Foi num setembro assim, igualmente escaldante, que há uma década cheguei em Lisboa. Isso mesmo, dez anos. Um terço da minha vida adulta. Parece muito mais. É que o tempo na vida de um imigrante passa como no calendário dos cães, sabe como é, cada ano vale por sete. Ou, no nosso caso, ainda mais. Muito mais.

Na prática, essa década é uma vida inteira, um século de experiências mais os acréscimos dado pelo árbitro, uma odisseia de desafios, alegrias e frustrações. 

Mas é sempre melhor viver dez anos à mil por hora do que mil anos à dez.

Por isso, esse texto é mais do que uma crónica. É uma vida passada a limpo. Uma vida passada, engomada e pendurada no cabide. 

Para não confundir a minha cabeça – a de vocês não sei como anda, mas a irrealidade destes dias está dando cabo dela – vou fazer esse VAR existencial por tópicos.

Indo e voltando, em câmera lenta, como manda o algoritmo de uma analógica inteligência artesanal. 

A, de Amor

Cheguei em Lisboa casado e me separei durante a pandemia. Eu sei, um clichê, mais um clichê na minha vida. Andei por aí, à procura da pessoa certa e, enquanto a pessoa certa não aparecia, me distraía com as erradas. Primeiro, no inferno das apps, uma espécie de primeiro dia de aula que se repete eternamente, como no filme com o Bill Murray, onde se é obrigado a dizer quem é, o que gosta e não gosta, e o que fez nas férias. Voltei ao modelo antigo e dei mais sorte. Estive perto do amor verdadeiro, o tal eterno enquanto dura, mas ainda não era a pessoa certa. Sigo com as erradas, então.

C, de Casa

Tive sorte, azar e sorte. Pois é. Quando cheguei, vivi em Alfama. O taxista, coitado, não devia ter notícias do Brasil e, ao nos deixar lá com as malas, advertiu: isso é um bairro manhoso. Na boa, quando comparada à qualquer capital brasileira, Alfama é a Suíça. Mesmo assim, quase perdi a vida. Um vazamento de gás nos dutos da via fizeram o apartamento ir pelos ares. Sobrevivemos ao nosso pequeno Vesúvio. Após o périplo com os senhorios que se negam a arrendar para brasileiros, terminamos em Alvalade. Com a separação na pandemia e ainda sem vacinas, trocamos de rua, um apartamento maior, mas como o vírus fez baixar a febre dos valores das rendas, demos sorte. 

E, de Escritor

Ok, podia ser melhor, mas vá lá, tem sido interessante. Sou publicado, recebi alguns prémios literários – mais aqui do que no Brasil – tenho meia-dúzia de leitores e ando por aí assinando uns gatafunhos nas feiras dos livros. Faltou a oportunidade numa grande editora. Alguém com a sensibilidade para entender que o autor brasileiro não é chamado apenas para falar dos problemas do Brasil, e que nós, escritores brasileiros em Portugal, também temos uma história a contar sobre a experiência de aqui estar. Mas nunca é tarde. 

F, de Filhos

Tenho dois filhos, um adulto que chegou adolescente e um adolescente que chegou bebé. E Lisboa tratou-os de forma distinta. O adulto teve mais sorte. Fez bons amigos, andou por boas escolas – a António Arroio uma delas – tirou um diploma universitário e fez o Erasmus em Itália. Agora, como todo lisboeta, pensa em migrar para a Europa. Já o mais novo, coitado, teve uma professora que o amarrou na cadeira, outra que não o queria passar de ano pois não falava português, mas brasileiro, e ainda foi perseguido por coleguinhas na escola cujos pais não estavam preparados para serem pais. 

G, de Gastronomia

É um consenso, em Portugal se come bem. A gastronomia portuguesa é familiar. Mais para lá, mais para cá, parece a do Brasil. Feijoada, dobrada, cabidela, cozido, tira um bocadinho, coloca um bocadinho, e se está em casa. Mas falta ainda à mesa portuguesa descobrir a farofa. Viiiiixe, farofa é bom demais! Farofa com chouriço, farofa de jerimum (abóbora), farofa de ovo, farofa d’água, a farofa é feito chá de boldo, serve para tudo, especialmente para dar liga ao caldo de feijão. Quando a farofa finalmente for reconhecida, aí sim, não haverá um senão na gastronomia portuguesa. 

J, de Jornalismo

Disso, não posso reclamar. Ao contrário da imensa maioria dos imigrantes, obrigados a se virararem com o que vier pela frente, tive a felicidade de sempre atuar na minha área. Escrevi em jornal nacional, em revista importante, vez ou outra ando pela televisão, ganhei prémio jornalístico e, mais especial ainda, ganhei uma família aqui na Mensagem de Lisboa, onde todos carinhosamente continuam afagando o meu ego, elogiando o meu texto. São uns queridos.

L, de Lisboa

Como qualquer relação, tem seus altos e baixos. Lisboa é linda, encantadora, o que é um problema, pois sempre que viajo pela Europa, não vejo graça, Lisboa é ainda a cidade mais bonita. Só que, de uns tempos para cá, Lisboa tem feito questão de azedar o romance. Se veste mal, anda com um cheiro esquisito, já não é mais de beijinhos e abraços, botou um cara-feia e que não quer mais saber de mim. Que mal eu fiz, Lisboa? Só porque vim de fora? Qual foi, Lisboa, só tá interessada agora em expat, em ianque e europeu? Olha pra mim, menina moça, volta pra mim, Lisboa. Vamos reatar essa história de amor. 

P, de Praia

Dizer o quê? Se você não tem ADN de pinguim, a praia portuguesa é um desafio. Belíssimas, belíssimas, um cartão postal, mas basta botar o dedo mindinho do pé na água para o desejo de um mergulho ir por água abaixo. Ok, deve ter brasileiro que consiga, mas eu venho do Recife, onde o mar tem a temperatura de chi-chi. Resultado, em dez anos, só mergulhei de corpo inteiro uma única vez. Umazinha só. O que reduz a experiência de se ir à praia em Portugal pela metade. Só até a cintura. 

Q, de Quiosque

Já escrevi aqui, o quiosque define o que é ser português. O quiosque é maior do que as glórias das navegações, que Vasco da Gama aportando na Índia e Bartolomeu Dias dobrando o Cabo da Boa Esperança. O quiosque é maior do que os Lusíadas. O quiosque é o fado elevado ao número de Avogadro. É a verdadeira essência portuguesa e foi lá, no ecossistema, na fauna e flora de um quiosque, que fiz meus poucos, mas bons amigos portugueses. E, cá para nós, o dia em que me senti mais português não foi quando tirei a nacionalidade, mas quando os vizinhos me incluíram no grupo do Zap do quiosque. Aí, sim.

R, de Racismo

Por mais que se tente negar, varrer a todo custo para baixo do tapete, o racismo existe em Portugal. Só não vê quem não quer. Está em todo lugar, na tasca, no banco, na lotérica. Enquanto no Brasil o racismo é fundamentado na classe social, o racismo à portuguesa – e aí inclui também a xenofobia – passa pela necessidade patológica de se diferenciar do outro, seja pela cor da pele, etnia, nacionalidade, religião, seja pela forma que se fala a mesma língua. É você lá, eu cá, a linha está traçada. O mais trágico nisso é que o português não existe, como não existe o brasileiro. O português é uma abstração, a começar pelo idioma, que nem descendente direto do latim é, mas de um casamento com o galego. E se cada português esmiuçar o seu ADN como freneticamente faz com a unha na raspadinha, vai ver o sarapatel genético que é. Tem de tudo, tudo, tudo mesmo, menos, um gene puro-sangue português.

T, de Tuga

O tuga é esquisito. Geralmente, é complicadinho, acha tudo difícil de fazer, que não vai dar certo e adora sacar do bolso um onde já se viu?. É reclamão, passa hoooooooras numa discussão e se ainda puder ministrar um sermão no próximo, aí, meu deus, é um sonho, ganhou o dia. O tuga também não erra, pelo menos nestes dez anos, nunca vi um tuga reconhecer o erro. Pode até errar, mas a culpa do erro dele será sempre de alguém. O mais fascinante no tuga, porém, é que se você sobreviver a essa personalidade borderline-obsessiva-compulsiva-paranóide-esquizotípica-histriónica, vai perceber que no peito dele bate um enorme e gentil coração. 

E eu sobrevivi. 


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Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 51 anos, há seis em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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