Provavelmente, já aqui contei que os meus pais eram muito amigos de ir aos fados; próximos de Lucília do Carmo e padrinhos de casamento do seu filho Carlos, frequentavam regularmente O Faia, estabelecimento que pertencia a esta ilustre família e onde cantavam e tocavam grandes artistas.
Eram os bons velhos tempos em que as casas de fado se destinavam aos verdadeiros apreciadores e ficavam abertas enquanto houvesse gente na sala. Quando sobrava apenas um pequeno grupo de aficionados, clientes e artistas juntavam-se à mesma mesa para ouvir na intimidade fados que ainda estavam a ser ensaiados e sobre os quais os mestres, os músicos e os habitués (que não raro eram também autores de letras) davam a sua opinião. Formava-se, por assim dizer, uma comunidade fadista, sem ídolos nem prima-donas, uma espécie de família a que era realmente um gosto pertencer. E, se era assim n’O Faia, acontecia igualmente na Parreirinha de Alfama, no Senhor Vinho (onde o “forno” era local de brainstorming, como hoje se diz) e em muitos outros lugares.
Depois de proscrito durante o período pós-revolucionário, quando voltou finalmente a estar na moda com vozes de peso (Camané, Mariza, Aldina, Ana Moura, Carminho ou Ricardo Ribeiro) e se tornou Património Imaterial da Humanidade, o fado atraiu um maior número de ouvintes em todo o mundo e, talvez por isso, saiu dos pequenos espaços intimistas para as salas de concerto, e do petit-comité para as vastas audiências.
E, de repente, com o turismo desenfreado em Lisboa, os sítios onde se podia ouvir fado ao vivo passaram a ser quase exclusivamente pensados para estrangeiros, com jantares obrigatórios a preços elevados, e que fecham antes das doze badaladas que fizeram Cinderela perder o sapatinho, pois está fora de questão pagar horas extraordinárias aos funcionários. Não estou a exagerar: já me aconteceu ainda não termos acabado as bebidas e estar um empregado a levantar a mesa e a rapar-nos a toalha da frente, como a dizer-nos que já eram horas.
Mas eis que, enquanto a gente que cresceu com o fado é arrancada dos bairros de Alfama, Madragoa e Mouraria, onde as rendas de casa subiram disparatadamente e os prédios se tornaram hotéis de charme e alojamentos locais; enquanto já quase não se gravam discos e é o Spotify que cospe tudo; enquanto o fado passou a ser uma World Music acompanhada à bateria e os fadistas autênticos têm de mostrar-se em vídeos no Youtube porque já quase não há mestres que lhes possam dar a mão, surgem felizmente pequenos redutos na capital que nos devolvem a esperança de que as comunidades de amantes do fado estão a regressar.
Gestores, poetas, fadistas e músicos – provavelmente cansados das câmaras de telemóveis a piscar e do barulho dos talheres durante as actuações – criaram espaços realmente acolhedores em bairros emblemáticos da cidade, por onde passam hoje fadistas e compositores extremamente dotados, alguns dos quais herdeiros de famílias do fado.
João Cardim, empresário, e Joana Amendoeira, fadista, apresentam-nos por exemplo no Fama de Alfama um punhado de novos talentos (foi lá que ouvi pela primeira vez José Geadas ou Soraia Cardoso e ouvi tocar o genial Mike 11); e, o que é mais bonito, deixam a porta aberta até tarde para os que lá cantam e os que aparecem ao fim da noite (letristas, músicos, fadistas ou simplesmente aficionados) se sentem juntos a trocar cantorias, a pedir opiniões sinceras, a corrigir versões, a pedinchar poemas para uma composição que alguém criou.
São os bons novos tempos – e já faziam falta.

Maria do Rosário Pedreira
Nasceu em Lisboa e nunca pensou viver noutra cidade. É editora, tendo-se especializado na descoberta de novos autores portugueses. Escreve poesia, ficção, crónica e literatura infanto-juvenil, estando traduzida em várias línguas. Tem um blogue sobre livros e edição e é letrista de fado.

O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz une comunidades,
conta histórias que ninguém conta e muda vidas.
Dantes pagava-se com publicidade,
mas isso agora é terreno das grandes plataformas.
Se gosta do que fazemos e acha que é importante,
se quer fazer parte desta comunidade cada vez maior,
apoie-nos com a sua contribuição:

Gostei muito de ler este artigo que é uma descrição da Lisboa de hoje e de honrosas exceções a esta descaracterizção, perda de identidade a que assistimos com o culto do turismo, a fixação no enriquecimento com o alojamento local, NÃO declarado/registado, para turistas de dois dias . Um vai e vem que levou ao desaparecimento de moradores, ao fechamento de lojas, ao encarecimento de restaurantes e “pobreza” de ementas, como é bem visível na freguesia de S.to António, nas ruas de Sta Marta, Passadiço… onde o lixo é o jardim nas ruas da freguesia. Esta situação já é do conhecimento da Junta, da Câmara e da Assembleia da República. Estamos a ser colonizados pelo turismo , pelo alojamento local não declarado! Temos que sair do nosso NINISMO e aconselhar quem governa a agir.