Já na sua famosa História do Fado, de 1905, Pinto de Carvalho refere, numa prosa magnífica, que o fado se tornou presença obrigatória nos salões (fala mesmo em “fadocracia”) e que “as senhoras de tom não desdenham aprender a guitarra, que readquire o posto que tivera noutros tempos. E a guitarra do povo […] converte-se na guitarra senhoril, no instrumento que vai repousar sobre os tamboretes dos toucadores elegantes, que passa a ser beliscado por dedos avezados apenas às torturas do piano […] Os arames prateados das guitarras soam aos ouvidos das damas como se fossem cordas de oiro do heptacórdio de Eros.”

A frase é maravilhosa, não se pode negar, mas, apesar do vibrante entusiasmo de Tinop quanto às guitarras passarem a fazer parte do “mobiliário” feminino, sabemos que, grosso modo, até ao século XXI, os guitarristas de fado foram sobretudo homens e que, entre eles, não se contaram meros acompanhantes, mas também instrumentistas virtuosos e compositores que contribuíram com inegável talento e mestria para um acervo imorredoiro de cerca de centena e meia de composições tradicionais ainda hoje cantadas com letras várias.

Mas é injusto esquecer uma mulher que começou realmente muito cedo a dar cartas na guitarra – e posso falar disto de cátedra porque já com catorze ou quinze anos ela nos deixava boquiabertos e em profundo pasmo enquanto dedilhava milagres nas cordas de um instrumento musical a que então, por ignorância, nós chamávamos “viola” (era uma guitarra clássica), nas festas de fim de ano do colégio onde chegámos a ser da mesma turma. Falo naturalmente de Luísa Amaro, a quem perdi o rasto quando terminámos o Ensino Secundário (ela foi estudar Direito, eu Letras), mas que reencontrei mais tarde nos píncaros, a tocar ao lado do enorme Carlos Paredes, de quem foi, aliás, companheira durante muitos anos.

Luísa Amaro, que continua a fazer espectáculos como solista, foi tão-só a primeira mulher a gravar um álbum inteirinho de guitarra portuguesa e também a primeira mulher a compor especificamente para este instrumento, somando hoje cerca de uma dezena de discos de guitarra.

Luísa Amaro, durante uma Mensagem ao Vivo, no Teatro São Luiz. Foto: Inês Leote

Talvez tenha inspirado a geração seguinte, em que, felizmente, no meio fadista e não só, já há várias mulheres a tocarem guitarra portuguesa. Devemos destacar, claro, Marta Pereira da Costa, que foi discípula do conhecido guitarrista Carlos Gonçalves e que, tendo sido a primeira mulher portuguesa a acompanhar profissionalmente fadistas, depressa se tornou uma instrumentista e compositora de nomeada, levando hoje a sonoridade da guitarra portuguesa aos quatro cantos do mundo, seja a solo, seja integrada em formações de cordas ou com um acordeonista.

Enquanto isso, muitas jovens fadistas começam também a aprender a tocar guitarra portuguesa, algumas com os guitarristas que as acompanham, outras na escola do Museu do Fado, quiçá atraídas pela imagem mítica de Carminho no filme Poor Things, em que contracena (e brilha) com a atriz Emma Stone, dedilhando uma guitarra (ela diz que só “arranha”, mas sabe tocar) e cantando o fado.

É justo, porém, que se diga que Mariana Martins as antecedeu, tendo-se tornado, em 2021, a primeira licenciada em todo o mundo do curso de Guitarra Portuguesa da Escola Superior de Artes Aplicadas, onde teve por mestre outro grande nome da guitarra, Custódio Castelo.

Se, tradicionalmente, a história deste instrumento português era escrita por homens, a verdade é que as coisas estão claramente a mudar – e essa mudança, a médio prazo, vai produzir de certeza uma transformação do próprio fado.

*A autora escreve com o antigo Acordo Ortográfico


Maria do Rosário Pedreira

Nasceu em Lisboa e nunca pensou viver noutra cidade. É editora, tendo-se especializado na descoberta de novos autores portugueses. Escreve poesia, ficção, crónica e literatura infanto-juvenil, estando traduzida em várias línguas. Tem um blogue sobre livros e edição e é letrista de fado.

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