O escritório de Seu Joaquim, o engraxador de Alvalade, é ao ar livre, teto descapotável, um escritório cabriolet sem luxo no passeio da Avenida da Igreja, à sombra do quiosque, ao pé da paragem de autocarros, a velha caixa de ferramentas, um esfarrapado persa no chão nos dias de sol, a lona gasta como tapete nas tardes nubladas, dois bancos que já conheceram dias melhores. 

Seu Joaquim também já conheceu dias melhores.

Dias em que os homens e mulheres de Alvalade calçavam sapatos e botas, o monótono dress code dos funcionários, dos gerentes, nas repartições, escritórios, por trás dos guichês das agências bancárias, escudados pelo birot no gabinete, gente muito séria, sem brilho nos olhos, mas o sapato sempre a reluzir, o brilho do vai e vem da flanela do Seu Joaquim.

Bons tempos para Seu Joaquim, tempos diferentes do de hoje, tempos das sapatilhas, dos tênis de plástico, da pele sintética, tempos da cores, dos sapatos com graça mas sem graxa, do calçado impossível de engraxar como as sandálias de pedra do Santo António na rotunda, a quem Seu Joaquim vira as costas, contrariado pelo santo nunca ter tido a gentileza de sentar no seu banco.

O modesto banco do Seu Joaquim. Foto: Álvaro Filho

escrevi sobre o Seu Joaquim aqui na Mensagem, já contei a sua história e em cada história contada nasce uma improvável amizade. Desde então, Seu Joaquim me concede um generoso “bom dia“, “boa tarde“, “como vai?”. Noutras vezes me segura pelo ombro e interrompe a marcha insensata para tecer um comentário sobre as esquizofrenias da vida.

Fala rápido, engolindo as palavras, nem sempre percebo tudo o que o Seu Joaquim diz, mas balanço a cabeça, concordo assim mesmo, pois confio cegamente na sua sabedoria.

Noutro dia, arrastou-me até a boca do metro de Alvalade, alheio à chuva, ao tempestuoso vento, alheio aos peões sempre apressados em ir a lugar nenhum, e apontou para um metro-quadrado qualquer, onde um dia, sonha, a Junta ou a Câmara erguerão uma estátua em sua homenagem.

A merecida estátua em homenagem a Seu Joaquim, o último engraxador de Alvalade, uma vida inteira reverente, aos pés dos outros.

Também já o vi em silêncio absoluto, absorto, as pernas cruzadas, o queixo apoiado nas mãos a vislumbrar o nada.

O Seu Joaquim já uma estátua de si mesmo. 

Ultimamente, quando passo pelo escritório no passeio, tenho visto o Seu Joaquim concentrado, diletante em manter de pé o velho banco reservado aos clientes. Um velho banco desses de balcão que o engraxador sabe-se lá quando adaptou para as necessidades do seu ofício, concedendo-lhe um encosto para as costas.

Seu Joaquim a apertar parafusos, a retocar a pintura, a colar as partes, a restaurar o estofado, a tentar a duras penas manter o banco de pé, o banco não mais um mobiliário, mas uma peça de resistência, um estandarte, um inusitada obra de arte, os pés tortos, contrariando a gravidade. 

Um banco que, assim como Seu Joaquim, mantém-se de pé por teimosia, por dignidade e respeito ao nobre ofício de engraxador, orgulhoso do seu métier, da sua sina de alquimista da cera, de fazer brotar do pó e da sujeira, o brilho.

Dignidade e respeito, as palavras-chave desta crónica. É que, de um tempo para cá, tenho pensado num banco novo para o Seu Joaquim. 

Não só o banco do cliente, mas um banco novo para o próprio engraxador, que suporte melhor e confortavelmente o seu peso, o peso dos seus anos de dedicação, o peso do seu tamanho.

A pensar também numa caixa de ferramentas nova, abrigo para as fatigadas escovas, as flanelas, e o estojo de latinhas de cera para sapatos. 

Poderia ser um presente da Junta, da Câmara, um reconhecimento ao lisboeta que gastou os anos e as mãos a dar um brilho à rotina às vezes opaca de outros lisboetas, um psicólogo dos pés, a levantar-lhes a estima. 

Poderia ser uma forma de agradecimento dos comerciantes da Avenida da Igreja, dos moradores de Alvalade, ao último engraxador do bairro.

Poderia ainda ser um presente dos leitores da Mensagem, sempre mais atentos e sensíveis do que os outros leitores. Um presente, um sinal de gratidão, mas também de respeito ao profissional, os equipamentos novos a garantia de dignidade no ofício de um trabalhador.

Um trabalhador que passou a vida aos pés dos outros, nada mais natural, portanto, que outros agora lhe estendam a mão.

Vamos dar um banco ao último engraxador de Alvalade?


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Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 51 anos, há seis em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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1 Comment

  1. Bom dia.
    Gosto muito de seguir as vossas informações, sempre atentos ao aspeto social. Mas esta crónica interpela-me um pouco pelo uso do termo “seu” o que para mim é um possessivo e nunca “o senhor”. Dito assim, parece-me minimizar o dito Senhor de forma um pouco pejorativa. Bem sei que é uma forma informal utilizada no Brasil, mas será que também se diz o seu Bolsonário? Agradecia que me explicasse porquê esta abreviação do “senhor”. Sempre me interessei pela diversidade da língua portuguesa e da subtiliza de alguns termos que diferem entre os países irmãos, mas se eu escrevesse numa página de São Paulo ou do Rio, jamais diria para irem para a “bicha” comprar o jornal, mas para a “fila”, adaptando a linguagem ao uso brasileiro. Então não seria melhor falar do Senhor e não do “seu”? Que me perdoem mas “seu” não. Cumprimentos amigáveis.
    Anabela

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