Desde cedo, tanto de vida como nos dias que a mesma já levava, o gosto pela observação daquilo que é o Comércio, no seu todo, e os comércios que o fazem todos os dias, era uma prática para a qual não existiria teoria que a justificasse.  

Ter nascido no final da década de sessenta, de um século já passado, ter-lhe-á conferido a  possibilidade de ver e viver as Feiras, um pouco por todo o país, ver e viver os Mercados como  força pujante do Comércio das nossas vilas e cidades, ver e viver os Supermercados como o fim  anunciado das nossas Mercearias, ver e viver os Centros Comerciais como o novo formato que  parecia destronar quase tudo e quase todos.

Tudo isto bem antes do… online, do digital, todo esse novo Comércio, que de Comércio novo pouco traz, sem rosto, que não precisará de ser guardado, pelo menos, na ótica de um…  Guardador de Comércios.  

A um Guardador de Comércios é-lhe permitido guardar aquilo que são as memórias, as  recordações, a História e as histórias, a Cultura e as culturas, enfim, o legado deixado por tantos  Comércios que marcaram um ofício (leia-se, o de… Guardador) que, não existindo como tal, tanta falta faz.  

Este nosso Guardador narrará as memórias que tem consigo e que tanto gosta de partilhar,  fazendo com que outros tantos façam deles as suas memórias, reavivando-as, dando-lhes vida nova e novas vidas.  

Memórias de um Guardador  

Era uma vez uma rua muito especial, assim considerada porque era a única rua, que conhecia,  que tinha todo o tipo de lojas, de comércios, que se conheciam, naquele tempo. 

Era uma rua especial porque era uma rua “direita”, sem curvas, cantos ou recantos. Acima de  tudo era uma rua aberta… a todos.  

A rua era longa, com espaço para as pessoas, para todas as pessoas, para os animais, para os  carros, para as motorizadas, para as bicicletas, para as trotinetes, para todos, para a … vida!  

Naquela rua havia quem comprasse, quem vendesse; quem tanto trabalhasse, quem só, ainda,  estudasse; quem jogasse, quem ganhasse e quem perdesse; quem brincasse, quem risse e quem  chorasse; quem andasse, quem fugisse e quem tanto corresse; quem alugasse, quem arrendasse;  quem mandasse, quem, até, obedecesse; quem gostasse, quem detestasse; quem amasse, quem  odiasse; quem rezasse, quem praguejasse; quem sujasse, quem limpasse, enfim, aquela rua era, no  fim de contas, a vida que se conhecia e se dava a conhecer.  

Os mais velhos chamavam-lhe “Rua Direita”, mas muitos conheciam-na por “Rua das Lojas” ou por  “Rua das Montras”. Outros contadores de histórias, guardadores de outras memórias, deram-lhe  o nome de “Rua (dos) Cem Comércios”, nome ao qual, recentemente, muitos retorquem com o  nome… “Rua (quase) Sem Comércios”.  

Podendo não chegar a ser uma rua sem lojas, decerto jamais será uma rua sem histórias, e estas,  como as primeiras, serão, seguramente, muito mais de cem.  

Das cem lojas que aquela rua já teve e das suas histórias, muitas devem ser recordadas e  preservadas, para que amanhã possamos não estar a recordar uma Rua do Comércio, que já foi  das “cem lojas”, mas sem lojas e sem histórias.  

O Guardador… guardava, de há muito, desde a infância, as memórias de umas quantas Ruas,  que o próprio “vivenciou”, e que em muito se assemelhavam, pela sua natureza, pela sua forma,  pelo seu conteúdo, pelas suas ofertas, pelas suas procuras, pelo(s) seu(s) Comércio(s), fosse em… Lisboa (Rua Augusta), fosse no… Porto (Rua de Santa Catarina), fosse em… Almada (Rua  Capitão Leitão), fosse em… Portalegre (na Rua do Comércio).  

Porque as memórias de um Guardador são isso mesmo, apenas, memórias, narra-se uma mera meia  dúzia das que mais marcaram o imaginário de quem viveu e tão bem conheceu aquela(s) rua(s), aquele Comércio, aqueles comércios, aquela Vida, aquelas vidas. 

O Alfarrabista ou a Loja do “Coincidências”  

Coincidências, no Comércio, são exigidas e fundamentais, pois o Comércio é a arte de todas elas,  as coincidências. O Comércio só acontece quando elas ocorrem, no caso entre a oferta e a  procura, ou seja, há quem tenha (o produto, o bem, o serviço) para vender e há quem queira (o  produto, o bem, o serviço) comprar.  

Por esta razão, este desenrolar de memórias começa, assim, por um comércio que faz, também, da troca, dos livros, neste caso, um meio para alcançar o seu fim. A troca (de bens, de produtos,  de serviços) que, na História antecede o Comércio, propriamente dito, e que tão bem traduzirá  mais uma coincidência de vontades, era desde sempre a razão de ser deste comércio, desta loja,  do alfarrabista, também da troca de livros, ditos, manuseados, igualmente, ricos nas histórias que  contam a quem os lê.  

Para os mais céticos, que possam não crer em coincidências, deixa-se a “ordem alfabética” como  razão primeira para iniciar esta viagem pelas lembranças do Comércio local, começando pelo “A”  do nosso Alfarrabista, de seu nome (ou alcunha?) “Coincidências”.  

Deus abençoe os Artigos Religiosos ou a “Loja dos Santinhos”  

“Deus Abençoe” não era decerto o nome daquele comércio, quase centenário, mas era assim que  era conhecido, por quase todos, por ser a forma de manifestação de agradecimento com que  Dona Lúcia e seu marido Francisco sempre brindavam, no momento da saída da sua humilde loja,  amigos, clientes ou simples visitantes, como faziam questão de reafirmar a todos aqueles que por  lá passavam e tanto admiravam os artigos expostos.  

Ali respirava-se fé, sendo que nem o nome de ambos escapava ao reparo geral, ainda mais desperto  pela imagem dos três pastorinhos, numa pequena escultura antiga, que não estava à venda,  sublinhe-se, num olhar de veneração, retratando uma das aparições de Nossa Senhora, de Fátima,  aliás nome oficial e registado daquele espaço – “Loja Nª. Srª. de Fátima”.  

Lúcia e Francisco diziam que, se preciso fosse, até moviam montanhas para que todas as pessoas  que entrassem naquele espaço pudessem dali sair satisfeitos e, acima de tudo, levassem longe,  bem longe, aos quatro cantos do mundo, o nome do seu negócio, ainda que, chamando-lhe, tantas  e tantas vezes, a “Loja dos Santinhos”. 

O Antiquário ou a Loja do Velho “Velharias”  

“Velharias”, quase a “bater nos oitentas”, continuava com o seu comércio aberto todos os dias,  incluindo sábados, mas só na parte da manhã. A sesta, logo a seguir ao almoço, e a sua idade eram  quase tão antigas como a maioria dos artigos que tinha na loja.  

Brinquedos de outros tempos, como um velho pião e uma coleção de carrinhos, sem cor, feitos  de madeira, uma espada que parecia dos tempos dos piratas e um arco e flecha que faziam  lembrar os índios, sobressaíam em paredes maltratadas, onde velhos quadros com molduras  trabalhadas lhes davam alguma cor para além da cal branca, tentando disfarçar, a própria idade  da loja.  

Como dizia o velho “Velharias”, “uma loja de Antiquário, cujo negócio são, essencialmente,  antiguidades, não pode ser muito moderna, nem tão pouco nova ou sequer renovada, quando  não, nem as pessoas nos levavam a sério. Por isso mesmo, até o comerciante já não vai para novo,  antes pelo contrário, velhinho só dá mais credibilidade à coisa”.  

De entre tantas palavras que se lhe ouvia, sobressaía quase sempre algum relato, histórias de  outros tempos, contadas com ares de certeza, tão atentamente ouvidas. A mais marcante era  sempre a frase “por velhos serem os trapos, vendo aqui de tudo, … menos trapos”.  

A Alfaiataria do “Fitas”  

O “Fitas” era um verdadeiro profissional da arte de alfaiataria. A sorte da vida e a vida de sorte  tinham-lhe dado a felicidade de viajar, e a dada altura da sua vida viu-se nos arredores de Paris,  cidade da moda, a aprender o ofício que há muito prezava. Quando regressou à pátria, do seu  coração, estabeleceu-se e conquistou uma clientela que vai mantendo, já mais amigos do que  clientes.  

As medidas certas tiradas pela velhinha fita métrica que o “Fitas” ostentava à volta do pescoço,  como se de uma peça de vestuário se tratasse, eram o segredo para os fatos à medida que só ele  sabia cortar, alinhavar e coser.  

Na extensa mesa de trabalho, com mais ares de bancada de práticas de uma arte em vias de  extinção, figuravam ferramentas únicas, como as tesouras de vári0s tamanhos e finalidades, os 

moldes em papel próprio de calça e colete, o giz (e seu respetivo “aparador”, um instrumento  peculiar que estaria para aquele retângulo de giz como o apara-lápis (vulgo, “afia”) está para um  vulgar lápis) com que desenhava nas peças de fazenda, contornando de forma tão fiel os ditos  moldes, os “projetos” de calças ou coletes.  

Para além dos dedais, das réguas, das agulhas, das linhas, daquele mundo, fica também a imagem  do braço esquerdo, vestido sempre de um branco imaculado da camisa, com uma pulseira, diga se, generosamente, almofadada, em que o “Fitas” ia espetando os alfinetes que marcavam provas,  medidas, acertos, ajustes, enfim, cortes e costuras feitas, por fazer ou refazer.  

Foto-Pardal ou “Olhó Passarinho”  

Num outro tempo era assim. Princípios de setembro, quando as férias, também as escolares,  adivinhavam o seu ocaso, iniciava-se a romaria de “ter de ir tirar fotografias para a matrícula,  para a Escola”. Para explicar do que se tratava, temos de recuar uns bons 50 anos, ou seja,  relembrar o tempo em que aquando da matrícula para mais um ano letivo, fosse do preparatório  ou do secundário, como então se dizia, a entrega das fotos era uma obrigatoriedade, para o  cartão de aluno e, semanas mais tarde, para “a ficha individual de aluno”, por disciplina, então  cerca de uma dezena, e que o(a) respetivo(a) professor(a), repetidamente, fazia questão de  atormentar os seus alunos com aquele pedido, até ao dia em que, em jeito de ultimato, dizia,  “quem tiver a ficha sem fotografia, na próxima aula, “leva falta”!”.  

Está bom de ver que a azáfama era grande na loja de fotografia “Olhó Passarinho”, por aquela  altura do ano, precisamente entre a época dos casamentos e o tempo dos batizados. No pouco  tempo que lhe restava, nos preenchidos doze meses de cada ano, o Senhor Pardal, também ele  com apelido de pequeno pássaro, tinha na revelação das fotografias, na venda e reparação de  equipamento fotográfico e “outros consumíveis”, os chamados rolos, a parte restante de um  comércio próspero, pujante e sem ameaças ou concorrência de maior. Enfim, como os tempos  mudariam!  

Mercearia ou “Sô Zé Marçano”  

O “Marçano” mantinha, teimosamente, a sua loja aberta e os seus fregueses davam-lhe razão, pois  continuavam a comprar-lhe tudo que ele tinha para vender, do pão aos bolos, das frutas às  hortaliças, da farinha ao açúcar, do arroz às massas, do azeite ao vinho, do sabão ao sabonete, do bacalhau ao grão, do tremoço à azeitona, do fiambre aos enchidos, da gasosa à laranjada,  entre muitos outros produtos que pareciam não caber num espaço tão pequeno que… parecia  não ter fim.  

Como gostava de dizer para mostrar a sua resistência, “no velho comércio do Marçano, há  Comércio todo o ano!”.  

O nome ficou-lhe, para ele e para o estabelecimento, pois foi como marçano que começou a  trabalhar, tenra idade, mas de força, fosse de disposição ou de predisposição, para o ofício que  abraçou, não por vocação, talvez por provocação da vida difícil que cedo teve de enfrentar.  Nos dias de hoje, o marçano seria uma espécie de rapaz das entregas ao domicílio, quiçá, um  “UBER Mercearias” destes tempos.  

O “Sô Zé Marçano”, mercê do crescimento do negócio, não de dimensão, nem de faturação,  guardava, quase escondendo, debaixo da balança ou dos pesos que a faziam trabalhar, um  pequeno bloco de tantas folhas, umas bem presas outras mais soltas, onde assentava, a lápis de  carvão, os fiados que sustentavam, desde há anos, a sobrevivência, tanto daquele negócio, como  daqueles que ali iam e compravam, sempre “fiados” em que melhores dias estariam por vir. Mais  tarde, dir-se-ia a crédito, mas a moral da história será a mesma, quem gasta o que não tem, mais  cedo do que tarde, fica a dever, dinheiro a alguém e dignidade a si próprio.  

“Tem Tudo” (Loja dos Trezentos)  

Quando a loja abriu portas, não faltou a pompa que a circunstância justificaria. Recordo a  música, os panfletos de cores berrantes e os balões à porta, distribuídos a quem, movido pela  curiosidade, timidamente espreitava para o interior daquele enigmático comércio, de prateleiras  repletas de tudo o que se pudesse imaginar, e que custasse a tal módica quantia que ditava a lei  do negócio.  

Estava, assim, desfeito o “mistério” da sua designação e daquela forma de negócio.  Aparentemente o preço de todos os produtos, que ali estava tão “à mão de semear” seria de  300$00 (trezentos escudos), hoje, seria 1,50€ (um euro e meio). Naquela rua era novidade, na  cidade nem tanto, eram já algumas as “Lojas dos Trezentos” que iam proliferando um pouco por  todo o país. 

Anos mais tarde, outros negócios lhe sucederam, a mesma ideia, quiçá com outros … ideais, mas  foi aquela loja “Tem Tudo” que se acabou por revelar ponto de passagem obrigatória a quem  frequentava o Comércio da Rua, comprando sem precisar e sem precisão daquilo que sempre  acabava por comprar.  

Praça / Mercado  

Ao fundo da rua estava o grande chamariz, a sua marca ou, como dizem os especialistas nas  andanças do Comércio, a loja-âncora.  

Os saberes e os sabores, os sons e as cores, os cheiros e os odores, estavam ali, eram dali, não se  podiam encontrar noutro lugar. A Praça de antigamente, o Mercado Municipal de hoje,  continuam a fazer parte daquela paisagem comercial, confundindo-se tantas e tantas vezes com  a vida daquela rua. No seu dia de encerramento, à segunda-feira, dita de descanso, não havia  tanta vida naquela rua.  

O Guardador … guardava, desde a infância, memórias daquela Praça.  

Recordava a magreza do “Zé Contra-Espinhas”, que tinha uma banca de Peixe e que era  conhecido por vender os melhores filetes da Praça, precisamente pela sua minúcia no arranjo e  preparação do peixe, não deixando qualquer sinal de espinha no filete que amanhava ali defronte  dos seus fiéis fregueses. Estes diziam, em tom de brincadeira, que se notavam mais os ossos do  Zé Peixeiro, por ser tão magro, do que espinhas nos filetes que vendia, ou não fosse o Zé contra  as espinhas.  

No outro lado da Praça, o “Talho do Senhor Machadinho”, Machado de apelido, de alcunha  Machadinho, em resultado da sua destreza na preparação das carnes, a pedido dos clientes, com  um pequeno e velho machado, que nas suas mãos fazia as vezes de faca de corte e de desossar,  de cutelo, até de martelo amaciador das carnes. Os clientes que assistiam in loco àquele  espetáculo no Talho do Machadinho gracejavam, dizendo que Machadinho só há um, o do  machadinho e mais nenhum! 

Para memória futura de novo(s) Guardador(es)  

O Comércio, de ontem, como o de hoje, é composto por comércios, assim haja quem os vá  guardando e às suas memórias. Porque cada um de nós terá um pouco de Guardador, assim  termina esta pequena história, feita de histórias pequenas, que fica como princípio de tantas e  outras memórias, passíveis de ser guardadas, escritas, lidas e contadas por cada um de vós, quiçá,  assim quero crer,… futuro(s) Guardador(es) de Comércios. 


João Barreta

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1 Comment

  1. Só não é livro, porque se o fosse … não seria obra de “Guardador”, mas de mais um … “Vendedor … de Comércios”.
    Se fosse livro, não havia estante, montra ou escaparate suficiente para o expor, ao livro e a tais histórias de tantos Comércios.
    Amanhã poderá ser livro escrito das memórias de ontem.
    Hoje é apenas livre, um escrito preso apenas a memórias tão presentes.

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