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Já de véspera alvoroçada por dentro, preparei-me a sério para o encontro, dramatizei, inventei, imaginei a encenação. Encontro com fantasma ou assombração?- os amigos queriam saber. Teria eu medo ou passaria por um sonho mau? – admitiu aquele que pensou em capricho meu, atrevimento, vontade de brincar com o fogo.

Não sei, não sei, fui dizendo, que o poeta é fogo e o seu nome de Pessoa está além da minha humana medida. A noite seria adormecida ou agitada, solitária ou acompanhada? – insistiam os perguntadores. E os barulhos desconhecidos, os estalos das madeiras, os passos estranhos na Casa? – acrescentavam para me assustar. Nada me faria desistir, essa era a minha certeza replicada. Ficar no quarto do poeta, dormir na sua cama, essa era a grande aventura.

Misteriosa na ação e palpitante na expectativa eu passei então o dia, até a noite chegar. Para um encontro de amor secreto, sim, eu estaria fantasiada de amante no cenário da minha imaginação.

Se assim não fosse, a viagem de uma noite com Fernando Pessoa iria transformar-se num relatório de seriedades, numa resenha crítica, numa interpretação erudita, a fixar o texto do poeta, a remexer-lhe a arca e os inéditos, a revolver-lhe uma vez mais as entranhas, Deus tenha a sua alma em paz, pensei muitas vezes quando vivia no Brasil e em todo o discurso oficial ou oficioso, em toda a data festiva ou solenidade de Casa Regional o A Minha Pátria é a Língua Portuguesa rolava em arranque ou remate, meu querido Fernando Pessoa, quantas vezes o teu nome é invocado em vão.

Fantasiada, em traje de rigor eu deveria ir vestida, para tal remexendo gavetas de heranças antigas, entre tecidos bordados escolhi a camisa de noite de seda pura, para a noite. Noite de núpcias no compromisso com o poeta, exaltação prenunciada, nas palavras absolutas da sua tão portuguesa palavra eu haveria de celebrar o amoroso encontro.

Os naturais preliminares sucederam-se, sem sobressaltos. O leve jantar e as perguntas respondidas, gravadas, fotografadas a celebrar o momento. Daí a pouco, o até amanhã das amigas que me acompanharam pela Casa, que pararam na pequena antecâmara e de leve pisaram o quarto, em modo de despedida, com a discreta solenidade muito adequada ao tempo e espaço em que tudo começava a acontecer.

A retirada de tudo e de todos, da maquinaria, dos objetos e das pessoas marcou a contagem decrescente para a razão de ser da noite e da madrugada, do alvorecer a demorar, das impressões de vigília, do desfilar de gente e de palavras, de viagens de ida e volta sem tom nem som.

A retirada instalou o silêncio. Apresentou a evocação do poeta. Acrescentou a minha presença. A cidade, o poeta e eu. Ou os três, na densidade de nem sequer um estalido de madeira se ouvir, no desfilar das horas. Na Casa havia um segurança, tão silencioso de passos que nem de si deu sinal. Por um segundo, dividi-me em duas partes, que dramaticamente uma à outra foram perguntando se eu estava a sentir medo.

Não sentia medo, mas tomava consciência do absurdo da situação. Naquela noite de dez de Outubro de 2011, o que estava eu a fazer ali? Nada e mais nada, o que é uma forma de fazer tudo, ou o sentido de todas as coisas. Outra vez as enuncio, a aventura, a curiosidade, a atração por situações nunca antes experimentadas, a suspensão do tempo, a não rotina, uma vez para nunca mais.

O quarto de Fernando Pessoa, ou uma ficção que naquela noite vivi, assente no ambiente que aqui descrevo. Uns poucos passos para lá e outros tantos ao atravessado, duas portas e duas janelas, um guarda-fatos, uma arca, uma cómoda, essa mesma que pertenceu ao poeta, fixo-me na posição de Fernando Pessoa como é contada à posteridade, debruçado a escrever sobre aquele tampo.

O pensador a interpelar o desconhecido, a procurar o sentido do mistério, o poeta a alinhar as palavras em modo de poemas, o próprio Fernando Pessoa, ou transfigurado de Alberto Caeiro, de Álvaro de Campos, como deixou assinado e assinalam os sábios analistas da sua obra. Sobre a cómoda, escreveu.

Na outra parede, permanecem as verdadeiras estantes de prateleiras vazias dos seus livros, aqueles que nelas enquanto viveu estiveram alinhados e hoje estão preservados na biblioteca desta Casa que tem o seu nome, esta noite sei que estão a poucos metros de mim.

No centro do quarto e entre as duas janelas, está a cama de solteiro, tão estreita, tão solitária. Os lençóis brancos bordados, a colcha, a almofada também bordada, tudo impecável a copiar a estética de outros tempos, nada é verdadeiro e tudo aqui existe a fazer de conta, o poeta foi um fingidor e há que seguir-lhe o rasto.

Com alguma cerimónia, sento-me na bordinha da cama, junto à cabeceira, como se começasse uma conversa muito íntima com o poeta. Entretanto, arrumei as minhas poucas coisas de passar a noite num canto da arca, e já tenho vestida a minha camisa de noite de seda pura, especial para esta ocasião.

E sinto, bem forte e quase até às lágrimas, uma estúpida compaixão por Fernando Pessoa, tão sozinho no cenário do seu quarto, que terá sido igual a este onde estou, nas muitas casas onde viveu. Tão sozinho na vida verdadeira e tão consagrado no mundo inteiro, herói e mito, ideal de portugalidade, do nosso mar sofrido, do nosso destino de salvação. Destino reinado e morrido neste tempo presente, nosso século vinte e um de angústia e aflição. Mergulho no desgosto inventado, no prazer de sofrer, de ter pena, tão português desgosto o meu.

Distraio-me com as minúcias, observadora de tudo que eu sou, por jeito de ser. Reparo no interruptor de girar com dois dedos, no candeeiro do teto, nos puxadores das portas, redondos. Fecho os olhos e abro-os com um regresso aos meus anos de criança e adolescente, em outros ambientes como este eu já estive, tudo isto me é familiar. O despojamento, a austeridade, os estuques esculpidos entre o teto e as paredes. O chão de madeira, encerado.

Chego-me junto ao guarda fatos com vontade de saber o que lá está guardado, abro as gavetas da cómoda, descubro umas réplicas de manuscritos, o poeta talvez os guardasse misturados/disfarçados com a roupa de corpo. O impulso que me move é o mesmo de chegar às casas antigas de família nas férias grandes, e redescobrir o que lá estava arrumado e já esquecido, os objetos mais diversos e insignificantes, para os ressuscitar em cada verão, de cada vez.

Reparo agora nas portas de madeira pintada, sobre elas as bandeiras de vidro recusam a escuridão, tomei um copo de água, o calor demasiado deste mês de Outubro há de ficar na história grande e na minha pequena história da noite passada com Fernando Pessoa. À minha frente, o cabide de pé tem pousado o chapéu preto, o de sempre. A camisa branca, displicentemente pendurada. Os sapatos pretos, bem engraxados, sobre as traves e madeira, junto ao chão.

Estendendo-me agora sobre a virginal cama, toda branca depois de abertos os lençóis, que o calor me impede de ajeitar, a cobrir-me. Já arrumei bloco e caneta na mesa de cabeceira, o ângulo do meu braço desde sempre conhece este gesto, uma vez mais os outros tempos passados me vêm à lembrança, nos rituais de adormecer.

Não sei que sentimento me vem, mas dou por mim a pensar na alma de Fernando Pessoa, e no bem que lhe viria se uma missa por sua alma fosse celebrada. Admito empreender. Decido acrescentar o poeta ao elenco que desfila nas minhas orações pelos outros, a agradecer os seus sucessos, a pedir o fim dos seus sofrimentos, a desejar que a paz lhes chegue em vida e a paz tenham alcançado em morte.

Apago a luz, será que vou adormecer, sabendo que tudo poderá acontecer a partir de agora?

Mergulho num sono agitado, a camisa de noite de seda não me deixa descansar o corpo, e já me impacienta: que aventura amorosa, que nada, que ideia mais disparatada. Dispo a camisa de noite, que o calor nem pela fresta da janela aberta se amacia. Quieta, de olhos abertos na semi escuridão, não contrario os pensamentos. Correm-me ideias sobre a identidade. O que se foi, o que se é, a verdade e a mentira. Se Fernando Pessoa me aparecesse eu perguntava-lhe: O senhor é verdade ou fantasia? E logo depois: Afinal, o senhor é verdade.

Escorreguei para o primeiro sono profundo, além da consciência. Cheguei a sonhar com uma mesa redonda, três homens e quatro mulheres numa reunião de trabalho, alguém de pé diz versos e faz fotografias. Mas estranhei a altura da almofada, procurei posições de pescoço, até que acordei de vez. Acesa a luz de cabeceira, vi que passava das duas horas da manhã e resolvi copiar e pensar as frases do Livro do Desassossego escritas com letra desenhada nas paredes do quarto.

Como se me fizesse uma confidência, diz Bernardo Soares: “Ninguém me dirá quem sou nem saberá quem fui.” E adiante, garante-me: “Não sente a liberdade quem nunca viveu constrangido.” Diz: “Deus é bom mas o diabo também não é mau, ” e com esta afirmação traz-me à lembrança a frase de Guimarães Rosa: “Deus existe, mesmo quando não há, mas o Diabo não precisa haver para existir.” Esconjuro estas evocações, não vá o próprio diabo tecê-las, transformando a noite idílica numa história de terror, em que algum outro Bernardo Soares, com um nome diferente, venha desenvolver estes temas muito existenciais.

Tento readormecer. Mas o meu sono é leve e logo se transforma em vigília, até ao amanhecer. Os pensamentos agitam-se, enlouquecidos. Lembro-me da História de Dona Redonda e da Sua Gente, de Virgínia de Castro e Almeida, um dos livros da minha infância, na cena em que Dona Redonda se desmancha em trezentos e cinquenta fanicos, há muitos anos que eu não pensava na Dona Redonda, será desrespeitoso admiti-la no desenrolar desta noite?

E deixo-me ficar a pensar em Kavafis, o poeta também consagrado como universal e contemporâneo de Fernando Pessoa, que aconselha Ulisses a parar muitas vezes, viver e conhecer outros mundos, para que seja demorada a viagem até Ítaca. E se tudo o que lá encontrar à chegada não alcance as suas expectativas, que diga: valeu a viagem. Deixo-me ficar: a viagem desta noite valeu a pena, os poetas têm sempre razão.

Volto ao Desassossego de Bernardo Soares: “Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias invisíveis, sensualidades incorporáveis.” E concordo com ele: palavrar é muito bom, é mesmo muito bom.

Já começa a amanhecer, em hora de verão. Às três passou o camião do lixo. Às seis voou um avião sobre nós. Ás sete tocam à porta da rua, longe de mim. Mas tal tem sido a quietude, que oiço, quase nítida a campainha. Chegam as mulheres da limpeza à Casa. Oiço passos e falas. Onde estará Fernando Pessoa? Será que já tem respostas para todas as perguntas?

A vida real recomeça. Na cidade agora acordada, volto para casa. Contente por chegar.


* Leonor Xavier viveu no Brasil entre 1975 e 1987. Foi correspondente do Diário de Notícias no Rio de Janeiro. Iniciou-se no romance com “Ponte-Aérea”, é autora de livros de crónicas, narrativas e entrevistas, biógrafa de Maria Barroso e Raul Solnado. A autobiografia “Casas Contadas” foi Prémio Máxima de Literatura 2010 e o ensaio “Passageiro Clandestino” foi Prémio Bernardo Domingues 2016. Depois de “Há Laranjeiras em Atenas”, “Adolescência” é o seu próximo livro (Temas e Debates).  

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