Esta é a única certeza que temos: foi alcançado o consenso político necessário à construção do novo aeroporto de Lisboa, após décadas de indecisão. Mais indecisões: como data para a inauguração do futuro aeroporto Luís de Camões, o governo aponta 2034, enquanto que a ANA aponta 2037. Mas, numa ou noutra data, a decisão está tomada: o atual aeroporto Humberto Delgado será totalmente desativado, num processo que libertará 477 hectares de terrenos públicos, o equivalente a 5% da área de Lisboa. Aqui pode nascer a 25.ª freguesia de Lisboa.
Então, perguntemo-nos: o que fazer com eles?
Por agora, este tema ainda não despertou um intenso debate político e social em Portugal. Para o incitar, a companhia de teatro Hotel Europa, a convite da Culturgest, construiu um espetáculo diferente: em formato de caminhada. O público, comunidade local e especialistas, vão andar por Camarate, pela Alta de Lisboa e por bairros que vivem paredes meias com o aeroporto, na fronteira de Loures com Lisboa. E conversar.
Como é viver ao lado do maior aeroporto do país? E que futuro para os terrenos do aeroporto? Que cidade pode ali nascer, afinal?
Durante dois fins de semana – dias 10 e 11 e 17 e 18 – o espetáculo Portela 2037 vai levar o público a caminhar pelas zonas limítrofes do aeroporto, passando por locais como a Alta de Lisboa, a Charneca do Lumiar, a Quinta Grande e Camarate, recordando as suas histórias e questionando o futuro da nova área urbana a construir.
Ainda antes de se iniciarem as caminhadas, na próxima quarta-feira, 7 de outubro, o Pequeno Auditório da Culturgest, em Lisboa, vai ser palco da conversa De Aeroporto a Cidade.
O momento, que será de discussão de ideias sobre a futura reconversão desta vasta área urbana, vai contar com a presença João Seixas, urbanista, geógrafo e professor da NOVA FCSH, Joana Pestana Lages, arquiteta e investigadora no DINÂMIA’CET-ISCTE e presidente da Associação Mulheres na Arquitetura, e ainda de André Amálio e Teresa Havlíčková. Esta conversa conta com a parceria da Mensagem de Lisboa.
“Este espetáculo pode abrir o diálogo”
Ao contrário do que é habitual no trabalho da companhia de teatro Hotel Europa, fundada por André Amálio e Tereza Havlíčková, o tema do aeroporto não surge de uma proposta da companhia. Foi, sim, um desafio lançado pela Culturgest.

André Amálio e Tereza Havlíčková, fundadores da companhia de teatro Hotel Europa, utilizaram a Quinta Alegre como base para a exploração do território, tirando partido da sua localização privilegiada, na fronteira da freguesia lisboeta de Santa Clara com Camarate, ainda em Lisboa. E foi a partir daqui, deste território de fronteira entre dois concelhos e o aeroporto, que partiram em busca das pessoas e das histórias e iniciaram o processo de construção de um espetáculo que se desenrola a passo de caminhada.
Partiram para o terreno a conhecer “muito pouco”, conta Tereza Havlíčková. André Amálio, artista, encenador e ator, estudou em Odivelas, mas nunca tinha passado por aqui. “Ouvia falar da Musgueira como uma zona perigosa”, como muitos outros lisboetas. Mas isso era “um olhar de fora”, sublinha. “É um território desconhecido da maioria das pessoas.”
“Quem é que foi ao sítio onde caiu o avião do Sá Carneiro?”, pergunta André. O local em que se despenhou, em dezembro de 1980, o avião Cessna que transportava o então primeiro-ministro português, Francisco Sá Carneiro, encontra-se sinalizado por uma discreta placa, instalada na fachada de uma casa do Bairro das Fontainhas, em Camarate. É um dos pontos de passagem do espetáculo Portela 2037.


Em baixo, capas de jornais referentes ao desastre.
No decorrer do processo de construção artística, descobriram que este fora, antes do aeroporto, um “território de quintas, de gente rica”. Da pobreza que aqui existia, e ainda persiste, fala-se de uma forma mais “envergonhada”, embora André considere que “devia ser ao contrário – todas as pessoas que são daqui são um enorme exemplo de empoderamento, de terem ultrapassado as suas fronteiras e de terem ido muito além”. “Muitas vezes, as pessoas não reconhecem isso nelas próprias”, aponta.
Isto é parte daquilo que o espetáculo se propõe a contar – a história destes lugares, de grandes quintas que se transformaram em casa para milhares de pessoas provenientes das ex-colónias e para quem chegava a Lisboa vindo do interior do país. Muitos dos que aqui chegavam, construíram as suas casas com as próprias mãos. Muitos foram, depois, realojados, no âmbito do PER – Programa Especial de Realojamento.
As caminhadas, que começaram a ser construídas em maio, são o resultado da exploração do território através da escuta dos seus residentes, mas também de especialistas que oferecem o seu contributo nas mais diversas áreas – a saúde, o urbanismo ou o ambiente.
“Devem esperar uma viagem não só no território à volta do aeroporto, mas também entre os tempos – o passado e o futuro”, afirma Tereza. “Quando as pessoas saírem do espetáculo, vão talvez começar a pensar não só sobre o futuro [dos terrenos do aeroporto], mas também, de forma diferente, sobre o passado.”

Sobre o grande propósito por detrás da construção do espetáculo, Tereza não esconde: “Se calhar, este espetáculo pode abrir o diálogo”.
A caminhada passa por pontos de observação com vista privilegiada para as aterragens e descolagens.
A localização do aeroporto e as suas vedações significam, há muito, um obstáculo que impede a proximidade com o centro da cidade. Talvez por isso, os miradouros do aeroporto tenham, ao longo das décadas, assumido o estatuto de locais de encontro para as comunidades locais.
“As pessoas tinham estes momentos de usufruto perto do aeroporto aos fins de semana porque a verdade é que [estes territórios] funcionavam quase como uma ilha. Aos fins de semana praticamente não havia transportes públicos. Então as pessoas, na verdade, iam para ali porque não tinham outro sítio para ir.”
Para André, o espetáculo serve o objetivo de instigar à ação e ao ato de participação cívica que é o de imaginar a cidade que ali poderá nascer.
“Somos levados a pensar como é que podemos intervir. Somos levados a problematizar uma coisa que, se calhar, não iríamos problematizar e a perceber como é importante tomarmos parte nas decisões que nos afetam.”
O encenador sublinha, ainda, uma das oportunidades proporcionadas pela desativação do aeroporto – a possibilidade de “coser o território”, de unir ao restante tecido urbano “uma zona da cidade que tem sido esquecida”.
“As pessoas não se queixavam dos sons dos aviões”
Anastácia Carvalho é uma das residentes que integram o espetáculo Portela 2037. Nasceu em Luanda mas vive na zona da Charneca do Lumiar desde 1983. Os pais compraram casa na Quinta da Pailepa, uma quinta que foi sendo povoada e onde nasceu um bairro de auto-construção, entretanto demolido. A família acabou por ser realojada, em 2003, no PER11, não muito longe dali, ainda no perímetro da freguesia de Santa Clara.
Lembra-se de frequentar o Cine-Estrela, no Campo das Amoreiras, e da mercearia onde a família podia fazer compras e pagar apenas no final do mês. Começou a cantar quando foi convidada a frequentar a Igreja Filadélfia, próxima da sua casa. Entretanto, já adulta, a carreira levantou voo. Acompanhou artistas como Bonga, Rui Veloso e o grupo Tabanka Djaz e foi convidada para trabalhar com Madonna. Na sua vida, tanto pessoal quanto profissional, o aeroporto “não atrapalha nada”. Desde cedo, significou “um local onde a pessoa entra num pássaro gigante”.

Foi de avião que a família, são-tomense, chegou, vinda de Angola, e foi de avião que Anastácia passou a vida a andar “de um lado para o outro”. “Estávamos em Angola, mas, devido à guerra, íamos para São Tomé. Depois, voltávamos de Angola para Lisboa, de Lisboa para Luanda; depois, de Luanda novamente para São Tomé e, depois, vim para Portugal, aos 16 anos”.
“Sempre passei a infância dentro de aviões”, conta. Essa experiência chegou, até, a moldar os seus sonhos profissionais. Em dada altura, equacionou ser hospedeira; o irmão, piloto. A aviação acabou por não fazer parte do percurso profissional, mas, hoje, com a sua vida no meio musical, o aeroporto, onde está, serve-lhe “perfeitamente”.
A Anastácia, o ruído dos aviões “nunca interferiu com o dia-a-dia”. “Existe o barulho, sim, sabemos que um avião está a passar, mas também não atrapalha nada.”
Tereza Havlíčková, diretora artística na companhia Hotel Europa, conta como “as pessoas não se queixam do som dos aviões. É uma coisa muito natural que faz parte das suas vidas”.
Mas, apesar de ter deixado de ser notada pelos vizinhos do aeroporto, a exposição ao ruído proveniente das descolagens e aterragens não deixa de ter consequências na saúde pública das comunidades locais. Recorde-se que, nos períodos de maior movimento, aterra ou descola um avião a cada minuto e meio.
“Falamos com ambientalistas que nos demonstram, por todos os números, que, apesar das pessoas daqui já estarem habituadas ao ruído, não quer dizer que não estejam a sentir os danos e que a sua saúde não venha a ter repercussões mais tarde”, conta André Amálio.

Esta multiplicidade de pontos de vista, diz o encenador, é um dos fatores que a caminhada acrescenta à discussão – “temos estes diferentes pontos de vista emocionais, de identidade, mas depois ouves o relato científico que te diz que [o aeroporto] está a fazer muito mal”.
Para Tereza, “isto é essencial aos nossos espetáculos; estamos sempre a tentar oferecer todas as opções ao público. Não é apenas ‘isto é bom, isto é mau’”. “São coisas complexas”, remata André.
“A maior parte das pessoas não acredita. Há tantas décadas que ouvem que o aeroporto vai sair [daqui]”
Concluído o processo de construção das caminhadas, e depois de conversar com vários residentes, André Amálio dá conta de um ceticismo generalizado em relação ao encerramento definitivo do aeroporto. “A maior parte das pessoas daqui não acredita. Porque já ouviram tantas vezes, há tantas décadas que ouvem que o aeroporto vai sair [daqui].”
A partir das conversas que teve, retira uma outra conclusão.
“Acho que as pessoas nem sequer estão à espera de ser ouvidas. Não contam com isso porque nunca foram ouvidas.”
Talvez por trabalhar na TAP, Valter Silva mostra-se menos cético. Ainda assim, cético. Há 30 anos que ouve que o aeroporto vai sair daqui. “A realidade que temos hoje vai obrigar-nos a essa mudança. O que eu duvido é que seja daqui a 10 anos. Até tenho algumas reservas que seja durante a minha atividade no aeroporto de Lisboa. Espero estar vivo para ver isso a acontecer.”
Passou cada um dos seus 50 anos em Camarate. Dorme com o barulho dos aviões. Acorda com ele e também trabalha com ele. Talvez por viver paredes meias com o aeroporto, a vida ditou que fosse trabalhar para as oficinas da TAP, há quase três décadas. Será, tal como Anastácia, um dos protagonistas das caminhadas e lembra Camarate como um lugar com um défice crónico de infraestruturas. A freguesia do concelho de Loures, que resulta da união das freguesias de Camarate, Unhos e Apelação, tinha em 2021 mais de 33 mil habitantes.
Apesar de ter vivido sempre em Camarate, viajou muito. Conta que “conheceu outros mundos”. É capaz de colocar o seu bairro em perspetiva com outras cidades da Europa, com outras cidades do mundo”. É essa visão que vai procurar trazer ao público que vier às caminhadas – “a de alguém que nasceu aqui, que, desde pequeno, vê os aviões a passar por cima da chaminé e, por outro lado, também com a visão interna que eu tenho, a de quem está do lado de fora do aeroporto, mas também a de quem está do lado dentro.”


Todos os dias, Valter vai trabalhar de bicicleta. “Certamente que se o aeroporto for para o outro lado, terei muita dificuldade em ir a pedalar pela ponte Vasco da Gama. Vai mexer bastante com a minha rotina.” É mecânico de cabines, responsável por verificar o interior das aeronaves antes de levantarem voo. No passado mandato autárquico, foi vogal na Junta de Freguesia de Camarate, Unhos e Apelação, com o pelouro do Movimento Associativo. Foi também um dos responsáveis pelo renascer das marchas em Camarate, com a criação da Marcha da União, uma iniciativa que, garante, se mostrou, até, capaz de diluir as acesas rivalidades entre a vizinhança das três localidades que dão nome à união de freguesias.
Filho de pais “retornados” de Angola, chegados dois meses antes do seu nascimento e já após o 25 de Abril, testemunhou o crescimento desorganizado da zona. Construções precárias e os prédios foram nascendo em zonas outrora agrícolas, ao lado de grandes casas, como o Palácio Marquês do Alegrete.
Conta como, ao longo das décadas, “foi o aeroporto que tirou espaço à comunidade, não foi a comunidade que tirou espaço ao aeroporto”.
Valter Silva tinha cinco ou seis anos quando o avião de Sá Carneiro se despenhou. “Quase que diria que para a nossa terra houve um antes Francisco Sá Carneiro e um depois Francisco Sá Carneiro.”
O “fascínio” que as pessoas tinham com a proximidade ao aeroporto “transformou-se em medo”, diz, lembrando que, em Camarate, as pessoas sempre viveram o aeroporto. “O barulho, o cheiro, as casas a tremerem quando há um avião maior a fazer um voo rasante.”
Desativação pode devolver o sono a Camarate?
Quando questionado sobre os potenciais impactos do encerramento do aeroporto em Camarate, Valter lembra a diminuição drástica do tráfego aéreo registada em 2020, devido à pandemia de Covid-19, para imaginar o que pode acontecer. “Se calhar, vou sentir aquilo que senti no Covid. Uma calma, uma tranquilidade, uma noite de sono sem aviões, uma conversa como esta que estamos a ter aqui, sem este barulho de fundo, sem esta banda sonora constante”.
Em 2020, o tráfego no aeroporto de Lisboa registou uma quebra de 70,3%.
Mas, considera, as consequências positivas podem não ficar por aqui. “Não vamos sentir tanto trânsito, nem tanta pressão no imobiliário, pelo facto de estarmos próximos do aeroporto”, diz, referindo-se àquilo que considera ser a pressão que os milhares de postos de trabalho associados à atividade do aeroporto impõem ao mercado de habitação local. “Cerca de 50, 60, 70 mil passageiros diários não vão circular aqui à volta desta comunidade aeroportuária”, diz, referindo-se ainda à esperada diminuição das emissões poluentes.

Depois do aeroporto, o que deve nascer?
Outro dos pontos de passagem do espetáculo é a Alta de Lisboa. Para André Amálio, que, no processo de desenho das caminhadas tem consultado com vários urbanistas, este é um território a partir do qual se devem tirar lições na hora de planear o modelo de cidade a desenvolver nos terrenos do aeroporto.
“É um projeto que já tem mais de 40 anos e ainda não está concluído. Se há uma lição que temos de tirar da Alta de Lisboa é que o que está a acontecer aqui não pode repetir-se no aeroporto.”
Em 1984, era assinado um contrato de concessão entre a Câmara Municipal de Lisboa e a Sociedade Gestora da Alta de Lisboa (SGAL), um consórcio de empresas fundado pelo multimilionário Stanley Ho, com o objetivo de criar casas numa área de 300 hectares, numa urbanização “idealizada para 65 mil residentes”.
Mais de quatro décadas depois e mesmo perante a valorização e voracidade imobiliárias, ainda existem lotes com construção por iniciar. A Câmara de Lisboa pretende estender o prazo da concessão até 2032, altura em que se atingirá, “no máximo, pouco mais de 84% do inicialmente planeado”.



André Amálio sublinha um dos principais receios de muitas das pessoas com quem tem falado – o de que o futuro dos terrenos do aeroporto “não seja só construção para ricos. Acho que isso é o maior medo que as pessoas têm”.
“Quase toda a gente refere a necessidade de tentar conciliar a memória do aeroporto, um espaço verde grande e habitação – e, dentro da habitação, tem de haver habitação acessível.”
Anastácia Carvalho assistiu à mudança profunda desta zona da cidade. Ao desaparecimento da Quinta da Pailepa, no início do século, e à construção faseada da Alta de Lisboa. “Antigamente, aquilo era só canaviais e agora tem prédios. Toda esta zona aqui tem prédios novos e quem não a conheceu nos anos 80, pensa que sempre foi assim”. Acha que é o que vai acontecer, daqui a décadas, com o que vier a nascer no aeroporto.
“Os que vierem a seguir vão pensar que foi sempre assim. Se ninguém contar a história, não vão perceber”. Por isso, sublinha a importância de preservar a memória do que existe. Não sabe que cidade há de nascer nos atuais terrenos do aeroporto, mas deseja que seja preservada a memória. “Deixem uns dois ou três aviões, deixem a pista. Será uma mais-valia preservarem isso e não destruírem por completo o que existe.”
“Há pessoas que saem de Portugal e passam pelo aeroporto para irem de férias. Mas há pessoas que passaram pelo aeroporto deixando uma vida para trás. Então, é muita história, há ali uma carga energética muito grande.”
Já Valter Silva prefere começar por dizer o que não quer que aconteça. “Não queria que este espaço, que agora tem sobretudo alcatrão das pistas do aeroporto, fosse substituído por betão. Betão para completos de hotelaria, de turismo, ou então para parques industriais ou mesmo de habitação.”
Sobre o que quer ver nascer no lugar do aeroporto, o mecânico da TAP gostava de ver devolvido ao local “o pulmão verde que existia aqui há 80 anos”. “Não só um parque natural, quase um Central Park, mas que ao mesmo tempo fosse um parque lúdico, com parques temáticos ligados à ciência, à arte e à cultura”, sugere, lembrando que “estamos a falar de cinco mil metros quadrados. É quase uma cidade dentro da cidade. E há espaço para tudo”.

Frederico Raposo
Nasceu em Lisboa, há 32 anos, mas sempre fez a sua vida à porta da cidade. Raramente lá entrava. Foi quando iniciou a faculdade que começou a viver Lisboa. É uma cidade ainda por concretizar. Mais ou menos como as outras. Sustentável, progressista, com espaço e oportunidade para todas as pessoas – são ideias que moldam o seu passo pelas ruas. A forma como se desloca – quase sempre de bicicleta –, o uso que dá aos espaços, o jornalismo que produz.
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