No sossego citadino, pouco vulgar em Lisboa, a luz matinal reflete-se nas milhares de pedras brancas que Vítor Graça pisa. A calçada portuguesa estende-se num manto branco pela cidade. E são aquelas “pedrinhas” a paixão de Vítor. Já foi serralheiro, depois peixeiro. Foi à falência com a crise dos anos 2000 e emigrou para os Países Baixos, onde viveu seis anos em Roterdão. “Para ser pobre vale mais ser pobre no meu país que no país dos outros. Ao menos percebo o que eles dizem. Eu vou fazer dinheiro onde as pessoas pisam, no chão.” Era o que dizia. E voltou para Portugal, para ser calceteiro.

Vítor viu uma oportunidade na calçada – na Europa todas as ruas tinham acessibilidade, em Portugal ainda faltava isso. Havia muito trabalho a fazer e Vítor deu um passo em frente, literalmente: decidiu inscrever-se na Escola Municipal de Calceteiros de Lisboa.

Vítor Graça entrou tarde na calçada portuguesa. Foto: Luís Pereira

Esta escola não é tão antiga quanto a calçada. Com a adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia, em 1986, e o aparecimento de fundos  comunitários, a Câmara Municipal de Lisboa candidatou-se a fazer uma escola para a formação profissional de calceteiros. E assim apareceu esta, primeiro em Xabregas e mais tarde na Quinta Conde dos Arcos, nos Olivais, onde permanece, a par com a Escola de Jardinagem.

Fugir do desemprego ou amor à arte de calceteiro?

Os alunos de Formação Profissional de Calceteiros são recrutados pelo Instituto  de Emprego e Formação Profissional, na região de Lisboa e são, tendencialmente, desempregados de longa duração ou pessoas cuja qualificação não está concluída.

Além da formação de calceteiros, os formandos têm disciplinas como Matemática para a Vida, Língua Estrangeira, Cidadania e Empregabilidade, entre outras. “Aproveita-se a oportunidade de aprender a profissão para aumentar a qualificação escolar. Saem com o 6º, o 9.º ou o 12.º ano, ao mesmo tempo que saem com a qualificação profissional de calceteiros.”, diz Luísa Dornellas, responsável pela Escola.

A tarefa é dura demais para a recompensa, diz Vítor Graça. Foto: Luís Pereira

O que acontece é que nem todos os que entram na escola vão para calceteiros exatamente por amor à arte. Vítor Graça foi uma exceção. Voluntariou-se porque queria aprender e entrou numa das turmas de 2015, com esforço. “Primeiro não me queriam aceitar. Isto é engraçado. Eu tenho o nono ano e disseram-me que não podia tirar o curso porque tinha habilitações a mais. Foi a primeira pessoa que me disse isso. A minha mãe chateava-me e dizia ‘Ai filho, porque é que não estudaste?’”

Nuno Serra, formador, precisou apenas de algumas horas para perceber a qualidade do trabalho de Vítor. “Quando eu vejo um formando que está ali com gosto é o que mais me satisfaz. O Vítor Graça queria fazer bem. Acabava a formação e ele era capaz de ficar ali mais tempo. Vinha com ideias próprias. Isso é gratificante.”

Antes de ingressar na escola, João Duarte foi afinador de pianos. Foto: Luís Pereira

Luísa Dornellas explica que a escola é uma segunda chance para muitos. “Todos os que a conquistam têm emprego.” E fala dos milagres que se fazem ali, como o caso  de um afinador de pianos que ficou desempregado e agora trabalha como calceteiro na Câmara Municipal de Lisboa.

João Duarte nunca tinha pensado em fazer este trabalho. Foi afinador de pianos e ainda passou pelo mundo da segurança privada. “Fiquei desempregado e inscrevi-me no curso. Foi a tal situação: se recusas, cortam-te o subsídio de desemprego. A escola é uma boa oportunidade mas há poucos alunos.” Foi esta oportunidade que o tornou calceteiro da Câmara Municipal de Lisboa, numa das equipas noturnas.

“Querias ser florista mas vais ser calceteiro”

Entre 1986, ano da fundação, e 2019, passaram pela escola 254 formandos. Um número baixo para mais de 30 anos de atividade mas que, garante a responsável, tem uma taxa elevada de finalização no Curso Profissional de Calceteiros.

Como o Centro de Emprego lida com milhares de pessoas desempregadas isso gera, naturalmente, alguns casos de incompatibilidade. “Há aqui uma situação que poderá acontecer: querias ser florista mas vais ser calceteiro, ou gostavas de ser chefe de cozinha mas vais ser jardineiro, porque está a sair um curso de jardinagem”, explica Luísa Dornellas.

João Duarte foi um desses casos. Por volta de 2013, candidatou-se para o curso de jardineiro mas quando o chamaram, colocaram-no numa turma de calceteiros. Apesar de não ter sido a sua primeira opção, aprendeu a gostar da arte. Agora, fá-lo por “carolice”, como diz.

Mesmo assim, quem daqui sai sabe, como dizia a diretora, que tem uma nova oportunidade na vida. E não é simplesmente uma profissão. É mais uma arte. Luísa conta que os bons calceteiros são muito valorizados, por exemplo, em França e Espanha. E acaba por haver uma fuga de profissionais por causa dos baixos salários que se praticam por cá.

“Em Portugal, se um calceteiro ingressar numa empresa ou numa autarquia, que são os principais empregadores, recebe o salário mínimo nacional. Dobrado o dia todo a partir pedra, à chuva e ao sol, e os outros a passarem por cima. Nós não remuneramos bem o trabalho de calceteiro”, diz.

Para João Duarte é inegável que quem vai para fora o faz por causa dos salários. Prova disso foi um convite que teve enquanto ainda estava na escola, vindo do Luxemburgo. “Se não estou em erro, davam 5000 euros por mês. Por cá, não estou a ver ninguém a querer vir ganhar 665 euros por mês, andar à chuva e ao vento num trabalho muito físico, com uma postura de trabalho complicada onde se sofre muito das cartilagens e rins. Ou aumentam o ordenado ou não estou a ver muita a gente a poder dar-se ao luxo de vir trabalhar por gosto. Lá fora, se for preciso, quintuplicam os valores”, conta.

No estrangeiro, os trabalhos são mais bem pagos e há também mais condições. “São trabalhos que são muito valorizados lá. Há uma diferença muito grande entre nós e eles. Cá é sempre a correr e eles lá é na tranquilidade porque tem é que ficar bem feito.”

O mau estado da calçada… tem que ver com o custo das obras

Todas estas razões contribuem para que não haja muitos jovens a aprender o ofício, que era, tradicionalmente, aprendido com mestres ou familiares, um “passa palavra” profissional. E, como realça Luísa Dornellas, a cidade está também envelhecida – o que afeta a base de recrutamento.

“A pool de recrutamento de desempregados são pessoas com uma idade muito avançada. Não conseguimos encontrar pessoas jovens que possam ter uma longa vida profissional nesta área. É um trabalho pesado e eles não são novos.” João Duarte, com 54 anos, afirma que é dos mais novos. “Já se vê a idade dos outros. É duro, é muito penoso.” No entanto, pensa que ainda tem idade para evoluir.

Isso explica também, para Vítor Graça, o mau estado de alguma calçada em Lisboa: os baixos salários, a falta de manutenção, a falta de qualificação dos  profissionais, os prazos curtos para se terminarem os trabalhos e os orçamentos das empresas e autarquias. “Um homem que antes fizesse 8, 10 metros quadrados já era um homem muito rápido. Hoje em dia querem que o rendimento da malta seja 20, 25 metros por dia. As calçadas não ficam perfeitas.”

E isso porque são os custos da obra a mandar na forma como ela é feita: “Manda-se fazer um orçamento pelo mais barato. Antes, para fazer uma calçada eram quatro homens. Agora é um homem só que tem de fazer tudo.”

Luísa concorda. “Há um caminho a fazer na exigência das condições de aquisição e de fiscalização. Quando se exige uma calçada bem colocada não pode ser ao preço que os cadernos de encargos estimam”, diz.

Antigamente, as calçadas andavam sempre impecáveis, existiam equipas que andavam a tratar delas. “Foram coisas que se foram perdendo. A calçada ficou ao abandono durante muitos anos. E é difícil puxar a rapaziada por causa dos baixos salários”, diz Vítor.

João Duarte diz que, apesar de tudo, há algumas diferenças entre empresas privadas e as juntas de freguesia e câmaras municipais. “Estive a falar com alguns calceteiros e eles ganham dois euros ao metro. Isso não dá dinheiro a ninguém. Numa empresa privada eles não podem estar a olhar para a pedra. Ou despacham rápido ou não se faz muito dinheiro num dia.”

Na Câmara isso não acontece, diz. O eixo central da cidade, que vai do Campo Grande até ao Areeiro, desce a Avenida Almirante Reis e passa pela Avenida da Liberdade ocupa grande parte do tempo, pois há muito trabalho de manutenção.

Olhar clínico de um calceteiro

Vítor anda pelas ruas apertadas de Alfama, os olhos raramente se levantam do chão, analisando os trabalhos que ali se fizeram. Aponta o dedo às pedras levantadas, aos buracos no caminho, aos remendos rápidos e mal feitos. A passagem do tempo naquelas ruas típicas e íngremes nota-se na calçada.

O olhar de Vítor consegue identificar os trabalhos de calçada que foram feitos por pessoas não qualificadas. Para pouparem, diz, as empresas de trabalhos subterrâneos utilizam,  muitas vezes, profissionais de outras áreas para voltarem a assentar a pedra.

Na Escola de Calceteiros tem-se combatido isso, com uma proposta para a certificação dos calceteiros. “Propusemos à Câmara de Lisboa criar um grupo de valorização da calçada e as primeiras linhas orientadoras nessa proposta eram exatamente a de termos empresas que têm profissionais certificados. Essa é uma linha de trabalho de forma a garantir que quem mexe na calçada é habilitado”, diz Luísa.

Só assim, explica Luísa, se pode conservar esta arte. A Escola Municipal de Calceteiros tem recebido a visita de vários profissionais estrangeiros que querem aprender mais. “Procuramos o que é diferente. O turista procura o que é diferente. Eu costumo dizer a brincar que ninguém faz turismo para ir visitar a FNAC ou a Zara. A calçada desempenha um papel fundamental para trazer uma singularidade diferente à cidade de Lisboa porque lhe confere uma luz, uma claridade. Nós já não somos tão pobrezinhos a reconhecer o nosso valor como éramos há alguns anos. Mas precisamos, muitas vezes, que esse valor venha de fora para as pessoas o reconhecerem.”

O reconhecimento como património

Esse reconhecimento pode passar, em parte, pela candidatura da calçada a Património Cultural Imaterial, entregue em março deste ano pela Associação Calçada Portuguesa. “Estão a tentar avivar para que fique como património. É o fado, os vinhos e a calçada. Ligam bem, as três coisas.”, diz João, rindo.

Isto pode trazer para a escola pessoas mais novas e que queiram aprender a arte, combatendo o envelhecimento da profissão e o seu consequente desaparecimento. Mas João acrescenta que só com a subida de salários é que a média de idades poderá diminuir.

A questão, diz Vítor Graça, é valorizar. E este é um dos pontos centrais no debate sobre a acessibilidade da calçada portuguesa. Anos e anos de desgaste e de problemas estruturais contribuíram para as dificuldades de mobilidade que os moradores de Lisboa, comerciantes e turistas sentem. O excessivo polimento do calcário torna-o escorregadio e, sem manutenção, torna-se perigoso. Uma rua inclinada não é o sítio ideal para ter calçada. Isso é ensinado no curso.

“O pavimento tem de ter um conjunto de requisitos e, se for bem feito e num plano adequado, não é perigoso nem se degrada”, diz Luísa Dornellas. “Temos de fazer uma análise séria sobre o local, com que custos e o que queremos numa determinada situação. Pode até nem ser calçada. Durante anos foi o que se usou e depois percebeu-se que existiam esquinas e passeios em que a calçada, com as colinas e o polimento, se tornava perigosa. Se olhar para um sítio que tem um tapete de uma beleza única, está lá há 200 anos e nunca deu trabalho nenhum, e tornou diferente aquele espaço, se calhar tem uma visão diferente.”

Dois exemplos são a Praça do Império e a Rua Augusta. Por tudo isto, o professor Nuno Serra fala da excelência da formação na escola que, afirma, sempre existiu.

O professor Nuno Serra. Foto: Luís Pereira

Foi esta formação que deu a Vítor Graça algumas ferramentas para o trabalho que faz agora. Quanto às outras, as que usa para assentar pedra, foi comprando-as juntamente com a carrinha onde transporta todo o material que utiliza. Corta a pedra na mão – que é fornecida pelos clientes e não vem refinada – está com muito cimento agarrado. Isto atrasa o processo, mesmo que Vítor leve dois colegas para o ajudar. Um dos seus ajudantes já leva mais de trinta anos naquela arte.

Enquanto Vítor lhe fornece a pedra, já limpa e sem cimento, ele assenta, cortando a pedra na própria mão para que essa tenha a forma e o tamanho ideal. Este corte é preciso e basta um ou dois toques com o martelo para que a pedra fique cortada da forma que quer. Infelizmente, como dizia Luísa Dornellas, estes artistas da calçada são, muitas vezes, literalmente passados por cima enquanto trabalham, como aconteceu por duas vezes apenas naquela manhã.

A herança de Jorge Duarte

Um dos modernos ex-libris da escola é o mural em homenagem a Amália Rodrigues, feito em calçada portuguesa, em Alfama. Numa placa afixada junto ao painel podem ler-se alguns nomes. O de Jorge Duarte está entre eles. O mestre calceteiro entrou na escola, enquanto aluno, logo em 1986, tornando-se formador.

Faleceu em dezembro do ano passado e os colegas recordam a sua paixão e entrega àquelas pequenas pedrinhas. A sua assinatura era um coração, esculpido numa pedra. “Ele adorava o que fazia. Por isso é que ele fazia os corações e fazia questão de os oferecer aos visitantes. Ele punha a mão dentro da camisa e dizia que era o amor dele pela calçada.”

Jorge Duarte, calceteiro, numa imagem de Vitorino Coragem para a Folha de São Paulo.

Nuno Serra, seu colega enquanto formador, fala da forma como ele ensinava. “O Jorge além de ser um excelente calceteiro, era um excelente homem, muito humano. Tinha aquele caráter bairrista de Lisboa e o trabalho que ele fazia e como lidava com toda a gente era com esse cariz tipicamente lisboeta. Adorava ensinar, ensinava com alma e paixão.”

Vítor tira o boné e durante uns minutos, em silêncio, fica com o olhar sobre o painel. Recorda o “homem dos corações” enquanto sorri ao lembrar aquele que tanto lhe ensinou. Jorge, como tantos portugueses, não teve oportunidade de estudar, mas lutou ainda assim. Tirara o nono ano do curso de formação pedagógica de formadores. Pedrinha a pedrinha foi deixando a sua assinatura pelo chão da cidade. O seu coração está, agora, espalhado pela cidade.

Vítor tira o boné e presta homenagem ao mestre que fez a figura de Amália. Foto: Luís Pereira

A assinatura de Vítor, a inicial do seu nome, não está presente em todos os trabalhos que faz, mas ele já deixou a sua marca em muitos pavimentos de diferentes cidades. Não só no chão português, mas também no estrangeiro. Lembra-se do pedido para uma exposição em Tóquio. Deu a ideia de fazer um “bem vindo” em japonês. Fez o trabalho, que era para ter ido para o Japão.

Escola em pandemia

Com a pandemia, a escola teve de se adaptar. Apesar de não estar a decorrer, atualmente, um curso de calceteiros, várias atividades têm sido promovidas de forma a aproximar os cidadãos da calçada. “Temos de ter bons executantes mas também bons munícipes que gostem disto.” Oficinas, visitas guiadas e “peddy-papers” de grupo que são, agora, feitos por famílias e, espera-se, ajudem a que a calçada chegue aos mais novos. E as crianças gostam, apesar de ser um desafio.

Luisa Dornelas Foto: Luís Pereira

“É satisfatório quando se vê os olhos arregalados”, conta a diretora. Os miúdos veem na calçada uma forma nova de desenhar e esta fomenta a sua imaginação, trazendo as brincadeiras de novo para a rua. “Fazem-se jogos da macaca em calçada, por exemplo. Pode-se brincar de forma imaginária com os padrões da calçada. Onde há padrões, há brincadeiras que podem criar-se.”

E mulheres? Houve apenas uma naquela escola. “Quando eu vim dirigir a escola, não podiam ter mulheres até porque só tinham casas de banhos para homens. Isto em 1986”, conta Luísa Dornellas.

Apesar de ter sido, desde o seu início no século XIX, uma profissão muito masculina, não há qualquer razão para não haver mulheres, segundo a responsável pela escola. Mas já há algumas ideias a serem polidas para que a formação desta profissão se possa tornar mais igualitária.


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