Calma, calma, calma, não há motivo para pânico. Foi o Ruben Amorim, talvez vá o Gyökeres, mas o Paulinho não vai. O Paulinho fica. No Sporting e em Alvalade. Levar o Paulinho para Manchester é impossível, impensável. Seria como embarcar com o bairro de Alvalade na mala. Ou tentar despachar uma parte da história do futebol de Lisboa pelos CTT.

O Paulinho é o meu vizinho de bairro em Alvalade. Já perdi as contas de quantas vezes o vi, uniformizado em verde e branco, a mochila com o emblema do Sporting pendurada no ombro, com seu passo lento, claudicante mas decidido, a descer a Avenida da Igreja ou subir a de Roma, levando mil sonhos na cabeça e uma legião de adeptos no peito.

Foto: SCP

Paulinho não defende a bola no ângulo da barra nem encaixa os pénaltis com os braços. Não dribla os adversários nem remata forte. Paulinho não escala o quatro-três-três nem o três-cinco-dois e, muito menos, paga os salários do elenco. Tem o ofício mais modesto de roupeiro, cuida dos uniformes dos atletas, o que acaba por ser uma grande responsabilidade.

Pois nunca se viu alguém jogar futebol como se veio ao mundo.

Mas o importante, mesmo, é que cada vitória do Sporting nos últimos anos, incluindo os títulos, tem a sua assinatura, o seu rosto. 

E não falo isso só porque o Paulinho é meu vizinho nem meu conhecido, longe disso. Já tentei trocar duas palavras com ele, sem muito sucesso. Talvez por ter ousado antes entrevistá-lo para contar a sua imensa história aqui na Mensagem, um tiro que saiu pela culatra, pois agora nem entrevista nem dois dedos de prosa, apenas um oi-como-vai, e só quando estou com muita sorte.

O que não diminui em nada a minha admiração por ele, um personagem de Alvalade mais popular do que triste e sisudo santo de pedra, ao ponto de não me espantar se no dia em que Deus escalar Paulinho para o time dele, os fregueses de todas as cores e credos se reunirem para derrubar o outro e erguer uma estátua de Paulinho na rotunda.

Ele merece.

A última vez que encontrei o Paulinho foi um dia após o baile do Sporting no Manchester City, lá no Jacaré Paguá (que no tupi-guarani de Portugal grafa-se separado) – o Jacaré Paguá, para quem ainda não sabe (o que diz muito sobre a pessoa, e para pior), é a icónica pastelaria na avenida de Roma, capitaneada pelo diletante e sempre sorridente Celestino, ao seu dispor.

Naquele dia, o balcão do Jacaré Paguá estava lotado, não havia espaço para mais um cotovelo. As minis e médias desfilavam pela superfície de vidro, saciando as dezenas de saarianas gargantas que engoliam a seco diante do temor de ouvir uma resposta indesejada. 

O Rúben já tinha ido, o Gyökeres na mira e o Paulinho, vai ou não vai?

Paulinho sentia o suspense pairar no ar, denso como uma cortina de ferro, e jogou o jogo do mistério. Se já não era de falar, agora era um monge em pleno voto de silêncio, metido no seu indefectível hábito alviverde.

O Celestino, que é sportinguista nos dias pares, resolveu tomar a iniciativa. A tensão na pastelaria estava num nível tão alto que era capaz de um adepto bater as botas ali mesmo, encostado no balcão, e alguém depois pensar ter algo a ver com o croquete, uma das joias da coroa da casa, ao lado do caldo verde, o preferido das velhotas da vizinhança.

Vai ou não vai, Paulinho?, quis saber o Celestino, de olhos baixos, alisando o balcão de vidro com uma estopa que já viu dias melhores.

Ainda em silêncio, Paulinho apenas remexeu os ombros. O suficiente para um dos homens no balcão procurar uma cadeira para sentar-se. Outro, com as têmporas a gotejar de suor, abanou-se com um pires. Ao meu lado, um sportinguista sussurrava um creio-em-Deus-Pai. Na parede, o ponteiro do relógio ordinário com o emblema do Licor Beirão parou de se mexer.

Vai ou não vai, Paulinho?, insistiu o Celestino.

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Paulinho vive ali, nas proximidades do Jacaré Paguá. Dizem, num apartamento cedido por um dirigente do Sporting. Pode ser como pode não ser, pois muito se fala sobre a vida dele. Paulinho não confirma nem nega nada, o que só contribui para aumentar a mitologia ao seu redor. 

Dizem, por exemplo, de o tal apartamento ser decorado apenas em verde e branco ou que, nos últimos meses, alguém tê-lo presenteado com um Gyökeres de cartão em tamanho natural para compor o ambiente e também fazer companhia a Paulinho nas noites mais solitárias, onde poderiam não-conversar um com o outro sobre assunto algum.

Dizem.

A Maria do quiosque dos Coruchéus jura que o Paulinho foi ao aniversário dela, sentou numa mesa e até bolo comeu. O Renatão, que é chef de cozinha dos bons, garante que o Paulinho passou-lhe uma receita familiar de pica-pau. O João Neto, historiador monarquista até o último fio do bigode, confidenciou que o Paulinho quase o fez virar presidencialista.

Mas só se fosse para votar nele para presidente. É justo.

Eu cá tenho apenas a minha entrevista negada e a guardo como se uma relíquia fosse. Se testemunhei algo foi o Paulinho a posar para uma selfie no passeio ao lado um grupo de secundaristas do Rainha Dona Leonor, dois deles paramentados com o uniforme do Benfica, outro com o do Porto, pois o Paulinho está num outro nível, acima das paixões clubísticas.

Não é gente de carne e osso. É uma lenda entre nós.

Vai ou não vai, Paulinho?, insistiu o Celestino, o ponteiro no relógio com a logomarca do Licor Beirão congelado no tempo. Um cliente levou o polegar ao pulso para aferir a pressão, outro fez uma promessa que não poderia cumprir. Valia tudo.

Se ligassem uma tomada ao balcão do Jacaré Paguá, a eletricidade era tamanha que dava para acender as torres de iluminação do José de Alvalade. O silêncio, então, era ensurdecedor, não se ouvia o trânsito, buzinas dos carros e até os aviões, vejam só, deixaram de pousar a cada minuto na vizinha Portela

Paulinho caminhou  pelo exíguo salão do Jacaré Paguá em direção ao balcão e a clientela abriu-se biblicamente para que ele cruzasse o mar de almas aflitas. Ninguém ousava respirar. Sem que Paulinho precisasse dizer nada – convenhamos, a sua especialidade – Celestino serviu-lhe uma mini, para quem sabe, ajudar a desentalar a ansiada resposta.

Não foi preciso. Piedoso, Paulinho resolveu colocar um ponto-final no sofrimento alheio:

Fico!, respondeu, num inaudível e lacónico pronunciamento, recebido com o alívio e júbilo dos grandes discursos da história mundial.

O tempo voltou a andar no relógio do Licor Beirão. Buzinas se ouviram, assim como o rugido da turbina de um avião.

Sangue de Cristo tem poder!, soltou o sportinguista do creio-em-Deus-Pai. O homem que não se aguentava nas próprias pernas levantou-se de pronto, refeito, enquanto Celestino, que nunca foi disso, ofertava uma rodada geral de minis. Outros tantos abraçavam-se como na celebração de um golo, de um título. E foi quase isso. Ou foi exatamente isso.

Pois jogadores e técnicos vão e vêm, e os clubes de futebol no fim sobrevivem às partidas dos seus ídolos, por mais dolorosas que sejam.

Mas, dificilmente, poderiam sobreviver ao fim de um amor para a vida toda.

Abro um parêntese para deixar claro que não sou sportinguista, nem benfiquista ou portista. Sigo fiel ao meu querido Náutico do Recife, o Alvirrubro de tantas glórias, hoje submerso na terceira divisão, de onde tenta com braçadas curtas retornar à superfície. E pouco importa onde está, o amor é o mesmo se atualmente apanha mais do que bate, pois como se diz por lá, quanto mais apanhado, mais branco e encarnado. Fecha o parêntese.


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Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 51 anos, há seis em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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