O Adamastor é uma figura mítica da nossa história coletiva, o gigante disforme e terrível que, segundo canta Luís de Camões n’Os Lusíadas, provocava “naufrágios” e “perdições de toda a sorte” no Cabo das Tormentas, onde o “menor de todos os males era a morte”.
Mas para os nativos deste pequeno lugar à beira do mar plantado, parco em geografia e recursos, o Tormentório simboliza também, desde aí, a superação e a audácia dos nossos navegadores e das nossas gentes. Não é por acaso que, depois de ser transposto pelo navegador Bartolomeu Dias, o dito cabo foi prontamente renomeado “da Boa Esperança” pelo rei D. João II, já que permitiu a tão almejada ligação à Índia por mar – e que acabou a ser cumprida pelo ilustre Vasco da Gama.
Para mim, o Adamastor, além de ser ainda uma escultura no topo de um dos mais singulares e inspiradores terraços de Lisboa, que afronta o rio e o mar com um ar tenebroso e sobranceiro, representa um tempo especial na minha cronologia: o fim da adolescência e a entrada na idade adulta.

Nessa época, ainda sem qualquer café, quiosque ou hotel de luxo nas imediações, o gigante de pedra foi companhia de copos e noitadas, namoricos e deambulações noturnas para pensar nos porquês da vida ou ver as estrelas. Por isso, sempre que o revejo, faço-o com um sentimento misto de nostalgia e futuro.
No final da década de 80 e princípios da de 90 do século passado, em mais uma das minhas inúmeras migrações domiciliárias que começaram logo após o meu primeiro aniversário, assentei arraiais com a minha família de criação numa verdadeira casa de bonecas na antiga freguesia de Santa Catarina. Quando aí morei, creio que entre 1989 e 1995, a Travessa do Terreiro a Santa Catarina, onde residia, tinha pouco a ver com a Lisboa burguesa onde cresci.
Embora mais conhecido pelos seus sumptuosos palácios virados para o Tejo e acima dos telhados das ruas da Boavista e de São Paulo e com os pergaminhos de ter sido construído nos tempos da expansão marítima e da afirmação do império português, o “meu” bairro de Santa Catarina era mais do tipo popular. Very typical. Esses anos, que coincidiram com a minha entrada n’O Quelhas (ISEG), foram um pouco como viver embrenhado nas Marchas de Lisboa 365 dias por ano.
Para este jovem imberbe, este era um delirante mundo novo entre o hilariante, o inquietante, o castiço e o canalha. O bairro fervilhava. Era muito sangue na guelra e fumo e cheiro a grelhados.
A mercearia e a tasca ao virar da esquina, a loja de instrumentos onde comprei a minha primeira guitarra com os primeiros cobres de um biscate de Verão, a tipografia na rua por detrás da nossa, onde eram impressos alguns dos cartazes da agência de espetáculos onde trabalhei nesse período, homens em tronco nu a assar sardinhas ou febras na rua e mulheres que passavam o dia em roupão ou trajes menores na coscuvilhice, putos a brincar entre os carros mal estacionados e velhotas que passavam o dia à janela a perguntar as horas a quem passava, o marido que chegava bêbedo a casa e começava a distribuir gritos e pancada por toda a gente.
Enfim. O bom, o mau e alguns trapaceiros e vilões num microcosmos de duas ou três travessas. Todos os dias. O ano todo.
Há umas semanas, andarilhava eu pelo meu velho bairro e confirmei, uma vez mais, aquilo que vou vendo por essa urbe fora e lendo nos anúncios dos promotores de imóveis de luxo para reformados e nómadas digitais brasileiros, franceses, norte-americanos ou nórdicos: Lisboa está cada vez mais linda… e exclusiva. Mas parece também a perder a sua alma.

Num primeiro momento, senti-me radiante pela renovação em larga escala do bairro e da cidade. Lisboa está mesmo mais bonita e radiosa. Porém, logo a seguir, a ausência da habitual confusão e energia destes bairros (perceção quiçá enviesada pelo facto deste passeio ter acontecido a meio da manhã de um dia da semana) deixou-me num vazio inquietante.
De repente, senti-me no meio de um cenário pré-apocalíptico, em que os sismógrafos tinham disparado e a população tinha fugido. Mas não. Deve ter sido uma espécie de presságio psicanalítico para um drama bem mais negro e profundo: a elitização da nossa urbe e a expulsão dos lisboetas descendentes de celtas, fenícios, árabes, africanos e romanos.
Ora, quando até os vencedores das marchas tiveram de sair de Alfama para o Barreiro ou o Seixal, tornando-se em meros figurantes do seu bairro do coração, não estará na altura de rejeitarmos este progresso de faz-de-conta e, como os nossos egrégios avós, enfrentarmos o Adamastor da Habitação? Como cantaria o nosso poeta maior este nosso novo tormento?

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