Ahhhh, o cheirinho de tinta no papel! Quem nunca esfregou o nariz dentro de um livro não sabe o que é bom na vida, mas não faz mal, ainda há tempo, vá lá meu caro leitor, coragem minha cara leitora, enfrente os seus medos, não se reprima, menudos e menudas, deixe a vergonha de lado e mergulhe de cabeça no velho amigo livro. 

Libere-se, sinta-se livre, sinta-se livro.

Por esses dias em Lisboa, as árvores do belo Parque Eduardo VII estão carregadinhas de livros. É a Feira do Livro de Lisboa, a primavera das capas coloridas, o buquê das páginas pintadas de letrinhas, a palavra semeada, polemizando sem polémicas as ideias, arejando os ares e os pensamentos. 

E nós, leitores e leitoras, as abelhinhas desse lindo jardim.

Vá lá, meu senhor, vá lá, minha senhora, vá e leve os miúdos, dê um tempo no consolo das consolas e apresente às crias o velho livro, o avô do PlayStation, diga lá, este aqui, meu neto, é o Monteiro Lobato, pede a bênção ao Júlio Verne, minha netinha, e vá brincar com a Chapeuzinho pois a vida é alegre como o pó de pirlimpimpim da Sininho. 

Plante a sementinha da liberdade na cabecinha da meninada.

E você, adolescente, também está convidado. Livro não dá espinha, o que dá borbulha é outra coisa, então vá lá meu jovem, minha jovem, vá que o livro não sai de moda, antes do rolê das férias dê uma passada na feira, troque uma ideia com a Clarice Lispector e a Natália Correia, poetize-se com o Herberto Hélder, o O’Neill e o Cesariny. 

Vá lá também meu adepto, minha torcedora, vá lá, marque um gol de letra e hasteei a bandeira do Bandeira, o poeta menor, menor, menor, menor, menor, m…enorme.

E aproveite para saber do Drummond, e agora José?

Desassossegue-se deste sofá menino, pois quem lê é sempre uma boa pessoa como o  Fernando Pessoa, e também vá lá, menina, dê uma olhada nas novidades e, se na dúvida sobre qual dos dois escolher, leve os dois, para nenhum ficar com ciúmes, o livro a pensar, ela me traiu? não traiu?, pois só quem tem a resposta é o gigante Machado.

Vá lá, gatinha, passar os olhos de ressaca de Capitu pelas páginas dos livros, vá lá, bonitão, piscar para um best-seller que lhe sorri, vão ver, será amor à primeira lida.

O lisboeta da gema também deve ir para aprender mais sobre a nossa cidade na BD do Nuno Saraiva e do mestre Ferreira Fernandes, emocionar-se com o Bruno Candé da Catarina Reis e a ingratidão das ruas do Jorge Costa, é isso, mesmo, vá lá, lisboeta, conhecer a fé que navega pelo Tejo da Ana da Cunha, ao som do hip hop do Farinha.

E se encontrar O Mau Selvagem deste cronista que vos tecla, não tenha medo, não é caso de polícia, mas de romance, de romance policial.

Vão todos que também vou, para rever os colegas de pena, o Tordo, o Hugo, o Gonçalo e o irmão José, o grande Viegas e o obstinado Jaime Ramos, vou lá para quem sabe tomar um copo aqui com o Ondjaki e falar da mãe África, para rever a Nara, a Fernanda, a Zamorano e tantos outros que não cabem nesta crónica, mas estão no meu coração.

Vamos todos, pois a vida, camaradas, se lê é nas entrelinhas de um livro.


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Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 51 anos, há seis em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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3 Comments

  1. Comentários ao artigo de Álvaro Filho “Sinta-se Livro”

    Assinalo algumas expressões do artigo, uma positiva e outras negativas e indesculpáveis num jornal de Lisboa, Portugal.

    1) o título é genial

    2) menudos e menudas – é uma expressão que nunca vi usada em Portugal e que penso ser de origem espanhola (com o sentido de “insignificante”).

    3) “Libere-se” nunca vi escrito ou dito em Portugal – usa-se “Liberte-se”

    4 ) “antes do rolê das férias dê uma passada na feira” – nunca vi escrito em Portugal “rolê” – nem sei que significa; percebo “dê uma passada na feira” enquanto português do Brasil. Em Portugal dir-se-ia “dê um salto à feira”…

    Os jornais em papel costumam ter revisores, para limitar este tipo de anomalias, bem como gralhas. Fica como sugestão para a Mensagem e para o autor.

  2. Boa tarde, Artur
    Obrigada pelas notas.
    Esta crónica pertence à rubrica “Eu não falo brasileiro”, do nosso jornalista Álvaro Filho, brasileiro. Neste caso, e porque se trata de uma crónica, não temos por regra alterar o “português do Brasil” do nosso jornalista – apenas e só em peças informativas.
    Boa semana!

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