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Dizem que o jornalista não é notícia. Natural que não seja, até um acontecimento atravessar a vida deste jornalista e, aí não há hipótese, vira-se notícia quer se queira ou não. Foi assim quando uma explosão em Alfama deu cabo do prédio de cinco andares onde vivia e por pouco não pôs um ponto final na minha história e na da minha família.

Sempre me perguntam porque decidi viver em Portugal e a resposta é invariavelmente a mesma: pela segurança. Não deixa de ser uma ironia, portanto, que o dia em que a minha vida esteve por um fio não foi durante um assalto nas violentas ruas do Brasil, mas numa segura e pacata via de um histórico bairro de Lisboa.

As ruínas do prédio que explodiu em Alfama: um desastre que poderia ter sido evitado. Foto: Líbia Florentino

Isso ocorreu num malfadado 13 de agosto, em 2017. Há cinco anos, portanto. Mas uma história assim não desaparece num estalar de dedos, como desapareceu por entre o fumo tudo o que tinha de material e imaterial, os móveis, roupas, documentos, equipamentos de trabalho, as lembranças de uma vida e também uma certa paz.

Naquela tarde, enquanto a minha casa ardia, concedi dezenas de entrevistas, no primeiro contacto com os futuros colegas da imprensa, alguns deles, hoje verdadeiros amigos.

Voltei esta semana ao número 59A da Rua dos Remédios agora como jornalista, acompanhado por duas antigas vizinhas. Mafalda trazia as chaves do prédio e também a filha Margarida, de 5 anos, meses mais velha do que a explosão. No triste dia, dormia alheia às chamas e ao desespero, protegida no baby wrap preso ao peito da mãe. 

As portas do número 59A da Rua dos Remédios em Alfama continuam fechadas, à espera da reforma. Foto: Líbia Florentino

Já Sofia trazia as últimas notícias do processo judicial que se arrasta em busca da reparação pela negligência das companhias de luz e de gás, que, de acordo com a perícia realizada, são as responsáveis por uma explosão que poderia ter sido evitada.

Um erro que reforça a impressão de despreocupação das concessionárias de serviço público pela segurança dos seus clientes, agravada, no caso específico, pela clara sensação de desprezo às pessoas, ao recusarem-se assumir o ónus de um erro que, se não custou mais de uma dezena de vidas, alterou-as para sempre.

Tudo que é sólido se desmancha no fogo

Mafalda gira a chave, a maçaneta e empurra a porta, que se move devagar, queixando-se do esforço com um rangido. Que pese o calor de agosto lá fora, está fresco no interior do prédio em ruínas. A luz do sol entra pelo que restou do teto e por frestas das janelas tapadas, iluminando o caos e um improvável jardim.

“Andaram a ver se havia vestígios arqueológicos”, explica Sofia, apontando para os arbustos que floresciam de uma escavação onde antes era o hall de entrada do prédio construído não se sabe precisamente quando, mas cuja primeira referência nos autos surge num pedido de reforma do imóvel, em 1837.

A atual fachada do prédio em Alfama, sem os três pisos destruídos pela explosão. Foto: Líbia Florentino

Quem vê a estrutura parcialmente demolida na Rua dos Remédios não imagina que para além dos três andares ainda em pé, havia três pisos a mais no antigo prédio – o quarto andar contava com um sótão. Três sólidos andares que também se desmancharam no fogo.

Estruturas erguidas em grossas paredes. Lembro de que o funcionário da companhia telefónica precisou furá-la para passar o cabo da internet e foi obrigado a recorrer a uma broca com meio-metro ou mais de tamanho, desembainhando a ferramenta de um case de nylon como um templário de capacete e colete vermelho. 

Apesar de grossas, as paredes não resistiram ao impacto da explosão. Uma delas abriu-se como a tampa de uma lata de sardinhas.

Apesar de grossas, as paredes não resistiram ao impacto da forte explosão. Uma delas, na parte de trás do imóvel, abriu-se como a tampa de uma lata de sardinhas. A expansão lateral das paredes fez que minutos depois os pisos dos cinco andares desabassem em cascata sobre o primeiro andar do prédio. O andar onde eu vivia.

Onde vivia e onde deveria estar naquele soalheiro domingo, 13 de agosto, na companhia da então minha companheira Líbia Florentino – que assina as fotografias desta matéria – e dos dois filhos, Arthur e Mathias, à época com 14 e 2 anos. E se lá não estávamos não foi por iniciativa dos bombeiros ou dos técnicos das companhias de luz ou gás.

O jardim que floresceu onde antes era o hall de entrada do prédio: escavações em busca de vestígios arqueológicos. Foto: Líbia Florentino

Pelo contrário. Todas as autoridades convocadas pelos moradores e vizinhos, temerosos pelo forte cheiro de gás que exalava do prédio e fazia-se sentir até na rua, minimizaram os riscos, reforçaram que não havia perigo, garantiram que estávamos seguros e deveríamos permanecer em casa, que nada iria acontecer. Mas aconteceu.

Arqueologia nas ruínas de uma vida

Sofia, Mafalda e a filha observam os destroços onde antes era a cozinha e a pequena casa de banho do apartamento, enquanto ajudo Líbia a escalar o que restou da estreita escada que levava à nossa antiga casa, a fim de garantir uma foto panorâmica.

Mafalda, a filha Margarida e Sofia: prestações pagas por um imóvel que já não existe. Foto: Líbia Florentino

É a segunda vez que volto ao interior do número 59A da Rua dos Remédios. A primeira fora meses após a explosão, quando um engenheiro sensibilizado com a história fechou os olhos e abriu uma exceção ao regulamento, para que lá entrasse e recuperasse algo antes da demolição definitiva da estrutura interna do prédio.

Um dia após a explosão, os bombeiros retiraram dos escombros alguns documentos – entre eles, os passaportes, que durante meses ainda cheiravam a fumo, atraindo a desconfiança dos funcionários nos aeroportos – duas bicicletas, e o que sobrara de danificados computadores e equipamentos de vídeo e fotografia.

Meses depois, buscava naquela arqueologia através das ruínas de uma vida algo que tivesse escapado ao escrutínio dos bombeiros. E encontrei.

Por mais que se critique a qualidade dos móveis da Ikea, havia roupas intactas no interior do roupeiro. A cama de casal também protegera sob os estrados a mala com exemplares de um livro que havia publicado, uma ficção de nome curioso O Curso de Escrita Romance – nível 2. Ainda hoje, mantenho os chamuscados exemplares.

Alguns brinquedos de Mathias resistiram, entre eles Nino, o urso de peluche que até hoje o acompanha nas noites de sono.

O quarto dos meninos fora alagado pela ação dos bombeiros. Vasculhei a pequena divisão com a água escura pelo tornozelo, as memórias a flutuarem. Resgatei o quadro de varinhas de Harry Potter de Arthur e alguns brinquedos de Mathias, entre eles Nino, o urso de peluche que até hoje o acompanha nas noites de sono.

O carrinho de bebé de Mathias também resistira. Um modesto modelo da Chicco que, após sobreviver às férias da família em Itália – um exigente périplo que quase deu cabo dele – foi para a merecida reforma. Aposentadoria prontamente cancelada após o substituto, mais moderno – e frágil –, ter derretido por completo no incêndio.

O renitente carrinho ainda seguiu Mathias por um tempo, um claudicante veterano de guerra – uma das rodas não escapara tão ilesa assim ao fogo – a farda rota, a descosturar em vários sítios, mas que cumpriu a sua missão até o fim e só se retirou de cena após o velho companheiro conseguir caminhar com as próprias pernas. 

A negligência dos especialistas

Nesta segunda volta ao chamuscado ventre da minha antiga casa, não havia mais o que ser resgatado, a não ser as ternas lembranças. O que sobrou de uma vida varrida pelo fogo e pela negligência, num desastre que poderia ter sido evitado se as autoridades fizessem o mínimo do que se espera que devam fazer.

O gás escapou pelo tubo danificado pelo curto circuito e terminou na explosão do prédio em Alfama. Foto: Líbia Florentino

Acordámos naquele domingo 13 de agosto de 2017 sem luz. Um curto circuito no número 59A da Rua dos Remédios havia posto abaixo a energia elétrica em parte da rua e não só os moradores do prédio, mas também os vizinhos, congestionaram a linha da companhia de luz apelando pelos devidos reparos.

Acompanhava a falta de energia um forte cheiro a gás. Um intenso odor escalava pelas escadas do térreo em direção ao último andar, impregnando paredes, lençóis, a roupa do corpo, a pele. Um sinistro perfume que marcou a minha memória.

Desde aquele 13 de agosto, o ínfimo indício de odor a gás aciona de imediato um alerta vermelho no meu cérebro. Noutro dia, vi-me a farejar como um perdigueiro cada centímetro da casa onde moro em Alvalade, até detetar que o cheiro a gás emanava dos brócolos estragados numa marmita esquecida no frigorífico.

O relatório disse que o curto-circuito havia danificado o tubo de gás, dando início à fuga. Para os funcionários da companhia de luz, não foi assim.

E não sou o único. Sofia, a minha vizinha, falou-me da vez que, atormentada por um insistente cheiro a gás, obrigou os funcionários de um piquete a passarem um pente-fino no atual prédio em que vive para descobrir, horas depois, que a fonte do odor adivinha do cocó de bebé num par de fraldas descartáveis no lixo indiferenciado.

Faltou aos técnicos da companhia de luz a mesma atenção e cuidado.

A peritagem identificou que o curto-circuito havia danificado também o tubo de gás, dando início à fuga. Para os funcionários da companhia de luz, não foi assim. Disseram que os cabos de eletricidade exalavam um cheiro parecido a gás quando queimavam e era esse o odor que sentíamos. Não havia com que se preocupar, portanto.

A explosão espalhou estilhaços do apartamento em Alfama, danificando os apartamentos vizinhos. Foto: Arquivo Pessoal

Conseguiram convencer até os bombeiros sapadores da Graça, convocados para darem o seu parecer. Foram recebidos na porta por Mathias, que na sua inocência de criança, viu uma semelhança com a Patrulha Pata. O primeiro deles, cravou: “É gás!”, mas foi demovido por um outro, sob o argumento dos técnicos da companhia de luz.

Fomos orientados a voltar para casa e assim o fizemos. Embebido pelo gás, cozinhei para a família, as labaredas do fogão um rastilho à espera de ser ateado. A campainha tocou. “Esse cheiro de gás está forte”, advertiu um atento estranho que passava pela rua. “Está tudo bem, obrigado”, disse, fiando-me nos técnicos da companhia de luz.

Após o almoço, fui o primeiro a sair, para um trabalho. O mais velho partiu em seguida, com a filha do músico Walter Areia, amigo fraterno e aniversariante daquele 13 de agosto. E saberíamos depois ter sido a festa de aniversário dele e não os técnicos da companhia de gás e luz ou os bombeiros que salvaram a nossa vida.

Líbia foi a última a sair, com Mathias no colo. Topou com um esbaforido funcionário da companhia de gás à porta, que finalmente resolvera dar o ar da sua graça. Revirava os paralelepípedos da via, a fim de detetar de onde partia a fuga. Mesmo assim, aconselhou a mãe a voltar com o filho para casa e fechar a janela para evitar o cheiro.

Ainda bem que Líbia nunca foi de ouvir conselhos.  

Preferiu antecipar a ida até a casa de Walter Areia, na Estrela, onde já estava Arthur. Juntei-me à família depois, para celebrar o aniversário do anfitrião. Foi lá, entre amigos, que soubemos pelas redes sociais que o nosso prédio ardia. E que a partir de então, assim como o aniversariante, também havíamos todos nascido num 13 de agosto.

Ainda à espera por justiça

Do alto da escada em ruínas, vislumbro o esqueleto da antiga casa. Mafalda e Sofia já não estão no imóvel. Restam apenas eu e Líbia, para as desconsoladoras fotos, emolduradas pelos despojos de um tempo feliz. Não fui o único, porém, a contabilizar perdas.

O escritor e jornalista da Mensagem, Álvaro Filho, fotografado através das ruínas onde antes estava o piso da casa onde vivia em Alfama. Foto: Líbia Florentino.

A vizinha Mafalda, por exemplo, havia convertido o quarto e último andar em alojamento local e agora, como não bastasse não contar mais com a receita, continua a pagar as prestações do imóvel que já não existe, além da renda do T2 onde atualmente vive. O apartamento de Mafalda, aliás, foi o epicentro da explosão.

A explosão fez voar o telhado e as janelas, arremessando os estilhaços sobre os prédios vizinhos.

Os peritos concluíram que o gás seguiu o inexorável sentido imposto pela física e gravitou até o último andar, armazenando-se no apartamento de Mafalda. Os inquilinos da vez – um casal de alemães – até estranharam o forte cheiro, mas foram encorajados a subirem pelo mesmo funcionário que coscuvilhava os paralelepípedos.  

Após um dia de turismo, ligaram o duche para um banho reparador e o esquentador cuidou de detonar a imensa granada. A explosão fez voar o telhado e as janelas, arremessando os estilhaços sobre os prédios vizinhos. Os alemães escaparam com vida, descendo pelas escadas em chamas, num cenário de cinema-catástrofe.

As escadas por onde os inquilinos alemães fugiram por entre as chamas do incêndio. Foto: Líbia Florentino

Sofia também lida com prejuízos duplos. Comprara um outro imóvel e contava com o dinheiro deste de Alfama para pagá-lo. Já havia encontrado um comprador, mas o contrato de pré-venda virou cinzas com o incêndio. Assim como a vizinha, agora paga duas prestações, referente ao novo apartamento e ao antigo, reduzido a ruínas.

As duas, assim como eu e os outros moradores, esperam pela indemnização das companhias de luz e de gás para minimizar as perdas, mas o processo iniciado em 2018, após as conclusões do relatório pericial, ainda não conheceu nem a audiência prévia. Há uma expetativa de que, cinco anos depois, isso finalmente aconteça.

O livro Alojamento Letal, inspirado pelo incidente.

Enquanto isso, a Câmara Municipal de Lisboa enviou aos moradores um aviso de cobrança de uma fatura de cerca de 250 mil euros, a conta pela demolição parcial do prédio e a reparação nos imóveis vizinhos. “A lei diz que os culpados devem arcar com esses custos, mas a Justiça ainda não determinou quem são os culpados”, pondera Sofia.

Sofia explica ainda que os moradores resolveram antecipar-se à decisão judicial e enviaram à Câmara um projeto para a reconstrução do imóvel. “Os seguros garantem os recursos para o início das obras, mas para terminá-la precisaremos da indemnização”, completa. O valor a ser indemnizado supera 1 milhão de euros.

Até que a Justiça se pronuncie, a cada 13 de agosto é dia de celebrar a sorte de estarmos vivos para contar uma história, à espera de um final feliz.  No meu caso, o ocorrido rendeu um outro romance, Alojamento Letal, uma ficção sobre um serial killer que mata os velhos moradores de Alfama para liberar os apartamentos para serem negociados.

Uma alegoria sobre como os jogos envolvendo a especulação imobiliária podem ser fatais.

Qualquer semelhança, não é mera coincidência.


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Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 49 anos, há seis em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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1 Comentário

  1. Precisamente nesse mesmo ano de 2017 também se deu uma derrocada de um muro de sustentação de um talude sobranceiro à rua Damasceno Monteiro. O custo da reposição do muro chegou a vários milhões de euros e não há notícia de que a CML tenha tentado recuperar algum desse dinheiro junto dos supostos responsáveis, um condomínio privado da Graça cuja piscina terá contribuído para as infiltrações que culminaram nessa derrocada.

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