Nem Santo António nem São Vicente. Apesar das altas rendas, da pressão do alojamento local e da gentrificação que entristece a cara do histórico bairro de Alfama, quem faz o milagre de os vizinhos do bairro sorrir é o discreto senhor da estreita portinha na Rua dos Remédios, a dois passos da animada Tasca da Bela.

Uma estreita portinha sem graça, sem plaqueta fixada no umbral, sem um letreiro em neon com uma das letras a piscar, mas que todo vizinho de Alfama conhece a morada de cór. Pois, quando o molar começa a doer, é para lá que ruma o sujeito atormentado pelo impiedoso latejar, de joelhos, penitente, gemendo, em busca de alívio, à procura de paz.

É atrás da estreita portinha que fica o consultório do último dentista de Alfama. Um santo homem, garantem os vizinhos, uma lenda viva do bairro. É fácil comprovar a fama do médico: basta o doutor pisar o pé para fora da portinha estreita para uma vizinha do outro lado do passeio estender a palma da mão ao alto e gritar: 

 “Bom dia, doutor!”, agita-se a vizinha, efusiva, exibindo um amplo sorriso que o último dentista de Alfama tratou de resgatar o brilho. 

O brilho dele e de tantos outros sorrisos dos vizinhos de Alfama, alguns sem dinheiro para abrir a boca nem para um copo d’água. Mas o diletante doutor não faz a mínima distinção: senta-o na cadeira assim mesmo e põe a broca a funcionar. O último dentista de Alfama sabe, a dor é um sentimento universal, e se a cárie não reconhece classe social, quem seria ele para discordar?

É do último dentista de Alfama metade do mérito pelo sorriso largo dos vizinhos durante os Santos Populares, quando a marcha parte dos sisudos portões do Centro Cultural e desce colorida e ruidosa pelas ruelas da antiga medina, sob o aplauso dos lisboetas. É o doutor também quem garante o riso frouxo da criançada, o dente-de-leite a refletir o brilho do sol no Tejo. 

O último dentista de Alfama foi meu vizinho ali mesmo na Rua dos Remédios, antes de tudo ir para os ares. Só não tive a sorte de conhecê-lo. Maldita mania de escovar os dentes três vezes ao dia, não me restou nem um mísero tártaro esse verdadeiro Michelangelo das arcadas dentárias gentilmente, para limpar com a espátula, como quem esculpe um Davi entre os incisivos. 

Um dia, lembro-me de estar com os cotovelos apoiados no balcão do saldoso O Alfacinha e o Bruno, o dono da tasca, apontar para um senhor elegante de jaleco branco, apresentando-lhe como o último dentista em Alfama. Trocamos um breve e gentil aceno de cabeça.

E foi só. 

Hoje, lamento não ter sorrido, escancarado a boca e exibido todos os dentes. Quem sabe o olhar clínico do doutor não teria detetado um amarelado estranho num canino, mesmo longe, do outro lado do balcão.

O facto é que liguei para o último dentista de Alfama num dia desses em busca de redenção, de uma entrevista, tentar conhecer a pessoa por trás do jaleco branco, mas o doutor, além de um santo homem, é tímido e modesto que até dói, dói mais do que um canal num siso. 

O doutor agradeceu-me, provavelmente a sorrir o seu sorriso perfeito do outro lado da linha, e declinou, anunciando que a conversa, infelizmente, ficaria para um futuro próximo.

Restou-me, então, esta prosaica crónica, a amálgama entre a realidade e a poesia, para humilde homenagem ao último dentista de Alfama. 

Uma espécie de Martim Moniz moderno que, diferente do outro, não deu a vida morrendo entalado no portão da muralha. O doutor, não, dedicou sim a vida a desentalar restos de bifanas nos rincões mais remotos e inalcançáveis da boca dos pacientes, pescando-os com o gancho em forma de anzol, um marujo experiente das páginas de Moby Dick

A conversa foi curta, porém acutilante, tipo picada de injeção atrás da língua, pois lá pelas tantas o último dentista de Alfama anunciou a partida do bairro, a dolorosa notícia dada sem anestesia. 

Não percebi o motivo nem fará diferença saber. A vida é assim mesmo, tortuosa, incerta, imprevisível, e não há aparelho ortodôntico que a conserte nem corega que cole alguém num lugar. 

Não sei se a partida do último dentista de Alfama era um segredo e se for, mil vezes perdão pela indiscrição, mas tanto no ofício do jornalista quanto no dentista, a boca não deve ficar fechada.

E vou mais além: como no Oito ½ de Fellini, o último dentista de Alfama merece receber a visita de todos os seus pacientes, vivos e já mortos, para um aperto de mão, um obrigado e um sorriso de despedida, que uma longa fila se estenda como uma carreira alinhada de dentes em frente à estreita portinha na Rua dos Remédios, num caloroso adeus.

Afinal, um novo dentista até pode chegar a Alfama, é verdade, como é verdade também que há pessoas únicas, que criam raízes firmes feito um dente saudável, daqueles que nem a melhor prótese do mundo é capaz de substituir. 


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Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 51 anos, há seis em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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