
Quando é que o ato de nos sentarmos, em Lisboa, se tornou coisa rara? Num tempo em que o chão da cidade parece valer mais se for de passagem ou de consumo (nas esplanadas), parar para sentar é quase um luxo. Olhamos para a Rua Augusta e contamos mais de 1200 cadeiras de esplanada, mas nem um único banco público. Vemos paragens de autocarro onde o descanso foi substituído por “encostos” metálicos, como se o cansaço do corpo fosse algo a despachar. Sentimos a falta de cadeiras na Praça Paiva Couceiro e o vazio nos becos esquecidos entre Belém e Alcântara.
A Mensagem de Lisboa faz 5 anos – a Catarina Carvalho, diretora, mostra aqui como viveu o dia em que o nosso site foi oficialmente lançado. Desde 2021, temos pedido aos nossos leitores para se sentarem connosco: primeiro, em reuniões de vizinhos, depois em redações pop-up, para admirar um novo mural, para discutir livros sobre Lisboa, para falar sobre comida ou ver as nossas histórias ao vivo no Teatro São Luiz.
Neste aniversário, que celebraremos ao longo de todo o ano, escolhemos um tema: “O Amor na Cidade”. Não o amor romântico, mas aquele que nos torna empáticos, que nos aproxima (em vez de dividir mais). E levantamos uma pergunta: como é que a arquitetura e o urbanismo de Lisboa nos fazem gostar mais, ou menos, uns dos outros? Como é que a forma da cidade pode facilitar ou desafiar essa empatia? E o que é que os bancos em jardins e praças têm a ver com isso?

A 22 de fevereiro de 2026, dia em que fazemos estes exatos 5 anos, o nosso presente para Lisboa não é de papel nem digital: é de madeira, de memória e de partilha. Pomos um novo banco na cidade. Um gesto simbólico. Porque uma cidade que nos deixa sentar é uma cidade que nos deixa ouvir mais e gostar uns dos outros. E, assim, viver melhor nela.
Juntámo-nos ao Atelier Artéria, em São Domingos de Benfica, para um gesto simbólico: oferecer um lugar para sentar. Ali, num largo à face da Estrada de Benfica, junto ao número 255, onde o asfalto, às vezes até a calçada, são habitualmente território de carros. E onde até acontece coisa cada vez mais rara em Lisboa: sombra.




Este não é um banco qualquer. É um objeto comunitário: foi construído a partir de cadeiras oferecidas por vizinhos, entregues ao atelier para que as mãos dos artistas as transformassem numa unidade. O Artéria debruçou-se sobre estas peças, não para fazer design de catálogo, mas para pensar que banco fazia sentido ali, naquele pedaço de chão.
Também por isso, este é um banco 100% sustentável, feito a partir de materiais unicamente reciclados: além da madeira, a cortiça que serve de assento e a lona que o reveste.






Lembra-nos a crónica do Jorge Costa, que ao ver-se sem teto, olhou para um banco de jardim com uma “perspetiva diferente”: para ele, o banco era casa. Para o engraxador de Alvalade, o banco é o posto de trabalho. Para o vizinho que espera pelo autocarro, é o alívio. Para nós, este banco é um manifesto pelo direito à cidade.

Esta é uma instalação provisória. Mas a ideia que é plantada é definitiva: o espaço público deve ser um lugar onde nos possamos encontrar mais.
Neste dia, em São Domingos de Benfica, a Mensagem celebra 5 anos a olhar para as pessoas. E convida-vos a fazer o mesmo: sentem-se, descansem, aproveitem a sombra. A cidade, tal como este banco, é vossa.
O Atelier Artéria
Parece uma montra de artistas e das suas artes: o Atelier Artéria é a casa de vários artistas instalados numa antiga fábrica de pastelaria na Estrada de Benfica.
Em 2023, Tiago Jordão, 40 anos, procurava um estúdio para as suas instalações-vídeo, nas quais se especializou. Era um projeto individual, mas cresceu. Tiago decidiu limpar as ruínas do número 255 e transformar o espaço num ecossistema partilhado – aqui convivem a pintura, a escultura e a ilustração, enquanto salas mais reservadas guardam laboratórios de fotografia e estúdios audiovisuais.
Mas, nesta montra, é-se convidado a entrar: o Artéria é um organismo vivo e sem fins lucrativos dedicado à investigação e à partilha. Acolhe sessões de cinema, clubes do livro e workshops abertos.




Atualmente, estão a desenvolver um projeto de arte participativa para a antiga Escola Técnica da PIDE, em parceria com a Junta de Freguesia de São Domingos de Benfica: chamaram vizinhos de todas as idades e abriram uma votação pública para um projeto que grita contra o esquecimento coletivo no bairro.



Os artistas que fizeram parte desta iniciativa:
Tiago Jordão, Moelas (Maria João), Joana Pires, Carmela Campos, Susana Palha, Margarida Alves, Helena Elias, Joana Teixeira, Jarek Mankiewicz, Max Provenzano e Begoña Cattoni.

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