Cidades imaginárias, naves, monstros… e até o dia do assassinato de Miguel Bombarda. Durante mais de um século, estas obras permaneceram longe do olhar público. Agora, ocupam uma exposição no Andar Nobre da Assembleia da República. São esculturas, pinturas e objetos históricos saídos das mãos de pessoas internadas ao longo de mais de um século nos dois dos hospitais mais emblemáticos de Lisboa – o Miguel Bombarda e o Júlio de Matos.

Foi na passada quarta-feira, dia 30 de setembro, a Comissão Parlamentar de Saúde inaugurou a exposição “Tudo é Semente. Entre mundos que esbatem fronteiras: o espólio artístico dos hospitais psiquiátricos de Lisboa”. São cerca de 70 obras, documentos e objetos históricos, reunidos em parceria com a Unidade Local de Saúde São José para assinalar o Dia Mundial da Saúde Mental, celebrado a 10 de outubro.

Com eles chegam nomes de pessoas, artistas e anónimos que, historicamente, foram durante muito tempo remetidas para a margem da sociedade: Jaime Fernandes, Valentim de Barros e Ângelo de Lima, por exemplo. O público é, então, convidado a afastar-se do momento e do espaço presentes para se aproximar do imaginário e do indivíduo que o pensou.

O que as une começa na simplicidade: traços mínimos, linhas simples, materiais simples. É aí que o curador Bernardo Cardoso, coordenador para o desenvolvimento cultural e artístico da Assembleia da República, encontra a razão do nome:

“Tudo é semente” porque muitas destas obras começam com traços mínimos, linhas muito simples e materiais muito simples. Mas, dentro dessas coisas muito simples, muitas vezes obsessivamente repetidas, pela persistência dessa repetição ganham outro mundo, como uma semente que é muito pequenina mas que lá dentro já tem tudo.

A expressão é uma frase do pensamento do poeta e filósofo alemão Novalis: toda a realidade contém em si a possibilidade de se transformar em algo mais.

A seleção foi pensada para que, através do valor artístico das obras, se descubra o valor imenso dos seus autores. “É quase como se estas obras também nos interpelassem inquietações que acabam por ser as inquietações de todos nós”, explica Bernardo Cardoso.

O assassinato de Miguel Bombarda e a evolução de um estigma

Entre as peças está um quadro a óleo do Duque de Saldanha, que evoca Miguel Bombarda, figura fulcral na história da psiquiatria portuguesa. A obra está ligada ao episódio do seu assassinato aquando da Implementação da República, mas vai além do significado histórico: recorda a evolução dos cuidados de saúde mental em Portugal e o papel que a atividade artística desempenha nesse contexto.

É este o sentido da proposta da Assembleia: reconhecer o valor artístico do trabalho destes autores sem os reduzir à sua condição clínica. Quem visita a exposição é levado a uma conversa sobre a forma como olhamos para quem vive com problemas de saúde mental e sobre o lugar da arte na expressão e afirmação de identidade.

Ao levar estas obras para o Parlamento, a exposição reacende ainda a discussão sobre a importância de existirem leis e apoios que enquadrem, cada vez mais e de forma cada vez mais eficiente, as questões de saúde mental. E sublinha o valor de trabalhos de preservação artística como o desenvolvido pela Unidade Local de Saúde São Jorge.

Mais do que expor um espólio, “Tudo é Semente” pede que se olhe para estas obras e para os seus autores para lá do estigma, e deixa uma reflexão sobre a importância da atividade artística no acompanhamento psiquiátrico.

A exposição está aberta ao público, até ao dia 29 de novembro, em visitas guiadas, nos dias 13 e 20 de outubro e 3, 17 e 24 de novembro, das 13h15 às 14h00. A participação é livre e a entrada é feita pela Receção Principal da Assembleia da República (até às 13h15).


*Texto editado por Catarina Reis

Matilde dos Santos Pereira

Menina da aldeia, viu em Lisboa uma oportunidade de captar tudo o que a cidade grande tem para oferecer. Está a terminar a licenciatura em História na NOVA FCSH mas sempre teve uma paixão imensa por histórias e pela perspectiva de as partilhar. Atualmente é estagiária na Mensagem.

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