A música brasileira sempre viveu um relacionamento sério com o pandeiro, um instrumento aparentemente simples de tocar, quase como um bater de palmas, mas que esconde na sua estrutura igualmente elementar, formada por um arco de metal revestido com uma pele de cabra, a versatilidade sonora de uma verdadeira orquestra.

Quem garante é o músico Juninho Ibituruna que, desde 2021, tem passado os conhecimentos da ciência do pandeiro a lisboetas de várias nacionalidades que hoje lotam as turmas no Bota, o festivo ponto de encontro nos Anjos, meio bar, meio casa de concertos e completamente aberto a experiências sonoras e poéticas. 

Há duas décadas, o então baterista trocou os vários tambores e as baquetas pelo minimalismo do pandeiro, após ouvir o disco dos músicos brasileiros Lenine e Marcos Suzano, Olho de peixe, e descobrir, num momento de epifania, que nas 11 canções do trabalho a percussão base não era a de uma bateria, mas tirada de um único pandeiro.

Foi amor à primeira ouvida.

Juninho Ibituruna e Meli Huart não largam o pandeiro nem para a entrevista: repassando os segredos aos lisboetas. Foto: Rita Ansone.

Desde então, o pandeiro virou o instrumento de afeto de Juninho Ibituruna, acompanhando-o para todo o lado. Diferente da complicada e difícil de transportar bateria, o pandeiro é compacto e cabe em qualquer mochila. Acompanhou-o também na mudança para Lisboa, em 2010, cidade na qual o músico passa boa parte do ano. 

Ao lado da percussionista francesa com espírito e um irrepreensível português com sotaque brasileiro, Meli Huart, Juninho Ibituruna comanda o Pandeiro LX, um curso de pandeiro que tem um bloco e que, há dois anos, engrossa o rol de agremiações carnavalescas no cada vez mais verde e amarelo carnaval de Lisboa.

“As aulas servem ao mesmo tempo para aprender a tocar o pandeiro e ensaiar o repertório para o desfile do próximo carnaval”, conta Juninho, nascido Flávio Júnio há 40 anos em Governador Valadares, no interior de Minas Gerais, por onde andavam os povos originários krenak, de quem o músico tomou emprestado o Ibituruna, “pedra negra”, na língua krenak.

O Pandeiro LX nasceu como um podcast em 2020 com conversas e lições sobre o pandeiro, que depois passou a ter aulas online durante os sucessivos confinamentos, até se tornar presencial em 2022, quando os desfiles das agremiações no carnaval foram novamente permitidos.

O Bota é a segunda casa do curso, que a partir de setembro terá aulas também às quartas-feiras, provando que Lisboa rendeu-se definitivamente ao charme do pandeiro.

Um instrumento que se toca com o corpo todo

Na festiva segunda-feira de curso, mais de duas dezenas de alunos tocavam o pandeiro no ritmo do conhecido (pelo menos, para os ouvidos brasileiros) refrão “ah, ah, ah, ah, que Deus deu / oh, uoh, que Deus dá”, revelando que no set do desfile do carnaval de 2025 do Pandeiro LX estará Toda menina baiana do mestre Gilberto Gil. 

Juninho Ibituruna acredita que entrar no ritmo do pandeiro está acessível a quem se interessar pelo instrumento. Foto: Rita Ansone.

Entre os alunos, estão portugueses, franceses, italianos, ingleses e norte-americanos. Mas, espera aí, e os brasileiros? “Por incrível que pareça, os brasileiros são minoria”, diverte-se Juninho, cercado pelos futuros pandeiristas, regidos pelas mãos ágeis de maestro do brasileiro e pela batida ritmada dos pés, pois o pandeiro, não se engane, toca-se com o corpo todo.

Quem nunca esteve numa aula de pandeiro pode estranhar que aprender um instrumento que se toca com as mãos comece com aprender a bater os pés. “É o segredo para se ganhar ritmo”, ensina Juninho Ibituruna. Ritmo que pode ser um problema para ingleses e norte-americanos, entre outros gringos que, para os brasileiros sempre bons de ginga, têm a “cintura-dura”.

Cintura-dura que não é um problema para Juninho.

“Ganhar ritmo é como aprender a andar, é um passo de cada vez. E quem sabe andar tem ritmo”, insiste o professor Juninho, batendo os pés ritmadamente, acompanhado pelos empenhados alunos.

A batida serve como base para o bater de palmas de mão e assim, nos primeiros dez minutos de aula, o pandeiro ficou mudo.

Pés, mãos e também a boca. Quando os alunos já estão com o pandeiro em punho, começa a sessão de solfejos do mestre, numa sequência de tun-tchi-tchi-tun-pás e tun-ta-ga-di-tun-tuns que, a princípio, pode parecer que mais atrapalha do que ajuda, mas não é bem assim, pois é preciso acostumar outro órgão, o ouvido, a lidar com a pluralidade de sons.

Forró, chorinho, frevo e até fado no pandeiro

Francesa de Nantes de nascença, mas brasileira de Olinda de espírito, Meli Huart tem um papel crucial durante as aulas, circulando entre os alunos para perceber quem ainda não entrou no ritmo esperado. Quando o radar franco-olindense deteta o descompasso, Meli usa o próprio pandeiro para, numa aula particular dentro da aula coletiva, recuperar o passo perdido.

Habitué dos palcos lisboetas e das histórias da Mensagem, seja no samba do Coletivo Gira ou no Forró das Gringas, a francesa de 29 anos entrou no Pandeiro LX este ano para dar resposta ao aumento da procura pelas aulas. À turma inicial, com 25 alunos, somou-se uma segunda com o mesmo número de integrantes, divididas em dois níveis, iniciantes e iniciados.

Francesa como Meli, a aluna do curso Camille Liegard, há oito anos a viver em Lisboa, aderiu às lições de pandeiro em março. “É uma oportunidade de conhecer outras culturas, de ter um hobby após um dia de trabalho e também de conectar o meu corpo a outras sintonias”, explica.

A francesa Camille Liegard entrou no curso em busca de aprender um pouco mais sobre outras culturas. Foto: Rita Ansone.

Conhecer outras culturas é realmente uma opção. Durante o curso, a cada mês um ritmo musical é escolhido para ser dissecado pelos alunos. Este ano, o instrumento inventado pelos árabes retumbou ao som do chorinho, dos ritmos portugueses, do forró até os desafios de acompanhar num pandeiro os frenéticos acordes do frevo.

Chorinho, forró, frevo… e o fado?.

O professor Juninho Ibituruna não foge ao desafio. “Claro que é possível tocar fado num pandeiro”, garante, antes de fazer uma ressalva fundamental. “Fica um pouquinho mais alegre, mas ainda assim é fado”, completa o antigo baterista que descobriu no pandeiro não apenas o substituto para o instrumento que tocava, mas de uma orquestra inteira. 

Um instrumento que se toca com o corpo todo e o coração.


Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 51 anos, há sete em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa. É autor de sete livros, dois deles com Lisboa como personagem, Alojamento Letal e O Mau Selvagem.

alvaro@amensagem.pt


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