parece passar a vida à espera de nova pedra pomes; e, segundo, nota-se que por ali não há grande esperança de vir a tornar-se obra-prima.

Resumindo, sucessivas mudanças e prudentes ambições. Se querem que vos diga, a ausência de marasmo e os pés bem assentes parecem-me bons adubos para uma discussão. 

Neste caso, do que estamos a falar quando estamos a falar? Eis um bom início de conversa. Tal como alguns prédios importantes têm uma pedra angular, um ritual para a primeira pedra, também no Martim Moniz há um lugar que o marca, a capela de Nossa Senhora da Saúde. Nem precisa dos seus 516 anos, basta ela testemunhar o seu último século.

A Capela da Nossa Senhora da Saúde. Foto: Orlando Almeida

Há 100 anos havia uma fileira de prédios pobres, uma tabuleta “Barbeiro Coiffeur” armado ao pingarelho num primeiro andar, um soturno “Café Saúde” de porta térrea, tudo abafando a fachada barroca da ermida, a poucos palmos do portal e telhas da mansarda a um salto do campanário. Entretanto, durante quase um quarto de século, a capela viu-se quase totalmente solitária na praça arrasada, até ao fim da década de 1980.

Houvesse então o Google Earth e ver-se-ia uma casinha branca num campo aberto, obras do metro, parkings enlameados, ruas à volta e trilhos de elétricos. Finalmente, o que há hoje, um centro comercial manhoso também encostado à ermida, desta vez às traseiras dela. É estranho como uma construção nova, feita sobre o vazio trouxesse direitos adquiridos para poder abusar tanto, mas assim se fez em 1989.  

Sempre menorizada, a capelinha é, pois, a amostra simbólica do seu largo. As restaurações que aconteceram a ambos – à capela e ao largo Martim Moniz – parecem sempre obra daquela velhota espanhola, a do fresco centenário com a imagem de Cristo num santuário de Saragoça. Ela pegou nuns pincéis e borrou a pintura. A pintura era o Ecce Homo, da apresentação feita por Pilatos ao povo: “Eis o homem!” – e lá estava ele, Cristo, dorido mas digno, antes da velhota. Com ela, virou um borrão espantado.

Aconteceu o mesmo com os sujeitos da nossa discussão. A capela ficou com o mamarracho do Centro Comercial da Mouraria pespegado às suas costas; e a praça foi sujeita a demolições absurdas e com outro trambolho, o Centro Comercial do Martim Moniz, à ilharga. Mudanças sem sentido, sempre. Depois disso ainda houve mais pinceladas insatisfatórias e uma ameaça recente de encher a praça de contentores.

A Capela da Nossa Senhora da Saúde, numa foto de 1958, de Judah Benoliel. Durante um quarto de século a capela viu-se quase solitária na Praça arrasada até 1980. Com exceção do prédio nas suas traseiras que foi incorporado no Centro Comercial da Mouraria. Foto: Arquivo Municipal de Lisboa

O todo, o sopé da Mouraria, olha-o, ele horta, olha-o, atravancado de casas medievais e ruas estreitas, olha, a praça derrubada e vazia, olha-a, só com a capelinha, olha-a com trambolhos… Martim Moniz, bom assunto para discutir, mas antes de mais uma sugestão: se calhar, do que o largo mais precisa é só de um milagre. Simples, inteligente e simbólico. 

No meio do caminho tinha uma pedra

Lembro-me do que o presidente da Câmara António Costa me contou, há uns dez anos, sobre como outra praça, vizinha, foi salva. Ia ele na procissão de Nossa Senhora da Saúde, saída da capela (a pedra angular…) do Martim Moniz. Era um primeiro domingo de maio, como aquela procissão cumpre sempre quando não há peste na cidade.

A história podia ter sido contada como uma epifania, mas Costa é um incréu. Se fosse Carlos Drummond de Andrade talvez este recordasse o seu poema mais belo – “no meio do caminho tinha uma pedra/ tinha uma pedra no meio do caminho/ tinha uma pedra/ no meio do caminho tinha uma pedra” – mas Costa não é poeta, nem estava a olhar para o chão negro que pisava, basalto da rua do Benformoso juncado de pétalas da procissão. Mais tarde, ele iria contar-me isso com palavras para serem metidas dentro de um Plano de Desenvolvimento Comunitário da Mouraria, que é assim que os políticos falam, e os edis em particular. Naquela altura do cortejo, António Costa ainda nem tinha recebido a fagulha a inspirar-lhe a obra. 

A procissão formara-se a dois passos, já o disse, na capela de Nossa Senhora da Saúde e logo depois embicara pela rua que Norberto de Araújo, um dos mais ilustres estudiosos de Lisboa, conhecia pelo nome antigo, “rua do Boy Formoso”, homenagem a um animal que por ali pastara. O andor de Nossa Senhora da Saúde e os dos outros santos (exceto o de São Jorge, que vai montado a cavalo) precisavam cada um de meia dúzia de mocetões, bombeiros, paraquedistas ou marinheiros, consoante o patrono, mas todos revezando-se de dez em dez minutos, tal o peso aos ombros. Andor? Daí o devagar: andar e dor. Isto são coisas que precisamos de saber quando as discutimos.

Rua do Benformoso de Roque Gameiro

Também a passo lento ia António Costa, com todo o tempo para observar. Pobres que nem em festa santa tinham colchas ricas à varanda, nesta rua do Benformoso que já tinha sido lá tão atrás, antes o terramoto, a com mais nobres da freguesia… Enfim, o largo do Intendente e o encanto da fachada da Fábrica da Viúva Lamego. De azulejos pintados pelo célebre Ferreira das Tabuletas, levava mais de século e meio (é de 1849) contrastando os seus azuis com o amarelo de açafrão…

Procissão parada. E a paragem longa permitiu confirmar que nem a beleza da fachada mais linda do bairro escondia a degradação do Intendente. No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho… “A praça tinha um estigma”, disse-me Costa quando mais tarde contou a história.

Esta crónica é sobre a praça Martim Moniz e a triste sina com que a tratam, não é sobre o Intendente, eu sei, mas já lá volto. Estou a contar esta peregrinação porque ela é exemplar e não vou perder a oportunidade de mostrar como um caso feliz – e, repito, simples – conseguiu contrariar a inevitabilidade das más práticas.

“A praça tinha um estigma”, disse Costa. Eu tenho uma vitrola muito pessoal que me serve música adequada para traduzir o que os políticos querem dizer. Naquele dia, julguei ouvir um fadista e marceneiro: “Há festa na Mouraria/ É dia da procissão/ Da Senhora da Saúde/ Até a Rosa Maria /Da Rua do Capelão/ Parece que tem virtude…”, cantou-me o velho Alfredo.

Os fadistas e os operários mimosos podem ter destas coisas que amaciam as palavras. Já os políticos municipais são mais terra-a-terra e não gostam de edulcorar os corpos encostados às paredes em poses provocadoras, nem, muito menos, os espalhados pelo chão com uma seringa enfiada no braço. À prostituição de antigamente juntara-se a droga – e do Intendente dizia-se irremediável. Há dez anos era assim e já durava há muito.

Em tempos ainda mais dramáticos, logo a seguir ao grande terramoto, os arrasados Arcos do Rossio e o Hospital de Todos-os-Santos – também próximos dos lugares que agora narro – foram ocupados por povo perdido. Dizia uma ordem municipal de 1760 que as autoridades e os monges, para resolverem o estigma, deviam “desentulhar” o que nas ruínas havia e levarem a eito “um infame estábulo de mulheres perdidas, que agregava a outros tantos ladrões.” As palavras e os métodos de quem manda mudaram, felizmente, dois séculos e meio depois.

António Costa detetou o mal, “um estigma”, e não lhe ocorreu desentulhar, varrer as pessoas. Ainda bem. A procissão prosseguiu, ele atravessou o Intendente, sempre a passo, e quando virou na última rua do largo já sabia o que fazer. Poderá supor-se, porque se estava num cortejo religioso, que tinha havido um milagre. Mas como a rua em que virou se chamava travessa do Cidadão João Gonçalves, de um Gonçalves merceeiro e republicano, que toda a vida tivera orgulho cívico em assinar os seus contratos como “Cidadão Gonçalves”, então, também poderia supor-se que no cidadão laico António Costa a inspiração foi republicana.

Com uma ideia, um copista pode apagar um estigma e restaurar uma praça, como aconteceu no Intendente. Peço ao leitor para se recordar deste episódio quando falarmos de soluções na nossa discussão.

E, como estamos em maré de indícios e porque o trajeto seguinte foi pela avenida Almirante Reis, também se podia prognosticar um percalço. Afinal, o almirante que deu o nome à avenida, Carlos Cândido dos Reis, comandou a revolução republicana que venceu a 5 de outubro de 1910, mas, julgando-a perdida, suicidou-se na véspera. Que destino mais infeliz, tão português: capaz do conseguimento maior, mas também de precipitado desânimo fatal. Então, milagre, escolha cívica ou mau agoiro, o que decidiu Costa naquela procissão? Coisa simples.

E, afinal, uma das mais bem-sucedidas ações dos seus mandatos municipais. António Costa pegou em 20 funcionários e durante dois anos e picos foi morar para a praça do Intendente, fazendo dela a sede da presidência da Câmara de Lisboa. Eis o resultado que vemos hoje (enfim, antes da pandemia): vários cafés, residências para estudantes, esplanadas, um bom e lindo hotel, associações com salões de festa a lançar livros, a Viúva Lamego de cores ainda mais gaiteiras…. Enfim, uma vivida praça da cidade.

Igreja do Socorro que foi demolida em 1949. Foto: Joshua Benoliel para o jornal O Século, Arquivo Municipal de Lisboa

Era aqui que eu queria chegar: com uma ideia, um copista pode apagar um estigma e restaurar uma praça. Já volto ao que aqui me trouxe, ao Martim Moniz, mas peço ao leitor para se recordar deste episódio do Intendente quando falarmos de soluções na nossa discussão. Entretanto, volte o leitor também à nossa discutida praça, pelo trajeto da procissão, em direção à Baixa. À direita, a rua de São Lázaro, que sobe para a colina de Santana; à esquerda, a rua dos Cavaleiros, que sobe para as colinas de São Jorge e da Graça – mas o que entra ao leitor pelos olhos dentro são os dois já citados mamarrachos.

Falemos do primeiro deles, o da direita – como chegou ali? Onde está o Centro Comercial da Mouraria erguia-se a igreja do Socorro. A meados do século passado, trocou-se a sua pedra seiscentista, do tempo da Restauração (1646), mais a sua torre sineira que abalara com o terremoto, mas se reconstruíra. Derrubou-se tudo para ganhar um vazio onde se construiria depois um dos tais dois famigerados trambolhos.

O Presidente da Câmara de Lisboa, Salvação Barreto (à direita), dá o cheque ao representante do Patriarcado para a compra da Igreja do Socorro, em agosto de 1949. A demolição começaria no mês seguinte. Na parede, o quadro do Marquês de Pombal. Foto: Judah Benoliel/Arquivo Municipal

Para o vespertino Diário Popular, em 1949, em pleno Estado Novo salazarista, Judah Benoliel (filho de Joshua Benoliel, “pai” do fotojornalismo português) fotografou o presidente da Câmara de então, Álvaro Salvador Barreto, a estender um cheque ao representante do Patriarcado, que vendera para abate uma velha e honesta igreja.

Na foto, por trás da cerimónia camarária, vê-se pendurado na parede um grande quadro. É a famosa tela de Miguel Lupi, de 1883, com o Marquês de Pombal e os seus arquitetos a estudar os planos de Lisboa para depois do terramoto. Quero crer pela foto, se é que se pode notar, que Pombal, pouco depois de 1755, deitava um feroz olhar crítico ao negócio indigno que ocorreria quase dois séculos depois, mas que o acaso de uma foto juntara.

Quando discutimos coisas queridas, que é o que estamos aqui a fazer, não podemos descartar os acasos simbólicos. Recapitulemos: um momento do séc. XVIII, grandioso para a cidade, olha magoado, através de um quadro pintado no séc. XIX, para um mau negócio do séc. XX… Digo eu, parte interessada, porque quero um mais feliz XXI para o Martim Moniz. 

O quadro de Miguel Lupi com o Marquês de Pombal e o Marquês do Alegrete, à direita, de pé, com jaqueta verde.

E o fotógrafo poupou-nos a uma ironia suplementar: no quadro, ao lado de Pombal, com jaqueta verde, estava Fernão Teles da Silva, o 4º Marquês de Alegrete. Ele era, então, o presidente do Senado da Câmara de Lisboa, o alcaide da cidade. Se aceitarmos o anacronismo, ele deveria ser, de todos pintados no quadro, o mais zangado com o negócio retratado. É que se o cheque era ainda só o anúncio da destruição da igreja do Socorro (o que aconteceria, de facto, logo nesse ano de 1949), o palácio do Marquês de Alegrete, esse, já tinha sido demolido (verão de 1946). Estava em marcha não um atentado, mas vários, por todo o vale da Mouraria. Piedoso, Judah Benoliel, pelo ângulo que escolheu para a foto, cortou parte do quadro e escondeu-nos o infeliz Alegrete, para não lhe vermos a afronta que no futuro, e perante os seus olhos.

O palácio do Marquês do Alegrete era contemporâneo da igreja do Socorro, também seiscentista, tinha sido construído na diagonal oposta da praça. Ou, melhor, praça ainda não era, eram hortas e casario avulso de ruas estreitas, mas a sua identidade já fora marcada há muito por duas condições. Uma, era ser, no vale, o prolongamento do bairro da Mouraria, no sopé da colina a nascente, que subia até ao Castelo; a outra, é que falamos de um lugar fixado para lá da Cerca Fernandina.

O próprio palácio, construído encostado à muralha, mas do lado de fora, apesar de ser pertença de família rica e influente na corte, iria sofrer dessa condição definida séculos atrás: na tomada cristã de Lisboa, em 1147, os mouros, os moçárabes e os judeus foram empurrados para lá de portas. Desde o século XVII urbanizado, o Martim Moniz (a Mouraria de baixo) era um lugar marcado pelo ferrete de estar extramuros. 

Eu sei, eu sei, esta crónica é do Martim Moniz, quadro comovente. Mas deixem-me, antes, expor-vos um pouco mais da sua esplendorosa moldura. 

Uma cidade “entupida num sítio”

A cidade, pela Natureza, foi resolvida simplesmente. O vale entre as colinas de São Roque (Bairro Alto) e de Santana era atravessado pela ribeira de Valverde; e o vale entre a mesma colina de Santana, de um lado, e as colinas da Graça e do Castelo, do outro, era corrido pelo ribeiro de Arroios. Como duas ágeis start-ups, os ribeiros avançavam em cunha que se encontrava algures no que viria a ser a Praça da Figueira. Ali os dois investiam nos esteiros, braços do grande rio que entravam por terra dentro, no que viria a ser a Baixa, e por eles chegavam ao Tejo.

A lógica natural e empresarial da cidade era simples e perfeita. De toda a sua extraordinária geografia – o Tejo, o Mar da Palha (um mediterrâneo, mar interior, só para nós), a abertura para o oceano e a proteção das colinas – Lisboa tirou a sua filosofia de crescimento: ser entrada e ser saída. A vocação e ambição dela era vir a ser uma empresa mundial.

Quando os homens herdaram o lugar, perceberam o essencial do que a Natureza lhes dera. Deixaram-se influenciar pelo Tejo e tornaram a cidade universal (primeiro, fenícia e porto de chegada; depois, nos Descobrimentos, porto de saída). Os romanos urbanizaram-na, os muçulmanos construíam o castelo na mais alta colina (aparente, porque mais alta é a da Graça) e defenderam-na com a Cerca Moura. A cidade cresceu para o interior pelos antigos caminhos abertos pelos ribeiros, por onde viriam ser traçadas a Avenida da Liberdade e a Almirante Reis, desta vez num “V” expansivo.

Os homens, porém, entupiram num sítio. Pois é, lá voltamos ao Martim Moniz. A que seria a melhor porta da cidade para o norte (chegar à estrada de Sacavém e, daí, para todo o país), não o foi, porque logo à partida embatucou.   

Com fenícios e gregos que já eram lenda, mais 500 anos de Roma, mais 300 de suevos e godos e 400 anos de muçulmanos, e depois com os oito séculos de Portugal, ia Lisboa aí, quando ela descobriu, recorro de novo ao grande poeta brasileiro, que “no meio do caminho tinha uma pedra”. Tinha uma pedra: o Martim Moniz asfixiava a Baixa, impedia a capital da capital chegar ao eixo natural da Almirante Reis. Ou, pelo menos, era o que se dizia dele, que entupia.

Já tínhamos tido aqueles povos todos, várias ocupações e regimes diversos. Após a Monarquia, encetávamos a República, quando, em 1926, um relatório municipal determinou que era altura de denunciar “o problema da Rua da Palma: o acesso à zona baixa da cidade (…) e acabar com o infecto bairro entre a rua Silva e Albuquerque [antiga rua dos Canos] e a rua do Arco do Marquês de Alegrete.” Tanto nome a apontar, afinal, para o culpado do costume: o protagonista desta crónica, o Martim Moniz. 

É certo que a lenda deu nome ao largo, mas não há nada documentado sobre a vida deste suposto herói. D.R,

O nome popular, Martim Moniz, bebia num vago personagem histórico que no cerco ao castelo mouro, com sacrifício das próprias costas, se atravancou numa pesada porta. Não a deixou fechar para que os companheiros (cristãos portugueses e cruzados de passagem) conquistassem Lisboa… Martim Moniz, personagem, é um mistério. O Cerco de Lisboa teve um cavaleiro teutónico, Henrique de Bona, com campa em São Vicente de Fora e cantado em Os Lusíadas, teve um cruzado inglês com uma carta tão informada e útil que a cidade lhe dedicou uma “Rua do Cruzado Osberno” e mais, e mais…

É certo que Martim Moniz também deu nome a um largo, mas do homem e do feito nada há documentado. Já o seu subtexto – ter engarrafado uma porta – entrou-nos na memória e tem sido a desdita de Martim Moniz, praça, acusada de engarrafar a cidade. Uma praça confundida com uma personagem de incidente histórico que nem certo é… A isso, um todo tomado por uma parte, a gramática chama figura de estilo. Raro é uma sinédoque ter derrubado tanto prédio.

Naquele ano de 1926, a República acabava e começava a ditadura de Salazar, mas no que diz respeito ao Martim Moniz continuou-se com a mesma sanha demolidora, quiçá mais depressa e em força. Se o (alegado) necessário alargamento da rua da Palma era impedido pela igreja do Socorro, deite-se abaixo a igreja. No entanto, como a República era tantas vezes acusada de mata-frades, o tal relatório municipal de 1926 teve a precaução de não ferir os sentimentos religiosos. Assim, a demolição foi apresentada como uma melhoria: prometia-se que a igreja demolida logo seria reerguida sobre o palácio do Marquês de Alegrete, ali perto, também no largo.

Esconda-se o mau gosto, ele volta a galope.

Depois do terramoto o palácio do Marquês de Alegrete, que chegara a ter meia centena de serviçais, entre aias, criados, guardas e sete sacerdotes, nunca mais foi ocupado pelos seus proprietários. Durante quase dois séculos, do andar térreo fizeram-se lojas e o andar de cima foi alugado para usos proletários. Valiam ao prédio, ocupando todo um quarteirão, os seus portais, três, encimados pela pedra de armas da família. O palácio decrépito encostava-se a um arco que lhe servia de ponte no andar superior e que tinha sido alargado para deixar passar carroças, por baixo. O arco era porta, na Cerca Fernandina, para se sair da Baixa e entrar na Mouraria e tornou-se o famoso Arco do Marquês de Alegrete, pintado por Roque Gameiro.

Pois era para ali que, prometia-se, a igreja do Socorro seria transladada e assentada sobre o terreno do palácio arrasado. E seria melhorada com os “três lindos portões seiscentistas”. E encostado a ela ficaria o magnífico arco que, nos anos 40, deixava os elétricos passarem por baixo, tal como as arrastadeiras Citroen e os Buick com os seus cromados americanos.

Permitam-me outra pausa. Imagino também hoje a passar por ali o “28” da Carris com turistas e os Tesla movidos a painéis solares… Uma discussão sobre o que fazer precisa de dar conta de que os sonhos, por vezes, são tão-só protestos por coisas simples e boas nos terem sido roubadas. Já da demolição do Arco do Marquês de Alegrete só resta o espanto: como foi possível?

Desgraçadamente, o palácio do Marquês de Alegrete foi arrasado no verão de 1946, a igreja do Socorro foi demolida em 1949 e o Arco do Marquês do Alegrete desapareceu em 1961 – e deles todos nunca mais se lhes viu pedra sobre pedra. No Observador, em 2015, a jornalista Rita Ferreira assinou uma boa reportagem sobre os Róis de Confessados da igreja do Socorro que acabavam, então, de ser descobertos na igreja do Coleginho, também na Mouraria, mas quarteirões acima. Afinal, a única transladação feita.

Os documentos bolorentos estavam cheios de informação sobre a população da freguesia, antes e depois do terramoto, o fim dos artesãos chapeleiros franceses, a chegada dos galegos para toda obra… Balanço feito, o frágil papel conseguira guardar uma utilidade que foi negada a pedras seiscentistas. Guardar é uma palavra importante na discussão sobre o que fazer ao Martim Moniz.

Quem nos dera este teatro, hoje

Vínhamos, pois, pela rua da Palma para a Baixa e ficou explicado como se arranjou espaço para o Centro Comercial do Martim Moniz, à direita. Do outro lado, acontece-nos o Centro Comercial da Mouraria, que também pede explicações. Ei-las: foi igualmente feito à custa do derrube do bom e do apagar da memória. Ali havia, desde 1865, o Teatro Príncipe Real, rebatizado, com o fim da monarquia, Apolo. Era um bom edifício, com bela fachada de dois pisos, cada um com simétricos nove portais e outras tantas janelas altas. Encimado por um frontão com o mérito, entre outros, de contrastar com as ameias do castelo, no alto da colina. Não era a Ópera de Paris, mas quem nos dera aquela casa, hoje.

O Teatro Apolo, em 1956. Hoje estaria no meio da Praça. Em cima, vê-se o castelo. Onde estão os carros estacionados antes era a Igreja do Socorro. No ano seguinte, o teatro fechou para a demolição. Foto: Armando Maia Serôdio/AML

O Apolo era edifício mas, muito mais, o que um teatro nos faz. Marca épocas. Por exemplo, tinha na bilheteira binóculos de alugar, para os espetáculos. Ou, como lembrou Vítor Pavão dos Santos, autor da obra Revista À Portuguesa, um teatro é um laboratório do contar: em 1907, nesse teatro do Martim Moniz, a peça Ó da Guarda foi interrompida pelo aviso que um ator apavorado trouxe ao palco: “A nossa atriz foi raptada!” Espanto na plateia e camarotes.

As luzes apagaram-se e viu-se, projetado pelo animatógrafo, atores da peça a correrem pela cidade (Campo Grande), com gestos sacudidos e a preto e branco, à procura da atriz. Juntaram-se imagens de lisboetas, mais de 100, diz-se, correndo angustiados: quem raptou a atriz? Mas naquela noite espantosa, reacenderam-se as luzes e acalmou-se o público: “A atriz foi libertada”. E os atores e a “resgatada” prosseguiram com a revista Ó da Guarda… Espetáculo multifacetado, isso cinco anos antes de Charles Chaplin partir para a América fazer filmes.

O cartaz do pintor António Soares companheiro de Almada Negreiros e Jorge Barradas, para o Teatro Apollo, em 1912. O cartaz foi exibido numa exposição do Museu Nacional de Teatro e Dança, em 2017 como contributo dos artistas plásticos nas artes cénicas.

O Teatro Apolo eram cartazes tão modernos que ainda hoje o são, mais de um século depois: como o moderníssimo que António Soares fez em 1912, e foi exposto numa mostra do Museu Nacional do Teatro e da Dança, em 2017. Luiz Francisco Rebello, que dirigiu a Sociedade Portuguesa de Autores, deu a dimensão do lugar: “As revistas mais populares eram exibidas no Apolo, que entre todos foi sempre o teatro mais popular.”  E explicou o que significou isso para a época: “Não há nada melhor que a revista para fazer o retrato do país.”

Em janeiro de 1911, logo três meses após a queda da monarquia, o Teatro Apolo apresentou a revista Agulha em Palheiro. Sem censura, a liberdade sôfrega e popular dos autores dos textos, a parceria Ernesto Rodrigues e Félix Bermudes, afinou um género. E iniciava o que haveria de inspirar, décadas depois, até os filmes mais populares do Estado Novo, como O Leão da Estrela. Lembram-se? Um gozo gracioso a um adepto do Sporting (António Silva) e a outro do FC Porto (Erico Braga). Que Félix Bermudes seja uma das “canetas” desse filme de 1947 é irónico: quatro décadas antes, quando ele se iniciava a escrever comédias, fundava também o SLB e era jogador do Benfica.

A última peça no Apolo foi a primeira representação de Jean-Paul Sartre em Portugal e chamava-se La Putain Respectuese. Era a companhia brasileira de Maria Della Costa, em digressão, em 1957. Em Portugal chamou-se: A… Respeitosa. Apesar do respeitinho nos cartazes, não deixou de ser alvo da censura. Sartre, opositor da guerra colonial na Argélia, e o tema – o linchamento de negros no sul dos Estados Unidos e uma prostituta branca – eram demasiado sulfurosos para o Portugal tão conservador de 1957 e em véspera das suas próprias guerras coloniais. Guardado na Torre do Tombo há um processo com todos os 17 cortes feitos pela censura da Direção-Geral de Espetáculos ao texto de A… Respeitosa. Entre eles, este diálogo: “O NEGRO – Eles são brancos, madame. LIZZIE [a prostituta branca]: E daí? Porque são brancos, têm o direito de sangrar você como um porco?”.

Nenhum espectador ouviu esse diálogo, tal como não ouviu os outros cortes. Mas no dia de estreia, 10 de maio, os jornais publicaram o anúncio de A… Respeitosa, nas páginas de espetáculos. Do Diário de Notícias, favorável ao regime, ao Diário de Lisboa, brandamente de oposição, entre as habituais informações – o nome da vedeta e o da companhia, o preço dos bilhetes, os horários – o anúncio do Teatro Apolo acrescentava no corpo do texto um pequeno diálogo. Em letras pequeninas, no anúncio, lá estava: “NEGRO – Eles são brancos! LIZZIE – E daí? Porque são brancos, têm o direito de sangrar você como um porco?” 

O anúncio do último espetáculo, no Diário de Lisboa. Estranhamente tem um diálogo que foi proibido pela censura na peça. A foto é do excelente blogue Restos de Colecção.

Quer dizer, em 1957, a elite lisboeta que acorreu à peça de Sartre, uns poucos milhares, não pôde ouvir as palavras que um censor de espetáculos cortou. Já os censores de jornais (geralmente mais burros, majores reformados e semianalfabetos) deixaram passar aquele diálogo para dezenas e dezenas de milhares de leitores, em todo o país… Ah, malandro e ingénuo grito de liberdade! Uma bravata, pois quase ninguém deu conta sequer daquele diálogo num anúncio comercial. Um pequeno risco, só para alguns zombarem nos cafés, baixinho e com piscares de olho, gozando com a censura.

Gesto similar ao de Galileu Galilei, que pareceu aceitar as ordens da Inquisição: sim, a Terra estava quietinha e era centro do Universo, disse ele. Mas, depois da contrição, Galileu deixou cair uma pequena frase, que foi a que atravessou a História até hoje: “E pur si muove!  (“E, no entanto, ela [a Terra] move-se!”) O Martim Moniz também tinha destes gestos que ficaram até hoje.   

Pessoas, a medida de todas as praças

Coincidiu essa rebeldia ingénua, certamente sem qualquer relação, com o fim do Teatro Apolo, no verão de 1957. Os artistas ainda publicaram um anúncio agarrando-se à esperança: “Que Deus faça o milagre de nos dar no mesmo local um teatro melhor e maior.” Mas ali nunca mais se ouviram as pancadinhas de Molière, só as do camartelo.

Uma igreja, um palácio, um teatro, um arco…, tudo abaixo numa só praça – não foi uma embirração, foi uma razia. Mas como entender a lógica comum de vitimizar uma igreja e um palácio conservadores, um teatro crítico e um arco tão insólito e útil? E tudo para nada ou, pior, para os substituir por dois edifícios intrusivos e feios, com um deles mordendo a capela. Repito, o desrespeito continuado e antigo por um lugar extramuros. Mas, repito também, a solução não está num próximo deita-abaixo e mais planos grandiloquentes. A solução passa por respeitarmos o essencial da velho Martim Moniz: as velhas e as recém chegadas suas gentes.

As paredes da capela de Nossa Senhora da Saúde e até a sua sombra delineada por pedras negras na calçada de calcário branco – ah, nunca repararam, ide lá se querem continuar a discutir… – ficaram quietinhas quando se tratou de salvar uma praceta vizinha. Mas, se calhar, inspiraram uma procissão que, um dia, enviaram até ao Intendente e o salvou.

O Centro Comercial da Mouraria e o Centro Comercial do Martim Moniz são feios, grossos, como é sempre o mau gosto, mas as suas gentes são enérgicas, mexidas, grossistas e por atacado como era a Ribeira quando chegavam as naus. E não foi isso que fez Lisboa grande? Pouco antes da covid nos amordaçar, um blogue que amava a sua cidade – e infelizmente já fechou (olá, irmão O Corvo! e Samuel Alemão) – contou o cheiro a caril e incensos, as furgonetas a descarregar, negócios a entrar aos contentores desde a madrugada.

À direita o Centro Comercial da Mouraria, à esquerda. o do Martim Moniz. Foto: Câmara Municipal de Lisboa

Um comerciante, o primeiro a abrir loja no Centro Comercial da Mouraria, lembrou aquela vez em que um saco se rompeu e uma chinesa se pôs a correr atrás de trinta caranguejos vivos que eram para vender. De outra vez, foi uma proprietária de loja que se despiu e andou nua pelos corredores porque não lhe pagavam a renda…

Eu não queria que se repetisse o ataque às Torres Gémeas mas do jornalismo do que tenho saudades é da vida, da emoção, do trabalho de uma profissão a sentir-se necessária e útil, lembro-me da minha sala de redação naquele 11 de setembro. Minha? Não era bem assim, eu estava desempregado e nesse dia corri para o primeiro jornal que me acolheu. Ah, não toquem nos trambolhos do Martim Moniz enquanto eles forem dinamismo e vida. Ou, melhor, toquem: transformem-nos em jardins verticais e juntem olhos lavados ao trabalho.

Pessoas, eis o que é a medida de todas as praças, largos e lugares. Pessoas, é o que temos de trazer para a discussão sobre o que fazer ao Martim Moniz. Um príncipe da palavra, embora o seu nome tivesse (injustamente) chegado a hoje quase só por causa da palavra “PIM!” com que outro mestre, Almada Negreiros, o matou num manifesto, Júlio Dantas, pois, escreveu A Severa, em 1901. Logo nesse ano, estreou a peça e o primeiro ato abria indicando o lugar da história: “Um café de lepes, na Mouraria, no topo da rua do Capelão. Coito de boleeiros, alquiladores, marchantes e galdranas.” Vendia-se o café à mais pequena moeda (lepes, dez réis), a cocheiros e arrieiros, acicatados por galdérias. Ouçam como aquele lugar inspira sons. 

Na rua do Capelão, casa onde morou a Severa, mesmo em frente nasceu outra glória do fado, Fernando Maurício. Foto: Richard Morton

A peça era histórica e cumpria alguma realidade: no topo da rua, esquina com o beco do Forno, morou Maria Severa Onofriana (1820-1846), prostituta e cantora de fado, de mãe conhecida por Barbuda, que foi taberneira e também puta.

A Severa amasiou-se com o conde de Vimioso, o que não a livrou de morrer abandonada e tísica, aos 26 anos. E tornou-se lenda. O conde ter-lhe-á encontrado méritos que são pessoais, e com os quais quase nada temos a ver. Mais interessante é o tamanho da luz dela que atraiu artistas, como Dantas, intelectual brilhante. E ainda mais interessante é o não sei o quê, que a partir de curta vida levou à enxurrada de atenções dos lisboetas: da peça histórica A Severa alimentaram-se romances, operetas, revistas, filmes e, naturalmente, canções. Maria Severa Onofriana foi o que hoje o Twitter chamaria uma trending topic.

Na verdade, era uma tendência em que ela foi a vedeta, mas não única. Uma dúzia de anos antes da peça de Júlio Dantas, o mais perspicaz olheiro do povo de Lisboa, Fialho de Almeida, narrou a Mouraria como repórter literário – sublinho-o para não nos julgarmos entre ficções. Era literário porque escrevia como ninguém, mas repórter também, sentado no real, numa tasca onde “o cafezeiro, em camisola, um gordanchudo, barbaceno e alvar, trata a freguesia por gajas, e coça as peúgas nos entreatos da confeção dos capilés.” É do texto O Violista Sérgio No Café Da Mouraria, de Fialho, dos primeiros para Os Gatos, chamado assim por causa da graça e das garras, mais estas, com que ele escrevia cadernos mensais e semanais publicados entre 1889 e 1895.

Na verdade, Sérgio era o primeiro violoncelista da orquestra do São Carlos. Mas todas as noites ia abastardar-se para um tugúrio junto à igreja do Socorro. “Avermelhado pelo álcool”, Sérgio “é o tipo desses decilitreiros que monologam de noite pelas ruas” e “toca agora para admiradores em mangas de camisa e tamancos”. No texto, enquanto Sérgio faz soar um trecho de A Danação de Fausto, de Berlioz, Fialho conta como, num canto do botequim, um carregador boçal aperta uma saloia inocente.

Não era pecado maior que o descrito em O Primo Basílio, o do mundo burguês do Eça. Com a diferença que Basílio não contaminou a fama de todos, no bairro da inocente prima Luísa. Aliás, que bairro foi narrado por Eça? Pois é, não sabemos, mas da Mouraria é impossível um véu diáfano. Aí está, escarrapachado, o que tenho andado a dizer.

Entre as coisas que foi, A Severa também se apresentou ópera-cómica, supervisionada por Júlio Dantas, e criada por André Brun, revisteiro dedicado à risota. Depois, Brun partiu para as trincheiras da Grande Guerra e escreveu um grande testemunho (A Malta das Trincheiras), o maior que algum português de lá trouxe.

Há como que uma linha a percorrer isto tudo: a atriz que Brun escolheu para a ópera-cómica foi a desgraçada da Júlia Mendes. Tinha sido ela a atriz “raptada” da peça experimental Ó da Guarda, no Teatro Apolo, e também, intensa e boquirrota, foi a mais popular artista do seu tempo. Em 1911, morreu como a Severa, aos 26 anos e a golfar sangue do peito. O Fado da Júlia Mendes, que a homenageou mais tarde, dizia: “Ó Júlia/ Se estás no mundo vencida/ Não finjas gostar da vida/ Que a vida não gosta de ti.” Apesar de tudo ela viveu-a às golfadas.

Ouça o Fado da Júlia Mendes cantado por Mafalda Arnauth

Depois do olhar cirúrgico de Fialho, que era médico, e da peça teatral de Dantas, que era um dândi a construir a carreira – antes da estreia, convocado pelo chefe de Governo Hintze Ribeiro, que não admitiu, por queixa dos herdeiros, que o conde de Vimioso assim se chamasse, o autor de A Severa não hesitou em trocar o nome do protagonista para marquês de Marialva (que também existiu, mas não deixara herdeiros…) – depois de tanta gente fina, a Mouraria continuou a encandear os das grandes artes. A arte menor, acompanhado à banza, a guitarra mourisca, também foi irresistível para o pintor José Malhoa. Interessante, porque se lhe conhecia o fascínio pelo povo, sim, mas pelos camponeses, à volta da sua Caldas da Rainha natal.

Egas Moniz descreveu o quadro de Malhoa O Remédio, assim: “O busto de uma rapariga que é a ansiedade personificada. Apenas um rosto e uma atitude de marcha e é um complexo de apreensões e esperança, de uma grande dor aliada a uma forte confiança. Veio à vila, pelo alcantilado da serrania, buscar O Remédio que há de salvar a mãe. Volta apressada, a garrafa da droga salvadora encostada ao peito…” O nosso prémio Nobel de Medicina diagnosticou o melhor do quadro: Malhoa respeitava quem pintava, ali, no campo. Saberia fazer o mesmo com o povo pobre da cidade?     

Na referida brochura que escreveu sobre o amigo, em 1955, Egas Moniz também fala da pintura a óleo O Fado: “[Malhoa] contou-me que perdeu muito tempo a encontrar o tipo de fadista (…) ao lado da mulher da vida esbandalhada e descomposta.” Encontrou-os na rua do Capelão. Amâncio Augusto Esteves, rufia que fadistava, e a Adelaide, ou Ana ou Amélia, uma dessas, conhecida, por “da Facada”, daí a inclinação exagerada da pose esbandalhada, era para ela tapar a face esquerda.

A pintura, diz-se, atrasou um pouco porque por vezes o Amâncio voltava de uma breve passagem pela esquadra e embirrava com a alça da blusa da, digamos, Adelaide, que na pintura descera mais do que os ciúmes dele permitiam. E lá tinha Malhoa de retocar um pouco menos de seio atrevido. Em 1910 o quadro estava pronto. Está lá tudo, a chinela no pé, o Senhor dos Passos, a lamparina de querosene, o pote de manjerico, um cigarro nos dedos dela, a garrafa de vinho e os olhos avinhados dele mais a banza…  

Uma certa confusão, certo? Sim, mas confere com uma estranha forma de vida que por lá havia. Vizinho, entre a capela da Saúde e a entrada da rua do Capelão, há um edifício em cantaria, de 1549, com este desleixo antigo: os capitéis que pelo nome deviam rematar a parte superior das duas colunas da porta, servem ali de base. Antes dessa porta que abre para a esquadra tão frequentada pelo Amâncio – era, há pouco, a 6ª Esquadra da Mouraria, agora fechada – ainda se podem ver as pedras brancas da calçada marcadas por bonito efeito de pedras negras, desenhando a estrela da corporação policial, encimada pela sigla “P” – “S” e o derradeiro – “P”, dois bons palmos abaixo. Sim, é verdade, alguma confusão. Mas será que é mesmo de desconfiar de um bairro, lá por também se fazer representar por uma rufia e uma galdéria, mais um acervo de bagatelas? Será que O Fado vale como estandarte?

Ora esta parte da discussão já aconteceu, chamou-se até a maior das autoridades para decidir, e ela deu a sentença. Só é pena não ter feito jurisprudência, ou, pelo menos, o douto parecer não se ter tornado obrigatório na arte do dizer e da prosódia. Ouçam. Silêncio, que é do português mais bem dito. (Por favor, leia os próximos dois parágrafos ouvindo como Amália os diz no vídeo abaixo. Tudo isto é prosódia, tudo isto é fado.)

Com o Fado Malhoa, Amália disse o seguinte: 

Alguém que Deus já lá tem, pintor consagrado Que foi bem grande e nos dói já ser do passado Pintou numa tela com arte e com vida A trova mais bela da terra mais querida Subiu a um quarto que viu, à luz do petróleo E fez o mais português dos quadro a óleo Um Zé de samarra, co’a amante a seu lado Com os dedos agarra, percorre a guitarra E ali vê-se o fado

Faz rir a ideia de ouvir, com olhos senhores Fará, mas não p’ra quem já o viu, mas em cores Há vozes de Alfama naquela pintura E a banza derrama canções de amargura Dali vos digo que ouvi a voz que se esmera O som dum faia banal, cantando a Severa Aquilo é bairrista, aquilo é Lisboa Boémia e fadista, aquilo é de artista Aquilo é Malhoa.       

Aquilo, é o Martim Moniz, um lugar que burila o talento dos forasteiros, Fialho, Dantas, Malhoa, dos revisteiros do Apolo e até dos antifascistas que atacavam com anúncios nas páginas de espetáculos… Encanta os desprevenidos: “Faz foto”, disse-me, em plena pandemia, a empregada de limpeza da Esplanada da Mouraria, na esquina onde foi o arco do palácio do Marquês do Alegrete e já não é. Mau fotógrafo, aconselho-a a esconder a esfregona: “Não escondo, é o meu trabalho”, recusa Otávia, que chegou da Praia, ainda Cabo Verde não era independente, e está agora em vésperas de se reformar. Aquele lugar leva Amália Rodrigues, da freguesia da Pena, a convocar vozes de Alfama e, juntas, a reconhecerem que a Mouraria de baixo, à luz do petróleo, é especial.

Octávia veio para Lisboa, da Cidade da Praia, ainda Cabo Verde não era independente.

Aquilo é um lugar de grandeza, sem o argumento de autoridade que é a Torre de Belém ou o mosteiro de São Vicente de Fora. Mas tem gente, gente de baixo com jeito para o drama e para a comédia… Um dia destes, mais modernos, já no tempo das reportagens rápidas, numa associação do bairro estendeu-se o microfone a um velho, já nonagenário. E ele apresentou-se: “Sou dos fundadores, sou até o sócio nº 1”. O jovem repórter entusiasmou-se: “A sério?!” E o velho, percebendo que se esticara, emendou, mas só um bocadinho: “Quer dizer, sou o sócio nº 2… O outro…”, disse e fez um gesto com a mão, varrendo, como se a coisa se resolvesse em breve. Rematou: “Pode pôr nº 1.” Gosto tanto desta gente.

A Severa da Mouraria é o epítome da importância deste bairro na alma lisboeta, reforçada depois pelo filme que se fez a partir da peça teatral. Com texto também de Júlio Dantas, que não largava o filão, e realizado por José Leitão de Barros, iria ser, em 1931, o primeiro filme sonoro português. João Bénard da Costa, que dirigiu a Cinemateca durante vinte anos da democracia, diz dele que é um admirável retrato de Portugal, pois mostrou-nos “séculos de existência entre uivos de heroísmo e renúncias inconfessáveis.”

O primeiro fonofilme, assim o chamaram, era o porta-voz do que o salazarismo nascente queria por política cultural: um modelo tradicionalista. Mas há no filme uma ironia que a recentíssima atualidade política nacional ainda mais sublinha.  Frederico de Freitas fez as músicas, magníficas, o melhor que o filme tinha de artístico, e o próprio Dantas assinava as letras.

Ora uma delas, que ficaria conhecida como o Novo Fado da Severa (ou, também, A Rua do Capelão) aparecia numa cena no quarto. O marquês de Marialva (trinta anos depois da peça teatral, e já com a monarquia expulsa, os herdeiros do conde de Vimioso deviam ainda ter uma providência cautelar a exigir respeitinho…) estava debruçado sobre a amante. E Severa, dedilhando a guitarra, cantava: “Tenho o destino marcado/ Desde a hora em que te vi/ Ó meu cigano adorado/ Viver abraçada ao fado/ Morrer abraçada a ti…” E tudo nas barbas do marquês! Hoje, o aristocrático Dantas e o adepto de regimes fortes Leitão de Ramos arriscavam-se a ser acusados de cúmplices de gente que não era de bem.

Leitão de Barros, no ano seguinte ao lançamento do filme, iria lançar uma campanha onde sugeria que Salazar (1889-1970) estava representado nos painéis de São Vicente de Fora. Era só um dos 58 personagens, nem estava nos painéis centrais, estava nas filas de trás e a semelhança era vaga, mas, há que convir, a ser verdade demonstrava que Salazar era mesmo providencial. Nem a todos acontece aparecer numa obra-prima e, já agora, pintado 400 anos antes do seu próprio nascimento.  A campanha foi apoiada entusiasticamente pelos jornais do regime.

O meu entusiasmo pelo largo Martim Moniz é do domínio mais terra a terra: o que eu digo é que as suas modestas gentes vão sempre bem mais para além delas.

O filme que revela ser urgente respeitar todas as gentes

Estendamos, então, mais um louvor ao bairro que discutimos. Ele inspirou o primeiro filme falado português, coisa talvez do acaso, podia ter calhado a São João da Pesqueira. Mas mais do que isso – e, aí, é tão Martim Moniz – ouviu-se cantado no filme o que seria impossível ouvir numa ópera contemporânea a ele. George Gershwin, que lançou Porgy and Bess, em 1935, pôde subir à estratosfera do melhor jazz, e pôde levar a história para um bairro negro de Charlestone, na Carolina do Sul, tão pobre e mal-afamado quanto a rua do Capelão. 

Do que não passaria pela cabeça de Gershwin era um libreto em que, sei lá, Alice Faye, atriz e cantora, desse tempo, loura e americana, agarrada ao seu amante nobre (e este não podia ser o Duke Ellington, e não só porque “Duke” não era de nobre), a branca, pois, se pusesse a fazer-lhe ciúmes com outro amante antigo, cantando Summertime com uma letra dizendo “Ó meu black adorado/ Viver abraçada aos blues/ Morrer abraçada a ti…”

Impensável. Um quarto de século depois, quando Porgy and Bess foi filme, o elenco era só negro e não podia ser outra coisa.  Que, por cá, cabeças conservadoras, num contexto conservador, se lembrassem, em 1931, daqueles versos sobre transações sexuais interétnicas, revela a força terapêutica do discutido bairro.

O antigo cinema Salão Lisboa de onde Belarmino partiu para aprender a levar porrada. Foto: Richard Morton

Sim, aquela indignação de todo o século passado à volta de um Martim Moniz medieval a necessitar de uma barrela, era uma discussão a ter. Olhem para aquele rapazito, o Belarmino Fragoso. Tinha 7 anos e quando passava por aquela porta da esquadra com os capitéis entornados e as letras da PSP baralhadas, ele corria. Era proibido andar descalço. E oito anos depois, engraxava os sapatos dos com sapato e mal aparecia um bófia, voltava a correr com a caixa às costas… Então, uma matiné, no Piolho, como se chamava ao Salão Lisboa, na esquina das escadinhas da Saúde, um compincha desafiou Belarmino a irem aprender a apanhar porrada, ali ao lado, no Grupo Desportivo da Mouraria (GDM). Estudar boxe é um curso útil para quem passou a vida a fugir.

Berlarmino foi bater à porta do GDM, no início da década de 1950, quando começava o Cinema Novo em Portugal. Estou a ouvir: “Eh, eh, eh, olha este, nem sabe que o Cinema Novo começou na década de 60. A francesa Nouvelle Vague é que começou em 50 e tal e muito lá para fim, eh, ehe…” Repito, o Cinema Novo português começou no início da década de 1950.

Que, por arrasto, o Fernando Lopes tenha encontrado um boxeur em decadência e a sonhar num combate para relançar a carreira, à porta do Ribadouro, que o realizador consiga convencer o Cunha Telles para produzir um documentário meio ficção, que a buena-dicha tenha querido o Augusto Cabrita livre para fotografar cada canto de boca caído e saber encontrar a derrota nos olhos e, no entanto, a resiliência também, que houvesse um Hot Club, tudo isso aconteceu, é certo, em 1964, quando se filmou Belarmino. Mas isso nasceu exatamente no minuto em que Belarmino Fragoso entrou no Grupo Desportivo da Mouraria, então na rua do Capelão, 1950.

É mais uma emanação desse secular estranho fenómeno do Martim Moniz de instigar os portugueses mais talentosos a fazerem melhor. É um dom. O Baptista-Bastos, que nunca se vê no filme, mas se lhe ouve a voz e o pigarro, e sabe perguntar, pergunta: “Quer dizer… Tens medo de perder.” Isto era uma boa pergunta. Mas vale mais quando Belarmino responde: “Não, não… tenho medo de fazer má figura.”

Este filme vai para os 60 anos e há meses a revista New Yorker (a nossa Mensagem vai voltar a isto, certamente) fez um texto extenso, seco e derreado de admiração pelo filme. Logo nas cenas iniciais, Belarmino abre uma daquelas janelas de portadas, o olhar vagueia por um vazio que nem mesmo se sabe com dúvidas – Martim Moniz, 1964.

É o último argumento de autoridade que deixo antes de passar às soluções para a praça que se discute. Belarmino entrou num salão de boxe da Mouraria porque, palavras dele, “para o boxe não vão os engenheiros, são os homens como eu, vadios.” Eu já tinha dito no parágrafo inicial que, por ali, só há ambições prudentes. Vejo, no fim deste artigo, que o cartaz da estreia de Belarmino dizia isto: “O filme que revela ser urgente respeitar todos os homens.”

Falar do Martim Moniz para saber
o que fazer dele

Este artigo é mais modesto, basta-lhe respeitar os homens e as mulheres do Martim Moniz. Mas segue o exemplo de Alexandre O’Neil, que por ser poeta, permite-se a grandeza de pôr na boca o que Belarmino se acha dele próprio. Em dois versos, palavras de Belarmino: “Esperam de 1 a 10, que a gente, oxalá, não se levante/ – E a gente levanta-se, pois pudera, sempre.”

Então, do que estivemos a falar enquanto aqui falávamos? Do Martim Moniz, para sabermos o que fazer com ele. E o que é o Martim Moniz? Uma praça que tem sido mal tratada, o que é uma injustiça e uma tolice pois é inspiradora – faz os melhores que por ali passam, melhores. Então, o que fazer com o Martim Moniz? Um urgente milagre.

Há uns tempo realizou-se a Expo 2015, em Milão. O tema era “A Alimentação no Mundo”. Estiveram lá 142 países, com os seus pavilhões. Portugal não esteve, com o argumento de não haver dinheiro. O que foi uma pena porque o tema era, como já vos disse, o comer passeando pelo planeta.  O daqui para ali da cana-de-açúcar e do abacateiro, a história do viajante amendoim, o milho turista, o cacaueiro que partiu e a pimenteira que chegou, a peregrina palmeira de dendém e o excursionista café… Isto é, o tema era Portugal. Não, não foi Portugal que inventou tudo isso, mas foi Portugal que os apresentou ao mundo.

Em Milão não era necessário pavilhão maravilhoso nem grande delegação. Só dois dedicados funcionários, postados à porta da Expo-2015. Um cumprimentando cada visitante: “Olá, você não se lembra, mas já nos conhecemos. De onde é?” O visitante dizia e o outro funcionário entregava-lhe um folheto sobre um tubérculo, um fruto, um cereal, consoante a origem. Aos brasileiros Portugal deu o café para conversar; à China e à Índia, a batata, e vindo dos Andes, o chili pepper, o jindungo que, passando pelo Brasil, deu sentido às sopas tailandesas e coreanas. Reparem, nem falo da paprica húngara – só reivindico as entregas diretas. A Budapeste, o picante só chegou depois de passar pela Turquia, trazido da Índia, onde, em Goa, os portugueses tinham metido o jindungo no vindaloo. Leiam alto e descubram a origem da palavra: “vinha-d”alho”… O vindaloo encontrei-o, também deturpado, em Trindade e Tobago e no Havai.

Em 1972, o americano Alfred W. Crosby publicou The Columbian Exchange (A Troca Colombiana), sobre uma mudança-chave da história, quando o Velho Mundo se encontrou com as Américas. Nesses anos, 1492, com Colombo, e 1500, com Pedro Álvares Cabral, o planeta começou a ser pintado redondo. Global, como hoje se diz.

No maravilhoso A Aventura das Plantas e os Descobrimentos Portugueses, de 1992, José Mendes Ferrão explicou essa contribuição portuguesa. O mais comum prato angolano, o funje, é acompanhado por fuba de milho ou por fuba de mandioca. O milho e a mandioca vieram do Brasil. E não se espalharam só pelas antigas colónias portuguesas, são as duas farinhas mais comidas em toda a África. O molho desses pratos é feito com óleo de palma, do coconote, que foi levado pelos portugueses da Índia (Goa) e Sudeste da Ásia (Malaca) para a África ocidental e Brasil. Quem come moqueca em Salvador da Bahia, saboreia Goa, sem que a agência portuguesa de viagens cobre taxas. No Nordeste brasileiro, chama-se canjica ao mingau de milho, ou munguzá, se for sem tempero e sal. Os nomes vêm do quimbundo angolano, kanjika mukunza. Quer dizer, a viagem das plantas não foi feita calada, uniu povos, para lá do palato.

A cana-de-açúcar tem origem na Índia e chegou a Pernambuco, o café é da Arábia e chegou a São Paulo. E quem levou?, perguntaria o folheto que devíamos levar a Milão, já que não tínhamos pavilhão. Os portugueses conhecem o ananás desde 1500, do Brasil. Levaram-no para estações de aclimatação, para os Açores, para o tornar de outro mundo (como levaram o cacau para São Tomé). Durante décadas, o Havai foi o maior produtor de mundial de ananás, mas só o começou a produzir em 1886, oito anos após o Reino do Havai, graças a um acordo de emigração com Portugal, já ter camponeses de São Miguel, Açores…

O pavilhão da Santa Sé, na Expo 2015, dizia que a comida era também assunto de rituais e símbolos. Claro. E os portugueses foram apóstolos do valor sagrado do pão, espalharam-lhe a palavra e os sabores. O governo português dizia que não tínhamos pavilhão porque não tínhamos dinheiro. É falso. Não estivemos lá porque quem decidiu foi pobre de espírito.

Os últimos parágrafos escrevi-os no seu tempo, em 2015. Os demais, por estes dias. E estava eu a tomar o pequeno almoço e a olhar para o Martim Moniz, através de ampla vidraça de um hotel, que era o Mundial, no seu restaurante Jardim, quando, não sei porquê, surgiu-me a solução para o Martim Moniz.

O que fazer? Um jardim mundial com as árvores da nossa antiga floresta – sobreiros, zambujeiros, alfarrobeiras, medronheiros, pinheiros-mansos… – junto a canteiros com tudo que foi exótico e também por causa de Portugal. Por falar nisso, Fernão de Magalhães, faz 500 anos, daqui a dias, 27 de abril, que, para dar o seu contributo, morreu numa praia longínqua.

De árvores nacionais e espécies de todo o mundo, especialistas em Lisboa não faltam. Saberes sobre como fazer isto em cima de uma placa de parking subterrâneo, engenharias básicas têm. E para potenciar esta coisa simples – como não me cansei de dizer – temos as variadas gentes do Martim Moniz, as do passado e as chegando. E até respeitar o ritual e o simbólico é simples. À ermida da Senhora Saúde só uma loja de revenda de bijutarias se encosta a ela, respeite-se quem trabalha e arranje-se outro lugar. Um ícone não pode servir de encosto.

Pronto, coisa simples, um milagre. Só precisa que não sejamos pobres sobre o que não devemos.


Ferreira Fernandes

Nasceu em 1948 em Luanda. Jornalista – um ponto é tudo.

  • Ponha os Sons de Lisboa no ouvido com o nosso podcast
  • Ouvir agora
  • Entre na conversa

    4 Comentários

    1. Como gostei de ler. Há anos que não vivo em Lisboa. Fala de uma zona de Lisboa que palmilhei nos anos 50, 60 do século passado e fez-me reviver ruas, edifícios, o Intendente, Tascas, o Piolho, a Procissão da Senhora da Saúde, Almirante Reis, Rua da Palma, o Velho Martim Moniz. Colocou-me no cimo do Hotel Mundial, onde também fui uma vez ou duas e caso seja possível, árvores de grande porte duvido, outro tipo de vegetação certamente, talvez fique um espaço mais harmonioso.
      De resto, gosto muito de o ler. Desejo-vos sucesso.

    2. Uma digressão comovente, em torno de uma Praça, dos seus lugares, da sua gente e dos artistas que a celebraram. O talento de um notável cronista, em todo o seu esplendor. Das melhores crónicas que alguma vez li.
      Obrigado,Ferreira Fernandes!

    3. Que leitura deliciosa, rendada, com várias camadas a como já nos habituou Ferreira Fernandes. Se o senhor fosse um tecido seria uma renda ou um brocado, cheio de pequenos pormenores que fazem toda a diferença. Tal como a do autor da foto do Piolho

    Deixe um comentário

    O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *