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Nada acontece em São Domingos de Benfica, dizia um e-mail que a Mensagem recebeu em setembro do ano passado. Parecia verdade: pouca gente se via num dia normal na Estrada de Benfica. Muitas casas à venda, cafés e restaurantes vazios, outros fechados. O mercado de São Domingos era o exemplo mais flagrante: bancas e bancas deixadas ao abandono. De facto, nada parecia acontecer ali naquele bairro …

Mas as aparências iludem e é preciso olhar mais de perto, passar mais tempo, algo que o jornalismo faz pouco. Curiosamente, começaram por ser os mais velhos a contrariar aquilo que parecia uma evidência: para os seniores da Academia São Domingos, a freguesia deles é dinâmica. O problema? O envelhecimento da população, diziam.

Esta ideia, também muito presente pelas ruas, acabou por ser desafiada, desta vez por uma antropóloga, Cristina Santinho: no bairro onde mora, surge cada vez mais gente nova, e até mesmo de diferentes culturas, países, etnias.

Os dados confirmam: São Domingos de Benfica estava a crescer. E onde dantes se pensava não haver nada, de repente havia um pouco de tudo: associações de moradores que lutavam pelos seus direitos e dinamizavam atividades, iniciativas culturais em espaços reabilitados e – aquilo que parece ser transversal – uma boa convivência entre os mais novos e os mais velhos.

São Domingos de Benfica é uma freguesia calma, maioritariamente residencial, bem diferente da baixa lisboeta apressada, e por muitos escolhida por isso mesmo. E é também uma freguesia onde o sentido de comunidade, tantas vezes esquecido, faz parte do quotidiano.

Esta é a sua história.

Carlos Cardoso nasceu ali mesmo, nas extintas casas de madeira pré-fabricadas do bairro das Furnas, construído nos anos 1940, em pleno Estado Novo. Com três anos, Pedro Cortesão Monteiro olhava pela janela de casa e via quintas, não prédios. Nesse tempo, só ia ao bairro São João, onde agora vive, se precisasse muito de cromos para a caderneta. São Domingos de Benfica parecia-lhe uma freguesia gigante. E é. Grande e diversa. E misturada, talvez mais do que muitas outras em Lisboa.

Os anos passaram. As casas onde muitas crianças como Carlos nasceram no bairro das Furnas foram abaixo com um processo de realojamento assinado pelo Presidente da Câmara Nuno Abecassis em 1986 – e aqui com comparticipação da Gulbenkian. Entretanto, as quintas que Pedro via da janela tornaram-se prédios. São Domingos transformou-se.

O bairro como ele era e como ficou. Fotos: Arquivo Municipal e Orlando Almeida

Uns quantos anos mais tarde, Pedro vivia com entusiasmo o Euro 2004, quando aquele pedaço de Lisboa se encheu de gente vinda de todos os cantos do mundo. “Uma pessoa acordava de manhã e via o bairro cheio”. O turismo ainda não tinha chegado à cidade, mas o futebol trouxe gente de todos os cantos até onde havia um estádio, e ver o seu bairro numa azáfama foi motivo de surpresa. “De repente, percebemos como as pessoas podiam ocupar a cidade”.

Lisboa continuou em mudança e São Domingos de Benfica também. Uma freguesia com cerca de 34 mil habitantes e 60 anos, comemorados há pouco. Entre Benfica, Alvalade e Carnide. Sempre habitacional e calma, e por tantos escolhida por isso mesmo. Mas uma freguesia que, tal como todas as outras, enfrenta desafios.

Freguesia de São Domingos de Benfica. Foto: Junta de Freguesia de São Domingos de Benfica

De manhã, na sede da Associação de Moradores do Bairro das Furnas, velhos amigos reúnem-se para tomar o pequeno-almoço. Alguns viram o bairro a ser construído e ainda ali permanecem, tantos anos depois. Há bem pouco tempo, o último dos jogadores do conhecido Clube Recreativo dos Leões das Furnas, que marcou a vivência do bairro, ainda por aqui andava.

Do passado, recordam as festas dos santos populares que atraíam toda a Lisboa ao antigo Largo da Praça, onde se celebrava com sardinhas e caldo verde. Esse convívio ainda se mantém, diz Carlos Cardoso, Presidente da Associação, mas não entre todos. “As pessoas novas do bairro não têm esse sentimento de pertença. Trabalham fora e apenas vêm para aqui para dormir”, diz.

Os jovens não concordam. Acham que o espírito de bairro se mantém. Filipe, 23 anos, que sempre morou no bairro, argumenta que “as pessoas daqui são muito cochicheiras.” Mas diz que isso também permite que haja alguma entreajuda entre novos e velhos.

Mudanças e gentrificção

A freguesia é grande e alberga vários bairros. Mas há coisas que se estendem a todos. Como a mudança. No bairro de São João, entre a 2ª Circular, as Torres de Lisboa e a Estrada da Luz, Cristina Santinho faz fotografias mentais do que observa da janela de sua casa, que dá para um parque infantil, ou não fosse ela antropóloga.

Há quem se mantenha ali desde o início, há quem venha para começar família ou dar um novo rumo à sua vida. E há uma diferença fundamental: “Mais diversidade.” Crianças de várias etnias, mães de culturas diferentes, línguas que se cruzam.

Pedro Cortesão Monteiro, professor de design, confirma: do seu atelier, começa também a ouvir outras línguas que não o português, algo a que não estava habituado. O café da sua mulher Teresa, A Luz Ideal, é um ponto de encontro dos vizinhos do bairro São João – um oásis de planeamento de 1953. Teresa Campos de Carvalho é conhecida pelos seus bolos, o crumble de pera e o bolo de requeijão, e até há turistas que vêm provar estas receitas.

A abertura do A Luz Ideal fez com que Pedro e Teresa tomassem consciência de uma vida de bairro diferente. “As pessoas não passeiam aqui como na estrada de Benfica”, diz Pedro. “Aqui não há comércio, há muitos espaços vazios. Quando abrimos o café, as pessoas começaram a aparecer”.

Espírito de bairro ou de bairros?

Para o casal Miguel Pinhão e Rui Pedro, foi assim. Isso e a cadela Ivi, que levam todos os dias a passear (muitas vezes no parque Bensaúde), levaram-nos a confraternizar mais com os vizinhos. “Não conhecíamos um décimo das coisas aqui no bairro antes da Ivi”, conta Rui. “Agora falamos das tricas e acaba por ser um bocadinho o bairro típico. A maioria das pessoas não cresceu aqui, mas cria-se um espírito de vizinhança”.

O bairro ajuda a isso com as suas fileiras de prédios em frente uns aos outros, e jardins pelo meio. Jeffrey, um americano que se instalou recentemente no bairro São João, está de acordo: aqui, numa freguesia de uma Lisboa cosmopolita, há sentido de comunidade. “Aqui todos se ajudam, ninguém é anónimo”, afirma Cristina.

O Frei Filipe Rodrigues repara na diversidade de pessoas que aparecem nas suas missas, no Convento de São Domingos. Foto: Orlando Almeida

Frei Filipe Rodrigues, que vive no Convento de São Domingos, no Alto dos Moinhos, fala disso mesmo: “Aqui, há casais novos. Nas zonas mais antigas, há algum envelhecimento, mas há um processo de substituição que é notório”. Nas suas missas, o Frei encontra de tudo: jovens, adultos, crianças…

Há quem acredite que esta união pode ir ainda mais longe, como é o caso do arquiteto paisagista Rui Sá Correia. Para este morador de São Domingos, haveria ainda mais convívio entre todos se se olhasse mais… para as ruas. “Só há pouco tempo é que se tem prestado mais atenção à necessidade de percorrer a cidade”, diz.

Dá o exemplo: a Estrada de Benfica, uma das vias mais importante da freguesia apresenta uma série de obstáculos: os passeios são reduzidos e há muitos carros estacionados. Tornar o estacionamento em espaço pedonal seria uma oportunidade para o convívio e o comércio, defende.

Sangue novo em São Domingos de Benfica

Mesmo assim, a Estrada de Benfica sobrevive, com os passos de velhos e novos. Entre os espaços já quase históricos, que congregam várias gerações, vindas de todas as bandas de São Domingos, está a Casa da Selva, no nº 373. Esta loja de café, chás, chocolates e frutos secos funciona desde 1967 – apesar de já existir desde 1957, noutro quarteirão, com o nome Pérola da Selva – e brilha com latinhas coloridas, cafeteiras antigas e grãos das arábias.

É Sandra Silva quem anda por detrás do balcão desta loja. Herdou o ofício do pai Manuel, o dono da casa. Pai e filha, duas gerações num só espaço. E há cada vez mais jovens a aparecer e até mesmo estrangeiros, muitos estudantes de Erasmus, uma tendência que é assinalada por Nuno Marques da Costa, professor e investigador do Instituto de Geografia e Ordenamento do Território (IGOT) da Universidade de Lisboa: “Em São Domingos de Benfica, há uma grande facilidade de deslocação e os estudantes e até mesmo os turistas começam a aceitar distanciar-se do centro da cidade”.

É um fenómeno interessante aquele que se verifica aqui: o convívio entre mais novos e mais velhos. A população de São Domingos está a crescer, como mostram os dados: se em 2011 a população era de 33 043, em 2021 é de 34 060, verificando-se um aumento dos agregados familiares (de 15 002 para 15 884).

Nuno Marques da Costa explica o que se passa: “Tem muito que ver com algum dinamismo que esta freguesia tem em termos residenciais. São Domingos de Benfica é atrativa em termos dos equipamentos, das acessibilidades e, de alguma forma, do valor por metro quadrado”.

Esta “mistura geracional” deve-se também a um processo que já vem bem detrás, da década de 50 do século passado, conforme explica o professor e investigador: “A freguesia de Alvalade, por exemplo, foi construída instantaneamente quase de uma só vez e foi ocupada por um grupo etário”. Agora, em Alvalade, a população passa pelos mesmos estádios de vida ao mesmo tempo.

Isto não aconteceu em São Domingos de Benfica. A freguesia foi-se construindo das quintas e dos bairros de madeira que Pedro e Carlos lembram da sua infância até aos dias de hoje. “Aqui há novos empreendimentos, edifícios camarários, edifícios dos anos 1980. Uma mistura muito mais clara daquilo que é a cidade de Lisboa”, especifica o geógrafo.

Para Isabel Mendes, há quem fique “prisioneiro em casa até à morte” devido à falta de elevadores. Foto: Orlando Almeida

Esta realidade multigeracional acarreta, claro, desafios. E as associações de moradores e a Junta de Freguesia dizem que têm procurado enfrentá-los. “Preocupamo-nos sempre com a parte institucional, mas também com a parte social e lúdica, que é muito importante para os mais novos e os mais velhos”, diz Teresa Carvalho, Presidente da Assembleia-Geral da Associação de Moradores do Bairro das Furnas.

Há uma luta que já está a ser travada há 30 anos: a dos elevadores. Os prédios não os têm de raiz, e as escadas que há uns anos não assustavam pernas jovens impedem, no envelhecimento, que se desloquem. Alguns já foram construídos, outros aguardam a continuação das obras, que foram interrompidas com as eleições autárquicas.

“As pessoas ficam prisioneiras em casa até à morte”, acusa Isabel Mendes, Presidente da Comissão de Moradores de São Domingos de Benfica. É o caso de Virgínia Fradão que, com 68 anos, bronquite asmática e enfisema pulmonar, vive num terceiro andar e mal sai de casa. É a filha, Ana Macedo, quem lhe faz as compras. “Passo aqui o dia no sofá”, lamenta-se Virgínia.

“O mercado é o espelho da freguesia”

Mas se há um lugar, em toda a freguesia, que realmente acusa o envelhecimento é o mercado de São Domingos de Benfica. Dantes cheio de vida, hoje está praticamente vazio.

Filomena Pereira é a peixeira que ali persiste, desde 1985, aos 17 anos, dando continuidade ao negócio do pai que já lá trabalhava desde 1974. São muitas as memórias desses tempos: “Vendia-se muito peixe, o mercado estava completamente modificado, era imensa gente.”

O mercado quase abandonado de São Domingos de Benfica. Foto: Orlando Almeida

Com o tempo, o cenário foi mudando. “Abriram as grandes superfícies, as vidas e os hábitos começaram a mudar. As idades dos comerciantes também foram avançando, muitos morreram”, diz.

Augusta Pinto, na banca da fruta e dos legumes, aponta para as lojas vazias enquanto lamenta: “A senhora desta loja faleceu, o senhor do talho faleceu, o casal da fruta faleceu”. E não há quem os queira substituir, desabafa Filomena, que teve muita dificuldade em arranjar um ajudante em tempos de pandemia, quando a afluência até aumentou.

Já se ouviram vários rumores quanto ao futuro do mercado. Falou-se na construção de uma cozinha comunitária, num hipermercado e até mesmo na conversão do espaço num projeto de empreendedorismo.

O novo presidente da Junta de Freguesia, José da Câmara, diz que terá de haver “uma obra estrutural”, e já pediu ao presidente da Câmara, Carlos Moedas, o Contrato de Delegação de Competências para se remodelar o espaço, propondo a criação de um ponto de degustação nacional nas lojas hoje fechadas. “É uma ideia equilibrada que vai atrair as pessoas ao mercado”, explica o Presidente.

Entretanto, há uma novidade: o restaurante tailandês, o Mixed Martial Rice. Nuno Colaço é quem está à frente do projeto. É um homem viajado, que viveu durante anos no Brasil, onde geria a sua própria empresa de marketing. Acabaria por regressar às origens para concretizar aquele que era um plano já há muito idealizado: abrir um restaurante tailandês, cozinha pela qual se apaixonara em Macau.

Escolheu São Domingos porque sente que a zona está a transformar-se: “Os mais velhos estão a morrer e os casais mais jovens começam a comprar mais aqui”, diz. E acredita que o espaço agora aberto, com os sabores e cheiros exóticos a disseminar-se, salvou o mercado: “Sinto que dei um contributo enorme, revitalizei um edifício morto”.

Exemplo de mais alguma dinamização do mercado é a função que também desempenha para um grupo de idosos que se reúne, às tardes de quarta-feira, nas suas traseiras, para aulas de vidro integradas na Academia São Domingos (uma Academia com atividades para todas as idades).

Carmen Salpico, Floriano Contreiras, José Nabais e Fernanda Martins são eles, a memória do bairro e alunos de Conceição Cardoso, a professora vinda dos Açores (que já anda por estas ruas há 21 anos) e que se apaixonou pelo vidro num período mais difícil da sua vida. “Foram-me cedendo gradualmente este espaço”, explica. “Isto estava tudo vazio, com muito lixo. Eu, como precisava, arregacei as mangas e aproveitei”.

Os séniores do atelier de vidro dizem que as mudanças que têm visto no bairro têm sido positivas: houve bairros revitalizados, património cultural reabilitado e há cada vez mais carreiras de autocarro a circular e atividades para os mais novos e os mais velhos.

Aqui, começam-se novas vidas, continuam-se outras: em ateliers de vidro, convívios em associações, conversas de café e trocas de livros (uma iniciativa do grupo “Olá vizinhos! São Domingos de Benfica”).

Para o geógrafo Nuno Marques da Costa esta é, afinal, uma freguesia que obedece àquele que devia ser o princípio de uma cidade: “Um processo de partilha de várias gerações e de várias condições socioprofissionais”.


Ana da Cunha

Nasceu no Porto, há 25 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.

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1 Comentário

  1. Fica a sugestão de se explorar a dinâmica de vida do bairro da Ameixoeira (freguesia de Santa Clara). Usar o quiosque do jardim da Quinta de Santa Clara é um bom ponto de partida. 🙂

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