No sentido ascendente da Avenida Fontes Pereira de Melo, duas das novas paragens de autocarro deixaram de ter banco para quem espera pelo autocarro. No seu lugar, está um “encosto”. A opção, que tem vindo a aparecer em alguns dos novos abrigos de transporte público da cidade, veio substituir em algumas paragens de autocarro da cidade os bancos que existiam. Por aqui passam centenas de pessoas todos os dias e algumas aguardam mais de 20 minutos de pé até que o autocarro chegue. Muitas – quase todas – procuram por um banco e não o encontram.
Na última quarta-feira, algo mudou: um grupo de lisboetas decidiu instalar um banco de madeira e, num único dia, ofereceu descanso a dezenas de pessoas.
Antes da instalação das novas paragens de autocarro, o modelo de abrigo oferecia lugar para sentar. Com a substituição do mobiliário urbano em curso desde 2023, com a JCDecaux, e que resulta do novo contrato de exploração da publicidade no espaço público de Lisboa para os próximos 15 anos, deu-se início à substituição dos anteriores abrigos por novos equipamentos.
Com esta operação, alguns dos bancos passaram a encostos, como acontece em duas das novas paragens de autocarro da Avenida Fontes Pereira de Melo, junto ao Marquês de Pombal. A mudança levou à ação de dois lisboetas que integram o grupo Infraestrutura Pública, que reúne lisboetas pelo direito ao usufruto do espaço público.




Marta Sternberg, lisboeta de 27 anos, é membro do grupo informal Infraestrutura Pública, responsável pela ação direta. Com outro membro do grupo, fez medições no local e desenhou um banco que hoje encaixa na perfeição na estrutura do apoio existente. Com a ajuda de um marceneiro, e recorrendo a sobras de madeira, o assento foi construído e, pelas sete e meia da manhã desta quarta-feira, instalado na paragem de autocarro.
Durante todo o dia, a utilização foi constante e ouviam-se as reações. Perante o novo banco, houve quem pensasse que o encosto existente não passava de um “erro de engenharia”, agora corrigido, relata Marta, que ali esteve até ao início da noite, observando e documentando a utilização do recém instalado banco. Entre manifestações de surpresa e satisfação, houve também quem pensasse que o novo banco marcava o final do processo de instalação do abrigo, pensando que o encosto seria, afinal, o apoio lombar de quem finalmente podia sentar-se à espera. Mas, sobretudo, a reação foi de regozijo pela instalação do banco artesanal, facto que foi sendo gravado em vídeo.
A surpresa de Marta foi a quantidade de pessoas que ali chegava a precisar, de facto, de lugar para sentar – ao longo do dia, pessoas munidas de bengala ou de muletas chegavam às dezenas e encontravam ali o necessário ponto de descanso durante o trajeto.
“Das pessoas que observei aqui nesta manhã, trinta tinham bengala ou muleta. Isto é para as pessoas com mais dificuldades, para a pessoa que está a correr a ir para o médico, para a pessoa que não aguenta mais cinco minutos [de pé]”.
“Já estás demasiadas horas em pé, exausta do trabalho, e tiram-te o direito a sentar enquanto esperas pelo autocarro, só dificulta ainda mais a tua vida”, segue Marta. “Queria estar a lutar em 2024 por bancos maiores. Infelizmente, estamos a lutar por bancos em que cabem duas pessoas. É trágico. Acho que podemos considerar que [isto] é arquitetura hostil. Se não é arquitetura hostil, é pelo menos não pensarem no dia-a-dia das pessoas.”
Atrás de um dos novos abrigos sem banco, uma mulher aproveitava o curto recorte de uma janela de um edifício de escritórios para poder sentar-se enquanto espera pelo autocarro.
“O banco é aquela coisa mínima, básica“
No Manual de Espaço Público da Câmara Municipal de Lisboa – documento que define especificações técnicas para o desenho do espaço público da cidade – a orientação é clara: “O abrigo deve estar equipado, pelo menos, com assento e este deve ter inclinação 0%”.
Apesar das regras definidas pelo próprio município, o caderno de encargos elaborado pela Câmara Municipal de Lisboa em 2017, que define as orientações técnicas para as novas paragens de autocarro, refere três versões alternativas para os abrigos: “preferencialmente com banco”, mas também sem banco ou “com apoio (mas permanecendo de pé)” – esta última versão é a existente nestes abrigos da Avenida Fontes Pereira de Melo.
Segundo o caderno de encargos elaborado pelo Departamento de Estruturas de Proximidade e Espaço Público da CML, o abrigo só não deverá ter banco quando o município considerar “que o local não é adequado” – como seria em casos em que a sua colocação originasse conflito com a circulação pedonal, facto que aqui não se verifica, já que a envolvente destes abrigos em particular resulta da requalificação recente da avenida e é até ilustrada pelo Manual de Espaço Público como bom exemplo de desenho urbano.

Noutros casos, quando o problema é a falta de espaço no canal pedonal, “então por que é que não se aumenta a calçada?”, questiona Marta. “Não pode simplesmente tirar-se o direito de sentar só porque não consegue aumentar-se o passeio em cinco centímetros para ficar com a largura legal.”
Marta Sternberg ficou expectante quando, no ano passado, começou a observar a substituição dos abrigos antigos pelo novo modelo. “As obras estavam a acontecer e queríamos perceber o que ia acontecer”. Tinha a expectativa de encontrar melhorias na proteção contra os elementos e esperava bancos maiores, “para toda a gente sentar-se. Acho que o banco é mesmo aquela coisa mínima, básica. Visto que era uma obra tão grande, que houvesse melhorias”. Mas, numa altura em que “devíamos estar a lutar por bancos melhores”, não foi isso que viu.





“Quando começámos a ver o design final, percebemos que não melhoraram assim tanto. Para a obra que foi, para o tempo investido e para o que podia ter sido investido, a parte infraestrutural devia ter sido melhorada. Não está nada melhor. Percebemos que de um banco estávamos a passar para isto em vários sítios”, afirma.
Foi aqui que os fundadores do grupo decidiram lançar um apelo na página de Instagram que gerem e perceberam que várias pessoas queixavam-se do mesmo – pela cidade, havia mais bancos a ser substituídos por encostos.
Com recurso às imagens de rua capturadas pela ferramenta Google Street View, documentaram a situação anterior e a atual. Ao longo dos últimos anos, este abrigo contou com lugares sentados e, nas imagens, é visível a constante utilização dos mesmos. Até que, na atualização de 2024 e com a instalação dos novos abrigos com encostos, por coincidência, ou não, ninguém os está a utilizar no momento de captura da imagem.


Marta encontrou outros exemplos a partir desta ferramenta e dos relatos que recebeu: na Estrada da Luz, na Rua dos Sapadores ou na Rua de São Paulo. E, porque ao contrário da questão da falta de iluminação, noticiada pela Mensagem este ano e agora com solução, a substituição de assentos por encostos não estava a ser alvo de atenção. Foi este o gatilho para a ação.
Uma ideia, a ajuda de um marceneiro e um banco para quem espera pelo autocarro
“Fomos com fita métrica perceber a altura do banco antigo que lá estava. Com medições no local e um desenho feito, avançaram. Usaram sobras de madeira e contaram com a ajuda de um marceneiro conhecido. Assim se construiu o banco de madeira. Não custou dinheiro, mas tempo e dedicação”, conta Marta.
“O que queríamos mesmo era pôr um banco destes em cada uma das paragens [com encosto]. Infelizmente, trabalhamos e não temos tempo nem dinheiro para fazer dezenas de bancos”, disse Marta.




A intervenção de urbanismo de guerrilha que desencadearam com a instalação do banco de madeira pretende “fazer disto assunto”, levando a Câmara Municipal de Lisboa a “trocar os encostos por bancos” nos novos abrigos em que estes foram removidos. O banco que colocaram na manhã desta quarta-feira por lá ficará.
“Acho que nenhum cidadão vai tirar isto. Tem as medidas exatas para solucionar o problema destas paragens. As pessoas hoje podem sentar-se outra vez e estão mesmo satisfeitas com isso. Hoje, puderam esperar o autocarro com condições.”
Atualização
Em reação ao texto publicado pela Mensagem, a JCDecaux, empresa responsável pela instalação e colocação dos abrigos de transporte público de Lisboa reagiu a este artigo, a 28 de novembro, afirmando que a instalação de encostos em detrimento de bancos, “resulta de critérios definidos pela CML no âmbito do contrato de concessão, assegurando o cumprimento rigoroso das normas legais e de acessibilidade em vigor”.
A empresa refere ainda que “todos os equipamentos da JCDecaux – abrigos de passageiros nas paragens de autocarro, mupis, entre outros – cumprem estritamente a legislação em vigor no âmbito da acessibilidade, em conformidade com o Decreto-Lei nº163/2006”.
De acordo com a multinacional francesa de publicidade exterior, “do total de 1635 abrigos já instalados na cidade de Lisboa, apenas 2% possui este tipo de apoio”. Recorde-se que no âmbito do novo contrato de publicidade exterior, está em curso a instalação de dois mil novos abrigos de transporte público, um acréscimo face aos cerca de 1800 existentes na cidade até 2022, altura da entrada em vigor do contrato.
De acordo com a lei que aprova o regime da acessibilidade, em vias principais, como é a Avenida Fontes Pereira de Melo, deve ser assegurada uma largura livre mínima de passeio de 1,5 metros. Contudo, a legislação em vigor aponta para a possibilidade de exceções, prevendo larguras livres mínimas de 80 centímetros ou 90 centímetros, sempre que estas não ultrapassem, respetivamente, 60 centímetros e 1,5 metros de comprimento.
Dois meses depois, a vitória: os bancos voltaram de vez
Na manhã de 23 de janeiro de 2025, o coletivo Infraestrutura Pública voltou aos dois abrigos sem assento na Avenida Fontes Pereira de Melo e trouxe cadeiras.
Desta vez, a ação durou apenas três horas, quando trabalhadores da JCDecaux chegaram numa carrinha de manutenção da empresa e procederam à remoção das cadeiras ali colocadas pela ação cívica do coletivo.
Nessa mesma noite, a empresa responsável pela manutenção dos abrigos de transporte público de Lisboa voltou ao local para substituir, finalmente, os encostos por assentos. O coletivo congratulou-se com o sucesso da sua ação e voltou ao local para festejar com os utilizadores de transporte público ali presentes, num momento que foi fotografado pelos membros do mesmo.
O regresso dos assentos a estas duas paragens de autocarro aconteceu no mesmo dia da mais recente ação do grupo de lisboetas que reclama pelo direito a sentar na cidade. Horas antes, Marta Sternberg, membro do grupo Infraestrutura Pública, afirmava à Mensagem que o coletivo se mantinha empenhado nesta luta: “Vamos continuar a aparecer até que nos devolvam o que sempre ali tivemos – um banco para esperar sentados pelo autocarro”.




Cronologia da ação
1.
20 de novembro 2024
Grupo Infraestrutura Pública desenha, constrói e instala um banco que encaixa nos novos abrigos de Lisboa que não têm assento. Nessa noite, o banco é retirado.
2.
24 de janeiro 2025
Grupo volta a protagonizar nova ação de luta e coloca cadeiras junto dos abrigos da Avenida Fontes Pereira de Melo. Três horas depois, surgem trabalhadores da JCDecaux que removem e levam as cadeiras instaladas.
3.
25 de janeiro 2025
Quando amanhece, os abrigos têm assentos. Os bancos foram instalados durante a noite pela JCDecaux.
Agora, o grupo quer mais: que os bancos cheguem às restantes paragens com encosto.
Infraestrutura Pública: o grupo que reivindica espaço público para estar
Marta Sternberg é uma de dois criadores da página Infraestrutura Pública. O banco de madeira instalado nesta paragem de autocarro não é a primeira ação de rua do grupo informal. Ao longo de mais de um ano, ganhou centenas de seguidores e dezenas de pessoas participaram nas ações promovidas no espaço público de Lisboa. O grupo reivindica “casas de banho públicas, bancos públicos e água pública”, contra “fontanários e bebedouros estragados, casas de banho públicas pagas, com horários limitados ou fechadas e “bancos públicos que desaparecem”.
Em setembro do ano passado, promoveram uma ação contra o desaparecimento de 32 cadeiras da Praça Paiva Couceiro, na Penha de França. Juntaram-se ao protesto dezenas de lisboetas, trazendo cadeiras para aquele espaço e reclamando pelo direito a sentar na cidade.
Já no início deste ano, criaram “a primeira WC construída pelos cidadãos de Lisboa”, reivindicando casas de banho não associadas a espaços de consumo, abertas e gratuitas no espaço público. Com recurso a paredes feitas de cartão e produtos de higiene, percorreram várias praças e espaços públicos da cidade, oferecendo casa de banho a quem dela precisasse. “Tivemos imensos amigos a ajudar. Com as casas de banho, éramos dez a carregar sanitas, papel higiénico, detergente e luvas.”
*Nota de edição 16h55
Ao final da tarde desta quinta-feira, a Mensagem recebeu registo fotográfico de membro do grupo Infraestrutura Pública a dar conta da remoção do banco, um dia após a sua colocação, não sendo conhecida até ao momento a razão para tal. A fotografia abaixo foi captada esta tarde.

*Nota de edição 29 de novembro, 12h45
Acrescentada reação da JCDecaux, concessionária responsável pela instalação e manutenção dos abrigos de transporte público da cidade.
*Nota de edição 27 de janeiro de 2025, 15h45
Acrescentada nota da substituição dos encostos por assentos, após nova ação do coletivo Infraestrutura Pública.

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Mas quem é que tirou o banco?
A câmara municipal de Lisboa, devia estar orgulhosa pelo trabalho feito pelos cidadãos, já que a câmara não faz
Fico muito feliz ao saber que existem pessoas, que se preocupam com o bem estar de outras pessoas. Em gestos tão simples, e ao mesmo tempo tão delicados. Bem hajam, e continuem a dar o vosso melhor, por todos nós.
Não se trata só de arquitectura agressiva mas sobretudo também da desumanização da sociedade em que se vive manietada por pessoas que gerem a cidade ignorando as pessoas que nela vivem e que não usufruem das suas mordomias,apenas as suportam!
Já fizeram mais do que todo o governo do PS e do PSD
É óbvio que a retirada dos bancos e substituição por enconto é urbanismo hostil. Acontece em todos os locais da cidade onde se verifica o aparcimento de pessoas sem abrigo, para que não usem os bancos para se deitarem. É vergonhoso que isto aconteça… Em lugar do apoio que deveria ser dado para ultrapassarem a sua situação é lhes simplemente barrado o direito ao menos poderem ter onde dormitar. Entretanto isto é feito ainda por cima com prejuízo dos utentes dos transportes. Além disso o concurso previa também a instalação de sanitários que ainda não foi feita e pergunto-me se será?
Há largos meses que observo a substituição de abrigos de paragens que estavam em excelente estado por abrigos mínimos, com fundações enormes como se fosse ali aparecer um prédio, e qual não é a nossa surpresa quando vemos que não colocam bancos! Tenho visto muitas pessoas sentadas em escadas, em parapeitos, é inadmissível, a qualidade de vida dos lisboetas a diminuir, e um retrocesso para a mobilidade sustentável urbana! Parabéns aos cidadãos que decidiram alertar e intervir!
É lamentável que as entidades publicas não se preocupem com os cidadãos.
E de louvar esta acção.
Obrigado
Guerrilha. Adorei esta iniciativa, já me tinha apercebido desta substituição mas onde a vi foi em dois locais onde o espaço é reduzido. Não percebi se os contratos foram mal feitos, se alguns dos intervenientes pretende poupar, ou se é mesmo desprezo. Aguardemos pela resposta, se a mesma for de ignorar podemos sempre “reclamar” não nas paragens nem no equipamento que existe, mas na zona de publicidade. Ferir onde doí mais.
Não percebi se os contratos foram mal feitos, se alguns dos intervenientes pretende poupar, ou se é mesmo desprezo. Aguardemos pela resposta, se a mesma for de ignorar podemos sempre “reclamar” não nas paragens nem no equipamento que existe, mas na zona de publicidade. Ferir onde doí mais.
È uma vergonha a falta de humanidade que existe num País que se diz dizer do 1 mundo
Viajo pela Ásia há 5 anos e tenho visto e usado casas de banho junto às paragens de camionetas, de viaturas junto à jardins. Todas com pessoal de limpeza. Algumas têm que ser pagas. Outras são gratuitas. O pais com melhor cobertura em casas de banho é o Japão. O presidente da CM Lisboa devia fazer umas dezenas de WC, Nas zonas turisticas e nas zonas populares
Arquitectura hostil e lucro incessante à custa dos cidadãos. Juntam-se as 2 coisas e temos esse escárnio à sociedade. Parabéns pela iniciativa e luta para o retorno dos bancos às paragens.
É triste porque as obras que são feitas nunca é para melhorar ,mas para alguém meter dinheiro ao bolso 😪😪
Os abrigos instalados pela Decaux não protegem nem da chuva, nem do sol: são demasiado altos! Lamentável!
Estou em viagem por algumas cidades da Alemanha. Li o artigo e como moro em Lisboa, e ando muito indignada com a falta de respeito para com os lisboetas e utentes que a Câmara de Lisboa está cada vez mais a demonstrar, reparei q aqui é tb a JCDecaux q tem as paragens a seu “cargo”. As paragens têm boas coberturas, têm cerca de 4m e bancos.
Porque somos tratados em desigualdade de outros cidadãos do espaço europeu?