Luís Neves chegar a ministro da Administração Interna só tem um risco grave: agora que temos um bom, quando vai ele embora? Vai ser como adorar as aulas de Química no liceu Pedro Nunes e andar sempre com o um medo: “E se o professor Rómulo de Carvalho for despedido?”

Mas será também uma oportunidade. Luís Neves a mandar na ordem é pôr as ovelhas ronhosas em ordem. E fazer saber aos polícias de que afinal ele é quem os defende melhor. Luís Neves aumenta-nos a probabilidade repetida de boas surpresas, como a dos alunos do Pedro Nunes: “Malta, sabiam que o professor Rómulo, o das aulas de Química, é também o poeta António Gedeão?”

Luís Neves, ministro da segurança pública, é o pedagogo da aritmética das coisas simples, que traduzem os factos dos crimes, em números. Na esteira do diretor nacional da Polícia Judiciária que foi, as explicações judiciosas dele, agora, terão repercussão maior na desminagem da teoria das perceções insidiosas. Contra todos os terrorismos, mesmo os sonsos.

É de esperar o eco social que um político destes vai causar. Ter o Luís Neves ministro da segurança é aguardar, um dia destes, a manchete no Correio da Manhã: “Ministro da Polícia convidado a almoçar na Buraca!” É continuar ele ministro e, já em março, é um supor, o diretor do CM exige aos seus jornalistas: “Meus, tou farto do ministro e a Buraca almoçarem juntos!  Arranjem novidades!”

Resumindo, ministro, Luís Neves, experimentado ex-diretor nacional da PJ, com provas dadas, é a surpresa para muitos colegas do Conselho de Ministério: “Mas, então, agora também temos de saber da área que gerimos?”

Luís Neves é a alegria de Montenegro, agora exemplar: “Até eu já tenho currículo: escolhi o Luís Neves!”

Luís Neves no governo não é paradoxo nenhum. É como um capitalista deve escolher os bons gerentes e os sindicalistas devem defender os bons trabalhadores. Luís Neves é normalidade ao poder.

Luís Neves é como (mais ou menos) um velho slogan de Maio de 1968: “Que os polícias policiem, os ministros ministrem e os estudantes da República façam o Cidadão”.

Luís Neves, ministro da Administração Interna, é a leitura mais inteligente que se fez da segunda volta das presidenciais. Durou duas semanas a ler, mas fez-se.

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Ferreira Fernandes

Nasceu em 1948 em Luanda. Jornalista – um ponto é tudo.

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