Depois das tempestades… a festa? Turbinado pela imensa comunidade brasileira em Portugal, o Carnaval de Lisboa ganhou gordura e promete gastar muitas calorias de quem tiver disposição para acompanhar a extensa programação que começa oficialmente na quinta-feira da semana anterior e promete estender-se para além da Quarta-Feira de Cinzas.
Carnaval apenas na Terça-feira-Gorda? Esqueça isso.
A festa estava programada para começar no último sábado (7), mas a depressão Marta deprimiu o desfile do Pandeiro LX pelas ladeiras de Alfama. Um novo cortejo está para ser anunciado, mas os pandeiristas lisboetas já confirmaram presença na apoteose do Carnaval, na terça-feira 17, no Intendente.
Para o lisboeta que está a ler essa matéria e não está acostumado com um Carnaval que não termina mais, tenha calma, tudo normal: na maioria das cidades brasileiras, o Carnaval é assim mesmo ou até mais intenso – no meu Recife, a temporada é aberta em setembro. Tanto que lá no Brasil costuma-se dizer que o ano não começa em 1.º de janeiro, mas só após a chamada “quarta-feira ingrata”.
E, vamos combinar: existe Carnaval em Lisboa desde a passagem dos romanos. Então, um conselho de amigo: relaxa, escolha uma fantasia e caia na folia.
Um Carnaval como nenhum outro em Lisboa
Um sintoma de que o vírus momesco está à solta em Lisboa é a epidemia de blocos. A cada ano, a União dos Blocos de Carnaval de Rua de Lisboa (UBCL) tem recebido novas agremiações. De 2025 para 26, esse número subiu de 12 para 17.
Para se ter uma ideia, há uma década, apenas a Colombina Clandestina e o Baque do Tejo animavam a folia brasileira-lisboeta.
O aumento gradual de agremiações fez a relação dos blocos brasileiros com a Câmara de Lisboa azedar no início do primeiro mandato da atual gestão. Porém, um acordo em 2025 entre a autarquia e a Embaixada do Brasil em Portugal selou a paz e o Carnaval brasileiro passou a constar – com toda justiça – na programação oficial da cidade.
Além de extensa, a festa em Lisboa é eclética. Embora o imenso contingente carioca e paulista na capital faça pesar a balança para o lado das escolas de samba, há espaço para outras manifestações culturais do rico Carnaval brasileiro, como o maracatu, as bandas de pífaros, o frevo e até obrega.
A agenda organizada pela Mensagem percorre esses ritmos e explica ainda, sempre que possível, a origem dos nomes de algumas agremiações. A lista contém o maior número de blocos possível, pois até a publicação desta matéria alguns deles estavam a lidar com as questões logísticas da PSP, entre as taxas de licenciamento e a confirmação do corte das vias para os desfiles.
Um detalhe: a lista abaixo abraça apenas os cortejos, mas muitos dos blocos têm agendadas after parties para quem ainda tem lenha para queimar. Se for o caso, aproveite a energia e dê um pulo no instagram das agremiações para conferir a programação completa.
E bom Carnaval – ou como dizem no meu Recife – evoé!

Quinta-feira, 12 – Palhinha Maluca e Cuiqueiros de Lisboa
O início do Carnaval em Lisboa vai exigir fólego e samba no pé.
A Palhinha Maluca não tem nada a ver com o encontro de fãs daquele objeto usado para beber um refri na lata, o chamado “canudo” no Brasil. É, sim, uma referência ao pífano (ou pífaro), também carinhosamente chamado de pife, um instrumento de sopro semelhante a uma flauta, levado ao Brasil pelos jesuítas e que foi incorporado pela cultura indígena brasileira, especialmente no Nordeste. É garantia, portanto, de um desfile de fólego, logo a partir das 13h30, no Mercado do Forno do Tijolo, nos Anjos.
O primeiro dia de Carnaval em Lisboa também tem o samba dos Cuiqueiros de Lisboa, que com apenas dois anos de vida já toca como gente grande. O desfile convida os talentosos integrantes do Chapitô, de onde a bateria arrasta os foliões às 15h, em direção ao Campo das Cebolas. Neste ano, o tema da festa homenageia a portuguesa mais amada do Brasil, Carmen Miranda.
Sexta-feira, 13 – Carvalho em Pé e Sardinhas Nômades
Para quem tem medo de uma sexta-feira 13, saiba que azar é de quem não vai cair na folia.
Às 18h, Alfama abre alas para o desfile do Carvalho em Pé. O esquenta é no largo em frente ao Chafariz de Dentro, de onde a bateria parte tocando os hits do Carnaval do Rio de Janeiro, aqueles que todo mundo – até mesmo os lisboetas – têm na ponta da língua. É Carvalho em Pé e samba no pé!
Ali pertinho, às 20h, no Cais do Sodré, quem pede passagem são os metais da Sardinha Nômades, uma orquestra que une o batuque dos tambores aos acordes dos trombones, trompetes e saxofones, num repertório para todos os gostos, que vai dos clássicos de Alceu Valença ao funk carioca em ritmo carnavalesco.
Tu vens, tu vens, eu já escuto os teus sinais…
Sábado, 14 – Colombina Clandestina e Boi Tabaco
O Sábado de Zé Pereira reúne o mais antigo e o mais novo bloco de Lisboa. É também Dia dos Namorados e quem sabe os solteiros não encontram um amor de Carnaval?
Ao meio-dia, o tradicionalíssimo Colombina Clandestina concentra-se na rua Machado de Castro, na freguesia de São Vicente, de onde às 15h arrasta uma multidão em direção ao Largo da Graça. O coreto então vira palco, com direito à convidada ilustre, a banda Colar de Rapariga, no casamento entre o brega e o samba.

No mesmo dia, o Boi Tabaco leva o frevo de Pernambuco – agora mundialmente famoso nos ecrãs graças ao filme O Agente Secreto – para a Fábrica Braço de Prata. O nome do bloco é uma referência ao calão pernambucano “boi tabaco”, que designa uma pessoa extremamente ingénua. A festa começa às 15h com a criançada e esquenta no fim da tarde, recebendo a presença ilustre da cantora Madu.

Domingo, 15 – Baque Mulher, Baque do Tejo, Secretinho e Qui Nem Jiló
No contexto das tradições do Carnaval brasileiro, o “baque” não tem nada a ver com a queda de um corpo. Pelo contrário, é um termo bem para cima e faz referência aos tipos de batidas, ou de “baques” – solto ou virado – do maracatu, expressão cultural nascida no meio rural de Pernambuco e que mistura elementos africano, indígena e europeu.
Em Pernambuco, o maracatu desfila num cortejo repleto de elementos, reis, rainhas, etc., e e o eco dessa tradição vai ser ouvido no batuque potente e envolvente dos tambores dos Baque Mulher e Baque do Tejo, que desfilam em Alfama neste domingo.
O Baque Mulher, como o nome sugere, é representado pela força e o ritmo feminino e parte às 14h do largo do Chafariz de Dentro, em frente ao Museu do Fado. Já às 15h, um dos mais antigos cortejos do Carnaval de Lisboa, o Baque do Tejo, faz retumbar os tambores por Alfama desde a rua Jardim do Tabaco.
O agitado domingo de Carnaval em Lisboa reserva ainda a animação do Qui Nem Jiló, um nome emprestado de um hit do Rei do Baião, o pernambucano Luiz Gonzaga, e dá o tom do propósito do bloco: tocar clássicos antigos e novos da música brasileira em versão forró. Essa alegria sai às 15h de frente à Igreja da Penha de França em direção à Praça Paiva Couceiro.

O dia de folia ainda reservas as surpresas do bloco Secretinho, pelas 14h, no Parque Ribeirinho do Oriente, de onde o cortejo parte em direção à Musa de Marvila, ao som da percursão da Pirâmide, seguido do liquidificador que mistur funk, brega, pimba, afrobeat e pop do Sapatrux.
Segunda-feira, 16 – Blocú
O Carnaval não para e na véspera do feriado a folia fica a cargo de bloco que rapidamente caiu no gosto do folião lisboeta.
O Blocú é o mais irreverente bloco de Lisboa, sinônimo de um evento concorrido e animadíssimo, vitaminado pelo astral queer. É dia de caprichar na fantasia e soltar os bichos em Lisboa. O esquente é a partir das 15h no Campo de Santa Clara, onde fica a Feira da Ladra, de onde no fim da tarde parte o irreverente desfile pelas ruas de Alfama.
É pressão, viu.
Terça-feira, 17 – Lisbloco, Entre Portas, Pandeiro LX, Lisbloco e o bis da Palhinha Maluca e Baque do Tejo
O último dia oficial do Carnaval termina com agenda lotada, com direito a bis.
Pelo segundo ano consecutivo, o Entre Portas une Lisboa e a Amadora pelo axé da Bahia. A concentração está marcada para às 15h, no Estacionamento da Quinta da Granja. É dalí, e não há lugar mais propício do que o terminal de autocarros do Colégio Militar, que o trio-élétrico parte, cruzando fronteiras na festa.

Já o Palhinha Maluca e o Baque do Tejo gostam tanto do Carnaval que repetem a dose no último dia, uma oportunidade para quem levou falta no primeiro desfile, a partir das 15h, no Largo do Intendente, ao lado do Pandeiro LX, de Madu e da Banda Fervo.
Na Praça do Comércio, os tambores vão tocar no mais carioca dos blocos de Lisboa, o Lisbloco, às 16h, na Praça do Comércio.

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