
Um banco de jardim, um banco numa praça, ou numa rua, pode ser um ato de amor? Pode, um ato de amor à cidade. Vamos mostrar-lhe como.
Neste aniversário da Mensagem de Lisboa, 5 anos, em que celebraremos O Amor na Cidade, começámos por fazer uma pergunta: como é que a arquitetura e o urbanismo nos fazem gostar mais, ou menos, uns dos outros? Como é que a forma da cidade pode facilitar ou desafiar essa empatia?
E foi assim chegámos à ideia de um banco. E se fizessemos um banco novo na cidade que tem tanta falta deles em tantos lugares? Não queríamos fazer um banco normal (embora conheçamos a ideia espalhada pelas cidades do mundo de apadrinhar bancos). E assim foi. Desafiámos o Atlelier Artéria e a 22 de fevereiro de 2026, dia em que fazemos estes exatos 5 anos, pusemos, em Lisboa, um novo banco.
Um gesto simbólico, numa praça da Freguesia de São Domingos de Benfica, o Largo Manuel Emídio da Silva, junto às lindíssimas portas laterais do Jardim Zoológico, e ao Atelier Artéria. Neste largo à face da Estrada de Benfica, junto ao número 255, onde o asfalto, às vezes até a calçada, são habitualmente território de carros, e não há bancos, pusemos o “nosso” banco.

Um banco especial para um gesto simbólico. Um banco feito a partir de cadeiras todas diferentes e oferecidas pelos vizinhos. Um banco que é em si um projeto da comunidade, e a prova linda de que, em conjunto, e com muito pouco, se pode mudar um largo, uma rua, uma cidade.
Este é um banco 100% sustentável, feito a partir de materiais reciclados: além das cadeiras, e da madeira, a cortiça que serve de assento e a lona que o reveste. Um banco que é toda uma ideia, a de que bastam umas cadeiras para fazer um lugar que nos une, nos dá espaço (e tempo) para conversar, contemplar, amar uma cidade.
E que o jornalismo, quando se atreve a sair das suas fronteiras, pode mais, muito mais. Neste caso, esta ideia de jornalistas (mais precisamente da Catarina Reis, a editora da Mensagem), ajudada por vizinhos com as suas cadeiras desirmanadas, foi conretizada com a imaginação dos artistas do Atelier Artéria: Tiago Jordão, Moelas (Maria João), Joana Pires, Carmela Campos, Susana Palha, Margarida Alves, Helena Elias, Joana Teixeira, Jarek Mankiewicz, Max Provenzano e Begoña Cattoni.
O Artéria debruçou-se sobre as peças, não para fazer design de catálogo, mas para pensar que banco fazia sentido ali, naquele pedaço de chão. Um banco de madeira, de memória, de conjunto e de partilha. Porque uma cidade que nos deixa sentar é uma cidade que nos deixa ouvir mais e gostar uns dos outros. E, assim, viver melhor nela.
É isso o amor à cidade que queremos comemorar. O amor que nos torna empáticos, que nos aproxima (em vez de dividir).

O Atelier acabou de montar o banco num domingo de sol depois de dias de chuva. Primeiro, sentou-se nele a equipa da Mensagem, numa espécie de teste. Depois, o banco ficou ali, em frente ao atelier, para que os vizinhos se sentassem. Mas não vai ficar por aqui. Em breve, daremos conta das reações e do que se vai passar neste banco, como um lugar para amar melhor a cidade.
Estejam atentos!







Onde faltam bancos em Lisboa? Onde gostava de se sentar que não consegue? Envie-nos a sua sugestão aqui em baixo:
Este gesto tem especial importância num tempo em que o chão da cidade parece valer mais se for de passagem ou de consumo (nas esplanadas), quando parar para sentar é quase um luxo. Olhamos para a Rua Augusta e contamos mais de 1200 cadeiras de esplanada, mas nem um único banco público. Vemos paragens de autocarro onde o descanso foi substituído por “encostos” metálicos, como se o cansaço do corpo fosse algo a despachar. Sentimos a falta de cadeiras na Praça Paiva Couceiro e o vazio nos becos esquecidos entre Belém e Alcântara.
Lembra-nos a crónica do Jorge Costa, que ao ver-se sem teto, olhou para um banco de jardim com uma “perspetiva diferente”: para ele, o banco era casa. Para o engraxador de Alvalade, o banco é o posto de trabalho. Para o vizinho que espera pelo autocarro, é o alívio. Para nós, este banco é um manifesto pelo direito à cidade.

Desde 2021, temos pedido aos nossos leitores para se sentarem connosco: primeiro, em reuniões de vizinhos, depois em redações pop-up, para admirar um novo mural, para discutir livros sobre Lisboa, para falar sobre comida ou ver as nossas histórias ao vivo no Teatro São Luiz.
Agora, convidamo-vos a sentarem-se no nosso banco. Em breve, este banco vai ajudar a comemorar os 5 anos da Mensagem da forma como mais gostamos: a olhar para as pessoas. E convidando-vos a sentar, descansar, aproveitar a sombra.
O Atelier Artéria
Parece uma montra de artistas e das suas artes: o Atelier Artéria é a casa de vários artistas instalados numa antiga fábrica de pastelaria na Estrada de Benfica. Em 2023, Tiago Jordão, 40 anos, procurava um estúdio para as suas instalações-vídeo, nas quais se especializou. Era um projeto individual, mas cresceu. Tiago decidiu limpar as ruínas do número 255 e transformar o espaço num ecossistema partilhado – aqui convivem a pintura, a escultura e a ilustração, enquanto salas mais reservadas guardam laboratórios de fotografia e estúdios audiovisuais.


Mas, nesta montra, é-se convidado a entrar: o Artéria é um organismo vivo e sem fins lucrativos dedicado à investigação e à partilha. Acolhe sessões de cinema, clubes do livro e workshops abertos.
Atualmente, estão a desenvolver um projeto de arte participativa para a antiga Escola Técnica da PIDE, em parceria com a Junta de Freguesia de São Domingos de Benfica: chamaram vizinhos de todas as idades e abriram uma votação pública para um projeto que grita contra o esquecimento coletivo no bairro. O Artéria foi nosso parceiro no Banco da Mensagem para a cidade. A eles um agradecimento público, e um desejo de novas aventuras em comum.

O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz une comunidades,
conta histórias que ninguém conta e muda vidas.
Dantes pagava-se com publicidade,
mas isso agora é terreno das grandes plataformas.
Se gosta do que fazemos e acha que é importante,
se quer fazer parte desta comunidade cada vez maior,
apoie-nos com a sua contribuição:
